IMPRENSA EM QUESTÃO

NOTAS DE UM LEITOR
Como defender o português

Luiz Weis

O repórter e colunista da Folha Fernando Rodrigues e o deputado e líder do governo na Câmara Aldo Rebelo andaram se estranhando.

Rodrigues, em 1/9, bateu pesado no projeto sobre o uso do idioma que leva o nome do parlamentar, já aprovado no Senado, e que seria "uma praga", "uma aberração", "um ovo de serpente" – ou, como o título do seu comentário "A lei do ‘rato’".

Rebelo respondeu no mesmo jornal em 23/9 ("Defender o idioma, como a floresta"), com o argumento de que "se é vedada a ortografia pessoal, não há o que estranhar na iniciativa de impedir a descaracterização ostensiva que corrói a língua portuguesa". E exemplifica: "Que ‘modernidade’ nos conduz a escrever ‘push’ em vez de empurre?"

Rodrigues tinha preferido outro exemplo, ao observar que, segundo o projeto, "toda palavra ou expressão escrita em língua estrangeira e destinada ao conhecimento público no Brasil virá acompanhada, em letra de igual destaque, do termo ou expressão vernacular correspondente em língua portuguesa". Ou seja, se um jornal escrever "mouse" (como o usado nos computadores) terá de acrescentar "rato".

O colunista foi longe demais. "Hoje, querem que a imprensa escreva rato para descrever um prosaico mouse. Daqui a pouco terão idéias sobre o que pode ser divulgado pelos jornais", imagina, antes de dizer que o projeto "pavimenta um caminho perigoso contra a livre expressão de idéias no país".

A réplica do deputado é menos contundente. O ponto central de sua argumentação é que não se deve confundir "defesa do idioma" com "blindagem de dicionário". E a sua defesa consistiria numa "revisão do vocabulário ortográfico para adaptação, ao gênio do idioma, dos monstrengos adventícios que lá foram enfiados".

É claro que seria ridículo ter que traduzir, por exemplo, mouse, ou e-mail, ou qualquer termo de uso já corrente ligado à tecnologia de informação – embora os franceses não abram mão de seus "souris" (em vez de mouse), "logiciel" (em vez de software), para não falar do próprio "ordinateur" (em vez de computer ou, concebivelmente, computeur).

Mas não é preciso ser patriota nem nacionalista para enxergar também o ridículo rastaqüera dos "sale", "delivery" e assemelhados que infestam o cotidiano da língua portuguesa no Brasil.

No jornalismo, o problema não são nem os estrangeirismos. São os maus tratos infligidos ao idioma, dia sim, o outro também. (Aliás, é de chorar o número de redatores que não sabem quando escrever "mau" e quando escrever "mal").

A mais recente praga que tem chamado a atenção deste leitor é o “sobre se”, como em: “…não há consenso sobre se economicamente vale a pena optar pelo cultivo…” (Estado de S.Paulo, 26/9, página A 14). Ou, melhor ainda, juntando três desastres reais numa imaginária frase única, “não há consenso sobre se vale a pena direcionar esforços para disponibilizar…”.

Quando se topa com esses horrores, o impulso é dar razão ao colunista, na sua conclusão: "Rebelo quer proteger o idioma. Tudo bem. Mas é inútil uma lei para isso. Bastaria o governo erradicar o analfabetismo e garantir escolas de qualidade. Aí, é claro, fica difícil".