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ASPAS
Dora
Kramer
"Observação
engajada", copyright Jornal do Brasil, 26/05/01
"A tese não é nova, mas as circunstâncias
renovam a abordagem: passou da hora de a imprensa, ela mesmo, revisar
os termos de seu contrato com a sociedade antes que outras forças
o façam. O primeiro item desse acerto deveria ser o reconhecimento
de que jornalistas, jornais, revistas e emissoras de rádio
e televisão não têm salvo-conduto para agir
ao arrepio das regras legais em vigor para a coletividade ou das
normas de conduta que exigimos sejam observadas pelos cidadãos
públicos ou privados.
Quando extrapolamos os limites da nossa função, que
é a de noticiar e interpretar os fatos, abrimos mão
do dever de triar aquilo que nos chega às mãos, transferindo
a tarefa a quem muitas vezes tem seus interesses, mas não
a responsabilidade de preservar a credibilidade acima de tudo, nesse
momento estamos autorizando também que nossos limites sejam
invadidos.
Chegou o momento que há tempos se avizinhava. Mais dia menos
dia, a imprensa seria vítima dos mesmos métodos que
emprega para se relacionar com a notícia e seus personagens.
É ruim, é constrangedor lidar com o tema nesse momento.
É quase irresistível a tentação de ignorar
o assunto, deixar passar uns dias, examinar as reações,
observar as repercussões. A omissão é a forma
mais segura de não correr riscos.
Mas injusta e desonesta com o leitor que, se for assíduo,
já se habituou a encontrar aqui neste espaço - sempre
que a ocasião permite e exige - ensaios de debate sobre a
questão do denuncismo, os métodos empregados para
levar a termo esse tipo de jornalismo, falando em português
claro: o recurso à invasão de privacidade pura e simples
em busca da melhor manchete.
Não obstante o desconforto e o custo de reputações,
cujo conjunto da obra não registra deslizes nem autoriza
julgamentos precipitados, não podemos deixar passar a oportunidade
de aproveitar esse momento em que as mesmas dores que imputamos
aos outros são impostas a nós, para fazer a reflexão
definitiva.
Há um princípio inamovível nas relações
civilizadas: os fins não justificam os meios. O exercício
do jornalismo mediante a divulgação de conversas particulares
gravadas por autores e métodos desconhecidos é uma
regra não-escrita que vigora plena, mas infringe frontalmente
a norma maior votada e aprovada pelo Parlamento - vale dizer pela
cidadania por ele representado -, que é a preservação
dos direitos e garantias individuais contemplados pela Constituição
Federal.
A imprensa, ao imaginar-se acima da Constituição,
descola-se da sociedade, perde de vista a importância e a
responsabilidade que pressupõem o trato da informação,
confunde seu próprio papel, acredita-se dona da prerrogativa
de ditar normas de conduta sem sentir-se obrigada a segui-las, esquece
de que é parte de uma nação democrática
na qual todos os cidadãos devem estar abaixo da Constituição.
Qualquer coisa diferente disso nos faz enveredar por um caminho
marginal à lei, cujo destino final acaba sendo a defesa da
quebra do Estado de Direito em nome da sumária consertação
dos erros seculares do país. Imprensa não é
tribunal de exceção nem pode se dar à prática
do curandeirismo moral, sob pena de ser ferida pela própria
sanha inquisitorial.
E nisso faz o jogo de quem só espera a melhor oportunidade
para pôr em dúvida o que não pode nem deve estar
nunca sob questionamento: a liberdade de expressão e o direito
constitucional a mais veraz informação.
São princípios deixados de lado quando nos sentimos
autorizados a divulgar tudo aquilo de que temos conhecimento sem
discernir a que interesse estamos servindo. Se é ao do leitor,
fundamental então que se informe também a ele, preservado
o sigilo da fonte, as circunstâncias completas que envolvem
o relato dos fatos que lhe estão sendo oferecidos como mercadoria
de boa qualidade e sem contaminação externa."
Elvira
Lobato
"Fitas
envolvem Petrobras, diz Opportunity", copyright Folha de S.
Paulo, 26/05/01
"As fitas com gravações clandestinas sobre os
bastidores da guerra entre o Opportunity, os fundos de pensão
e o grupo canadense TIW (Telesystem International Wireless), que
disputam o controle das empresas Telemig Celular e Tele Norte Celular,
envolvem também assuntos da Petrobras.
A informação foi dada pelo empresário Mauro
Salles, consultor do Opportunity. Salles admitiu à Folha
que soube da existência das fitas há cerca de quatro
semanas. Disse que não quis ouvir o conteúdo delas
e que o material lhe foi oferecido por um advogado.
Parte das fitas foi divulgada pela 'Veja' desta semana. A revista
reproduziu diálogos de conversas telefônicas do empresário
Nelson Tanure com seu assessor Paulo Marinho (ex-sócio do
Opportunity) e deste com o jornalista Ricardo Boechat, ex-colunista
de 'O Globo', demitido no domingo.
Em um dos diálogos reproduzidos, Boechat leu para Paulo Marinho
uma reportagem de sua autoria que seria publicada no dia seguinte
pelo jornal 'O Globo' sobre a tentativa do Opportunity de tirar
o poder de voto dos fundos de pensão nas duas teles celulares.
A reportagem foi usada pela TIW e pelos fundos de pensão
na ação judicial para anular a medida do Opportunity.
Boechat é amigo de Paulo Marinho e de Nelson Tanure. Esse
último é o principal acionista do 'Jornal do Brasil',
concorrente de 'O Globo'.
Ontem, Boechat disse à Folha que a revista 'Veja' o apresentou
como 'bandido' e criticou a publicação por ter omitido
a origem das fitas.
Afirmou que, 'em circunstâncias especiais', considera aceitável
o procedimento de ler a reportagem para a fonte. Mas, olhando em
retrospecto, acha que 'talvez' devesse ter passado a outro jornalista
a tarefa de avaliar e realizar a pauta sugerida por Marinho, seu
amigo e compadre.
A Folha apurou que existiriam cerca de 90 horas de conversas gravadas
por escuta clandestina. Os grampos teriam sido colocados na casa
de Paulo Marinho, no escritório de Tanure e ainda em um escritório
de advocacia que assessora os fundos de pensão.
Opportunity, TIW e quatro grandes fundos de pensão -Previ
(Banco do Brasil), Funcef (Caixa Econômica Federal), Telos
(Embratel), Petros (Petrobras)- se associaram para comprar o controle
acionário da Telemig Celular e da Tele Norte Celular no leilão
da Telebrás, em 1998.
O grupo canadense comprou 49% das ações, enquanto
Opportunity e fundos compraram, respectivamente, 27% e 24%. Pouco
após o leilão, o Opportunity pôs suas ações
e as dos fundos na empresa Newtel, que passou a controlar as duas
celulares. A TIW não fez parte do acordo de acionistas e
ficou fora do bloco de controle, o que desvaloriza suas ações.
Em 2000, TIW e fundos se juntaram numa ação judicial
contra o Opportunity, em que pleiteiam a anulação
da Newtel e a formação de um novo acordo societários,
com participação dos canadenses.
Enquanto a ação tramita na Justiça, os sócios
se enfrentam numa guerra sem tréguas. O grampo telefônico
é mais um dos embates. Nelson Tanure teria se apresentado
ao Opportunity como negociador por parte da TIW, acrescentando mais
munição à guerra.
Uma das versões que circularam ontem dava conta de que o
ex-governador do Rio Grande do Sul Antônio Britto teria tomado
conhecimento da existência das fitas antes de sua publicação
e comunicado o fato ao ex-chefe da Casa Civil da Presidência
da República Clóvis Carvalho. Ambos aparecem na história
por serem conselheiros da holding Solpart, que controla a companhia
telefônica Brasil Telecom, da qual são sócios
o Opportunity, os fundos de pensão e a Telecom Italia. Britto
e Carvalho atuam como negociadores entre as partes.
Britto negou que soubesse das fitas antes da publicação
da 'Veja'."
O
Estado de S. Paulo
"Reportagem
de 'Veja' derruba colunista do 'Globo'", copyright O Estado
de S. Paulo, 26/05/01
"O jornalista Ricardo Boechat, responsável pela coluna
mais lida do jornal O Globo, foi demitido anteontem por causa de
reportagem da revista Veja desta semana, que reproduz fitas gravadas
em março e abril mostrando os bastidores da luta travada
pelo grupo canadense TIW e Daniel Dantas, presidente do Banco Opportunity,
pelo comando das empresas de telefonia Telemig Celular e Tele Norte
Celular.
Uma das gravações transcritas reproduz conversa de
Boechat com Paulo Marinho, assessor de Nelson Tanure, aliado da
TIW na disputa e acionista majoritário do Jornal do Brasil.
Em conseqüência, o colunista foi demitido logo no início
da noite de domingo. O diretor-executivo de O Globo, Ali Kamel,
foi até sua casa, no Leblon, e comunicou-lhe o desligamento
da empresa, o que também implicou no seu afastamento do programa
Bom Dia Brasil, da Rede Globo.
O jornalista, que soma na carreira um grande número de notícias
exclusivas e reportagens premiadas, declarou-se surpreso e manifestou
o desejo de escrever uma carta pessoal a João Roberto Marinho,
vic-presidente das Organizações Globo, explicando
a sua posição. Boechat lamentou ter sido condenado
pela revista, argumentando não ter tido oportunidade de se
justificar. Concluiu que o telefonema ocorreu 'mas resta o fato,
indesmentível, que minha reportagem estava certa'."
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