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MIDIAGATE
Sexo dos líderes ,
escândalo que escandaliza
Nahum Sirotsky, de Jerusalém

s israelenses ainda tem dificuldades em acreditar que os americanos, com a responsabilidade de maior potência do mundo, continuem dando tal importância ao caso Monica. A imprensa aqui diz que se fosse contar o que sabe dos casos dos lideres do país, não sobraria espaço para mais nada
Graças à, televisão, comenta-se, o público pode se divertir com casos sexuais sem se concentrar nos líderes. E relembram-se alguns casos verdadeiros.
Assim, em 59, Moshé Dayan, o general-caolho, maior herói da história militar de Israel (tão famoso que Blecaute, sambista brasileiro, chegou a lhe dedicar um samba que cantava com um tapa-olho branco), estava de caso com uma senhora casada, o que o país inteiro sabia. O marido foi ao chefe do governo, Ben Gurion, para exigir que o afastasse do comando das Forças Armadas por falta de moral. Bem Gurion negou-se a acatá-lo. E lembrou que as aventuras do rei David com Betsabé, ou Batsheva, não impediram que se tornasse o maior herói da história judaica, aquele de cuja descendência virá o Messias judeu. Batscheva foi a linda mulher que David, do terraço do palácio, viu banhar-se, e deu um jeito de mandar seu marido à frente de batalha, com um recado ao chefe para que não voltasse. Foi a mãe do rei Salomão, o sábio.
Bem Gurion também lembrou o caso do almirante Nelson com a mulher do embaixador britânico em Nápoles no tempo das guerras napoleônicas, Lady Hamilton. Nelson continuou no posto, acumulando vitórias, e tem estátua em sua homenagem por todos os cantos da ilha inglesa. As vidas pública e privada dos lideres, disse, são coisa à parte.
Essa filosofia caracteriza a mídia israelense até hoje. Os casos extra-matrimoniais são de ordem pessoal e privada.
Nunca a imprensa israelense teve o comportamento da americana em tais casos. Shimon Shifer, veterano da reportagem política do jornal de maior circulação, o Yediot Aharonot (Últimas Notícias, vendendo 300 mil por dia e perto de um milhão na edição de fim-de-semana, num país de pouco mais de 5 milhões de habitantes), diz que todos sabem de casos das figuras públicas e nada publicam. É a vida particular a que todos os indivíduos, simples cidadãos ou homens públicos, têm direito.
Isso passa
Essa tradição da imprensa local só se rompe quando existem indícios de chantagem ou corrupção ligados ao affair. Como aconteceu com o atual ministro Rafael Eytan, que tinha um antigo caso conhecido por todos, talvez pelo próprio marido dela, ignorado até que se suspeitou que estivesse havendo favorecimento na distribuição de verbas para ajudar a entidade que ela dirigia. Ou como na historia do atual chefe do Estado-Maior e comandante de fato das Forças Armadas, general Lipkin-Shahak, que temia que andasse contando coisas em conversa de travesseiro.
Em ambas as historias os casos terminaram se transformando nas novas esposas.
Netanyahu, pouco antes das eleições, foi à televisão confessar que havia tido um caso. Receava que ele viesse a ser politicamente explorado. Os religiosos, dizia-se, não votariam num adúltero. Ele teve os votos. E, desde então, Sara, sua terceira esposa, que conheceu numa viagem de avião - quando era casado -, não o deixa ir a lugar nenhum sozinho. É melhor prevenir, comenta-se nos cafés. O homem é uma fera.
Os israelenses, segundo a imprensa, têm moral européia. A amante de Mitterrand foi aos seus funerais, e tudo bem. Shulamit Aloni, líder feminista israelense, deputada, admiradora de Clinton, aconselhou-o de público a ser mais cuidadoso em suas aventuras. Ninguém aqui o condena.
Especialistas universitários na política dos países anglo-saxões - todos eles emigrados dos Estados Unidos ou da Inglaterra - acreditam que a exigência de puritanismo feita aos presidentes e lideres daqueles países começa a mudar.
É que só muito recentemente o publico começou a tomar conhecimento da vida privada de seus líderes. Só se falou da amante de Roosevelt depois de sua morte. Foi igualmente depois da morte dos protagonistas que a fome sexual dos Kennedy, conhecida por todos que viviam em Washington na época, veio a publico. O jornalismo investigativo começou mesmo com o escândalo de Watergate, passando a ser uma especialidade nos jornais. Como nem todos os dias há escândalos políticos ou de corrupção, servem os sexuais para vender jornais.
Mas essa mania vai passar, porque o contraste entre o que o publico exige de seus líderes e o comportamento da população é grande demais. Onde encontrar virgens nos Estados Unidos depois de uma certa idade? Onde mais existe tal presença publica de gays - homens e mulheres?
Ilegalidade leva a punir jornalistas
N.S.
Os indivíduos têm direito a sua privacidade. Do contrário, como fazer com que os melhores aceitem servir em posições públicas?
Tom Seguev, veterano jornalista, afirma que se a vida sexual dos dirigentes não é problema nem notícia, o respeito absoluto à lei é exigência da qual não se abre mão. Os líderes não podem cometer perjúrio, não podem desrespeitar a lei. Aqueles que o fizeram e foram descobertos pagaram com o fim de suas carreiras ou com penas de prisão.
Jornalistas israelenses dão o exemplo de sua própria profissão, cujo respeito à ética é julgado, quando ocorrem protestos, por um comitê que inclui figuras de insuspeita vida e reputação, de forma geral indivíduos já aposentados, sem ambições de carreira. Os mais graves vão aos tribunais normais, de acordo com o valor estimado da indenização ou pena que poderá ser imposta.
Muito recentemente, o ex-editor-chefe do Yediot Aharonot e a ex-editora de notícias foram julgados pela Justiça de Telavive, processados por recorrer a meios ilegais de escuta - contrataram detetive para isto - para conhecer segredos de concorrentes. Pegaram penas de cadeia, suspensas em troca de servirem gratuitamente à comunidade, e multas. Dificilmente voltarão a suas profissões.
Ambos aguardaram anos até a decisão final, pois também em Israel não há juízes suficientes para tantos casos. Anos que foram difíceis, confessou o ex-editor- chefe. Os advogados da Defesa pediram que a pena se limitasse à multa. A juíza, Yehudit Amsterdam, respondeu que não aceitava o pedido porque seu objetivo dela, e da lei, é o de tornar pessoalmente caro o custo de se cometer uma ilegalidade.
Disse a juíza no seu parecer final: "Não podemos permitir que jornalistas escolham o fácil e o ilegal para conseguir as informações. Têm de fazê-lo com trabalho duro, levantando provas, sem quebrar a lei."
Jornalista que comete ofensa, obtendo informações particulares e secretas sobre a vida de uma pessoa, pondo em risco sua segurança individual, sua liberdade e sua tranqüilidade, merece ser punido, acrescentou, pois isto é inaceitável numa profissão que é um serviço público.
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