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MIDIAGATE
Dez dias que aviltaram
o jornalismo americano

ecebeu inúmeros apelidos, todos com o mesmo sufixo e igual dose de sujeira. Faltou coragem para batizar o escândalo com o nome adequado: Midiagate - a indecorosa capitulação da imprensa aos procedimentos do show-business, do circo, da chantagem.
Um dos pivôs do novo episódio sexual que extasia a sociedade americana, autor de uma home-page de fofocas, chegou a declarar: sou repórter, não sou jornalista.
Com esta simples declaração o caos informativo da última década chega ao apogeu. A partir de agora, temos novos parâmetros na busca e divulgação de informações:
* Repórteres desobrigados de investigar.
* Editores isentos das responsabilidades da imprensa.
* Programas de entrevistas na TV descomprometidos com os fundamentos do jornalismo.
Chegou o tempo do jornalismo não-jornalístico.
A mídia americana entrou de cabeça nesta bola de neve seduzida pela picardia das revelações em torno do alegado romance do presidente Clinton com a ex-estagiária Monica Lewinsky. Os âncoras das principais cadeias de TV que acompanhavam em Cuba o histórico encontro do Papa com Fidel Castro deixaram a História de lado para chafurdar no lixo jornalístico: sexo oral, sem penetração, é adultério?
A decisão da revista Newsweek de não publicar as primeiras denúncias enquanto não obtivesse informações independentes e isentas sobre todos os personagens e circunstâncias antecipa o grande desafio do jornalismo do século: não publicar e levar o furo é mais importante do que publicar qualquer fofoca. Resistir à competição maluca para produzir informações confiáveis passa a ser a pedra de toque do jornalismo de qualidade.
A cruzada empreendida, logo em seguida, pelo New York Times, denunciando abusos e perversões cometidos pelo restante da mídia marca o novo quadro do jornalismo fin-de-siècle: a prova da coragem e o diploma de excelência de um veículo é, doravante, sua capacidade de enfrentar o efeito-cascata da própria mídia.
Os grandes adversários da imprensa já não são os governos autoritários e os poderosos grupos econômicos. A mídia ensandecida é a grande besta a ser vencida.
O dossiê que se segue, com artigos que não puderam ser traduzidos do idioma original, contém documentos fundamentais da semana de 25 a 30 de janeiro para balizar o novo jornalismo que desponta dos escombros do anterior. O comportamento da mídia brasileira no episódio está analisado no Circo da Notícia (ver hipertexto abaixo, onde se indica também texto publicado no Entre aspas).
Este OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA está comprometido apenas com o desempenho dos meios de informação. Não entra no mérito dos assuntos noticiados, não julga nem se antecipa à Justiça.
Os Observadores
O dossiê do Midiagate :
JORNAL DO BRASIL
· A mídia sob suspeita, Flávia Sekles
· Os excessos da imprensa, Julie Vorman
O ESTADO DE S. PAULO
· Jornalistas fazem mea-culpa, Carey Goldberg
NEWSWEEK
· Os 90 minutos da gravação ouvida pela revista não confirmaram nem desmentiram a mais explosiva das alegações legais - obstrução da justiça. A revista não tinha confirmação independente dos fundamentos do inquérito de [Kenneth] Starr. Se estivéssemos trabalhando num diário, não tenho dúvida de que teríamos dito: ‘Vamos dar mais um dois dias para apurar isso’. The Washington Post , de fato, publicou [na quarta-feira, 21 de janeiro]. Dada a dimensão das acusações e a natureza da informação que tínhamos na hora do fechamento [na noite de sábado, dia 17 de janeiro], agimos com responsabilidade.
NEW YORK TIMES I
· Nem sempre é fácil para os repórteres de televisão mover-se entre notícias sólidas e não tão sólidas e manter uma visão de conjunto, ou, talvez mesmo, a dignidade. As linhas divisórias são e se tornam cada vez mais difusas. E alguns dos profissionais mais sóbrios parecem perturbados.
NEW YORK TIMES II
· Na segunda-feira [26 de janeiro], a cobertura das acusações variou do hiperbólico ao inexistente. As fontes permaneceram invariavelmente inominadas, exceto quando a acusação era simplesmente atribuída ao programa ABC News, que divulgou a acusação citando suas próprias fontes inominadas, no programa Sunday ABC This Week.
NEW YORK TIMES III
· Cada programa parecia ser acompanhado por música sinistramente percutida e por vozes estentóricas concebidas para deixar o telespectador num estado de extrema agitação. Cada reportagem vinha com algum subtítulo: "Escândalo na Casa Branca", "O presidente em crise", "Presidente sob investigação".
NEW YORK TIMES IV
· Há na mídia pessoas que se escudam na convicção de que cumprem a obrigação constitucional de servir o público. Elas o fazem freqüentemente, e bem. Mas há ocasiões, especialmente quando sexo e assassinato de celebridades são o assunto, em que uma onda de náusea pode se espalhar entre o público, provocada pela suspeita de que não está sendo servido, mas sim tendo o lado mais rasteiro de sua natureza explorado em busca de lucro.
· Midiagate, ou com o rabo entre as pernas, Alberto Dines
· Publicar ou não publicar: detonando o circo, Alberto Dines
· Se Clinton é vítima da imprensa, por que Newsweek fugiu do furo? - Argemiro Ferreira, de Nova York
· Sexo dos líderes, escândalo que escandaliza, Nahum Sirotsky, de Jerusalém
· Ilegalidade levar a punir jornalistas, N.S.

O Circo da Notícia
Marco Antonio Rocha, Entre aspas
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