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GRAMPO DERRUBA BOECHAT
Jornal do Brasil

"Gravação provoca demissão de Boechat", copyright Jornal do Brasil, 25/06/01

"O jornalista Ricardo Boechat foi demitido de O Globo no começo da noite de ontem, 24 horas depois de a revista Veja chegar às bancas do Rio de Janeiro com a transcrição de um telefonema seu a Paulo Marinho, assessor de Nelson Tanure, o aliado da TIW no país e acionista majoritário do Jornal do Brasil.

Pela manhã, depois de passar a noite em claro, Boechat telefonou para o editor-chefe do jornal, Rodolfo Fernandes, em busca de orientação: deveria escrever um artigo explicando seu diálogo com Marinho, deveria pedir demissão, o que deveria fazer? Fernandes lhe disse que, em razão da reportagem de Veja, sua situação no jornal ficara insustentável.

No início da noite, Ali Kamel, diretor-executivo de O Globo, procurou Boechat em sua casa, no Leblon, e consumou a demissão, que se estende também à participação do jornalista no programa Bom Dia Brasil, da Rede Globo.

Unanimidade - A decisão de demitir o titular da coluna mais lida de O Globo foi difícil mas unânime. Difícil porque Ricardo Boechat é um dos jornalistas mais respeitados do Brasil, responsável por dezenas de notícias exclusivas e reportagens premiadas. Foi ele o autor, por exemplo, da matéria sobre a concorrência fraudada de fardas do Exército durante o governo Collor, que recebeu o prêmio Esso de Reportagem de 1991. E, há dez dias, Boechat publicou em primeira mão que David Zylbersztajn, diretor da Agência Nacional de Petróleo, começou a namorar Maria Silvia Bastos Marques, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, menos de uma semana depois de se separar de Beatriz Cardoso, filha do presidente Fernando Henrique.

Decisão unânime de demissão porque os responsáveis pelo jornalismo das Organizações Globo concordaram que a conduta de Boechat, no telefonema a Paulo Marinho, estava fora das normas do código de ética da empresa. Para eles, o colunista não poderia ter lido para Marinho a reportagem que publicaria no dia seguinte em O Globo e tampouco deveria ter discutido com ele procedimentos internos do jornal.

Derrota - ‘Sinto-me derrotado, prostrado’, disse Ricardo Boechat ao Jornal do Brasil. ‘Quando fui procurado pela Veja, disse ao repórter que a matéria que eu escrevera era correta, era relevante, não tinha nenhum erro. Fiz a matéria, porque ela era notícia. Não ganhei nada com ela. O repórter me falou que a matéria beneficiava um dos lados em disputa. Ora, comentei com o repórter, toda reportagem pode beneficiar alguém e prejudicar alguém: tanto que a sua reportagem beneficia, e muito, o Daniel Dantas’.

Boechat disse que pretendia escrever uma carta pessoal a João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, detalhando sua posição. ‘É lamentável que a Veja não tenha me dado o direito de explicar minha posição. Preferiu me condenar, me apresentando como um facínora, com base num telefonema. Reconheço que posso ter dito coisas impróprias, mas resta o fato, indesmintível, que minha reportagem estava certa.’"

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"Reportagem relata guerra de sócios", copyright Jornal do Brasil, 25/06/01

"A reportagem de sete páginas da revista Veja desta semana conta os bastidores da guerra pelo controle de duas empresas de telefonia celular e traz profusa transcrição de fitas. As gravações, de acordo com a revista, dão conta da disputa pelo comando da Telemig Celular e da Tele Norte Celular, entre o grupo canadense TIW e Daniel Dantas, presidente do Banco Opportunity. Nas fitas, gravadas entre março e abril deste ano, há diálogos entre Nelson Tanure, aliado da TIW e acionista majoritário do Jornal do Brasil, e seu assessor, Paulo Marinho, e conversas de Marinho com Boechat. As duas telefônicas, avaliadas em 2 bilhões de dólares, ainda têm como acionistas cinco fundos de pensão.

O grupo canadense aliou-se a Tanure para tentar desfazer o acordo de acionistas que, segundo Veja, ‘Dantas conseguiu produzir, numa jogada de mestre’. A revista resume assim o acordo: ‘A TIW, uma operadora de telefonia que, pelo menos em tese, deveria intervir na gestão de uma companhia telefônica, não tem poder nem para nomear um contínuo.’ Dantas não aparece em nenhuma das gravações reproduzidas.

‘Lembro-me de algumas frases, mas não tenho recordação nenhuma de trechos inteiros das fitas transcritas na reportagem de Veja’, diz Nelson Tanure. ‘Essas fitas são fruto de uma montagem grotesca e fraudulenta. As gravações foram criminosas e ilegais. Elas configuram uma invasão intolerável de privacidade. Certos comentários, certas palavras e construções, usadas habitualmente na linguagem oral entre duas pessoas íntimas, quando tiradas de seu contexto e colocadas em letra impressa adquirem um significado totalmente diferente do original’.

Abaixo, os principais trechos da reportagem de Veja.

Sociedade

‘A tarefa de Tanure é desfazer o nó em que a TIW se embolou ao formar uma complicada e nada amigável sociedade com o Banco Opportunity, de Daniel Dantas (...). A sociedade foi formada na privatização do sistema Telebrás, em 1998, e tem ainda como parceiros cinco grandes fundos de pensão. O embaraço está no acordo de acionistas que Dantas conseguiu produzir, numa jogada de mestre. Uma série de fitas mostra com crueza impressionante a montagem de uma operação de guerra para derrubar um adversário do mundo dos negócios. Veja teve acesso ao material gravado. As fitas mostram apenas um lado atuando, e o leitor deve levar essa peculiaridade em consideração.’

Boechat-Marinho

‘Em um dos diálogos, ocorrido em 15 de abril, (Ricardo) Boechat conta a (Paulo) Marinho os termos da reportagem que está escrevendo para revelar manobras do Opportunity e que seria publicada no dia seguinte em O Globo. Pela conversa, fica evidente que a direção do jornal não foi informada sobre o grau de ligação do jornalista com Nelson Tanure e sobre o fato de que a reportagem foi minuciosamente discutida com Paulo Marinho. (...) Curiosamente, a reportagem acabou sendo usada, dez dias depois, como peça de processo na ação judicial dos fundos de pensão aliados da TIW contra o Opportunity.’

Privatização

‘Para participar do leilão de privatização das duas empresas, em 1998, o Opportunity se associou à TIW e aos fundos de pensão. A TIW entrou com 49% dos recursos necessários para a compra das empresas. Os fundos de pensão, por sua vez, entraram com 24% de investimento direto, mais 27% através de recursos aplicados em um fundo de investimento do Opportunity, que colocou ali uma parcela correspondente a menos de 1% do valor da operação. No leilão, o sócio canadense desembolsou, sozinho, 380 milhões de dólares, com a promessa de ter participação na gestão das empresas adquiridas. Foi feita uma carta de intenções estabelecendo essas bases para o contrato. Tudo ficou só como intenção. Batido o martelo, começou a confusão. Quinze dias depois do leilão, Dantas sinalizou para os canadenses que o acordo inicial não valia mais. Num estranho acerto com os presidentes dos fundos de pensão, o Opportunity montou uma sociedade totalmente diferente da desenhada inicialmente com os parceiros estrangeiros. Na época, os fundos eram capitaneados por Jair Bilachi, da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil, e por Francisco Gonzaga, da Petros, o fundo de pensão da Petrobras, que deixaram o cargo sob suspeita de má gestão dos recursos dos fundos. A estratégia de Dantas foi juntar os recursos dos fundos de pensão em uma só empresa, a Newtel, que passou a deter 51% das ações da Telpart, holding da Telemig e da Tele Norte. Embora tivessem maioria das ações, os presidentes dos fundos concordaram em passar para Dantas o poder de gerir a companhia, incluído aí o direito de escolher todos os dirigentes das duas celulares e de definir todos os fornecedores. Assinaram ainda uma cláusula bizarra, em que os conselheiros dos fundos se obrigam a votar com o Opportunity, qualquer que seja a decisão do banco. Caso votem contra, são imediatamente destituídos.’

Briga

‘Dantas conseguiu manter-se forte enquanto teve os fundos do seu lado. No entanto, as novas diretorias dos fundos de pensão começaram a questionar os acordos feitos por seus antecessores. A briga esquentou quando os dois sócios se uniram contra Dantas. Os fundos e os canadenses querem que a Newtel seja desfeita e que, em seu lugar, seja criada uma sociedade em que os três sócios tenham pesos iguais.’

Salvamento

‘Foi em março, no meio dessa confusão, que Nelson Tanure surgiu na história como a figura que poderia salvar os canadenses. O presidente da TIW, Bruno Ducharme, vislumbrou a chance de encontrar um competidor à altura de seu adversário. Há cerca de um mês os sócios conseguiram uma vitória em cima do parceiro indesejado. Emplacaram o novo presidente da Telemig e da Tele Norte, que passou a ser o executivo Gunnar Vikberg. A manobra para a escolha do novo executivo foi montada com a ajuda de Tanure, que combinou a operação com Ducharme, por telefone. Nosso foco é para tentar tirar o diretor (escolhido por Dantas), explica Tanure, num dos trechos grampeados. Deu certo, embora seja uma vitória provisória, questionada na Justiça pelo Opportunity, que já conseguiu destituir Vikberg da presidência da Telpart.’

Reação

‘Enquanto os dois sócios se armam para tentar enfraquecer Daniel Dantas nas duas telefônicas, o banqueiro baiano tenta garantir as conquistas obtidas. Nos últimos meses, tem feito ofertas aos fundos para a compra das empresas. Quanto aos canadenses, embora sejam o maior acionista individual, suas ações não têm o mesmo poder de fogo sem o controle das empresas, que continua nas mãos de Dantas.’

A reportagem descreve Paulo Marinho como ‘peça ativa nas negociações em favor dos canadenses’ e o trata como ‘personagem bastante conhecido na sociedade carioca’. ‘Está sempre próximo de cabeças coroadas do mundo dos negócios e de mulheres bonitas, como a atriz Maitê Proença, com quem foi casado.’ Diz que ele já trabalhou para Daniel Dantas e transcreve uma conversa de Marinho com Tanure que deixa claro esta intimidade. ‘Ele (Dantas) não está, até pela qualidade dos inimigos que colecionou até agora, acostumado a jogar com o jogo abaixo da cintura’.

Mais adiante, a reportagem,reproduzindo outras conversas telefônicas, cita encontros em março de Nelson Tanure e Paulo Marinho e mais tarde de José Antonio Nascimento Brito, presidente do Conselho Editorial do Jornal do Brasil, com senador Jader Barbalho."



Cidade Biz

"Grampo leva ‘Globo’ a demitir Boechat", copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br), 25/06/01

"A onda dos grampos telefônicos, que a cada semana faz a delícia de uma das três revistas semanais de informação, desta vez contemplou a Veja e abateu um dos mais bem informados jornalistas do país - Ricardo Boechat, demitido domingo à noite de O Globo e também do programa Bom Dia Brasil, da Rede Globo.

A edição de hoje do jornal reentroniza a coluna Swann, no mesmo espaço antes reservado a Boechat e que fora o seu titular até ganhar por mérito o direito de assiná-la com seu próprio nome. Swann é um nome fictício, sob o qual passaram diversos jornalistas responsáveis pela mais lida e bem informada seção de bastidores entre os jornais brasileiros, com notas sobre política, economia, negócios e personalidades.

A reportagem de Veja que provocou a demissão do colunista de jornal mais bem pago do país descreve os bastidores da guerra pelo controle da Telemig Celular e Tele Norte Celular, ambas avaliadas em 2 bilhões de dólares, travada entre o financista Daniel Dantas, do Opportunity, de um lado, e de outro a telefônica canadense TIW e um grupo de fundos de pensão. Dantas manda nas duas empresas, embora tenha menos de 2% do capital da holding controladora, graças a um estranho acordo de acionistas que assinou com as antigas direções dos fundos de pensão, cujas novas diretorias não reconhecem - nem muito menos os canadenses.

Boechat entra nesta história, cheia de detalhes obscuros e lances sórdidos, devido a sua amizade com o conhecido lobista carioca Paulo Marinho, que era assessor de Dantas e bandeou-se para o lado do empresário Nelson Tanure, homem de múltiplos negócios nebulosos e hoje também dono do tradicional Jornal do Brasil. Tanure, segundo Veja, passou a defender os interesses da TIW contra o Opportunity.

Detalhes dessa negociação aparecem em trechos de três gravações transcritas pela revista, uma das quais apanha Boechat discutindo com Marinho uma matéria que publicaria no Globo, prejudicial ao Opportunity. Leu a matéria inteira neste telefonema e ouviu, segundo a transcrição, Marinho lhe dizer que ela estava direito. A matéria antecipava uma decisão de Dantas de destituir os representantes dos fundos nas duas celulares, o que de fato aconteceu e a Justiça forçou-o a voltar atrás.

A revista também fala de uma outra gravação, entre Tanure e Boechat, na qual o jornalista supostamente orientava o empresário sobre como se apresentar a uma reunião com João Roberto Marinho, um dos três irmãos herdeiros das Organizações Globo.

Ouvido pelo JB, Boechat afirmou que se sentia ‘derrotado, prostrado’. ‘Reconheço que posso ter dito coisas impróprias’, argumenta o jornalista, ‘mas resta o fato, indesmentível, que minha reportagem estava certa’.

Tanure também se insurge contra a reportagem de Veja, embora não negue os diálogos. ‘Lembro-me de algumas frases, mas não tenho recordação nenhuma de trechos inteiros das fitas transcritas na reportagem de Veja’, disse o empresário ao JB. ‘Essas fitas são fruto de uma montagem grotesca e fraudulenta. As gravações foram criminosas e ilegais.’

Como tem sido praxe a todas as matérias sustentadas em grampos telefônicos, a revista não revela como teve acesso às gravações clandestinas. Limitou-se a checar a autenticidade das vozes de cada personagem. Também não ouviu o financista Daniel Dantas, o grande beneficiário de mais um escândalo vazado por esta indústria em franco progresso no país - a dos arapongas a serviço do capital privado.

Além de trombar com os canadenses, Dantas também vive às turras com a Telecom Itália, com a qual divide, juntamente com os mesmos fundos de pensão, o controle da operadora de telefonia fixa Brasil Telecom. A batalha já chegou aos tribunais e repercute na imprensa. Mas ainda não exala o odor de escândalo devido à guerra de dossiês que cada lado produziu, um anulando o podre do outro."



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