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CORREIO DA MANHÃ
Marcio Moreira Alves

"Saudades do Rio", copyright O Globo, 19/06/01

"O centenário que o ‘Correio da Manhã’ teria completado sábado me trouxe lembranças de quando o Rio tinha dezenas de jornais e centenas de jornalistas, a maior parte vinda dos estados para tentar a vida na capital da República. Eram mineiros, nordestinos, alguns estrangeiros e até niteroienses. Falo dos anos dourados, das décadas de 50 e 60, em grande parte vividas em democracia.

Era jornalista quem sentisse vocação para o ofício, tivesse uma boa base humanística e conseguisse ser aceito numa redação. Não havia essa atual reserva de mercado para os formados em comunicação. Jornalistas eram formados em direito, em sociologia, em economia ou haviam interrompido o curso, se é que chegaram a entrar na universidade. Alguns dos melhores não tinham diploma, como Carlos Lacerda, Carlos Castello Branco e Antônio Callado.

Um colega, Ismar Buarque, mandou-me uma lista de sobreviventes do ‘Correio da Manhã’ que me confirma a opinião de que essa reserva de mercado contribui para piorar a qualidade do jornalismo. Existisse naquele tempo e Cícero Sandroni, Carlos Heitor Cony, Hélio Jaguaribe, Ruy Castro, Antônio Olinto e Jânio de Freitas, entre muitos outros que passaram pela redação, não poderiam ter sido jornalistas.

A opção de jornais era variada: ‘Diário de Notícias’, nacionalista e com ligações militares, dirigido por Orlando Dantas; ‘Diário Carioca’, inovador e exclusivamente político, sempre na oposição, fundado por José Eduardo de Macedo Soares, no qual pontificavam Pedro Dantas, pseudônimo de Prudente de Moraes Neto, e Pompeu de Souza; ‘Última Hora’, de Samuel Wainer, único jornal getulista importante, que deu uma notável sacudida nas rotinas da imprensa. Entre outras novidades, criou uma coluna de consultoria sentimental, que era redigida por Vinicius de Moraes e Nélson Rodrigues. Quando faltavam cartas interessantes, eles as inventavam, com casos complicadíssimos, e um respondia ao outro. Abriu também espaço para o humor, com Stanislaw Ponte Preta, criação de Sérgio Porto e eleitor único das certinhas do Lalau. Saudou ele a revolução de 1964 com o Febeapá, Festival de Besteiras que Assola o País, no qual registrava as declarações dos governantes do dia e da equipe econômica, precursora da atual.

Todos esses jornais desapareceram e ainda não mencionei os de Assis Chateaubriand, ‘O Jornal’ e ‘Diário da Noite’. O ‘Diário da Noite’ publicava folhetins discretamente eróticos, como ‘Giselle, a espiã nua que abalou Paris’, ficção de David Nasser e Jean Manzon, ou, mais pesado um pouco, ‘Presença de Anita’. Líamos no colégio e passávamos o exemplar para os colegas, que se inscreviam numa fila. Lembro-me de que Anita recebeu um estafeta da Western Union vestida com um penhoar transparente e levou-o para a cama, o que me despertou uma intensa vocação para entregador de telegramas. O grande achado do GLOBO foram as histórias em quadrinhos: Ferdinando, Fantasma Voador, Dick Tracy, Brucutu. Saíam no Segundo Caderno. Eu desdenhava o primeiro e não perdia uma.

Jornalistas bebem muito, dizia-se. E era verdade. Não sei como arrumavam tempo, porque hoje quem quisesse reproduzir o padrão dos antigos perderia o emprego em uma semana. Havia pontos de encontro nos bares da cidade: o Juca’s Bar, reduto dos juscelinistas, onde sorvi meus primeiros uísques e conheci José Lins do Rego. O Vilarinho, onde Paulo Mendes Campos tinha uma mesa fixa, que ocupava quando deixava o trabalho na seção de livros raros da Biblioteca Nacional. O copo de Ary Barroso era maior do que os outros. Parecia um vaso de flores, azul e com espirais esbranquiçadas. O bar do Lidador ficava nos fundos da loja e era o preferido de Pedro Nava e Vinicius de Moraes, ainda diplomata.

Já então havia quem se recusasse a atravessar os túneis. Antônio Maria freqüentava os bares das redondezas do Copacabana Palace. Era objeto da inveja geral porque namorava a Danuzinha Leão. O crítico de cinema José Sanz era tido como o maior mentiroso da cidade. Uma tarde se recusou a provar de uma lata de sardinhas, dizendo que só comia sardinhas do Báltico. Tomou uma vaia e foi reptado a provar. Como morava perto, levou uma delegação à sua casa. Abriu um armário no corredor. Estava repleto de sardinhas do Báltico. Voltou triunfante como um general romano.

Rubem Braga era quase exclusivamente noturno. Quando saía de casa para beber, ia para o Sacha’s, no Leme, ou, mais tarde, para o Antônio’s, no Leblon, onde o cronista José Carlos de Oliveira praticamente morava. Certa vez, não sei em que circunstâncias, Rubem foi parar num congresso em Estocolmo. Quando lhe perguntaram de onde era, respondeu: ‘Modéstia à parte, sou de Cachoeiro de Itapemirim’.

Não sei se são sinais de senectude, mas tenho uma saudade danada daquele Rio de Janeiro."



Fuad Atala

"Réquiem para um leão indomado", copyright O Globo, 19/06/01

"O número 471 da Avenida Gomes Freire, onde funcionou o ‘Correio da Manhã’ até 1974, descansa agora no silêncio dos corpos petrificados. Um plástico escuro tapa-lhe o portão de entrada. No saguão tomado de poeira e teias de aranha não se percebe qualquer rumor de passos. Nem as emanações de chumbo e antimônio das linotipos da oficina impregnando a escada que conduzia à revisão. Aqui também não cruzarão com Costa Rego, o redator-chefe, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda, os fiscais do texto da casa, que, graças a eles, chegou a ser o mais bem escrito de todos os jornais da época. Mais um lance de escada, eis a redação. Pela porta arrombada não entram os censores da ditadura Vargas, nem os truculentos agentes do Dops à caça de jornalistas em 64. Por ela não irromperá a voz do repórter bradando ‘Bahia, derrubamos o Alkmin.’ Não haverá nada mais a saquear no que restou do Arquivo abandonado na transição para a derrocada final. Há em volta um constrangimento respeitoso diante dos gritos de vida, represados nos desvãos da casa enfim emudecida pela brutalidade da repressão militar.

No ano inaugural do século XX, ainda sob os ecos de Canudos, o país vivia a perplexidade de dois acontecimentos traumáticos: a abolição da escravatura, ocorrida 13 anos antes, e, precipitada por ela, a proclamação da República, um ano depois. A política era feita de cambalachos. Sucessivas crises, marcadas por estados de sítio e revoltas, crise econômica, problemas sociais, saúde, educação, dívida externa, corrupção - um túnel sem sinal de luz à frente. Era o fim do governo de Campos Salles. O país parecia sem prumo.

Nesse cenário conturbado surge no dia 15 de junho de 1901 o ‘Correio da Manhã’. Ficava na Rua Moreira César (nome que, por curto período, substituiu o de Rua do Ouvidor, restabelecido em 1916). No Distrito Federal da Velha República, dominado por jornais submissos ao poder, a linha de independência e modernidade do ‘Correio da Manhã’ revolucionou a imprensa do início do século. Seu proprietário, Edmundo Bittencourt, um gaúcho de Santa Maria do Monte, traçou a conduta na apresentação: ‘O Correio da Manhã não tem nem terá jamais ligação alguma com partidos políticos.’E ainda: ‘Jornal que se propõe a defender a causa do povo não pode ser um jornal neutro. Há de forçosamente ser um jornal de opinião, e nesse sentido uma folha política.’

Cercou-se, desde o início, do que havia de melhor. De suas páginas, José Veríssimo saudou o aparecimento de ‘Os Sertões’. Aliou-se a Rui Barbosa na Campanha Civilista, condenou o comunismo e o militarismo, combateu Pinheiro Machado, um potentado político que serviu a vários governos, e com quem, desafiado, se bateu num duelo a pistolas. Não poupou o ‘jornalismo de cabresto’, centrando seus ataques em Alcindo Guanabara, um dos ícones da imprensa de então. Seus métodos inspiraram o romance ‘Recordações do escrivão Isaías Caminha’, no qual Lima Barreto, o autor, faz sátira contundente ao ‘Correio da Manhã’ e a Edmundo Bittencourt.

Submeteu todos os governos, indistintamente, a uma implacável fiscalização, entregando-se a uma guerra permanente contra os processos políticos que perpetuavam as oligarquias no poder. Foi a favor da modernização e do saneamento do Rio no governo de Rodrigues Alves e do prefeito Pereira Passos, mas insurgiu-se contra a vacinação obrigatória de Osvaldo Cruz. No movimento tenentista de 22 foi preso, e em 24 teve o jornal interditado por Artur Bernardes, de agosto desse ano até maio de 25. Em 28, com a saúde abalada, passa a propriedade e a direção do ‘Correio da Manhã’ ao filho único, Paulo Bittencourt. Retira-se então para Teresópolis. Morreu no Rio em 1943.

O sucessor mantém o mesmo espírito combativo e arrebatado do pai. Apoiou a revolução de 30, rompeu depois com Vargas, enfrentou as turbulências políticas que culminaram com o golpe de 37 e a instalação do Estado Novo. Em fevereiro de 45, com a ditadura nos estertores, rompeu a censura publicando a famosa entrevista de José Américo de Almeida, com críticas a Vargas. Foi o estopim que detonou o regime. Em outubro, Vargas caiu. Em 50, o caudilho retorna ao poder pelo voto popular, Paulo Bittencourt defende a posse, contestada pela UDN, mas combate sua política estatizante. Foi contra o monopólio estatal do petróleo, mas a favor da Petrobras.

O curso dos acontecimentos é atropelado por episódios dramáticos. Carlos Lacerda move insidiosa campanha contra Vargas, denunciando ‘o mar de lama’ nos porões do Catete. O ‘Correio da Manhã’ apóia o inquérito instaurado pela Aeronáutica para apurar o atentado contra Lacerda, no qual morreu o major Rubens Vaz. Com o traumático suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 54, os fatos precipitam-se. No governo de Juscelino, marcado pela onerosa construção de Brasília, o ‘Correio da Manhã’ denuncia escândalos na Cexim - Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil.

Vem a renúncia de Jânio Quadros, em 61. O jornal defende a legalidade da posse do vice João Goulart, contestada pelos militares. Em 63, Paulo Bittencourt morre em Estocolmo. Assume o jornal a viúva de segundas núpcias, Niomar Muniz Sodré Bittencourt. O ‘Correio’ desconfia das reformas de Jango, que considera esquerdizantes, faz crescente oposição a seu governo, publica dois editoriais históricos, ‘Basta’ e ‘Fora’, decisivos em sua deposição em 64 pelos militares.

Era a ditadura disfarçada. Começava aí a derradeira aventura. Armou-se implacável cerco econômico ao jornal. A Redação transformou-se na resistência da oposição. Era um tempo de prisões e brutalidade, das quais Niomar não escapou. Inquebrantável, o jornal agonizava. Tentou-se a salvação com o arrendamento por cinco anos a um grupo de empreiteiros. Não deu certo. Devolvido, buscou-se no próprio jornal a solução heróica. Foi a última tentativa. No dia 8 de julho de 1974 circulou pela última vez.

A personalidade indômita de Edmundo Bittencourt, com o grau de quixotismo que todo idealismo requer, perpassa a trajetória do ‘Correio da Manhã’, na sua luta muitas vezes tortuosa pelas reformas e mudanças. Contra todas as formas de mandonismo. Escolheu um caminho. Não colheu tudo. A questão que permanece é: por que sucumbiu ao furacão de 64? Não terá sabido, como em todas as batalhas entre forças desiguais - no caso, infinitamente desiguais - fazer o recuo estratégico na hora certa para ganhar alento mais adiante? Ou terá preferido exaurir sua independência e rebeldia até o extremo, e, vencido sem rendição, entregar-se à própria imolação?

No 15 de junho passado, o ‘Correio da Manhã’ completaria um século. Por certo, lutando contra os mesmos moinhos de vento dessa já cansativa reprise de si mesmo que é o Brasil. (Fuad Atala é jornalista)"



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