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MIDIAGATE
Publicar ou não publicar:
detonando o circo
Alberto Dines

caso Watergate derrubou Nixon, mas também deflagrou uma disposição saneadora da grande imprensa norte-americana para produzir antídotos aos abusos da própria imprensa. Meados de 1974, Gerald Ford, recém-empossado e já tropeçando nas escadas, começou-se a falar em media criticism (crítica da mídia) e media watching (observação da mídia). Estava em andamento um salutar processo de fogo cruzado para vigiar desvios e corrigir hegemonias.
O ‘jornalismo de talão de cheques’ (checkbook journalism), por meio do qual compraram-se a peso de ouro depoimentos sensacionais (inclusive de funcionários públicos que trabalharam no caso Watergate) foi o primeiro alvo desse movimento de higienização. Mais tarde, o Washington Post, responsável pelas principais investigações que culminaram com a renúncia de Nixon, criou o cargo público de ombudsman para dar o exemplo de autodisciplina.
Derrubar presidentes e primeiros-ministros converteu-se em obsessão de jornais e jornalistas (e, sobretudo, opinionistas). Aqui foi fácil defenestrar Collor, mas a metodologia empregada nem sempre foi a mais apropriada. Lembro ter ousado dizer, para espanto dos entrevistadores no Roda Viva (setembro de 1993), que Collor estava sendo derrubado pelos vícios e não pelas virtudes da nossa imprensa. Afirmação que hoje, felizmente, encontra inúmeros apoiadores. O que não inocenta o ex-presidente nem o qualifica para pretender continuar na vida pública.
Na França, o linchamento do primeiro-ministro Pierre Bérégovoy pela mídia (abril de 1993), a partir de suspeitas de enriquecimento ilícito, resultou no seu suicídio, levando a imprensa francesa a um processo de expiação e autoflagelação. Do qual resultou um esforço para tratar com decência e discrição a vida particular do falecido François Mitterrand.
O circo agora montado nos EUA, também chamado de ‘sexgate’, ‘oralgate’ e ‘Monicagate’, em torno de um alegado envolvimento do presidente Clinton com uma estagiária da Casa Branca, assemelha-se ao outro, do ano passado, que culminou com a tragédia da princesa Diana.
Mesma tabloidização dos jornalões, mesmo nivelamento por baixo, mesma ânsia de publicar a primeira fofoca que chega aos ouvidos de um jornalista obcecado em virar notícia. Com o agravante de que agora a mídia norte-americana, especialmente as redes abertas de TV, desobrigadas do protocolo com a realeza, plebeiamente, perderam escrúpulos e estribeiras, aderindo à linguagem obscena dos filmes de Oliver Stone.
A diferença entre os dois circos é que, no atual, o sistema de anticorpos e autodefesa da imprensa foi acionado imediatamente após o frenesi denunciatório. Com Diana Spencer funcionaram sempre os baixos instintos: ‘Publique-se, isso vende’. Agora, em algumas redações, funcionou o senso de responsabilidade institucional: ‘Apurar antes de publicar’.
O tom escandaloso e escatológico de grande parte da mídia norte-americana teve o mérito de reacender a vocação individualista e diferenciadora, o verdadeiro espírito competitivo norte-americano, reacendendo o ânimo de combatente solitário de alguns bastiões do jornalismo que recusam igualar-se à escumalha dos talk shows. Não interessam aqui os méritos do caso - se sexo oral, sem penetração, é adultério, se Clinton é inocente ou culpado de prevaricação com as leis. Interessam os meios e os termos por meio dos quais a imprensa, em êxtase orgástica, está levando o assunto à sociedade norte-americana e ao resto do mundo.
O editorial em que a direção da Newsweek [edição de 2 de fevereiro, ver no Entre aspas) explica aos leitores a decisão de não publicar as primeiras denúncias, insuficientemente comprovadas, deveria ser adicionado às cartilhas profissionais das escolas de jornalismo e aos códigos de ética que se multiplicam nas redações brasileiras aparentemente sem uso. Os diversos textos no New York Times, nesta semana, apontando as vultuosas aberrações dessa cobertura (com lambadas explícitas e copiosas em figuras do padrão de Larry King) não têm sido reproduzidos nos jornalões brasileiros que habitualmente detêm os seus direitos (honrosa exceção cabe ao Jornal do Brasil, que na última quarta e quinta soube reencontrar a esquecida vocação para se diferenciar).
O texto de Max Frankel, ex-diretor do mesmo New York Times (na revista dominical, de 18 de janeiro), antes mesmo do caso de Monica Lewinsky, mas certamente influenciado pelo clima do último assalto de Paula Jones, é uma peça antológica sobre o estado da mídia norte-americana e, por extensão, daqueles países que copiam cegamente seus atuais paradigmas.
Aqui, uma nota pessoal. Em resposta às incursões isoladas que faço no terreno da mídia nesta Folha e, mais especialmente, ao trabalho regular que desenvolvo junto ao OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA (www2.uol.com.br/observato rio), recebo de colegas comentários amigáveis e condescendentes sobre excesso de "idealismo" e "irrealismo".
Não contestam. Apenas capitulam ante a dificuldade, para eles intransponível, de tentar uma conciliação entre o ideário pessoal e as exigências profissionais ou salariais.
Anote-se: nenhum dos autores ou veículos citados na contracorrente da maré vomitória norte-americana pode ser considerado quixotesco ou marginal. Pertencem à aristocracia da grande imprensa dos EUA, executivos do primeiro escalão, empresas poderosas, altamente lucrativas, com ações na bolsa.
O que os distingue é que procuram distinguir-se. Recusam entrar no bolo, rejeitam o espírito de malta e de pool, despersonalizado e despersonalizante. Apostam no olhar pessoal, individualizado. Essa é a atitude existencial do jornalista que faz do jornalismo uma segunda natureza e, dos seus compromissos morais, a bandeira pessoal. Recusam a homogeneização, rejeitam a clonagem e o mimetismo, contestam o canibalismo do furo. Optaram, como Romain Rolland, em permanecer ‘au-dessus de la mêlée’, acima da confusão. E da canalhice indiferenciada.
O senso crítico é para funcionar coerente e ininterruptamente. Ou não funcionar. Quando em novembro passado foi lançado Detonando a Notícia - Como a Mídia Corrói a Democracia Americana, de James Fallows (excelente tradução do jornalista Fausto Wolff, Civilização Brasileira), uma das mais veementes resenhas foi assinada por um quadro superior de um de nossos semanários, então na sua fase mais viciosa. ‘Mea culpa’ ou ‘isso não é comigo’? O próprio Fallows, editor do US News & World Report (de nítida inclinação direitista), nesse novo caso Clinton não teve a coragem de reclamar contra a sua revista nem contra o Wall Street Journal, que babam peçonha. Preferiu atacar o jornalismo on-line que "baixa o padrão de prova da imprensa tradicional em reportagens investigativas".
James Fallows acaba de reinventar, simultaneamente, o avestruz e o bode expiatório. Em vez de se juntar ao grupo de elite para detonar o circo da notícia, preferiu a opção camicase de se autodetonar como crítico. Na hora da verdade, há gosto para tudo."
Copyright Folha de S. Paulo, 31/1/98.
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