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MIDIAGATE
Se Clinton é vítima da imprensa,
por que Newsweek fugiu do furo?
Argemiro Ferreira, de Nova York

imprensa americana está sendo abusiva e sensacionalista em relação ao escândalo de sexo que ameaça o presidente Bill Clinton? Exagerou e cometeu excessos na investigação do comportamento sexual do presidente? Justificam-se as acusações surgidas no mundo inteiro a esses supostos abusos, a pretexto de excesso de moralismo?
Pelo menos uma pesquisa dos últimos dias, conduzida pela rede CNN e revista Time, mostrou que, apesar da queda superior a 15 pontos percentuais no índice de aprovação de Clinton, a maioria dos americanos (60%) acusa a mídia de "ir longe demais" e considera o comportamento do presidente igual ao de um marido americano médio.
Duas cenas circenses, quase selvagens, exibidas ao vivo pela televisão em período inferior a uma semana podem ter contribuído para isso - uma a 17 de janeiro, à frente do prédio onde Clinton depôs diante de sua acusadora Paula Jones; a outra quatro dias depois, à porta do prédio do promotor especial Kenneth Starr e sua equipe encarregada de investigar o presidente.
A recente tendência à tabloidização da mídia - fenômeno inegável, às vezes atribuído equivocadamente aos paparazzi e discutido à exaustão depois do acidente que matou a princesa Diana em Paris - também favorece a conclusão, embora tais distorções sejam conseqüência natural das célebres leis de mercado, que tantos se esforçam hoje por sacralizar.
Entre jornalistas e advogados
Depois de papel relevante na investigação do escândalo de Watergate, que levou o presidente Richard Nixon à renúncia, a mídia dos EUA tornou-se alvo freqüente de duras críticas, foi furada pela modesta publicação árabe Al Shiraa na revelação do escândalo Irã-Contras e virou saco de pancada com a virada conservadora de Ronald Reagan em 1980.
Antes de Watergate, agigantara-se ao desafiar o governo Nixon e publicar os Documentos do Pentágono, ganhando batalha memorável para a Primeira Emenda na Suprema Corte do país. Com a investigação de Watergate - na qual Bob Woodward, Carl Bernstein e o Washington Post não foram os únicos protagonistas de relevo - os jornalistas viraram heróis.
Mas depois deteriorou-se a imagem deles junto ao público. Graças em especial às celebridades dos programas jornalísticos da TV, que faturam muito mais com conferências para corporações do que no exercício real da profissão, eles são encarados com desconfiança, sua integridade é questionada, suas opiniões e motivações tornaram-se suspeitas.
Paralelamente, alguns processos onerosos e conspícuos - entre outros, os dos generais William Westmoreland (contra a CBS) e Ariel Sharon (contra o Time) e o da Philip Morris (contra a ABC) - empurraram as empresas para a defensiva e trouxeram os departamentos jurídicos para as redações, onde os advogados preferem conter a ousadia e embotar a criatividade.
O estranho recuo de uma revista
Sintoma sugestivo de que a imprensa não está indo longe demais no caso Monica Lewinsky é a nota divulgada domingo, 18 de janeiro, numa coluna de mexericos de Washington na Internet, Drudge Report, muito lida mas criticada como pouco confiável pela revista Newsweek. Saiu antes da notícia do Washington Post que primeiro revelou o escândalo na imprensa.
Dizia: "No último minuto, às 6 da noite de sábado, a revista Newsweek suspendeu a publicação de reportagem que abalaria os alicerces da Washington oficial: uma estagiária da Casa Branca tinha caso sexual com o presidente dos EUA. Drudge Report soube que o repórter Michael Isikoff fez a matéria da sua carreira, sustada pela intervenção da cúpula da empresa".
A nota da Drudge Report também dava nome e idade da estagiária, além de quase tudo o que sairia depois na primeira matéria do Post. Dizia ainda que houve batalha interna na Newsweek, mas os jornalistas acabaram derrotados porque o promotor Kenneth Starr convenceu a direção da empresa de que a divulgação do nome da estagiária prejudicaria as investigações.
Isikoff, de fato, é há algum tempo o grande repórter de Newsweek. Nos dias seguintes, passou quase todo o tempo a falar ao vivo na MSNBC (rede de cabo que uniu a Microsoft à NBC, concorrendo com a CNN). Mas a Newsweek alegou que a matéria fora apenas adiada - e menos pelo pedido de Starr do que para permitir confirmação em mais uma fonte independente.
A cautela da Newsweek sugere que a mídia, ao contrário das acusações que recebe, foi até tímida demais no episódio. O arrependimento da revista foi tão grande que já no dia 21 colocou no seu próprio website a matéria de Isikoff que deixara de incluir na revista. E na sexta-feira,23, ainda revelou transcrições parciais das conversas telefônicas gravadas de Monica.
Pode ter sido a primeira vez na história que uma revista semanal serviu-se da Internet para remendar grosseiro erro de avaliação editorial. E quando a história for melhor contada poderá acabar revelando o nome dos advogados que impediram Isikoff e a Newsweek de serem os Woodward-Bernstein e Washington Post de um escândalo potencialmente capaz de derrubar o presidente.
Freio à reportagem investigativa
Quanto à questão do comportamento sexual, a mídia tem sido precisa ao explicar que Clinton não está sob ameaça de impeachment pelo suposto caso com a estagiária - e sim pelos indícios de que pode ter cometido perjúrio (ao negar o caso em depoimento sob juramento) e obstrução da Justiça (ao conclamar a estagiária a negá-lo no depoimento dela).
E o comportamento sexual do presidente? Os antecedentes da mídia são tímidos também nesse ponto - como comprovou levantamento contido em artigo publicado ano passado numa revista especializada em Direito sobre o tratamento preconceituoso que a imprensa deu à queixa judicial de Paula Jones, apresentada sistematicamente sob ângulo negativo na imprensa.
Claro que no estágio atual - em especial por causa da própria decisão do presidente de adiar indefinidamente respostas e explicações completas sobre o que disse e fez, como também pelos erros de seu advogado arrogante - o caso monopoliza primeiras páginas e horário nobre. Mas atribuir a crise a excessos da mídia na investigação do presidente, isso sim, é ir longe demais.
Depois de Watergate a mídia passou a pecar menos pelos excessos do que pela timidez - como testemunha o recuo inoportuno da Newsweek. Os veículos menores, alternativos, carecem de recursos para ousar reportagens de investigação, onerosas. E nas grandes empresas, onde sobram recursos, a multiplicidade de interesses tende a entrar em choque com as redações.
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