29/07/2003

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A NOVA GENI
A culpa é sempre da mídia

Alberto Dines

** Um fotógrafo é assassinado em serviço e fica por isso mesmo.

** O presidente da Câmara do Deputados comete uma infração grave mas acusa a imprensa de distorcer os fatos.

** O coordenador do MST prega a subversão da lei e denúncia a mídia como burguesa.

** A organização Repórteres Sem Fronteiras reclama contra abusos do governo cubano e é suspensa da ONU.

** A BBC acusa o governo inglês de manipular um relatório sobre as armas de Saddam Hussein e logo é apontada como responsável pelo suicídio do cientista que teria servido de fonte.

Os meios de comunicação erram, erram muito. Se não errassem não existiriam instituições como este Observatório da Imprensa e seus similares em todo o mundo.

O caso do repórter fraudador Jayson Blair desvenda a vulnerabilidade de uma instituição cujo funcionamento repousa exclusivamente na confiança e na boa-fé. Repórteres confiam nas fontes, editores confiam nos repórteres, leitores confiam nos veículos produzidos pelos editores.

Mas ao contrário de governos, governantes, políticos e representantes dos poderes formais, a imprensa hoje está permeada pela autocrítica. Pode-se mesmo dizer que no turbilhão de mudanças que sacodem o mundo, a mídia, como instituição, conseguiu manter aquele mínimo de credibilidade graças à sua disponibilidade – forçada ou voluntária – para a exposição de suas mazelas.

E, no entanto, o desempenho da imprensa converteu-se na desculpa prioritária de todas as figuras públicas que cometem erros, abusos, deslizes ou incorrem em mentiras. Isso é grave porque neste mesmo turbilhão mundial a democracia está sendo ostensivamente desrespeitada e atropelada – tanto por aqueles que pretendem falar em seu nome como pelos que ostensivamente a desprezam.

O fenômeno não é novo: nos anos 1930, Hitler e Goebbels justificavam a violência dos métodos nazistas alegando que reagiam contra as "mentiras" espalhadas pela imprensa internacional. Setenta anos depois, multiplicaram-se os hitlers e goebbels: a fronteira que sempre separou a verdade da mentira está sendo atravessada pela legião de líderes incapazes de enfrentar a exposição a que são submetidos senão apelando para o bode expiatório da imprensa.

Os falsários que chegam ao poder – qualquer poder – independente de suas opções políticas ou religiosas, hoje atuam juntos numa única direção: desacreditar a imprensa, destruir paulatinamente a confiança que a sociedade deposita neste poder-sem-poder.

Esta gigantesca caça às bruxas precisa ser urgentemente desativada. O jornalismo jamais será imune a erros, jornalistas falham, o sistema de apuração não é infalível mas a imprensa como instituição periódica e permanente tem condição de corrigi-los. A crítica ao desempenho da imprensa é recurso legítimo e democrático, não pode ser adulterado e convertido no instrumento para desacreditá-la. O que está em jogo é a democracia e o Estado de Direito.

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De novo, a culpa é da imprensa – Marcus Barros Pinto [Entre Aspas, Jornal do Brasil]

 

O assassinato do fotógrafo La Costa

Tudo indica que os assassinos são criminosos "comuns" que assaltaram um posto de gasolina nas vizinhanças e refugiaram-se no acampamento dos sem-teto. Esta hipótese não pode impedir o exame de duas questões cruciais:

** Os assaltantes contavam com a proteção natural de um território à margem da lei, terra de ninguém e, portanto, terra-do-vale-tudo.

** Os jornalistas que cobriam o acampamento foram permanentemente vigiados e constrangidos pelos "seguranças" do movimento. A tragédia poderia ter sido evitada se os repórteres não fossem mantidos à distância e impedidos de cobrir um movimento social, ordeiro e pacífico. Mas os assaltantes tiveram acesso livre ao local.

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Sobre o assassinato de Luiz Antônio da Costa – Entre Aspas

 

Erro e desculpa do presidente da Câmara

Preocupado com a exaltação dos servidores que pretendiam invadir as dependências da Câmara dos Deputados no momento em que era votado o texto básico da reforma da Previdência, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) convocou a tropa de choque da PM do Distrito Federal.

A repercussão negativa da inédita e desastrada providência levou o parlamentar às lágrimas e, para purgar-se das culpas que macularão a sua biografia, acusou a imprensa de distorcer o acontecido. Alegou que autorizara apenas a passagem da tropa pelos corredores. Mas as fotos nas edições dos jornais de quinta-feira (24/7) são inequívocas: os soldados estavam lá, parados, nas dependências da Câmara.

No calor da refrega, o deputado foi peremptório: "Sempre que houver risco para o Legislativo a PM será convocada como força auxiliar" (O Estado de S.Paulo, 24/7, pág. A4). Estava certo, embora parecesse politicamente incorreto. Para limpar a barra e descarregar a consciência culpada recorreu ao desastroso bordão de todos os que são flagrados em erro: a culpa é dos que viram.

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As lágrimas de João Paulo – A.D. [Entre Aspas, Jornal do Brasil]

 

A ideologia como pretexto

Quando João Pedro Stedile, coordenador do MST, percebeu que a retórica levou-o longe demais, sacou da cartilha revolucionária e proclamou que a mídia é burguesa, por isso distorce o que disse.

Parte do pronunciamento de Stedile num acampamento de sem-terras no Rio Grande do Sul foi gravado e, nesses trechos de uma clareza cristalina, não há como atribuir à imprensa qualquer tipo de distorção. Diferentemente do presidente da Câmara, que apontou a imprensa como manipuladora sem especular sobre suas motivações, o coordenador do MST estendeu a idéia de luta de classes ao âmbito da comunicação.

A imprensa é burguesa, assim como a democracia tal como a conhecemos é um conceito burguês. Mas o socialismo real que não é burguês fez do soviético Pravda (= verdade) um dos maiores fiascos da história do jornalismo.

Este Observador já testemunhou a favor de Stedile quando um semanário adulterou sua foto colocando-o com uma pistola nas mãos. Não foi uma fraude "burguesa", foi exemplo de jornalismo irresponsável. O coordenador do MST foi defendido não porque representava o camponês "revolucionário" mas porque foi vitima de um logro fotográfico.

 

Relativismo perigoso

O equilíbrio internacional será alcançado por organismos multilaterais, a globalização será controlada por uma cidadania globalizada, a imprensa funcionará como um sistema mundial de vigilância quando estiver livre das perseguições de governos autoritários.

A organização Repórteres Sem Fronteiras é uma das trincheiras em defesa dos direitos humanos e da democracia transnacional. Tem sido incansável na denúncia de abusos contra jornalistas em todos os quadrantes.

Cumpriu o seu papel quando reclamou contra a presença da Líbia na presidência da Comissão de Direitos Humanos da ONU, fez o que dela se esperava quando protestou contra a recente onda repressora em Cuba. E foi punida a pedido de Cuba com a suspensão do seu mandato de órgão auxiliar da ONU.

O Brasil votou a favor: por "razões técnicas". Em matéria de liberdade e decência, quando as razões técnicas se sobrepõem às razões morais tudo pode acontecer.

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Um tiro no pé da brasilidade – Claudio Julio Tognolli

 

Armas de destruição singular

O cientista David Kelly foi sacrificado no fogo cruzado entre o governo de Tony Blair e seus oponentes. Entre eles deve-se incluir a rede BBC, que embora pública não é estatal. Mais uma vez uma tragédia pessoal combina-se ao drama nacional.

A Inglaterra corre o risco de desbaratar uma das suas mais preciosas conquistas no campo político e jornalístico – único país na comunidade internacional capaz de criar uma alternativa à mídia privada com dinheiro do contribuinte, porém rigorosamente autônoma.

Aos grupos jornalísticos privados e geralmente conservadores não interessa uma rede pública viável e confiável. Aos neotrabalhistas só interessa uma BBC desmoralizada e suspeita de ser co-responsável no suicídio do dr. Kelly.

O jornalismo anglo-saxão considerado como fundamento do jornalismo moderno serve, neste momento, de cenário a uma furiosa batalha política que se estende aos dois lados do Atlântico: quanto mais evidente tornar-se na Inglaterra a manipulação dos relatórios secretos sobre as armas de destruição em massa do Iraque, mais forte ficará nos EUA a resistência dos liberais e democratas às políticas de George W. Bush.

A imprensa transformada em campo de batalha é, por enquanto, o mais visível feito e efeito da Era da Informação.

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