Imprima esta página  Procure no arquivo

PAIXÃO & PRECONCEITO
Mídia esquece a mídia nos ataques de antraz

Alberto Dines

Se a máfia começar a invadir as redações italianas e sair atirando por aí, qual será a reaçãoda mídia internacional? E se um fotógrafo inglês for assassinado com uma flecha envenenada durante uma cobertura na África? E se os assistentes ou secretárias dos principais âncoras da TV brasileira receberem as sobras ou os estilhaços de atentados contra seus chefes?

Ao longo dos primeiros 27 dias de outubro 14 pessoas foram contaminadas nos EUA pelo bacilo do antraz. Destas, 9 trabalham na mídia ou estiveram casualmente em empresas de mídia (caso de um bebê, filho de uma produtora da rede ABC). Um deles, editor fotográfico, morreu. Os outros cinco contaminados (dois mortos) trabalhavam igualmente num meio de comunicação – os correios.

Coisas da vida, acidentes de trabalho ou ofensiva de intimidação e terror contra a mídia?

Para as entidades internacionais encarregadas de defender o exercício do jornalismo a estatística parece irrelevante. Para elas – inclusive a ONG Repórteres Sem Fronteiras – são coisas da vida. Ou melhor, coisas da mídia americana que precisa ser punida sabe-se lá por quê. Talvez porque no dia 11 de setembro as redes de TV não mostraram corpos em frangalhos ou porque recusa-se a exibir ao vivo mensagens de líderes terroristas.

Há exatos 50 dias assistimos a uma exibição sem precedentes de preconceitos. Sob o pretexto pueril de que o antiamericanismo é uma afirmação de identidade e, portanto, justificado, assistimos a um perigoso processo de relativização moral que começa na legitimação do terrorismo e termina na anestesia de qualquer movimento de solidariedade.

Se o ancora Dan Rather comportou-se como um senil, chorando durante uma entrevista televisiva, isto não significa que toda a mídia americana seja senil, incapaz de comportar-se com objetividade. Se George W. Bush é um primário, isto não significa que a sociedade americana seja, em si, primária. Ao contrário, ainda é extremamente sofisticada apesar do brutal nivelamento promovido pelos atentados terroristas. A melhor prova é o destaque dado aos "efeitos colaterais" dos estúpidos bombardeios no Afeganistão.

O preconceito contra o mais forte – ou aquele que dá a impressão de mais forte – não deixa de ser preconceito. O ataque bioterrorista dirigido à mídia americana é uma violência e uma chantagem contra a mídia livre – e a mídia americana ainda é mais livre do que a nossa. Com todo o retrocesso que tenha sofrido nas últimas semanas.

Os que não se importam com a contaminação de jornalistas pelo antraz já estão contaminados com coisa pior.



                         Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe