IMPRENSA EM QUESTÃO

MÍDIA & CREDIBILIDADE
Sem notícias de um seqüestro

Alberto Dines

Na novela-reportagem de Gabriel García Márquez [Noticia de un secuestro, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1966], os seqüestradores deixam um aparelho de rádio no cativeiro da jornalista colombiana seqüestrada para que ela acompanhe o noticiário.

No Brasil – ou mais precisamente em São Paulo – ao contrário de Maruja Pachón de Villamizar, a estudante Patrícia Abravanel, filha do empresário de comunicação Sílvio Santos, teve acesso restrito às informações. Isso porque o grosso da mídia sediada em São Paulo atendeu solícita ao apelo do pai e, desde o primeiro momento, tirou o assunto do noticiário.

As duas situações são completamente diferentes: os seqüestradores colombianos faziam parte do narcotráfico e tentavam uma chantagem política antes da votação da lei das extradições. A chantagem aqui, ao que tudo indica, é diferente: os bandidos querem apenas o dinheiro do resgaste. Mas todos os seqüestros se parecem e neles o trabalho da imprensa é crucial – desde que controlados os eventuais surtos sensacionalistas. A população precisa saber da ocorrência para, eventualmente, colaborar na localização ou captura dos criminosos. Em geral, quem exige o silêncio são os bandidos. Atendê-los é fazer o seu jogo.

Participam do Pool do Silêncio:

** Folha de S. Paulo (mais o Agora);

** Estado de S. Paulo (mais Jornal da Tarde e Rádio Eldorado);

** Grupo Band (rádios e emissoras de TV);

** Rede Record;

** Rede TV!;

** SBT (do próprio Sílvio Santos);

** Portais iG e UOL;

** Gazeta Mercantil;

** Correio Braziliense;

** TV Cultura;

** IstoÉ.

Recusaram embargo noticioso:

** Todos os veículos do Grupo Globo (rádios, televisões, jornais, Época) e afiliadas;

** TVE;

** Jornal do Brasil;

** Veja.

A edição televisiva deste Observatório [21/8/01] discutiu o assunto em dois blocos do programa (dedicado ao tema da credibilidade dos jornais), e foi ao ar na mesma noite do seqüestro [clique aqui para ver o compacto].

A TV Cultura, que não está divulgando o noticiário sobre o seqüestro mas retransmite o programa ao vivo, acabou furando a sua própria decisão ao veicular um debate sobre um fato que não noticiara. O ombudsman da Folha de S.Paulo, Bernardo Ajzenberg, participou do programa pelo telefone explicando os critérios que levaram a direção da Folha a intervir no noticiário [clique em PRÓXIMO TEXTO para ler a transcrição do debate]. Os portais noticiosos iG e UOL não estão cobrindo a ocorrência mas também não estão censurando os veículos ou agências neles hospedados – o que significa que estão noticiando indiretamente.

Então por que este pacto e esta solidariedade?

Mesmo sabendo que há uma vida ameaçada, o episódio serve para escancarar algumas hipocrisias no comportamento da mídia pouco mais de uma semana após o anúncio dos irrisórios 15% de credibilidade obtidos em recente pesquisa ANJ/Datafolha.

A saber:

  • Quando do seqüestro de um irmão paraplégico da dupla Zezé di Camargo e Luciano [Wellington, libertado em 21/3/99, depois de 94 dias de cativeiro], o SBT de Sílvio Santos fez um carnaval.
  • A decisão do Grupo Globo de não atender ao pedido pessoal do concorrente pode ser creditada a um compromisso de nada esconder ao público e tudo noticiar? Como se explica, então, que naqueles mesmos dias os veículos do grupo – na contramão de toda a mídia – tenham omitido as tentativas do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, de marcar os jogos noturnos da seleção brasileira no horário da novela das 8 e só tenham entrado no assunto a partir do momento em que o governo ameaçou intervir na entidade máxima do futebol?
  • Se o Grupo Globo assume compromisso público e inequívoco de nada omitir significa que compromete-se a rasgar a Lista Negra com os nomes das pessoas não-gratas e não-mencionáveis? Difícil acreditar. As vendetas não fazem parte da política de empresas mas das pessoas que as comandam – o que dá no mesmo.
  • O fato de saber que dominaria o noticiário do seqüestro da filha do principal concorrente não teria levado alguns dos órgãos do Grupo Globo a exagerar no destaque que deram ao fato nos primeiros dias? Não houve exploração e sensacionalismo?
  • Na ala dos que aderiram ao pacto do silêncio destacam-se sobretudo as contradições da Folha. Assumindo-se como a consciência crítica do país e autoproclamando-se como a detentora da transparência absoluta, como explicar sua adesão a um conluio censóreo que afronta o livre curso das informações?

Compreendem-se as razões e aflições de Sílvio Santos ao pedir que a imprensa não faça a cobertura do caso. Mas Sílvio Santos não é jornalista, desconhece as nuances do trabalho jornalístico. Pode-se perfeitamente atender ao pedido para que a imprensa mantenha-se afastada, não atrapalhe as negociações e/ou investigações sem precisar recorrer à medida extrema da autocensura.

Veja saiu-se razoavelmente bem, pelo menos escapou do clima generalizado de fingimento: informou os leitores mas comportou-se com inusitada discrição.

Quando se trata da imprensa, o certo é confiar no senso de responsabilidade de cada veículo de modo a atender aos apelos humanos sem, contudo, trair a obrigação de publicar o que acontece. Cada veículo deve estabelecer sua própria conduta. A imprensa vive da diversidade. Combinações ou acertos são disfunções herdadas do passado, revelam perigosa vocação corporativa e antipluralista. Há uma ponta de arbitrariedade nestes "acordos de cavalheiros". O que deve valer é o livre-arbítrio.

[Texto finalizado às 22h30 de segunda-feira, 27/8/01]

 

Fim de seqüestro acorda jornais eletrônicos

O seqüestro de Patrícia Abravanel acabou na madrugada de terça-feira (28/8). A filha do empresário Silvio Santos chegou em chegou em sua casa, no Morumbi, por volta das 3h, dirigindo o seu carro – o mesmo Passat em que fora levada uma semana antes.

Menos de 20 minutos depois das 3h, a notícia da libertação de Patrícia já estava na internet, nos principais sites de notícias do país. Todos os veículos, inclusive os que participaram do "pool do silêncio", a pedido de Sílvio Santos, noticiaram com grande destaque o desenlace do episódio.

Além do grande número de informações envolvendo o seqüestro em si, chamou atenção na cobertura jornalística na internet justamente a discussão sobre o comportamento da imprensa no episódio.

Todos os órgãos que não noticiaram o seqüestro apresentaram de imediato a justificativa para esse comportamento. Alguns foram além e destacaram opiniões como a do secretário de Segurança do Estado de São Paulo, Marco Vinicio Petreluzzi, para quem seqüestros só devem ser noticiados depois de terminados. O Último Segundo, jornal virtual do iG, cutucou: "Petrelluzzi ‘lamenta’ que alguns órgãos de imprensa tenham noticiado o seqüestro", era um dos títulos da terça-feria, 28/8. (LAM) [às 15h de 28/8/01]