| ||
|
IMPRENSA EM QUESTÃO MARCELO FROMER Carlos Knapp Na semana passada, o atropelamento fatal de um titã, o guitarrista Marcelo Fromer, alimentou a mídia duplamente. De um lado a notícia da morte, a cobertura do velório, do enterro e a busca da moto assassina pela polícia. De outro, a decisão da família de doar os órgãos do falecido. Este fato rendeu à TV e à imprensa uma exploração perigosamente próxima do mundo-cão. Ao vivo, vemos o coração sendo conduzido com urgência à sala de cirurgia. Acompanhamos a cirurgia, ouvindo atentamente as explicações da reportagem, e podemos nos emocionar ao ver, em close, o coração vivo, batendo em novo peito. Transplante bem sucedido, TV e imprensa nos comunicam as primeiras impressões do felizardo, o metalúrgico Mário de Oliveira, que são evidentemente palavras de agradecimento à família Fromer. Os receptores de fígado, rins e pâncreas também são objeto de matérias que os identificam devidamente. Esse é só o princípio de uma série de reportagens e entrevistas. Além de ganhar uma sobrevida, os transplantados ganharam uma inesperada notoriedade, de certo modo embutida nos órgãos que receberam. Mesmo sem esse sensacionalismo, a mídia norte-americana jamais poderia dar tal cobertura. Lá, como em muitos outros países desenvolvidos, existem preceitos éticos que inibem a revelação de quem recebeu os órgãos de quem. Nem o receptor conhece a origem, nem a família do doador conhece o destino do órgão doado. A mesma regra vale para adoção de bebês: os pais naturais ignoram os adotantes e as crianças nunca conhecerão a verdadeira mãe – a não ser nas novelas. Vale também para a fertilização artificial. Imagine se aí não fosse conservado o anonimato, se o doador de um banco de sêmen tivesse a possibilidade de saber em que útero germina a sua secreção? A regra é estritamente obedecida e sua razão é proteger as partes de constrangimentos futuros. Esses constrangimentos podem ser psicológicos, como é fácil supor. Mas podem ser também bastante materiais, dependendo do caráter das partes. Um dia, o sr. Mário de Oliveira poderá sentir um incontido impulso do seu coração, um coração Fromer, e tentar se incorporar à família da qual se acha um pouco parente. Nos Estados Unidos, onde em geral os doadores são de condição social mais baixa do que os receptores, a garantia do anonimato impede a ocorrência de chantagens: "Alô, mister. Sem o meu rim você já estaria morto. Mas agora você está no bem bom e eu bem doente e na miséria. Me mande 5 mil dólares agora porque os 5 mil do mês passado eu já bebi." No Brasil, a mesma ética também prevalece, mas sua aplicação não parece ser ainda obrigatória. Durante o transplante dos órgãos de Marcelo Fromer, os médicos devem ter se sentido contrariados por causa da perturbadora presença da reportagem na cirurgia. Maior no entanto, deve ter sido o seu sentimento de desconforto moral por não conseguirem impedir a revelação e o cruzamento das identidades das partes. Falha do sistema hospitalar que deixou vazar a informação. Erro de uma espécie de jornalismo que acredita no vale-tudo. Haveremos de nos civilizar. Mas como demora! | ||