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O GLOBO
A conta da falcatrua de capa

Hugo R. C. Souza (*)

Nas capas, apoteoses das artimanhas visuais e verbais, uma vez detectadas as armadilhas de formatação e a omissão de dados essenciais à compreensão da informação, muitas vezes é possível concluir que o fato deformado pelo malabarismo de estrutura não pode sequer ser encaixado na definição de notícia.

Este tipo de expediente é fruto de ardil tendencioso. Bobagem vociferar contra a tendência; inadmissível não ojerizar o ardil. O Globo de sexta-feira, 22 de junho, apresentou ao leitor uma fraude. Não denunciou uma fraude. Fabricou uma fraude.

Em sua capa, proporciona significativo destaque ao fato de o Senado Federal pagar a terapia do senador Eduardo Suplicy. Um funcionário da Petrobras, por exemplo, não haverá de se surpreender, porque naquela empresa, como no Senado, o plano de saúde interno cobre as despesas não apenas com tratamento psicológico, como também dentário e outros mais.

A informação acerca da cobertura do plano de saúde, ou seja, da total normalidade – legal ou ética – do fato de um senador usufruir de seus direitos trabalhistas, é omitida porque a apresentação negaria sua própria razão de estar na capa de um dos jornais de maior circulação do país.

Mas é uma notícia fabricada de acordo com os interesses político-partidários do veículo. Para desmoralizar qualquer sombra ao poder com o qual simpatiza e comunga, o repórter, redatores e diagramadores taparam os respectivos narizes e puseram as mãos na linha editorial escatológica.

A astúcia não conhece limites:

** Com ares de provas documentais, idênticas àquelas de mil e uma ligações, liberações estratosféricas ou recibos de fazendas-fantasmas, estão impressos sobre o fundo de cor opaca os registros de mero ressarcimento por parte do plano de saúde;

** O título da chamada, "A conta da depressão", e o subtítulo, "Senado paga terapia de Suplicy" (sempre lembrando que a expressão "plano de saúde" não é mencionada na capa), levam o leitor ao entendimento de que o dinheiro para o tratamento de problemas emocionais do senador Suplicy está saindo diretamente do bolso do cidadão de maneira irregular.

** Esta compreensão é reforçada com a frase "A direção da Casa fez um depósito de R$ 1.960 na conta do senador", e em seguida: "Ele considerou normal ter sido ressarcido".

** Por fim, no mesmo texto, O Globo emenda uma informação com claro aspecto de irregularidade: "Também ontem, o Senado aprovou a contratação de 243 funcionários sem concurso". A linearidade de estrutura, aliada às palavras "Também ontem", induz ao entendimento de que no mesmo dia vazaram para a imprensa dois fatos que caminham na mesma direção: improbidade.

Nas páginas interiores, no miolo da matéria, é mencionado o plano de saúde e é possível até visualizar o repórter Jorge Bastos Moreno rindo da cara de quem passou na banca, viu a chamada mas não pagou R$ 1,50 no matutino dos Marinho. Ou daqueles que compraram o jornal mas não tiveram tempo de ler o quadro na impopular página 5, por falta de tempo, falta de luz ou pela impudência redacional, que praticamente repete título e subtítulo de capa.

Informados são os funcionários da Petrobras...

Cláudio Abramo deve estar tendo convulsões na sepultura!

(*) Estudante do jornalismo da UFF



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