Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

MIDIAGATE

O ESTADO DE S.PAULO
Jornalistas fazem mea-culpa sobre excessos da cobertura

Carey Goldberg, The New York Times

 

S


empre chega o terrível momento em que a pessoa começa a se detestar. Para os repórteres que cobriram o julgamento de O. J. Simpson, a aversão a si mesmos causada por sua transformação em cronistas de uma sórdida novela - depois de ser caçadores de verdades sociais - foi tão intensa que alguns abandonaram a profissão. Depois da morte da princesa Diana, alguns fotógrafos admitiram que se olharam ao espelho com receio, perguntando: "Sou eu um dos paparazzi?" Mas poucas vezes, se é que houve alguma, o exame da cobertura de um assunto se tornou uma tão generalizada autoflagelação pela mídia, da mídia e na mídia - desde o programa de quinta-feira CNN Live sobre a ‘Loucura da Mídia’ a respeito de tudo relacionado com Monica Lewinsky até os âncoras dos noticiários de TV que timidamente descrevem a ‘fome de notícias’ dos próprios colegas.

Só raramente tantos cidadãos e analistas se juntaram numa torrente de desaprovação e até de repugnância - repugnância em especial pelo modo como poucos fatos e como muitos mexericos e rumores entraram na cobertura noticiosa e nas acusações a Bill Clinton.

‘Acho bom que a imprensa examine seu desempenho, pois este tem sido horroroso’, disse Marvin Kalb, diretor do Centro Shorenstein para Jornalismo, Política e Atividade Pública. ‘Penso que seja talvez um dos mais tristes capítulos do jornalismo americano.’ Ray Suárez, animador do programa Talk of the Nation da National Public Radio (NPR), opinou: ‘Estamos fornecendo meias-verdades.’ O site do programa na Internet foi inundado por recados de pessoas furiosas com a cobertura da NPR. ‘E, embora não sejamos propriamente santos neste negócio, também não somos o Relatório Drudge.’ Matt Drudge, cujo relatório de mexericos on-line foi o primeiro a transmitir o furo da Newsweek sobre o escândalo, virou uma espécie de saco de pancadas no programa da CNN, recebendo comentários irritados, como de Jack Nelson, de The Los Angeles Times: ‘Você devia pelo menos ter alguns padrões de decência e lisura. É contra isso que me oponho.’ (Drudge insistiu que era apenas um repórter, não um ‘jornalista’, mas um precursor de um novo mundo das comunicações no qual o país tem 300 milhões de repórteres do gênero, cada qual com um site na Web).

Órgãos de imprensa muito mais respeitáveis também estão recebendo críticas e fazendo mea-culpa, entre eles The Washington Post, cujo ombudsman escreveu domingo que a mensagem dos leitores é um retumbante: ‘Contenham-se!’

Falando na CNN quarta-feira à noite, o diretor de redação da revista Time, Walter Isaacson, admitiu: ‘Examinando toda esta história, parece que todos nós devemos ter perdido o juízo. Tudo isto escapou um pouco ao controle.’ Apesar de todas as queixas de leitores e telespectadores, as pesquisas mostram que o grande público está no geral satisfeito com a qualidade da cobertura do escândalo.

Pesquisa de opinião da CBS News feita quarta-feira à noite entre 1.044 adultos constatou que 18% dos consultados acharam a cobertura muito responsável e 56% a consideraram razoavelmente responsável. Apenas 15% acharam a cobertura ‘não muito responsável’ e 8% disseram que ela não era nem um pouco responsável. Mas a grande maioria, 62%, disse que no conjunto a cobertura do escândalo é exagerada. Assim, o público parece dividido entre sua aversão à história e gosto por ela."

 

Copyright O Estado de S. Paulo, 1/2/98. Cortesia da Agência Estado.



Mande-nos seu comentário

Continuação do Midiagate





Observatório | Índice da edição | Cadernos | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você