Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

MEDICAMENTOS
Nota da Redação
: O Observatório da Imprensa recebeu da Abifarma o texto a seguir, assinado por seu presidente-executivo. Por tratar-se de uma avaliação sobre o desempenho da mídia, vem publicado neste espaço. O assunto é de interesse público e o debate está aberto.

Receitas de cobertura

José Eduardo Bandeira de Mello

Esta correspondência tem o objetivo de propor uma discussão sobre a cobertura jornalística da CPI dos Medicamentos. A Abifarma (Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica), entidade que reúne 59 laboratórios nacionais e multinacionais, considera a CPI uma ótima oportunidade para analisar a fundo propostas para assegurar o acesso da população a remédios, necessidade básica e direito de todos. Tenho confiança de que, ao contrário das cinco CPIs anteriores das quais participei, esta não se dedicará apenas a atacar e satanizar a indústria farmacêutica, com eco na imprensa, deixando de lado a discussão de propostas.

Um clima de pré-condenação tem influenciado em grande medida a cobertura da imprensa. Listas de preços são publicadas com erros grosseiros e, depois, as retificações – quando merecem atenção – são discretas, declarações são distorcidas, simples cartas endereçadas a deputados são tratadas como "lobby" suspeito. A decisão de quebrar sigilos em si já aparece como a comprovação de algum escândalo.

A indústria farmacêutica é composta hoje, no Brasil, por cerca de 400 laboratórios e, como em qualquer área da atividade econômica, é passível de apresentar alguma irregularidade. Os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário têm instrumentos para coibir abusos e terão todo o apoio da Abifarma para aplicá-los contra quem não respeita os direitos da população. Aliás, eu disse isto em meu depoimento à CPI, mas não houve registro na imprensa.

Para auxiliar o debate sobre a cobertura, enumeramos a seguir alguns exemplos que, na visão da Abifarma, não atendem ao princípio de imparcialidade que deveria caracterizar todo o trabalho jornalístico.

1. A questão dos genéricos

No ano passado, a Abifarma patrocinou uma campanha publicitária de esclarecimento sobre os genéricos. Admitimos hoje que os porta-vozes escolhidos podem não ter sido os mais adequados, mas o fato é que, graças à campanha, o governo federal passou a dar atenção aos genéricos.

Importantes membros do governo, talvez irritados com a atenção que chamamos para o descaso oficial, passaram a difundir que a Abifarma fazia campanha contra os genéricos. Pelo contrário. Alertamos a população contra laboratórios que empurravam meras cópias, já que, naquela época, ainda não havia remédios que tivessem passado pelos testes de bioequivalência e biodisponibilidade, exigências para que um produto seja considerado remédio genérico. Similar não é genérico, afirmava, com razão, nossa campanha. O tema, naquela época, não interessou à mídia, que perdeu a oportunidade de prestar um serviço aos cidadãos.

Alertamos também que, caso não houvesse uma ampla campanha de esclarecimento da população feita pelo governo, certamente haveria confusão sobre estas diferenças entre medicamentos. Muito bem: a própria Rede Globo, que atacou nossa campanha naquela época, colocou no ar na semana passada reportagens sobre a confusão gerada no mercado pela chegada dos primeiros genéricos. Nenhuma menção aos alertas da Abifarma.

Como representante da Abifarma, tive a oportunidade de expor demoradamente a posição da entidade sobre os genéricos na CPI dos Medicamentos. Ressaltei que não era uma campanha contra os genéricos, mas contra as cópias de qualidade duvidosa, contra os falsos genéricos. No dia seguinte, o Jornal do Brasil afirmou em sua cobertura da reunião que eu havia "admitido" ter feito campanha contra os genéricos.

Apenas dois registros para mostrar que, ao contrário do que dizem alguns jornalistas e membros da CPI, a Abifarma não é contra os genéricos: já em 96, numa palestra em Genebra, defendi os genéricos como instrumentos importantes numa política pública de saúde e, há poucos dias, dos seis primeiros genéricos colocados no mercado, três foram de laboratório filiado à nossa entidade.

2. Preços dos remédios

Este tema tem merecido grande destaque, com razão. Remédio é produto de primeira necessidade. Infelizmente, a importância do assunto tem sido atropelada por pessoas interessadas em atingir a indústria e não em melhorar a saúde pública no país. Assim, toda a imprensa publicou com alarde lista elaborada pelo Ministério da Saúde, sobre "aumentos abusivos". Liderava a lista o remédio Ossopan, com incríveis 380% de aumento em quatro anos. Ocorre que o Ministério comparou a apresentação de 200 mg com a de 800 mg (que nem mesmo existia em 94, início da coleta dos dados). A lista continha mais três ou quatro erros.

O presidente do laboratório fabricante do Ossopan enviou cartas a todos os órgãos de comunicação que veicularam o erro, bastante prejudicial à imagem do medicamento. Foi solenemente ignorado. Nossa assessoria de imprensa também contactou jornalistas para mostrar a versão do laboratório. Apenas a Folha publicou uma discreta nota, numa edição de sábado.

Na semana seguinte, a lista errada passou a ser o centro de um embate político dentro do governo, entre os ministros Serra e Malan. Somente então, a mídia passou a falar dos equívocos. Isto não impediu que, no último dia 13, o Correio Braziliense voltasse a apontar os inexistentes 380% de aumento do Ossopan.

A reportagem do Correio Braziliense procurou mostrar o "absurdo" do preço dos remédios realizando uma comparação entre o comprometimento percentual com medicamentos dos salários mínimos pagos no Brasil, na Argentina, na França, na Espanha e nos Estados Unidos. Manchete de uma edição dominical, a matéria teve êxito em sua proposta, pelo simples fato de que o salário mínimo no Brasil é muitas vezes menor do que nos demais países.

O episódio da lista errada do Ministério da Saúde não foi o bastante para que a imprensa fosse mais cuidadosa. No mesmo dia de meu depoimento, o jornal O Globo publicou lista com supostos novos aumentos. Informado do noticiário durante minha fala, cheguei a lamentar a decisão dos laboratórios. Assim que deixei a comissão, no entanto, fui informado: os dois laboratórios filiados à Abifarma que estavam na lista acabavam de negar os aumentos noticiados. E não haviam sido ouvidos pelo jornal. Pouco adiantou o desmentido, já que a manchete sobre os "abusos" já havia sido brandida por diversos parlamentares durante a sessão.

A fonte desta lista, aliás, era a preferida da imprensa que cobre a CPI: o Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal, entidade que se dedica a atacar a indústria farmacêutica de forma difamatória, razão pela qual seu titular está sendo processado por nós. Este mesmo Conselho ofereceu ao público um número de telefone 0800 sobre genéricos antes de existirem genéricos, ou seja, promovendo a desinformação da população. Este "serviço" foi tema de carta de uma leitora ao jornal O Estado de S. Paulo, mas nunca mereceu reportagem na imprensa em geral.

3. Superfaturamento e qualidade

Outra grande "denúncia" na CPI foi a de superfaturamento de insumos para medicamentos, o que seria uma forma de "mascarar" a remessa de lucros. A imprensa não se interessou, no entanto, em saber de onde vinham as matérias-primas mais baratas. É impossível comparar produtos feitos com insumos importados de fornecedores tradicionais e de qualidade com medicamentos feitos com base em partidas de corretores internacionais, que não garantem qualidade e continuidade do fornecimento.

Outra questão que levantei: se existem laboratórios que importam insumos até 1.000% mais baratos, como foi noticiado, por que então seus preços finais são apenas 30% ou 40% mais baratos do que as outras marcas? O superfaturamento deve ser investigado, mas também o subfaturamento, que caracteriza sonegação fiscal. Fiz este alerta na CPI, novamente sem registro.

Repito o que disse (e que foi completamente distorcido pela revista Época): remédio tem que ter qualidade, não importa se é de marca ou genérico, se é remédio consumido pela população mais rica ou mais pobre. Aliás, ao falar sobre qualidade, vale lembrar que o Diário Oficial da União publicou a Resolução nº 2 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, de 10 de janeiro de 2000, ordenando o recolhimento por falta de qualidade do medicamento Eritromicina 2,5% suspensão, fabricado pela FURP, laboratório oficial apresentado como parâmetro pelos membros da CPI. A imprensa, que acompanhou a visita à FURP, preferiu ignorar o Diário Oficial. Em tempo: não duvidamos que a FURP possa produzir medicamentos de qualidade, apenas alertamos para a falta de equilíbrio daqueles que a colocam em patamar muito superior aos laboratórios privados.

Ainda sobre o suposto superfaturamento, o remédio Losec MUPS, o mais vendido sob prescrição médica no mundo, foi denunciado como irregular. A empresa fabricante distribuiu material à imprensa mostrando que não importava a matéria-prima citada, o omeprazol, mas o produto acabado. A explicação foi ignorada.

Quanto à remessa de lucros, vale ressaltar que existe uma legislação em vigor. Se algum laboratório a desrespeitou, que seja punido exemplarmente. O que não podemos aceitar são insinuações e acusações que ficam no ar, sem comprovação e, pior, sem retificação.

4. Devedores e lobby

Por último, duas reportagens mais recentes. A primeira, feita a partir de "denúncias" de um parlamentar, trazia a lista de laboratórios "devedores do governo federal" e que, na visão deste deputado, não poderiam participar de licitações oficiais. Ora, em qualquer setor da economia há empresas que contestam determinadas cobranças tributárias e, durante o processo, realizam depósitos em juízo. A própria reportagem dizia que a CNI obteve, em junho de 96, liminar permitindo a participação em licitação daqueles que pagam em juízo tributos. Algo juridicamente normal foi tratado como escândalo. E pior: algumas empresas não tinham mais débitos registrados junto ao governo e tiveram que fazer publicidade paga nos jornais para expor a verdade, já que obtiveram pouco ou nenhum espaço no noticiário.

E quanto ao lobby. A Folha informou ter "obtido com exclusividade" documentos que comprovariam uma suposta movimentação da Abifarma contra os genéricos. Ora, estes "documentos" não passam de cartas distribuídas aos jornalistas em 98 não por alguma fonte anônima, mas por mim mesmo, presidente da Abifarma. Tratava-se de carta enviada a parlamentares apresentando a posição da entidade sobre os genéricos. Tão transparente que divulgamos a carta para a imprensa. Um ano e pouco depois, isto vira "lobby". Será que uma carta da CUT, da OAB ou da CNBB a parlamentares, sobre temas de seu interesse e de seus associados, seria chamada pejorativamente de "lobby" pela Folha?

Por falar em lobby, o Jornal de Brasília, confundindo crítica com ataque grosseiro e pessoal, tachou-me de "lobista da Abifarma" em sua primeira página. Jornalismo? Coincidência ou não, "lobista" é o termo preferido do ministro da Saúde ao se referir a mim.

Para encerrar, quero manifestar minha convicção de que a ampla e profunda cobertura jornalística é fundamental para o processo democrático e, no caso específico, para o sucesso da CPI. Refiro-me a um sucesso que, espero, virá em forma de propostas concretas para uma política pública que permita o acesso de toda a população a medicamentos de qualidade. A Abifarma entregará nos próximos dias à CPI projeto viável neste sentido. Sua viabilização necessitará de um pacto entre governo, laboratórios e Congresso.

Manifestamos nossa disposição para o diálogo em artigo publicado pela Folha no dia 4/02. Artigo pequeno e discreto, se comparado ao espaço assegurado pelo jornal ao ministro da Saúde, ao deputado Ney Lopes, relator da CPI, e ao físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que chamou em seu texto a indústria farmacêutica de "ardiloso e bem organizado cartel".

Reafirmo que a indústria farmacêutica é importante para o Brasil. Investe em pesquisa aqui no país, tem parcerias com diversos institutos científicos, paga impostos, aumentou em 9% o número de empregos em quatro anos (enquanto o restante da indústria demitia), apóia congressos médicos. Não pode ser resumida como o vilão. Não é tão simples assim.

(*) Presidente-executivo da Abifarma

 

RELIGIÃO NA TV
Os neofundamentalistas

Vera Silva (*)

Estava preocupada com a onda religiosa que, à semelhança dos bumbuns e da violência, assalta a mídia brasileira, quando li o artigo do Cristovam Buarque, "Planeta Áustria", no Correio Braziliense de 16 de fevereiro. Nele, Cristovam mostra que a globalização nada mais é do que um nazismo econômico ou uma democracia exclusiva para os ricos.

Então, no último número do Observatório da Imprensa, o Caderno do Leitor deu um grito de alerta sobre o fundamentalismo religioso [ver remissão abaixo]. Imediatamente lembrei-me de um versículo bíblico registrado no livro dos Salmos, capítulo 144, versículo 15, que diz: "Bem-aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor."

Foi inevitável a ligação entre as duas coisas: o fundamentalismo-religioso e o nazismo econômico.

A fé ou a vida?

Há muitos anos, na história da humanidade, muita gente foi torturada e morta para que declarasse que o Senhor era o seu Deus. Há bem menos tempo, no reino dos aiatolás, muitos foram torturados e mortos para que declarassem que Alá era o seu Deus. Há bem menos tempo ainda, no reino dos talibãs, mais gente foi torturada e morta para que declarasse que Alá era o seu Deus.

Contudo, a tortura e a morte não estão nem estiveram ligadas ao Senhor e a Alá, mas sim a qual é o Deus do torturador: às vezes é a superioridade do macho sobre a fêmea; outras, a quantidade de terras que possui; muitas vezes, o desejo de exercer poder sobre o outro; mas, com certeza, na maioria das vezes é o capital ou a grana ou o dinheiro ou o ouro ou o poder do consumo.

Sendo assim, o aparecimento do nazismo econômico no mundo deve-se ao estabelecimento de um novo Deus: a acumulação de capital. Este é o Deus do sistema econômico mundial e, portanto, o senhor de todos nós que vivemos no planeta Terra.

Em seu nome muitos são torturados com baixos salários ou com a falta deles, e muitos são mortos pela fome, pelas doenças e pela guerra. É preciso, nos dizem, garantir a sobrevivência do sistema, por isto o salário mínimo precisa ser aumentado gradativamente e o pleno emprego é sonho dos utópicos.

Para melhorar nossa compreensão dos fatos, é preciso dizer também que os chamados neoliberais são, na verdade, devotos do Deus acumulação de capital e que, em nome desta fé, a inquisição está de volta. Desta vez contra os que não são ricos: os neo-ateus.

E a mídia?

Você deve estar curioso: qual a relação disto com o avanço dos religiosos sobre o nosso direito de ver TV? Como dizem os muito mais jovens do que eu, tem tudo a ver.

No passado, aqueles que queriam que o Senhor fosse o Deus de suas nações se aliaram aos donos do capital, deram-lhes a direção da igreja (até hoje, a rainha da Inglaterra é a chefe da igreja oficial) e passaram a ditar leis religiosas com o apoio dos monarcas, a quem os religiosos garantiram o reino dos céus. Os poderosos monarcas poderiam se descartar de todos aqueles que ameaçavam seu poder sem correr nenhum risco de descer do trono. De lá para cá poucas mudanças houve, mas...

Um belo dia, os religiosos descobriram que poderiam ser eles próprios os monarcas, melhor ainda, os donos da grana. Somente precisariam de um grande alto-falante, com uma bela tela colorida, acompanhados de muita música gospel. E, maravilha das maravilhas, surgiram os evangélicos.

Eles trabalham duro para conseguir que os neo-ateus se convertam ao deus-capital, ao deus do ter, e abandonem a consciência, o pensamento, a individualidade, o ser-pessoa. Não medem esforços. Criaram até escolinha ao vivo (são aqueles programinhas chamados Gente inocente, Pequenos brilhantes, Xuxa Park etc.), para as crianças aprenderem que o capital é Deus e a mídia, o seu profeta.

É claro que com a cumplicidade dos donos de redes de TV e rádio, que preferem terceirizar a produção para aumentar os lucros. Os jornais, para não perderem dinheiro, fartam-se de anunciar os megashows, garantindo assim boa venda entre os seguidores dos tais pastores-e-padres-vendedores-de-ilusões.

E o nazismo, onde entra?

O nazismo nada mais é, por este ponto de vista, do que uma ideologia que tira o poder de escolha da população, para poder dirigi-la e atingir os propósitos dos poderosos: acumular bastante poder e dinheiro. Para que, eu não sei, mas, como não aprendi a gostar de mandar em ninguém nem a juntar dinheiro como quem junta ar para respirar, sou suspeita para responder a uma pergunta dessas.

Por certo, os jovens, que estão crescendo na TV e aprendendo que a gente reza para ter dinheiro, sucesso e aparecer na TV, e que ser rico é sinônimo de ser feliz, saberão responder a questões deste tipo. Eu os vejo sempre na TV: muito bonitos, falando várias línguas, assim como aquele Gustavo, ex-Banco Central, ou cheios de ginga e fala largada, mostrando seus lindos bumbuns e ganhando muito dinheiro para beber e atropelar os neopobres-de-espírito que ainda não aprenderam que o dinheiro é tudo e o bispo é o seu profeta.

Os donos dos jornais, das TVs e das rádios são os que puxam as cordas para apertar os pescoços e acendem as fogueiras para queimar as bruxas. Só que são civilizados, fazem isto com muito marketing e o povo nem percebe a vida de gado que vai levando.

(*) Psicóloga

 

INTERNET
A nova vitrine do jornalista

Fábio Metzger

No princípio, era o verbo. A palavra destoava de todas as outras manifestações. Nas remotas sociedades agrícolas, onde uma imensa massa de miseráveis sobrevivia feliz e conformada, o dom da palavra dava força a alguns dos fracos. Esses fracos, do nada, se tornavam fortes. E de tão fortes, submetiam toda uma população à constante humilhação de viver sem perspectivas.

A imprensa do tempo de Gutenberg foi uma das grandes inovações da história. Uma invenção que esperava pela democracia. Eram tempos em que o panfleto escorria das mãos de gente comum, espirrando ódio e revolta perante uma população ainda um tanto silenciosa.

A tecnologia avançava rapidamente e, ao longo dos séculos, a indústria surgira como a salvação daquele mundo que, aparentemente, não tinha solução. Do nada, aqueles mesmos iletrados foram mergulhados no terror das linhas de montagem. De tão massacrados, tiveram que se articular. A revolta empurrou a todos à avalanche revolucionária do socialismo. Nessa época, a imprensa fervilhava em constantes e deliciosas contradições. Ao mesmo tempo em que a palavra revolucionária engasgava na imprensa, a indignação contra as mentiras dos governos teimava em brotar nas páginas dos maiores e melhores jornais da época. Episódios como o Caso Dreyfus demonstravam que estava ficando difícil forjar mentiras.

A união fez a força

Foram necessárias mais duas guerras quentes e uma Guerra Fria para que a humanidade soubesse, de verdade, o papel que a imprensa poderia exercer. Enquanto na Alemanha nazista a imprensa se aliava à implacável propaganda moderna de Goebbels, na URSS a idéia de um "novo homem" fazia acreditar que, com o comunismo, as coisas seriam melhores dali em diante. O rádio, nos EUA, virava o mais irresistível palanque para a voz de políticos influentes e carismáticos.

Foi nessa época que os grandes conglomerados começaram a se organizar. A indústria do entretenimento era apenas um entre os futuros pilares das sociedades capitalistas. A música e o cinema ainda eram dois irmãos que ora brigavam, ora se reconciliavam. Jornais, rádio e televisões, por sua vez, viviam uma realidade à parte. Tinham como função fundamental zelar por sociedades altamente avançadas, a despeito de quaisquer envolvimentos políticos.

A televisão engatinhava, enquanto jornais e rádios eram ferramentas usuais do livre debate. Mal sabiam seus donos o tamanho do gigante que geravam. É claro que, sozinhos, os donos do vasto império americano de televisão não iriam muito longe. Desta forma, uniram suas forças ao poder da já consolidada indústria do entretenimento. Se a televisão não passava de um meio, finalmente os donos das grandes redes sabiam dos fins que ela teria de perseguir. Ela não era só mais um aparelho. Era também uma nova alternativa para a distração do homem comum.

A palavra começava a ser engolida pela imagem. De tão bela, de tão indescritível, a imagem se sobrepôs à descrição e à discrição da redação dos veículos impressos.

O poder do software

De repente, as sociedades mais avançadas se viram na necessidade de perguntar: sem a força da imprensa, qual será o instrumento que teremos para exercer nossa cidadania? A força da mídia estimulava a passividade e obstruía os antigos sonhos de se mudar a base das sociedades. O Grande Irmão de 1984, de George Orwell, não parecia tão distante, uma vez que o debate da tela viva não era tão intenso quanto o das páginas de jornal.

O leitor pode estar se perguntando: por que até agora não se falou da maior indústria da atualidade? Sim, por incrível que pareça a indústria do entretenimento e as grandes redes de televisão não são os veículos mais poderosos de hoje. A indústria da informática ultrapassou todos eles. De repente, Bill Gates abre os portões da grande indústria de software e, com sua Microsoft, desbanca a eterna líder IBM. Do nada, um novo meio emerge para engolir todas as mídias existentes. O software mais é interativo, mais completo, mais dinâmico que qualquer TV. Será o software o novo poder da sociedade?

Não. Software, por mais comerciável que seja, não tem ideologia e é incapaz de transmitir o mundo ao vivo. Precisa de aliados. E seu mais novo aliado é... a Internet.

Chance para o debate

Não é à toa que hoje ouvimos falar de fusões e parcerias entre indústrias de comunicação, fábricas de computadores, de software e provedores da Internet. E adivinha quem está controlando toda esta brincadeira?

Sim, os donos da Internet. Pela "pechincha" de US$ 166 bilhões, a Time Warner foi vendida ao provedor America On Line. É incrível, mas parece que os meios de comunicação estão vivendo uma permanente fagocitose, sem data próxima para terminar. Diante de tal situação, em que lugar fica a imprensa?

No melhor possível. Nos últimos meses, as oportunidades para jornalistas aumentaram muito. Das cerca de 400 novas vagas criadas no mercado de trabalho, nos últimos seis meses, metade delas foi para o mercado da Internet. Pesos pesados da imprensa brasileira, como Matinas Suzuki Jr. e Ancelmo Góis, saem da Abril e vão para a iG, bastante valorizados. De repente, as notícias sobre corte de pessoal na imprensa dão lugar a um certo otimismo.

Erros do passado

A pergunta que cabe é: com um novo meio interativo seremos capazes de reproduzir o livre debate proporcionado pela imprensa há algumas décadas?

O futuro, ninguém prevê, mas a impressão é que, para se vencer na Internet, é necessária muita competência. Não adianta simplesmente montar um site. É preciso que ele seja muito visitado. Não se pode cometer os mesmos erros de planejamento das antigas mídias. Sem esses erros, um America Online jamais teria cacife para engolir uma Time-Warner.

Sem o cuidado necessário para evitar os erros do passado, poderemos assistir a uma grande quebra de empresas que investem na Internet. Se isso acontecer, nem o grande esforço dos melhores jornalistas será suficiente para compensar a recessão que virá.

Espaço para todos

Por outro lado, os grandes provedores da Internet já estão se consolidando e, ao que tudo indica, a maneira que eles encontraram de se manter fortes e influentes não é muito diferente daquilo que a mídia antiga criou para si. Como os velhos meios, os grandes provedores da Internet bebem da fonte das agências de notícias... muitas delas pertencentes aos detentores de veículos impressos.

Não se pode esquecer que, com a criação da Internet a cabo, nunca foi tão provável a aliança entre os meios virtuais e a televisão. Isso representa um poder inimaginável. A TV a cabo, um fenômeno recente no país, multiplicaria sua penetração, e os seus maiores controladores são os mesmos que detêm as TVs abertas, jornais, rádios e revistas mais influentes.

Fala-se que, no futuro, os computadores deixarão de existir, pois os cada vez menores chips poderão ser associados a qualquer objeto, um par de óculos, por exemplo. De tão baratos que serão, morreria até a poderosíssima indústria do Vale do Silício, na Califórnia. Mas isso não deve ser objeto de preocupação. O importante é que, com tanto poder sendo distribuído, haverá espaço para todos. A Internet é uma gigantesca vitrine, e nela se destacará o trabalho dos bons jornalistas.

 

CARTAS
Invasão das igrejas

Achei interessante os comentários sobre o assunto, mas vocês esqueceram de mencionar a TV Cultura de São Paulo, que também transmite a missa de Aparecida todo domingo às 8h. Conforme, abaixo, mensagem minha a este Observatório:

"Gostaria de saber por que a TV Cultura, sendo pública e portanto secular, está transmitindo um culto religioso (missa de Aparecida, domingo, 8 h). Já perguntei isto à emissora, mas não importaram em responder.

Senão vejamos:

‘Constituição da República Federativa do Brasil (1988)

Artigo 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal, e aos Municípios:

I: estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada na forma da lei a colaboração de interesse público.’

Pelo exposto acima, quer me parecer que protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, livre- pensadores e ateus entendem que a Constituição está sendo burlada acintosamente. Estou enganado? Por favor, me esclareçam."

Espero que o fato de o Observatório ser transmitido pela TV Cultura de São Paulo não seja o motivo da omissão.

Jamil Orlandelli jorlandelli@uol.com.br

Nota do O.I.: Caro Jamil, sua observação não procede visto que sua mensagem, que motivou as que se seguiram, foi publicada na edição 83 (5/2/00). É a segunda carta da retranca "Críticas à TV Cultura". Veja a remissão abaixo. Um abraço, M. C.

 

LEIA TAMBEM

Socorro! Três canais da Universal!

 



Mande-nos seu comentário

Início do Jornal de debates





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você