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IMPRENSA EM QUESTΓO MÍDIA E SEQÜESTROS Transcrição de debate entre os jornalistas Rodolfo Fernandes, editor-chefe de O Globo; Maurício Menezes, radialista; Mario Sergio Conti, diretor de redação do Jornal do Brasil; Luiz Weis, editorialista do Estado de S.Paulo; Bernardo Ajzenberg, ombudsman da Folha de S.Paulo; Adhemar Altieri, ex-diretor da Rádio Eldorado; e Josemar Gimenez, diretor de redação do Estado de Minas, no programa Observatório da Imprensa na TV (nΊ 165, no ar na terça-feira, 21/8/2001) Rodolfo Fernandes É um caso muito complicado, talvez um dos mais difíceis na decisão diária dos assuntos com os quais você tem que lidar, que está diretamente ligado à vida das pessoas, mas O Globo vai publicar a notícia amanhã e O Globo entende que ao não publicar, você está favorecendo o seqüestrador. Muitas vezes o caso não é esclarecido pela inteligência da polícia, pela capacidade operacional... é pelas denúncias anônimas que surgem, normalmente através do disque-denúncia, a partir da ampla circulação da informação de que houve aquele seqüestro. Ao não permitir que a notícia básica, a informação básica, de que houve o seqüestro; ao não permitir que essa informação circule, você está favorecendo o seqüestrador. São tomados vários cuidados nesse tipo de cobertura. Você nunca divulga o patrimônio da família, dados empresariais, a capacidade financeira das pessoas envolvidas. É uma decisão tomada com muitos cuidados, mas não divulgar é favorecer o seqüestrador.Alberto Dines A decisão de divulgar levou e conta os perigos que a seqüestrada corria?Rodolfo Fernandes Desde a primeira onda de seqüestros, desde que um diretor do Bradesco foi seqüestrado, lá atrás, há mais de 10, quase 20 anos o Maurício Menezes cobriu o seqüestro , nunca O Globo deixou de publicar as matérias sobre seqüestro. Me surpreende um pouco, agora, ter sido tomada essa decisão de não dar o caso Sílvio Santos nos jornais, porque era um assunto que já estava mais ou menos resolvido na imprensa e agora houve um certo fracionamento nas posições dos principais jornais.Alberto Dines Maurício, você já cobriu muitos...Maurício Menezes Existe mais ou menos um perfil de cada caso. Nesse caso do Sílvio Santos, em breve vai se descobrir o seguinte: tem um ex-empregado envolvido na história. Porque as quadrilhas, quando elas se formam, elas já vêem mais ou menos o tipo de vítima. Por exemplo, eles não seqüestram pessoa famosa, parente de pessoa famosa, porque isso tem uma grande mobilização popular.Alberto Dines E por que o fizeram agora?Maurício Menezes Deve ter ex-empregado na história, podem ver que nesse caso tem ex-empregado.Alberto Dines Mario Sergio, como o Jornal do Brasil vai se comportar amanhã nesse caso do seqüestro? Nós estamos discutindo a questão da credibilidades da instituição jornais...Mario Sergio Conti O JB vai noticiar o caso, vai dar a notícia com o destaque que ela merece, que é uma notícia de primeira página, porque na verdade o pedido que o Sílvio Santos faz, que as famílias fazem, não é um pedido da família ou do Sílvio Santos, é uma exigência dos seqüestradores. Ou seja, os bandidos, os criminosos, usam a família como veículo de uma exigência, e se a imprensa aceita essa exigência, no meu entender, ela está atendendo à exigência de um criminoso e é interesse do criminoso manter o caso secreto para que as pessoas que vêem a fotografia da moça, ou que vêem uma movimentação suspeita, não saibam o que está acontecendo. Eu acho que a imprensa presta aí um papel importante para o eventual esclarecimento do caso. Eu lembro que a imprensa, até 1990, não publicava casos de seqüestro, atendendo a pedidos da família. Essa norma foi violada no caso do seqüestro do Rubem Medina, o publicitário, aqui no Rio de Janeiro, e a Veja deu a notícia. Depois, quando o caso foi esclarecido, o Jornal do Brasil, que na época era dirigido pelo Marcos Sá Corrêa, tomou posição editorial de noticiar o seqüestro. Eu achei que deveria manter essa norma porque eu acho ela correta, acho que a imprensa não deve ceder às exigências de bandidos. Agora, há riscos, sim. Há limites. Eu acho que há certas informações que a imprensa não precisa dar, não deve dar sobre o local, por exemplo. Se algum órgão da imprensa souber o local onde vai ser pago o resgate, ele não deve noticiar isso seriamente, mas isso cabe ao jornalista decidir. Luis Weis Há um certo consenso. Em primeiro lugar que há uma decisão delicada porque uma vida está em jogo; em segundo lugar, que a não publicação do seqüestro favorece o crime; e em terceiro lugar, que noticiar nesse caso não pode ser o chamado "tudo sobre". Nem tudo que o jornalista sabe e apura sobre o caso deve ser publicado, mas a opinião pública não pode ser privada da informação básica, pele e ossos de fato. Fulano de Tal, filha de Sicrano, mulher de Beltrano, foi seqüestrada em tais circunstâncias, ponto parágrafo. Agora, evidentemente, como já foi dito, se o jornalista, por uma eventualidade, sabe de coisas cuja divulgação pode efetivamente colocar em risco a vida da pessoas seqüestrada, nem pensar em publicar.Bernardo Ajzenberg Eu não participei da decisão do jornal [Folha de S.Paulo] a respeito de publicar ou não, mas, conceitualmente falando, eu acredito que o jornal deve respeitar a solicitação feita pela família, não só por que é o Sílvio Santos, mas em qualquer caso. E depois, a questão da credibilidade deve ser resolvida da seguinte maneira: no momento em que o caso se resolve, o jornal publica de forma transparente para o público as informações que acumulou e explica porque não publicou antes. Isso é o ponto de vista conceitual. É muito difícil analisar concretamente esse caso do Sílvio Santos, até porque aconteceu hoje, e eu particularmente passei o dia fora de São Paulo, em outras atividades. Mas do ponto de vista conceitual, eu acho que a questão da credibilidade não se abala se você não publica, desde que você trate com transparência essa questão.Adhemar Altieri Essa questão que coloca o Bernardo é verdadeira, mas tem um outro lado disso aí. Quando se atende o pedido de não noticiar e, inclusive, no caso do Sílvio Santos, ao pedido para a polícia não participar parece que houve una declaração da polícia hoje dizendo que a está fora do caso , isso tem implicações futuras. Isso significa que, como já foi dito aqui mesmo no programa, cria-se uma situação que parece ser melhor para o causador do problema, para o seqüestrador, do que para a sociedade. Então, a imprensa cai numa situação que tem que optar. Eu acho que numa dessas, é provável que se parta para o bem comum. A Globo hoje, por exemplo, foi muito clara no Jornal Nacional, explicando o critério dela para noticiar. Eu acho que o critério dela está correto neste caso.Maurício Menezes Eu acho que isso que o Mario Sergio Conti falou é corretíssimo. O Adhemar Altieri lembrou muito bem a posição hoje da Rede Globo. Eu acho que a imprensa, ao omitir, está compactuando com os seqüestradores. Eu acho que a imprensa deve divulgar de forma comedida, sem revelar inclusive o patrimônio da empresa, mas os seqüestradores devem ter noção do que eles estão envolvidos no processo.Luis Weis Maior do que o desafio de publicar ou não publicar é o desafio de publicar adequadamente, sem sensacionalismo, sem cair nos apelos fáceis que uma situação dessas propicia.Rodolfo Fernandes Eu queria registrar mais uma vez a satisfação de ver que a credibilidade da imprensa está num processo que caminha positivamente para uma evolução. Na minha opinião, a profissionalização da imprensa está se fazendo mostrar. A pesquisa, com todas imperfeições, reflete isso e nós vamos caminhar para uma eleição agora, na qual, na história da imprensa brasileira, os partidos de oposição jamais tiveram tanto acesso à mídia como têm hoje. Nessa evolução na credibilidade da imprensa tem muito a ser feito. E as pessoas estão analisando e fazendo jornais, tenho certeza, que vão se preocupar muito com isso.Josemar Gimenez Eu gostaria de agradecer a vocês do Observatório da Imprensa pela oportunidade de mostrar um pouco do que temos feito no jornalismo aqui em Minas Gerais. O Estado de Minas também tomou a decisão, de forma equilibrada, de publicar na primeira página também a matéria do seqüestro da filha do Silvio Santos.
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