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GRAMPO DERRUBA BOECHAT
Veja

"A construção de uma estratégia de combate", copyright Veja, 25/06/01

"Nelson Tanure sabe perfeitamente o tamanho do adversário que tem pela frente, mas, ao contrário do que acreditam os canadenses da TIW, não conhece Daniel Dantas em detalhes. No diálogo abaixo, o empresário se aconselha com Paulo Marinho, seu principal assessor, sobre os caminhos que deve tomar para neutralizar o inimigo. Um dos possíveis aliados que Tanure quer conquistar agora é Jair Bilachi, que presidia o bilionário fundo de pensão do Banco do Brasil na época do leilão da Telemig e da Tele Norte. Outro que querem atrair para apoiá-los é o ex-czar do fundo de pensão do BNDES. ‘Eu boto esse cara no seu colo’, diz Marinho. ‘Ele tá louco para ganhar uma grana’

Nelson Tanure - ...O que eu não conheço direito é o nosso inimigo (Daniel Dantas).

Paulo Marinho - Eu conheço, Nelson.

Tanure - Não sei como vai ser a reação dele.

Paulo - Eu atuei ao lado dele nos piores momentos dele neste um ano e meio. Eu tava ali do lado no inferno astral dele, vi as reações todas.

Tanure - Não sei qual vai ser a reação dele. Isso é o que me angustia.

Paulo - (...) Como ele é muito talentoso e muito preparado, Nelson... A gente não pode perder isso de vista. Ele pensa pra c.... Se você se acha um cara que pensa, multiplica isso por dez, é ele. Até porque você joga golfe, tem quatro filhos. Ele só tem uma filha, que não vê. E não tem outro prazer a não ser trabalhar. Então, ele se aplica pra c...

Tanure - Mas estou convencido de que temos que levá-lo à loucura.

Paulo - Ele não está, até pela qualidade dos inimigos que colecionou até agora, acostumado a jogar com o jogo abaixo da cintura.

Tanure - Mais do que isso, fizeram coisas primárias. Eles pediram destituição da companhia da qual eles não eram sócios. Estou convencido de que estes advogados pegam umas causas pra pegar honorários e só fazem m.... Mas não sei qual é a reação dele. Eu quero tentar produzir algo pra gente dar uma sucessão de feridas nele. E o seu papel é importante pra dizer (para Daniel) ‘é só o começo. Acabe com isso no começo, vai ser um erro, Frank Sinatra (diz, em tom irônico, claramente substituindo o nome de Daniel Dantas pelo de FS) nesta operação’. (...)

Tanure - Liguei pro Leleco (Barbosa) e o homem é íntimo do Jair (Bilachi, ex-presidente da Previ). Quer ir no nosso escritório amanhã. E esse cara tem coisa pra gente operar com ele.

Paulo - E ele é homem de trazer o Jair pro nosso lado. Mas eu te liguei porque tenho a grande solução de nome. Paulo Vales, foi durante dez presidências do BNDES , presidente da Fapes, o fundo de pensão do BNDES. Esse cara, o Daniel, se você fala o nome dele, se c... todo nas calças. Só de falar no nome dele. Se c... de medo. Se este cara sentar numa mesa de operação... E conhece todos os caras de fundos de pensão do Brasil. Você sabe quem é?

Tanure - Sei demais. Mas, Paulo, esse cara não vai entrar no nosso jogo não. Sabe por quê? Porque foi ele um dos caras que me deu a f... na Sade (empresa que pertenceu a Tanure e recebeu recursos dos fundos de pensão).

Paulo - Eu boto esse cara sentado no seu colo.

Tanure - Esquece. ...Eu lembro muito bem que foi a Fapes, lembro que aquela maluca ligou (Zélia Cardoso de Mello, que no cargo de ministra teria pressionado os fundos a investir na Sade) e ele aproveitou e ligou para a imprensa.

Paulo - Esse cara se aposentou e tá na mão e tá naquele fundo de infra-estrutura.

E tá louco pra ganhar uma grana.

A corte ao senador Jader Barbalho

Uma operação selada em janeiro transferiu o controle do Jornal do Brasil da família Nascimento Brito para Tanure. Neste trecho, Paulo Marinho avalia os resultados da corte que sua turma está fazendo ao senador Jader Barbalho. Jader foi procurado sucessivamente por Tanure, o diretor da sucursal do JB em Brasília, Teodomiro Braga, e pelo herdeiro da família Nascimento Brito, José Antonio Nascimento Brito, no mês de março. ‘Dali vai sair muita coisa’, diz Paulo Marinho. ‘O suficiente para pagar muitos compromissos’

Nelson Tanure - Alô.

Paulo Marinho - Alô.

Tanure - Fala Paulinho, tudo bem?

Paulo - Tudo bem. Falei com o Josa (José Antonio Nascimento Brito), mas...

Tanure - Chegou agora?

Paulo - Cheguei.

Tanure - Como foi o Josa lá?

Paulo - Ele me disse que foi bem, que conversou com ele (Jader Barbalho). Aquela mesma conversa, tava meio apreensivo e tal. Que ele vai assinar o negócio da CPI, mas combinado que o partido não vai aceitar. Mas ele pelo menos dá uma satisfação pública de que tá apoiando a apuração dos fatos.

Tanure - Então, ele disse que o partido não vai aceitar?

Paulo - É , mas combinado com o partido, entendeu?

Tanure - Entendi, entendi...

Paulo - Ele não quer botar querosene na fogueira, mas ao mesmo tempo quer dar satisfação. Certo?

Tanure - Certo (...)

Tanure - Você acha que vamos marcar um tento hoje com ele?

Paulo - O fato de ter ido de manhã com o Teodomiro (Braga, diretor da sucursal do JB em Brasília) e o Josa voltado agora à tarde e você ter tido aquela conversa com ele... Essas três visitas já mostram interesse em ajudar pra c... (...)

Tanure - Outra coisa, Paulo. Nós precisamos conversar um pouco, nós dois, calmamente, sobre o assunto Canadá.

Paulo - Tá bom.

Tanure - Tá bom? Vamos conversar sobre esse assunto que eu tô com uma série de idéias. Eu tô trabalhando neste assunto, viu? Hoje de manhã de novo reunião. Hoje nós perdemos uma liminar. Porque... você se lembra daquela liminar... O pessoal pediu a ampliação dela. Hoje, o Tribunal não deu. Então faz com que o nosso amigo (Daniel Dantas) esteja cada dia mais forte.

Paulo - O que é bom...

Tanure - O que é ótimo.

Paulo - Cá entre nós, é bom.

Tanure - Quer saber de uma coisa, acho que você tem um papel muito importante. É, quando a gente entrar, fazer com que ele não dê muita importância. Tipo assim: ‘isso aí é aventura’. Pra ele não focar.

Paulo - Ainda que eu faça isso, ele é um cara que é disciplinadíssimo, entendeu?

Tanure - Mas, olha, em Brasília foi bem , né?

Paulo - Foi ótimo, Nelson.

Tanure - Você acha que dali vai sair, né?

Paulo - Vai sair e se trabalhar vai sair não é pouco não. Vai sair o suficiente pra gente pagar... muitos compromissos."

***

"A imprensa como arma na guerra", copyright Veja, 25/06/01

"Ricardo Boechat é um dos mais respeitados jornalistas do país. Amigo de Nelson Tanure há muitos anos, acabou virando munição na briga do empresário contra o Banco Opportunity. Nesta conversa que teve com Paulo Marinho, braço direito de Tanure, Boechat relata os detalhes de uma reportagem que escreveu e seria publicada no jornal O Globo no dia 16 de abril contando as manobras planejadas por Daniel Dantas para uma assembléia. O jornalista leu a reportagem inteira para o assessor de Tanure, que aprovou. ‘Tá ótima’, comentou Paulo Marinho. ‘A matéria diz tudo que a gente queria falar.’ Dez dias depois, a reportagem de Boechat integraria os documentos de uma ação judicial (reproduzidos acima) movida pelos fundos de pensão contra o Opportunity. Tanure e os fundos estão do mesmo lado da trincheira

Secretária - Pronto.

Boechat - Oi, o Paulo, por favor.

Secretária - Quem deseja?

Boechat - Ricardo Boechat,

Secretária - Um momento...

Boechat - Obrigado.

Paulo Marinho - Oi.

Boechat - Oi.

Paulo - Diga lá...

Boechat - Seguinte: primeiro acho que a matéria talvez saia assinada...

Paulo - Hum, por você?

Boechat - É...

Paulo - Tá...

Boechat - E aí temos que ver o seguinte... Eu estive pensando... Esta é uma possibilidade que eu preferi não perguntar. Vou te dizer o seguinte: eu também meio que descobri que não adianta muito tentar dissimular esta relação, não.

Paulo - Entendi.

Boechat - Eles já identificaram esta relação, certo?

Paulo - Certo.

Boechat - ...que acabou sendo meio escancarada com este convite pra eu ir pro JB.

Paulo - Perfeito.

Boechat - E, por mais que eu tenha dado como uma iniciativa do Mario Sérgio (Conti, diretor de redação do JB)... Ninguém... ficou aquela... o João Roberto, o Merval, o Luiz Eduardo (integrantes da cúpula do jornal O Globo)... Todo mundo sabe que o Nelson (Tanure) tem uma relação de amizade pessoal.

Paulo - Certo.

Boechat - Eu pensei em dizer ‘não assina, não’. Mas preferi ficar calado.

Paulo - Acho que você dizer pra não assinar eu acho um erro. Tu não pode dar esta montaria pra esses caras...

Boechat - Sabe o que mais? O último detalhe é o seguinte: aquela última nota nossa do dia 3, quando a gente... quando teve a reunião do conselho, que eu dei a história da demissão, lembra? Da demissão do Arthur (Carvalho, cunhado, braço direito de Daniel Dantas no Opportunity e o representante do banco nos conselhos de administração das telefônicas)...

Paulo - Lembro.

Boechat - Eles... quando deu, eu assinei. Eu dei na Agência Globo sem assinar.

Paulo - Eu sei, você disse que eles identificaram em dois minutos que era sua a nota...

Boechat - Eles botaram no ar um desmentido com meu nome. Então é ridículo eu ficar dissimulando...

Paulo - Claro.

Boechat - Se fosse uma coisa clandestina.

Paulo - Também acho, você tem razão.

Boechat - Conheço o cara e... ele é uma fonte e tá me dando uma notícia...

Paulo - Exatamente. Aliás, é um erro dissimular isso. Agora também é o seguinte, quer dizer...

Boechat - ...(inaudível) escancarar.

Paulo - Mas também se os caras não colocarem com seu nome, você não vai reclamar por causa disso.

Boechat - Não, de jeito nenhum. Enfim, outra coisa, diferentemente do seu material é preciso falar com o Nelson: ‘Nelson, a adjetivação não é uma característica da notícia. Não tem como adjetivar’.

Paulo - Perfeito.

Boechat - Então, o texto que eu mandei pro Duda, o cara que tá fechando a edição pra amanhã...

Paulo - Rãrã...

Boechat - Me disse que tá dando bem. Então, suponho que ele vá dar a matéria na íntegra, pá-pá-pá. Não sei que título ele vai dar. Seguinte: o texto que eu mandei, eu disse assim pro Mineiro (Luiz Antonio Mineiro, editor de Brasil de O Globo): ‘Mineiro, aí vai a matéria. Eu não consegui falar com o pessoal da Economia, mas tentarei mais tarde. Estou no telefone tal. Se for preciso peça à telefonista... Acho que este assunto vai dar um bom caldo. A intenção de demitir os conselheiros dos fundos consta da ata da assembléia convocada pelo Opportunity no dia 17 no Monitor Mercantil (jornal carioca de economia). E a estréia do ex-governador (Antônio) Britto (que acabara de ser contratado pelo Opportunity) no fascinante mundo do lobby financeiro, quem diria?, ainda não foi revelada por ninguém’. Aí vai o texto...’. Um abraço, Boechat’ e tal. Aí, começei da seguinte maneira. É um texto curto e tal. Dizendo assim: (O jornalista lê na íntegra a reportagem que foi publicada em O Globo no dia seguinte.)

Paulo - Tá ótima a matéria, diz tudo o que a gente queria falar.

Boechat - Agora, não dá pra dizer que a atitude é ilegal, entendeu? Mas é isso aí.

Paulo - A matéria tá muito bem-feita, meu querido. Tá na conta. Não precisa botar mais p... nenhuma, não. O resto é como você falou: é adjetivação que você não pode colocar. (...)

Boechat - Os caras disseram que vão dar bem a matéria, vamos ver. (...)

Paulo - Amanhã, eu te ligo pra te dar notícia da matéria.

Boechat - Pra saber se deu certo."



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