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NOTAS SOBRE NOTÍCIAS
Jornalista pode ter amigo?
Paulo Nogueira (*)
Notícias do Planalto – A imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti, traz, involuntariamente, uma questão de extrema atualidade para o jornalismo brasileiro: o jornalista pode ter amigo? Conti, ex-diretor de redação da Veja, declara, no livro, a amizade que o une a Roberto Marinho, o dono da Globo. Ele parece respeitar tanto esse amigo que se refere a ele, quando fala ou quando escreve, como "Doutor Roberto". Até os passeios proporcionados em Angra dos Reis por Roberto Marinho estão registrados por Conti.
Essa amizade teria nascido nos tempos em que Conti supervisionava a cobertura de televisão da revista. É admissível a um só tempo você editar noticiário de televisão e ser amigo de Roberto Marinho? Conti colocaria em risco uma amizade tão especial – e as vantagens vindas dela como os passeios em Angra e as oportunidades (jornalista também é gente) de alardear a intimidade com o "Doutor Roberto" – publicando notícias ou fazendo comentários que desagradassem Roberto Marinho? É possível que sim. Nesse caso, ele seria um mau amigo, e provavelmente seria suprimido da lista de amizades de Roberto Marinho. E também é possível que não. Nesse outro caso, ele seria um mau jornalista.
O fato é que o jornalismo moderno não admite essa dúvida. Cada vez que um jornalista sela uma amizade com alguém que faça parte do universo que ele cobre, a vítima é o leitor. É uma prova inescapável do atraso do jornalismo brasileiro que tantas figuras ilustres tenham amigos importantes nas áreas sobre as quais escrevem ou que editam. É um alpinismo social – feito sob vários pretextos hipocritamente grandiosos – cuja conta é sempre entregue ao leitor.
Nos Estados Unidos, onde se faz o melhor jornalismo do mundo, esse é um assunto velho. Não, jornalista não pode ter amigo. Grandes jornalistas do passado, como James Reston, são vistos em retrospectiva reserva por causa das amizades com poderosos. Era chique, para um jornalista americano, ser amigo de presidente e freqüentar, socialmente, a Casa Branca. Hoje é um impeditivo para o exercício do jornalismo. O editor de política do New York Times, por exemplo, simplesmente não pode ser amigo de Bill Clinton. Os leitores não tolerariam. Eles suspeitariam da isenção do noticiário e a credibilidade do NYT se transformaria rapidamente em ruínas. O suposto ganho editorial – eventuais notícias exclusivas do poder – é insignificante comparado aos danos de imagem e à suspeita da informação viciada e interessada. A frase definitiva é de Joe Pulitzer, o grande jornalista americano do começo do século: "Jornalista não tem amigo".
A cobertura generosa e entusiasmada (pelo menos no princípio) que Notícias do Planalto recebeu expõe um outro aspecto desprezível da questão que envolve os jornalistas e suas amizades. Trata-se de outro crime comum contra os leitores no Brasil: as chamadas ações entre amigos jornalistas. Muitos jornalistas brasileiros usam um espaço que deveria ser do interesse do leitor para promover seus amigos jornalistas.
Leviandades e vilanias
Já é um clássico: livros de jornalistas recebem aplausos imediatos de amigos jornalistas oportunamente vestidos de "críticos". O leitor – esse consumidor de notícias tão desrespeitado ainda no Brasil – não sabe que os aplausos são de amigo para amigo. Para citar outra vez os Estados Unidos, onde a ética jornalística está muito à frente do que se vê no Brasil: em revistas como a Newsweek, o leitor imediatamente é informado quando se resenha um livro escrito por alguém da casa. Sobre o texto, há a inscrição: "from our staff", da nossa equipe. Transparência, integridade.
Notícias do Planalto foi recebido com rojões pelos amigos de Mario Sergio Conti. O jornalista Elio Gaspari, por exemplo, escreveu um texto elogioso em sua coluna sobre o livro. Só não disse a seus leitores que, além de ser amigo de Conti, é tratado como um semideus no livro. (Como os donos das empresas jornalísticas, à exceção das quebradas.) A revista Época dedicou várias páginas de entusiasmado apoio ao livro. O que também não está dito é que o diretor de redação da Época, Augusto Nunes, é amigo de Conti. (Nunes foi tratado com benevolência e camaradagem no livro. Uma denúncia estrepitosa de suposta tentativa de suborno de que Nunes teria sido vítima é narrada – absurdo dos absurdos até para um foca – como verdade absoluta no livro de Conti.) Os jornalistas podem usar seu espaço para promover seus amigos jornalistas? Isso é eticamente aceitável?
O jornalismo brasileiro terá avançado muito quando se cristalizar entre os jornalistas a convicção de que o único amigo que podem ter é o leitor. A despeito de suas leviandades, vilanias e incontáveis demonstrações de mau jornalismo, Notícias do Planalto pode ter prestado uma contribuição milionária à imprensa brasileira ao trazer à cena – mesmo que involuntariamente, repito – a discussão vital sobre os jornalistas e suas amizades.
(*) Diretor de redação de Exame
O jogo e as regras do jogo
Carlos Alberto Furtado de Melo (*)
O polêmico livro de Mario Sergio Conti, Notícias do Planalto – A imprensa e Fernando Collor é, antes de tudo, muito bem-vindo ao mundo dos mortais que estão fora do cotidiano das redações e dos bastidores da política. Ao lado de Chatô – O rei do Brasil, de Fernando Morais, ajuda a entender a imprensa brasileira deste século como uma fonte privilegiada de poder. Notícias do Planalto revela e sistematiza fatos, personagens, dinâmicas empresariais e políticas, bastidores, conchavos, boatos e biografias que estão esparsas por dezenas de livros e publicações, ou simplesmente nunca foram escritas. Muito do que agora está no livro, estava, antes, no reino da "boca-pequena".
A existência do livro, escrito por quem o escreveu, independente da qualidade do trabalho, já seria por si só um fato de enorme relevância. Afinal, o livro foi aguardado com ansiedade, pois todos esperávamos pudesse revelar fatos obscuros e relações perigosas, que os jornalistas tanto recriminam como prática dos políticos, mas silenciam quando estão envolvidos colegas e patrões. Como o resultado final não frustrou essa expectativa – ainda que num grau menor do que se esperava –, a repercussão foi imediata. Vários jornalistas saíram em sua defesa, alguns em seu ataque, muitos o receberam com ceticismo, pouquíssimos com indiferença. As resenhas foram inúmeras. É possível que muito do que hoje se fala a seu respeito seja mais fruto da influência opinativa de vários "medalhões" do jornalismo do que de sua efetiva leitura e análise.
Mas, independente das críticas que recebeu – mais ou menos ferozes, mais ou menos condescendentes –, podemos dizer que, para aqueles que pesquisam a política brasileira e suas relações com a imprensa, nos últimos 50 anos, Noticiais do Planalto é uma mão na roda, um salto qualitativo, uma ajuda inestimável. Em suas 719 páginas, o pesquisador pode entender um pouco do processo que levou um jovem governador do Nordeste à vitória na primeira – e até aqui mais disputada – eleição presidencial da história do Brasil, pós-golpe militar de 1964. Do livro surge um Fernando Collor não só herdeiro de uma empresa de comunicação. Surge, principalmente, um agente político que – por sua experiência pessoal, como empresário e jornalista – reconhece a fundamental importância dos meios de comunicação, ao mesmo tempo em que conhece sua dinâmica, seus jogos, seus mitos, seus rituais e suas fragilidades. Collor constrói a imagem do "caçador de marajás", consolida sua candidatura à presidência da República e garante sua vitória eleitoral, dialeticamente: pautando e sendo pautado pela mídia.
O Collor que emerge de Notícias do Planalto pode ser entendido como um aventureiro, um ator político envolto de contradições e de limitações. Por paradoxal que possa parecer, podemos até atribuir ao ex-presidente um certo cosmopolitismo provinciano. Não podemos, no entanto, encará-lo como um sujeito boçal e incapaz de compreender o potencial de suas características políticas e adequá-las aos anseios da população mais simples (os "pés descalços") e aos interesses da elite. Por preconceito e ressentimento, muitos cientistas sociais não raro cometem esse erro de avaliação. Fernando Collor de Mello é uma figura política complexa, cujo reduzido mandato deixou e deixará muitas marcas na história do país. O livro, entre outros méritos, contribui para que se reconheça isto.
Munido de pesquisas e amparado em relações políticas e pessoais – com editores e repórteres –, o ex-presidente soube, em primeiro lugar, entender os anseios da mídia. Compreendeu o quanto os meios de comunicação influenciam e são influenciados pela sociedade. Collor soube, sobretudo, satisfazer repórteres e editores, sedentos pela manchete, famintos pela boa foto, apaixonados pela aventura, obcecados pelo espetáculo. Ironicamente, também soube como saciar essa fúria no processo que resultou no impeachment. [Embora não sendo o primeiro, o autor trata muito bem deste aspecto. Mas, a quem estiver especialmente interessado no assunto, recomenda-se o trabalho do professores Fernando Lattman-Weltman, José Alan Dias Carneiro e Plínio de Abreu, "A Imprensa faz e desfaz um presidente" – Editora Nova Fronteira, 1994, 166 páginas. Com outra metodologia e algumas diferenças de foco e objetivos, os pesquisadores do CPDoc da Fundação Getúlio Vargas, realizaram um trabalho esclarecedor a respeito da estratégia e da trajetória do chamado "fenômeno Collor".] Nenhum outro presidente da história recente seria tão irresponsavelmente arrojado a ponto de conclamar motoristas de táxi a ocuparem as ruas, de verde e amarelo, num momento em que a sociedade queria vê-lo, literalmente, pelas costas. Collor sabia que, caso os taxistas fossem mesmo às ruas, as imagens do Fantástico e as capas dos jornais da segunda-feira acabariam por despertar um clima de Copa do Mundo e esvaziariam o conteúdo político das críticas que lhe eram feitas na época. É verdade que a iniciativa resultou em um tiro no pé, mas que outro se arriscaria?
Os donos mandam e muito
Em algumas passagens, o livro desperta a impressão de que se está fazendo um ajuste de contas, de que se está conduzindo uma disputa entre grupos de jornalistas. Mas esse não é o tom marcante do livro. Chama também atenção, no trabalho de Mario Sergio Conti, sua disposição em não se deixar prender ao natural espírito de corpo – do conjunto da categoria – e revelar como e o quanto alguns de seus colegas agem movidos por interesses pessoais, políticos e até por militância. O que predominou foi o fato de que, em 1989, as redações e os proprietários estavam divididos na torcida e no apoio às diversas candidaturas. Se, nas redações muitos sonhavam com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, outros muitos queriam barrá-lo e agiam com esse objetivo.
Assim, Conti ajuda a combater um mito, quase tão antigo quanto Gutenberg, de que a imprensa é imparcial e está acima dos interesses políticos. De que o que importa é o interesse do leitor e a revelação da verdade, pura e límpida. O livro ajuda a matar essa agonizante visão romântica que, de certo modo, incorporou-se à ideologia jornalística brasileira.
Mais do que revelador, o livro é útil também por demonstrar o quanto e como mandam os proprietários dos meios de comunicação. Revela que os desejos e interesses desses senhores, no limite, não se dobram sequer às chamadas "exigências do mercado". São atores reais agindo em defesa de seus reais interesses. O melhor exemplo disso é a edição pelo Jornal Nacional do último debate entre Lula e Collor. Tudo foi montado e apresentado ao gosto e interesse de Roberto Marinho.
Outro exemplo, que parece ser de sinal trocado, também é revelador e merece ser destacado: Conti ressalta que quando Sílvio Santos lançou-se candidato à presidência da República o Jornal do SBT, comandado por Boris Casoy, não aliviou as críticas ao patrão. Podemos entender o episódio como um exemplo de independência jornalística. E talvez, realmente, o seja. Mas também pode ter sido, acima de tudo, uma jogada de mestre, pois se o que se pretendia era dar credibilidade (e portanto audiência e anunciantes) ao telejornal foi, de fato, o que se conseguiu.
Embora a narrativa de Conti seja de outra natureza e nem seja esse seu objetivo, Notícias do Planalto contribui para que se abandone essa bobagem de que "os donos" não apitam na redação – sendo eles, os proprietários, também subordinados ao "patrão supremo", que é o leitor. Os donos apitam, sim. Diante de seus interesses reais, o interesse do leitor é quase uma abstração.
Escavações e descobertas
Mas se exibir alguns dos interesses dos donos é um dos pontos fortes do livro, é também seu calcanhar-de-Aquiles. Não falemos a respeito do tom simpático e cortês com que os proprietários dos meios de comunicação são retratados, posto que é irrelevante para a nossa análise e deve, simplesmente, ser creditado ao estilo do autor. O melhor do livro não está, exatamente, escrito. Diz respeito a Roberto Marinho, Silvio Santos, João Saad, Roberto Civita, Domingo Azugaray, Octávio Frias de Oliveira, Nascimento Brito e Ruy e Júlio Mesquita, por um lado; e a Collor, PC Farias e ao império de comunicações que pretendiam criar, por outro lado. No período pesquisado, disputou-se um jogo que no livro está somente subentendido. Está nas entrelinhas.
O problema do livro é justamente este: sua maior riqueza é dissimulada, difícil de tocar. Está pulverizada pelas páginas do calhamaço.
Intencionais ou não, as entrelinhas estão repletas de dicas que se tornam preciosas para a pesquisa que há dois anos realizo no Programa de Estudos Pós-graduados da PUC-SP. O projeto de tese de doutoramento consiste em investigar em que medida as sabidas intenções de Fernando Collor e de seu tesoureiro (Paulo César Farias) em construir seu próprio império de comunicação incompatibilizaram o ex-presidente com o grupo de proprietários e melindraram suas relações com a imprensa. Nas entrelinhas de Conti, foi-me possível agir como um escavador.
Sabe-se que empresários, de estreitas relações com Collor, tentaram adquirir redes de televisão e jornais. Paulo Otávio, por exemplo, cogitou comprar a Rede Manchete; Hamilton Lucas de Oliveira efetivamente comprou a Manchete (desfazendo-se do negócio logo em seguida) e a TV Jovem Pan; José Carlos Martinez voltou seus negócios para a aquisição de emissoras de televisão com o auxílio direto de Paulo César Farias, que lhe entregou 8,4 milhões de dólares para compra da TV Corcovado – parte deste valor foi dado em cheques de contas fantasmas; o próprio PC, por repetidas vezes, tentou comprar o Jornal do Brasil, além de ter iniciado a construção de um grande parque gráfico em Alagoas (ponto da discórdia entre os irmãos Collor).
No livro, as intenções de PC Farias de se tornar um próspero e poderoso proprietário de um grupo de empresas de comunicação ficam mais do que patentes. São explícitas. Mas, ao contrário do que uma leitura desatenta poderia fazer supor, PC certamente não almejava a direção de um desses conglomerados apenas por vaidade, por orgulho de menino pobre que se fez na vida. Mesmo considerando todo o provincianismo e amadorismo do "collorato", parece mais do que provável que este fosse o caminho para que Collor e seu grupo pudessem viabilizar o projeto de permanecerem 20 anos no poder.
Várias frentes e vários desgastes
Ora, a entrada do grupo presidencial no campo das comunicações, ocupando lugar de destaque, poderia significar um estorvo para os planos da maioria dos grandes grupos já estabelecidos. É claro que um projeto como este não configuraria apenas mera disputa entre empresas concorrentes, no âmbito das relações do livre mercado. Além de informações privilegiadas, empréstimos oficiais subsidiados e verbas de publicidade, assim como toda a variedade de pressões e influências que o poder de Estado propicia, o grupo ocuparia posição privilegiada no tabuleiro das privatizações que ocorreram nos anos seguintes, já no governo de Fernando Henrique Cardoso. A privatização da Embratel e de todo o Sistema Telebrás, por exemplo, significou uma transferência patrimonial gigantesca que inspirava cuidados, fiscalizações e vetos múltiplos. Só hoje, já com a internet e a TV por assinatura em funcionamento no Brasil, é que podemos ter a dimensão dos interesses que em 1992 estavam em jogo.
Como é óbvio, esta é uma tese a ser comprovada pela pesquisa. No entanto, o livro dá mostras de como os proprietários se relacionam com o poder público e o que esperam dos governos. Há todo um sistema de troca de interesses entre a mídia e o poder. Conti narra vários episódios que evidenciam os códigos de conduta nesse meio. Todos querem o máximo de proximidade com o poder, mas sabem que o establishment (simbolizado pelas Organizações Globo) não permitirá que se ultrapassem certas barreiras. Foi assim no passado com Samuel Wainer, destruído pelo Roberto Marinho de então, Assis Chateaubriand. A movimentação de Roberto Marinho contra Sílvio Santos, quando este resolveu se candidatar à presidência da República, é um exemplo atualizado do código de conduta e das sanções por ele impostas. A decisão de transmitir ao vivo as sessões da CPI do PC foi tomada por um João Saad motivado pela vingança, uma vez que sua rede foi preterida numa das transações de José Carlos Martinez, em Santa Catarina. Além destes exemplos, frise-se que PC Farias tentava comprar o Jornal do Brasil, principal e mais tradicional concorrente de O Globo em sua praça de origem. Enquanto o Jornal Nacional se mantinha low profile, o jornal O Globo revelava uma série de irregularidades no governo.
Como todos sabemos, o ex-presidente não foi um cordeiro dado em sacrifício às elites. No poder, Collor abriu diversas frentes de batalha: enfrentou o Congresso Nacional, subjugou a produção cultural nacional, desmoralizou a indústria, atacou sindicatos e organizações sólidas da sociedade civil, envolveu-se com a corrupção e, no âmbito familiar, despertou ódios e rancores. Acabou sendo atacado de todos os flancos. Neste contexto de tantas aventuras, um dos fronts que mais contribuíram para seu desgaste e sua ruína foi a desastrada relação com as empresas de comunicação. Digamos que seus operadores enfiaram a mão em casa de marimbondos, sem se preparar para isto.
Collor, que tão bem soube entender a importância política dos meios de comunicação, não compreendeu suas relações de poder. Por ser presidente, achou-se rei e quis ser mais realista do que realmente era. É simbólico que um de seus primeiros atos de força e de audácia tenha sido justamente a invasão da Folha de S.Paulo. Outro tiro no pé, pois se esperava acuar o jornal conseguiu despertar reação oposta. Ao contrário de vários jornais, que a princípio apoiavam e bajulavam o governo, a Folha de S.Paulo foi desde de sempre seu maior opositor.
Coincidências não acontecem
Os meios de comunicação não só retrataram a desventura de Collor, como também apressaram o ocaso de seu governo, pois tinham interesse nisso. É verdade que, em grande medida, isto ocorreu pelos erros do presidente e mesmo pelas vicissitudes do processo histórico. A briga entre os irmãos Collor é algo que não estava sob o controle de ninguém. Mas é um erro acreditar que o acirramento e o descontrole da crise tenha se dado apenas de modo fortuito e inevitável.
A este respeito, há uma passagem do livro difícil de engolir. Mencionando a série de TV Anos Rebeldes, exibida pela Rede Globo à época da CPI do PC, Conti aponta a ironia de a mesma emissora que favoreceu Collor na edição do debate com Lula ter contribuído com sua queda a partir da mininovela. De fato, pode-se dizer que, vá lá, é irônico. Não haveria discordância, se o autor não tentasse fazer acreditar que a série foi exibida a contragosto do alto comando da Rede Globo, que não poderia prever a repercussão da novela e sua influência no movimento de jovens "caras-pintadas". Será que a direção da emissora não tem consciência do poder de suas novelas? Será que seus estrategistas não avaliaram o impacto da minissérie? Parece-me pouco provável que a história tenha conspirado sozinha.
O jogo tem regras
Estivesse fechado com a mídia, talvez houvesse condições de contornar as brigas e a indisposição do Congresso. Collor não soube consolidar sua hegemonia no ambiente que lhe era mais caro: os meios de comunicação. Não soube estabelecer um pacto de confiança e apoio, como fez o presidente Fernando Henrique, que atravessou momentos de crise e de denúncias também extremamente graves. Embora se reconheça que as denúncias de irregularidades do governo FHC sejam de outra natureza, como de outra qualidade é a coalizão que lhe dá sustentação política.
Contudo, o que se procura afirmar – e o livro de Conti, ainda que de forma oblíqua, colabora para isto – é que entre os diversos focos de disputa de Collor estavam os grandes monopólios de comunicação do país. E neste sentido, mesmo que os proprietários não tenham conspirado abertamente pela queda do presidente – como aconteceu com João Goulart, que tinha no Última Hora, de Samuel Wainer, seu braço de comunicação –, é possível que, pelo menos, não tenham empregado muitos esforços em protegê-lo, como costumeiramente fazem com qualquer presidente.
Enfim, muito se aprende com Notícias do Planalto, principalmente com suas entrelinhas. Como já se disse, não se sabe se o autor o fez de maneira proposital ou de caso pensado. De qualquer forma, do livro retira-se a permissão para uma afirmação fundamental: o jogo tem regras. As regras são fluidas e impostas de cima para baixo. Os governantes precisam saber quem está em cima e quem está embaixo. A arrogância às vezes impede que se raciocine assim, e portanto que se mude a realidade. Quem não souber disto tende a trocar os pés pelas mãos e agir de modo atabalhoado, como um macaco em loja de cristais.
No que tange à relação mídia e poder, o verdadeiro poder não está onde quer fazer parecer.
(*) Mestre e doutorando em Ciência Política pela PUC-SP; membro do Neamp – Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de Pós-Graduação da PUC-SP
República das Alagoas
e a monarquia da imprensa
Carlos Alberto de Salles (*)
O livro Notícias do Planalto desenvolve-se entre dois pólos de poder. O da chamada República das Alagoas, representada por Collor e seus comparsas, e o da Monarquia da Imprensa, da qual as famílias detentoras dos meios de comunicação no país são as nobres integrantes. Em relação à primeira ele é taxativo e direto, não esconde qualquer de suas mazelas. No que toca à segunda, é reverente e, como fruto de um bom súdito, a poupa de qualquer crítica.
O grande mérito de Mario Sergio Conti é o de ter reunido, em uma única narrativa, uma série de informações lançadas pela mídia, de forma fragmentada, durante a ascensão e queda de Fernando Collor. O cidadão comum tomou conhecimento dos fatos por uma ou no máximo duas fontes noticiosas, se tanto. Como os fatos ocorreram de forma gradativa, com a participação de vários atores, a visão de conjunto foi privilégio de um punhado de jornalistas envolvidos com a cobertura das eleições e do governo. Faltava mesmo juntar ordenadamente os vários fatos e as várias fontes jornalísticas.
Nesse ponto o livro propriamente não inovou. Embora dispersas, as informações estavam disponíveis, já haviam sido passadas e repassadas. A narrativa de Conti tem, a esse propósito, um significado retrospectivo e sua originalidade está mais na iniciativa de recolher todo o material existente do que propriamente na qualidade das informações fornecidas. Alguma novidade diz respeito mais à maneira como se deu o fato que propriamente quanto ao fato em si. É o caso da influência de Roberto Marinho na Presidência de Sarney (p. 162/163).
Posição indefinida
Sob essa perspectiva, o trabalho de Mario Sergio Conti vale mais como descrição do que como análise. Vale pelo trabalho de ordenar, dentro de uma linha de sentido, vários fatos dispersos, noticiados de maneira esparsa pela mídia. Nesse trabalho o autor não partiu propriamente de uma tese, de uma explicação generalizante sobre o papel da imprensa nos eventos que descreve. Sua narrativa organiza-se de modo muito mais cronológico do que propriamente explicativo. Afinal, a simples percepção de que Collor chegou ao poder nos braços da imprensa e que por ela, depois, foi empurrado ladeira abaixo, não explica nada, é mera constatação, um senso comum. Não é no caráter analítico que reside a contribuição do livro.
Onde o Notícias do Planalto inova é na narrativa sobre a própria imprensa, descrevendo os vários personagens, sua contribuição para a apuração ou divulgação de um determinado fato. A parte mais quente, sob esse aspecto, é relacionada ao processo responsável pelo afastamento do presidente. A imprensa viveu uma espécie de corrida aos fatos. Cada matéria, desvendando um determinado fato, desencadeava novas iniciativas para superar o concorrente. O mercado impulsionou o jornalismo investigativo.
Ocorre que, no tocante a essa parte inovadora do livro, o autor também não tem grande preocupação analítica, contentando-se, mais uma vez, com um trabalho expositivo. Nesse afã, ocupa-se em descrever não apenas o trabalho dos profissionais envolvidos, mas traça um breve histórico dos órgãos de imprensa. Aqui também não reside uma tentativa de explicação por parte do autor. Não há uma posição definida sobre a influência do jornalista ou da empresa de comunicação em uma determinada matéria, mesmo nos casos concretos essa relação não é explicitada de maneira clara.
A modéstia não justifica
Se com a monarquia de nossa imprensa Conti sempre foi reverente, o mesmo não se pode dizer em relação aos jornalistas. Valorizou alguns e, certamente, esqueceu de outros, apontou dúvidas e até mesmo tentativas de suborno (vide p. 580/581). Mais do que isso, poupou os "donos da imprensa", muitas vezes atribuindo responsabilidades a subalternos. Revelou fontes de colegas e não apontou suas próprias referências. Com isso, o autor parece ter aberto uma caixa de pandora na imprensa brasileira, gerando as mais iradas reações e talvez justas (vide os artigos sobre o livro reunidos na última edição deste Observatório da Imprensa) [veja remissões abaixo]. Sem dúvida, alguns pecados tiram da obra muito de seu brilho e outros, de tão gritantes, levam o leitor a desconfiar da sinceridade do autor.
A esse propósito, a própria colocação do narrador em relação aos fatos impressiona – buscando, de maneira exagerada, uma impessoalidade impossível de ser alcançada. Tudo bem que o objetivo do autor não fosse propriamente analítico, mas como narrador participante – e na condição de redator-chefe de Veja ele foi participante – fica difícil não dar um posicionamento pessoal sobre os fatos mais importantes. O resultado e que as conclusões a que o livro chega acabam sendo dadas por via transversa, reproduzidas nas razões dos próprios envolvidos, em especial pela vozes autorizadas das empresas jornalísticas.
Interessante que, embora o autor se preocupe em apresentar ao leitor os vários jornalistas envolvidos com os diversos fatos narrados, ele mesmo entra e sai de cena por meio de uns poucos pronomes. Da leitura do livro, não se sabe ao certo de onde e para que veio. Para o leitor, resta a dúvida. Será que a modéstia justifica tal omissão? Certamente não.
Debate, versão implausível
A edição do debate que antecedeu ao segundo turno da eleição de 1989, ponto de maior polêmica trazido pelo livro, é também o mais significativo da falência da impessoalidade buscada pelo autor. Mesmo sem saber nada sobre os fatos em discussão, qualquer leitor com dois neurônios em funcionamento seria capaz de perceber que não existe consistência entre os fatos narrados e a conclusão de que o trabalho foi resultado do trabalho do baixo e médio escalão da Globo.
A primeira premissa colocada em questão é a de que Roberto Marinho, desde a criação de seu império jornalístico, sempre deu um caráter pessoal à administração de suas empresas. Estava presente, reunia-se, discutia e indicava o rumo que deveria ser tomado nas situações importantes. O livro descreve com muita clareza seu estilo empresarial. O segundo ponto conclusivo diz respeito à mudança na edição do debate preparada para o Jornal Hoje, do meio-dia, e que foi ao ar no Jornal Nacional, em horário nobre. Entre um e outro telejornal, veio a voz do chefe. Marinho ligou para a redação e reclamou que a edição não espelhava o resultado do debate, no qual Collor tinha se saído melhor.
Ora, a ordem do chefe estava bem clara: "Não é assim que eu quero, tratem de mudar isso". Pouco importa quem efetivamente pôs a mão na massa, o comando foi efetivamente dado. Aqui, mais uma vez, a narrativa cai na armadilha da impessoalidade. Como o narrador evita apresentar-se opinar abertamente, sua posição confunde-se com a dos atores envolvidos e acaba passando a "versão oficial", sem qualquer escrutínio ou reflexão de sua parte. Como ele é "impessoal" ele não reflete, não se posiciona, apenas repassa sua versão favorita, não obstante implausível.
Pouco a extrair
Esse tipo de posicionamento, aliás, é bastante condizente com o tratamento dado por Conti ao segundo pólo de poder perante o qual se desenvolve a narrativa. A esse propósito, no dizer de Paulo Moreira Leite, "o livro assume uma postura rastejante quando fala dos proprietários dos meios de comunicação, um servilismo que envergonha as relações trabalhistas depois da Lei Áurea" ("Uma comédia surrealista", Folha de S.Paulo, caderno Mais!, 26/11/99). De fato, a narrativa é tão submissa à nobiliarquia da imprensa nacional que, nesse aspecto, chega a lembrar o tom serviçal da carta de Pero Vaz de Caminha.
A forma glamourosa pela qual são mostradas as famílias donas da imprensa no Brasil encobre uma situação que, vista com olhos críticos, apenas depõe contra a estrutura de comunicação no país, permitindo antever sua fragilidade e dependência em relação ao Estado. A descrição das várias linhagens hereditárias, de Marinhos, Mesquitas, Frias, Saads e Britos beira o encantamento. Não fala mal de ninguém, nem mesmo da estrutura de poder subjacente, e brinda com entusiasmo o talento (nem sempre evidente) dos bem nascidos. Mesmo para Otavio Frias Filho, cujo retrato passado ao leitor é de um jovem taciturno, consumido por inseguranças vocacionais e amendrontado nas situações difíceis (como no caso do processo e na invasão da Folha), arrumou um sorriso que "agrada às mulheres" como forma de compensação.
Dessa maneira, relativamente ao trabalho da imprensa, campo no qual o livro poderia ter trazido a contribuição verdadeiramente inovadora, muito pouco se pode extrair. Na verdade Conti "presta-se ao serviço de escrever a história para seus patrões passados e futuros", como afirmou Mino Carta (no editoial "De Seatlle ao Planalto", Carta Capital nº 113, 22/12/99).
A traição dos fatos
A monarquia da imprensa vigente na mídia brasileira e descrita sem restrições no Notícias do Planalto não pode ser vista como outra coisa senão sinônimo de atraso. Ela traduz a incapacidade de as empresas do setor se estruturarem de maneira profissional e independente, aprisionadas a um patriarca ou a um sobrenome capaz de abrir as portas dos poderosos.
A situação atual é a herança de uma longa promiscuidade entre imprensa e Estado. Curiosamente, embora o livro não diga claramente, traz elementos suficientes para que se possa perceber que a sobrevivência e expansão das empresas de comunicação dependeu (e depende) de financiamentos estatais privilegiados, contas de publicidade manipuladas e da concessão espúria de canais de rádio e televisão.
Enfim, o livro de Mario Sergio Conti vale mais pelas questões que levanta do que por aquelas que responde. Aliás, em relação a essas últimas os próprios fatos por ele descritos traem algumas de suas conclusões. Nisso reside a importância do livro: trazer subsídios para a discussão, gerar polêmica, abrir o debate. Entre as várias questões deixadas em aberto, está a de saber como construir uma imprensa verdadeiramente livre e independente, estruturada de maneira a respeitar o caráter público de sua função, dentro de um regime de mercado, fundado na iniciativa privada e na verdadeira concorrência entre os agentes.
(*) Mestre e doutor em Direito pela USP, promotor de Justiça em São Paulo, professor da Universidade Ibirapuera e do mestrado da Universidade Católica de Santos
Fatos e intrigas (*)
Carlos Pompe
Foi lançado no final do ano passado o livro Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor (Cia. das Letras), de Mario Sergio Conti. O autor foi diretor do semanário Veja durante o governo de Fernando Collor de Mello. A Editora Abril, que publica Veja, lhe deu licença remunerada desde o final de 1997 para escrever o livro. Talvez por isso, foi acusado de estar a serviço de uma guerra entre grupos profissionais rivais. Em 1992 Conti foi o primeiro brasileiro a receber da World Press Review, dos Estados Unidos, o título de Editor do Ano.
Jornalistas que critica, criticaram o livro. Jornalistas que elogia, consideraram a obra um divisor de águas na avaliação da imprensa brasileira. Os empresários do setor evitaram avaliar o livro, optando por referir-se aos "avanços" que detectam nos meios de comunicação brasileiros. A exceção foi a Gazeta Mercantil, que publicou editorial na primeira página do jornal para rebater acusações de suborno contra um de seus diretores.
Conti, por seu lado, evitou atritos com os empresários. Chegou mesmo a isentá-los de responsabilidade no apoio rasgado ao adversário de Lula nas eleições de 89. Para ele, como disse em entrevista, "Collor se fez em função de jornalistas, não de patrões". Seu livro, contudo, relata inúmeros casos no mínimo comprometedores das relações entre os políticos da elite dominante e os empresários dos meios de comunicação. Mesmo assim, o autor confessa: "Espero não ter fechado nenhuma porta, porque ainda sou jornalista e quero continuar sendo".
Notícias do Planalto apresenta as relações dos grandes meios de comunicação com o governo Collor; conta episódios da história de veículos tradicionais, como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e as redes de televisão; apresenta pequenas biografias de empresários e profissionais de comunicação e tem por pano de fundo o enfrentamento entre os setores populares e as elites governantes à época da formação da Frente Brasil Popular. Os partidos políticos, contudo, são secundários na abordagem dada pelo livro aos fatos que levaram à eleição e depois à queda de Fernando Collor. Mario Sergio Conti entrevistou 141 pessoas, realizou pesquisas e apresenta 1.200 personagens nas 719 páginas de Notícias do Planalto.
Observa, por exemplo: "No jornalismo brasileiro há famílias e filiações. Nas empresas, as famílias são estabelecidas com solidez e, se há mais de um herdeiro, podem entrar em crise na passagem do mando de uma geração para outra. Nas redações, as famílias e filiações estão sempre mudando. Os laços se criam e se dissolvem ao sabor das coberturas, que fazem deslanchar e brecam carreiras, firmando linhagens ao longo do tempo".
Esse mesmo aspecto foi abordado com mais contundência por Samuel Wainer, no seu livro Minha razão de viver, quando escreveu que O Estado de S.Paulo, "por exemplo, reflete os humores, indiossincrasias, valores e preconceitos dos Mesquita. A Folha de S.Paulo é a família Frias, O Globo é Roberto Marinho, o Jornal do Brasil é a família Nascimento Brito. (...) Trata-se, por sinal, de uma distorção que ocorre com mais freqüência e nitidez nos países sem tradição de partidos fortes. (...) Por trás da aparente independência que ostentam, já que não são ligados a partidos, os jornais são o que seus donos desejam que sejam".
Interessante também o tratamento de Conti à presença da televisão nas disputas pelo voto, remetendo ao primeiro debate entre John Kennedy e Richard Nixon, em 26 de setembro de 1960, quando disputavam a presidência dos Estados Unidos: "De 1960 em diante, os candidatos presidenciais americanos se esforçaram em ser telegêncios: políticos com uma boa performance televisiva. Aparência, idade, apresentação, articulação verbal, roupas, gestos, rapidez de raciocínio, postura, beleza e desenvoltura ante as câmeras ganharam relevância nas campanhas eleitorais". Conti lembra que, em 1989, "O Estado de S.Paulo, O Globo, Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil tinham uma tiragem somada de menos de 1 milhão de exemplares diários – pouco mais de 1% dos brasileiros em condições de votar. Já a televisão chegava a praticamente todos os 82 milhões de eleitores"...
Conselhos úteis
Sabendo disso, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então o principal dirigente da Rede Globo de Televisão, sugeriu a Collor que, para enfrentar Lula no último encontro televisivo, "desse uma volta pelo estúdio antes de começar o debate, para aquecer, soltar o corpo e ficar um pouco suado. Para parecer que estivera envolvido em alguma atividade, e não descansando. Tinha de controlar sua loquacidade, esforçando-se para falar devagar. Precisava enfatizar os pontos principais de sua fala, com expressões faciais e gestos com a mão. (...) Boni aconselhou o candidato a levar várias pastas ao último debate, o que não havia feito no primeiro. Com as pastas, daria a entender não só que dominava vários assuntos, mas que numa delas poderia haver novas denúncias contra Lula. Dessa maneira, atemorizaria o adversário. Por fim, o vice-presidente da Globo recomendou que Collor não proferisse o nome de Lula. Que usasse uma expressão neutra: ‘o outro candidato’".
O livro revela algo, também, da disputa entre os meios de comunicação – um visando derrubar, destruir o outro, apesar da fraseologia sobre "ética" sempre usada nos editoriais. Assim, ficamos sabendo que anunciantes contaram ao dono do Jornal do Brasil que o jornal O Globo "concedia descontos formidáveis, desde que não colocassem propaganda no JB". Ou então, que os donos de bancas de revistas eram ameaçados pela Editora Abril: "se vendessem as revistas da (Editora) Três, não receberiam as da Abril". A informação privilegiada é outra fonte de bons negócios para os empresários das comunicações: "Quando Delfim Netto era ministro da Agricultura, no governo Figueiredo, Ruy Mesquita (dono do Estado de S. Paulo) o encontrou numa festa de casamento. Delfim disse ao jornalista que se ele estivesse no lugar de Mário Henrique Simonsen, o ministro da Fazenda, promoveria uma maxidesvalorização da moeda nacional em relação ao dólar. Quando Delfim assumiu a Fazenda, o Grupo Estado investiu no dólar e veio a maxidesvalorização. Com a venda das ações e a máxi, a empresa pôde saldar sua dívida com o Banco de Boston".
A leitura de Notícias do Planalto evidencia a relação incestuosa entre os grandes meios de comunicação, as grandes empresas e as elites governantes. O livro mostra um flagrante do Estado como um gestor dos interesses da grande burguesia, em detrimento da nação. Essa relação era anterior à ascensão de Collor e manteve-se após a sua derrubada.
Não é por acaso que o governo de Fernando Henrique Cardoso goza do apoio unânime dos grandes meios de comunicação.
(*) Copyright A Classe Operária (20/1/00) http://www.pcdob.org.br/classe184/dois.htm
CARTAS
Collor & Roberto Marinho
Ao ler críticas, comentários e resenhas sobre o livro Notícias do Planalto, não encontrei em nenhuma delas algum comentário sobre a expiação dos pecados de Fernando Collor e Roberto Marinho. A impressão que tive ao terminar o livro foi que Mario Sergio Conti deu-lhes a absolvição: ao primeiro, por ignorância em escolher assessores tão desonestos e maldosos, e ao segundo, por omissão, ao confiar em que seu preceitos seriam obedecidos por funcionários tão diligentes e astutos.
Faltou um aprofundamento analítico maior a este livro – que não deixa de ser um marco na literatura jornalística nacional – mas deixou a desejar no momento de tocar a ferida. Sabemos que os funcionários são os espelhos de seus chefes, bem como os assessores, e não é possível que tanto Collor quanto Marinho desconhecessem o que acontecia debaixo de seus narizes.
Também faltou detalhar um pouco mais as verbas destinadas a cada veículo. Isso é fundamental para se conhecer o grau de independência da mídia. Não bastou mostrar a tentativa de suborno a Augusto Nunes, faltou dizer quantos milhões de dólares foram para os grandes veículos a cada conversa que eles mantinham com Cláudio Vieira, ou quando este sorteava a quem seriam destinadas as verbas oficiais.
Por falar nisso, não vi muito destaque ser dado aos US$ 500 milhões que o governo pretende gastar em propaganda. Mais que em qualquer outra área. Não estaríamos entrando novamente na mesma roda que entronizou Collor, amenizando as atitudes imprudentes do governo federal? Será que só Paulo Henrique Amorim sabe do livro sobre a imprensa e FHC que está sendo produzido nos EUA?
João Augusto Moliani
Abaixo a conciliação
Não pertenço à nobre casta dos jornalistas, esses que estão sempre tão perto de Deus. Alguns, inclusive, conversando diariamente com o próprio. Quanto ao livro do prezado Mario Sergio, gostaria de fazer apenas uma pergunta: Como alguém pode escrever um livro de "crítica ao jornalismo e aos jornalistas", trabalhando para a Globo? Onde fica a isenção?
Não li, não vou ler e não gostei. A primeira reunião do Dr. Roberto com Collor aconteceu secretamente às 2h (saiu uma pequena nota na FSP). Não precisava ser gênio para adivinhar que tinha alguma "coisa". Ninguém, honesto, encontra outro honesto às 2h.
Como sou radical, acredito que este país só vai melhorar quando enforcar o último banqueiro nas tripas do último dono de grande jornal. Chega, tô cansado de conciliação, eu quero é guerra. Avança, Brasil!
Juão T. Rex
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Lições da indústria tabagista
Spacca
Sou bastante desinformado em relação a esportes. Não assisto, não torço, e quando me obrigavam a jogar futebol nas aulas de educação física na escola acabava sempre no gol, e minhas tentativas de deter a bola renderam o apelido de "authomatic lover" –, referência a um robô de um clip de música disco (apud Dance, Dance, Dance volume 1 – RGE/Fermata 1978).
Mas, de vez em quando sou solicitado a chargear esportistas, e procuro compensar minha desinformação com alguma pesquisa. Há alguns dias, tive que desenhar o Senna, com carro e tudo.
As fotos que encontrei em revistas eram as do acidente fatal, com o carro azul da Williams. Algo me dizia que aquele não era o carro mais emblemático. Na internet há um milhão de fotos do Senna à disposição, como escolher o carro certo? Perguntei ao meu cliente qual era "o carro do Senna", aquele que todos guardam na memória. E ele, na ponta da língua: "Era uma McLaren com as cores do Marlboro."
Claro, vermelho e branco.
O Senna era um dos nossos heróis. Dois ícones brasileiros de fama internacional ceifados pela Magra num mesmo ano. O outro foi Tom Jobim. Não é curioso, um mito do esporte associado a uma marca de cigarro? Sei lá se Senna fumava ou não.
Noto apenas que a imagem dele está ligada para sempre ao carro que tinha as cores e o desenho do Marlboro.
Estilo de vida
Soube que no Canadá um projeto de lei prevê a inclusão de fotos de órgãos com câncer nas embalagens de cigarro (Folha de S.Paulo, 21/1/2000). Discute-se se a medida é legal, se fere os direitos dos fabricantes, e se seria eficaz. Há também campanhas antifumo do governo canadense que apresentam um cigarro curvado para baixo, uma alusão aos efeitos do cigarro sobre a sexualidade masculina.
Um dos defensores da idéia lembra que as propagandas de cigarro sempre procuram associar o produto ao esporte e à virilidade. Elas não dizem explicitamente: "Eu levo uma vida excitante e saudável porque fumo Marlboro", mas a associação de idéias resultaria numa mensagem assim, num nível subconsciente.
Talvez o discurso implícito dessas propagandas seja outro, não de causa e efeito, mas de afirmação de um estilo de vida: "Gosto de viver intensamente o presente, aproveitar tudo o que a vida me dá, por isso estou aqui escalando esta montanha ou andando de jet-ski, emoções a mil... e não abro mão deste prazer" (close no maço de cigarro).
Discurso seco
O lado saudável do esporte se mistura ao perigo. Gente jovem, bonita, corpo bronzeado e em forma, se divertindo e fazendo coisas arriscadas, parece estar vivendo mais do que os covardes que preferem evitar um câncer na boca ou nos pulmões.
A contra-propaganda tabagista não chega nem aos pés da sofisticação da propaganda de cigarro, bebida e outras químicas. Ruy Castro volta e meia condena o culto aos ídolos musicais que fazem apologia das drogas. Mas querem propaganda mais eficaz do álcool e do cigarro do que o charme atemporal de Humphrey Bogart, que não era Bogart sem o cigarro pendente dos lábios e as três doses de uísque que o punham à frente da humanidade?
Contra o fumo, estampa-se nos maços a mensagem direta, racional do Ministério da Saúde, falando o que todo fumante sempre soube. É como se dissessem: "O governo quer que você não fume." Dá até vontade de fazer o contrário. Não é por aí. Não se combate a fantasia, a imagem poderosa que vincula o vício a uma vida acima do medíocre, com esse discurso seco, chamando de volta à realidade.
O sorriso do mendigo
As fotos explícitas canadenses seguem esse caminho. Duvido que funcionem. Primeiro, porque os jovens estão bastante familiarizados com imagens horríveis de filmes de terror. É capaz de virar mania, de a molecada querer colecionar. Depois, a superexposição pode banalizar o horror do câncer. Talvez desse mais certo associar o cigarro a coisas chatas e banais. Ao trabalho, por exemplo. Mostrar um cara fumando sem glamour nenhum, curvado, tenso, diante do micro. Não precisa nem tossir. Ele pode bater as cinzas dentro de uma xícara de café pela metade, aquele restinho já morno que ninguém toma. A banalidade da cena poderia ser reforçada pelo contraste com uma música típica de comercial de cigarro, meio James Bond.
Ou uma seqüência de adolescentes fumando na porta do colégio. Mas todos eles bem feios e tentando fazer uma pose bem glamourosa. Um magrelo cheio de espinhas soltando fumaça em rodinhas. Uma gorducha faz uma cara de vamp enquanto segura a tosse. Um garoto mais novo, com cara de nerd, observa com inveja aqueles "adultos".
Outro cara está no ponto de ônibus. Deixa os outros passageiros entrar, para dar mais uma tragada no cigarro. É o último a entrar, joga meio cigarro no chão, e um mendigo cata a bituca gorda e espeta num palito. Puxa o ar e o cigarro volta a acender. Ele dá um sorriso de satisfação.
"Tô só fumando, mãe"
Assim como a propaganda de cigarro não diz diretamente "fume", a antipropaganda não deveria dizer diretamente "não fume". Pelo contrário: deve mostrar que todos são livres para fumar ou não. E que fumar não tem nada de especial. Aí talvez se esvazie o conteúdo simbólico que transforma o fumo e outras drogas em atitude proibida, audaciosa, auto-afirmativa. Coisa de gente que vive a mil: Bogart, Joplin, Hendrix, Morrison, Raul Seixas, Cazuza, Senna.
Para terminar, um roteiro definitivo. Cedo os direitos aos Ministérios da Saúde e da Educação: um jovem com cara suspeita passa pela porta da sala, os pais estão vendo TV. Entra no banheiro e tranca a porta. Tira da camisa um maço de cigarro e um livro. Começa a ler e a fumar. Vêm imagens de intelectuais e escritores fumando – Freud, Sartre, Nelson Rodrigues. Ele faz uma expressão profunda, de pensador, contemplando suas próprias baforadas num êxtase. De repente, a mãe bate na porta: "Vítor, lendo no banheiro de novo?!" e o garoto, assustado: "Não, mãe, tô só fumando!"
Das duas, uma: ou este filme motiva o estudo, ligando este ao prazer e ao glamour de fumar, ou erradica definitivamente o tabagismo, associando-o a esse hábito socialmente condenável de ler e pensar.
DEVER DE OFÍCIO
Reflexões sobre a verdade
Isak Bejzman
A um rio que tudo destrói, chamam de violento;
Mas ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam. [Bertold Brecht]
O melhor texto sobre a verdade que li chama-se Cinco maneiras de dizer a verdade, escrito por Bertold Brecht e traduzido por Florian Gayer. Brecht o escreveu em 1934, para ser divulgado na Alemanha hitlerista, e foi publicado ilegalmente em Paris, na revista Nosso Tempo, pela União dos Escritores Alemães.
Para Brecht, as cinco maneiras de dizer a verdade consistiam, na realidade, em cinco dificuldades em escrever a verdade. "Quem, nos dias de hoje, quiser lutar contra a mentira e a ignorância e escrever a verdade tem de superar, ao menos, cinco dificuldades: deve ter coragem de escrever a verdade, embora ela se encontre escamoteada em toda parte; deve ter inteligência para reconhecê-la, embora ela se mostre permanentemente disfarçada; deve entender da arte de manejá-la como arma; deve ter a capacidade de escolher em que mãos será eficiente; deve ter a astúcia de divulgá-la entre os escolhidos. Estas dificuldades são grandes para os escritores que vivem sob o fascismo, mas existem também para aqueles que fugiram e se exilaram. E mesmo para aqueles que escrevem em países de liberdade burguesa."
O tema permanece válido. É pressuposto básico de que todo jornalista tem por dever de ofício se defrontar com estas cinco dificuldades no trato da verdade. Seu trabalho será avaliado segundo a maneira como as maneja. Infelizmente, o que se vê na imprensa nacional é que a maioria dos profissionais acredita que a verdade não será eficiente em mãos do povo, e a divulgam só para um grupo de escolhidos.
Walter Lippmann, o decano do jornalismo americano, criou a expressão "manufacturing consent" (construindo o consenso). Baseado no trabalho de Freud intitulado Psicologia das Massas, em que criou a figura antropológica da horda primitiva – segundo a qual as massas humanas sofrem um processo de modificação psicológica que as leva a regredir e funcionar irracionalmente –, Lippmann defendia a idéia de que numa sociedade democrática não se pode controlar o povo pela força. Mas, de alguma maneira, seria preciso controlar o que o povo pensa. Sua idéia básica era: a voz do povo pode ser escutada, portanto deve-se controlar o que o povo vai dizer, pois sendo as massas uma horda primitiva, a maneira de nos proteger de sua irracionalidade é construir o consenso.
O líder moralista americano Reinhold Niebhur, também chamado o "teólogo do establishment", acrescentou à teoria de Lippmann a idéia "necessary ilusions" (ilusões necessárias), explicando que uma massa popular ou horda primitiva agindo irracionalmente é incapaz de pensamentos racionais. "A racionalidade pertence aos observadores frios; portanto, o que devemos fazer é incrementar as assim chamadas ilusões necessárias e facilitar para o povo potentes simplificações emocionais, de tal maneira que o povo, as tendo, não se meterá em complicações."
Ignorância e submissão
Qual é a idéia básica de tudo isso? Que o povo não produz saber, coisa que Paulo Freire desmistificou e os trabalhadores em Educação Popular em Saúde pelo Brasil afora, também. Enquanto para Niebhur é imoral o povo se imiscuir em problemas públicos, o povo gaúcho foi capaz de, com o Orçamento Participativo, promovido pelo governo do estado e os deputados da Assembléia Legislativa, participar plenamente da organização orçamentária. No Brasil, não existe uma simplificação emocional maior do que a produzida pelo futebol. Esse esporte é carregado de tal conteúdo agressivo (basta escutar uma transmissão) e irracional que substitui o estouro de massas, e as elites que comandam o país continuam à vontade.
Noam Chomsky defende a tese de que atualmente os jornais americanos deveriam ser distribuídos gratuitamente. São vendidos por pura vergonha de não cobrar, pois de maneira alguma as edições são custeadas pelo que o leitor paga. Para Chomsky, o grande produto do jornal é o leitor. Eu mesmo vivenciei um experiência interessante com o New York Times. Eu pagava 45 dólares mensais para poder acessar o jornal na web. Decidi cancelar e, no dia seguinte, recebi a oferta de acesso gratuito. O que isso significa? É que os jornais americanos – e também os brasileiros, por que não? – aderiram ao "propaganda model" (modelo propaganda), simplesmente o exercício do poder pelo poder econômico. Em 1945, George Orwell escreveu uma novela intitulada Animal Farm ("A revolução dos bichos", na tradução brasileira), que teve um estrondoso sucesso ao desancar o totalitarismo da URSS. O texto que ele redigiu à guisa de introdução não foi publicado, e só apareceu 30 anos depois, encontrado por alguém entre seus papéis. O texto tratava da censura literária na Inglaterra, um país democrático onde, ele dizia, as coisas não eram diferentes. Orwell afirmou que os inglese não tinham a KGB fungando suas nucas, mas as conseqüências eram as mesmas: na Inglaterra, pessoas que tinham idéias independentes e diferentes das do establishment eram marginalizadas.
Não sei como é no resto do Brasil, mas aqui por essas plagas basta criticar um jornalista para ele abrir o berro, estufar o peito e dizer em tom bem alto e arrogante: a mim ninguém diz o que escrever.
Está certo Chomsky: a audiência, o leitor é que constitui o produto. E tudo começou na Primeira Grande Guerra, com a Inglaterra criando o primeiro núcleo organizado de propaganda de Estado. A Inglaterra e seu Ministério da Informação montaram um sistema de propaganda para convencer o povo americano e o presidente Wilson a entrarem na guerra contra a Alemanha. E conseguiram. Hitler até escreveu em Mein Kempf que a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial por ter perdido a batalha da propaganda, e prometeu que na guerra seguinte os alemães teriam seu departamento de propaganda.
Depois da Primeira Grande Guerra, o governo americano criou a Comissão Creel, para tratar das coisas da propaganda. Edward Bernays, um dos principais personagens da comissão, escreveu em 1925 o livro Propaganda, e foi aí que tudo começou. Aliás, Lippmann fazia parte da Comissão Creel. Bernays ficou multimilionário com a campanha dos cigarros Chesterfield e o estímulo do tabagismo entre as mulheres.
Escrever sobre a verdade é raro. A repórter Marta Salomon, da Folha, tratou de um assunto já estudado pelo jornalista Aloysio Biondi há mais de um ano: em fins de 1998, as remessas anuais de lucro das empresas desnacionalizadas eram de 700 milhões de dólares; agora, beiram os 7 bilhões de dólares. Um grupo de mídia no Rio Grande está fazendo uma campanha muito forte para provar que seus funcionários são pessoas iguais aos leitores, ouvintes e telespectadores. Mas não é disto que o brasileiro precisa do pessoal da mídia. O brasileiro precisa mesmo é que pelo Brasil afora os trabalhadores na mídia tenham a coragem de enfrentar a verdade. Do contrário, promovem a ignorância, e a ignorância é o alicerce da submissão.

Notícias do Planalto virou tititi de botequim
Dinâmica da verdade vence malícia do Sistema
Folha recusou oba-oba
Cobertura da mídia à época do lançamento do livro
Faltou checar
Jornalismo e realidade
Quem manda na mídia?
A mídia sabia, sim
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