Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

GREVE NAS UNIVERSIDADES
Além da questão salarial

Carlos Vogt

A questão salarial há tempos não se mostrava tão motivadora de movimentos de reivindicação nas universidades paulistas como vem ocorrendo agora.

Mas é preciso prestar atenção ao fato de que, se o motivo mais aparente da greve são os salários, a insatisfação e um certo desalento têm crescido entre docentes, pesquisadores e pessoal de apoio técnico administrativo, em virtude da política "contabilista" de contenção orçamentária que vem sendo praticada pelas administrações, e cujos reflexos negativos se fazem sentir fortemente na redução do quadro técnico de professores e de pesquisadores.

Em graus que podem ser distintos, a qualidade, contudo, do problema é, hoje, comum à USP, à UNICAMP e à UNESP.

As manchetes dos jornais têm exibido, nas fotos que as acompanham, cartazes de mobilização que refletem esse clima de desacerto, atingindo, inclusive, os estudantes, que, é claro, não estão no movimento por reivindicação de melhores salários, mas sim de melhores condições de funcionamento das instituições em suas tarefas básicas de ensino, pesquisa e extensão.

Nesse sentido, a título de exemplo, considere-se a foto estampada na primeira página do primeiro caderno de O Estado de S. Paulo (27/4/00), em que estudantes aparecem em atitude de diálogo e de conversação, em pequenos grupos, e uma faixa encabeça a foto com os seguintes dizeres: "Estamos impedidos de estudar. Queremos professores e não grama para pastar."

Na semana passada, um grupo de estudantes invadiu o prédio da reitoria da UNICAMP e acampou durante dois dias na entrada de duas pró-reitorias, impedidas, assim, de funcionar. Um dos pontos da reivindicação estudantil era exatamente o de melhores condições para o ensino e a reposição do quadro de professores, enxugado pelas medidas de contenção da administração central da universidade.

Episódios semelhantes vinham ocorrendo nas três universidades públicas paulistas, como uma sinalização de que, mantida a pura política contabilista de economia doméstica que vinha sendo praticada, as coisas poderiam se complicar, porque acabariam canalizando problemas e potencializando as dificuldades nos cenários de maio, mês da data-base nessas instituições.

Que a lógica que rege as administrações governamentais no país, sob a batuta das imposições internacionais e no décor da economia globalizada, seja a do enxugamento dos gastos para controle da dívida pública e para o cumprimento das metas de superávit contratadas com o FMI, compreende-se, ainda que seja difícil aceitá-la, pelo custo social que acarreta.

Que as administrações das universidades estaduais paulistas, dentro da autonomia de gestão financeira que conquistaram há mais de uma década, sejam de austeridade e parcimônia, nada mais lógico e desejável para a consecução dos fins maiores de sua existência: a alta qualidade acadêmica de suas ações.

Que se confunda a necessária otimização dos recursos orçamentários das universidades com o desmanche das estruturas que suportam a sua capacidade de realizar com felicidade os seus objetivos acadêmicos de formação dos jovens, de domínio e produção do conhecimento e de sua socialização, pelo ensino, isso já nem se compreende, nem se aceita, sobretudo no quadro da falta grave de um projeto acadêmico consistente que possa servir de parâmetro e de referência para o debate inadiável dos novos papéis e das novas funções das universidades, nos cenários cambiantes de incertezas que a nova economia desenha para o mundo e impõe ao país.



CARTAS
De profecias e deformações

Muito interessante e justo o artigo do lingüista Carlos Vogt publicado pelo Observatório daImprensa [ver remissão abaixo]. O processo de globalização tal como vem sendo conduzido pelas grandes potências e por suas organizações "transnacionais" é descrito e analisado em suas conseqüências perversas, na concentração desmedida do capital, na magnitude do fenômeno da exclusão social, na destituição do sujeito. Tudo isso desmonta o tom "profético", metropolitano e simplista do Sr. Steven Fischer em artigo de ampla repercussão publicado pela revista Veja nº 1.643, de 5 de maio.

Pena, no entanto, que o articulista, ao desmistificar idéias postas em circulação pelos donos do poder, incorra numa dessas armadilhas ideológicas tão comuns nesta época de semiculturalização.

Na análise do preconizado processo de centralização dos idiomas em apenas algumas (inglês, espanhol e mandarim – numa primeira divisão do globo – que certamente antecede e anuncia um processo econômico-político já em andamento) e no próprio título do artigo, Carlos Vogt contribui para a divulgação de uma absurda inverdade: o esperanto é língua neutra cuja intenção por um lado é constituir-se língua-ponte entre falantes de línguas diferentes, e por outro lado é concorrer para a manutenção dos vários idiomas nacionais, esteios de culturas e maneiras de vida que devem ser preservadas no esforço de defender existências não superficiais, no fundo para defender o próprio sujeito.

No artigo, no entanto, o próprio processo de atração e destruição das línguas e culturas nacionais é caracterizado como "esperantização", ou seja, pelo seu inverso. Para merecido reforço na presente argumentação e para outras batalhas que se façam necessárias nessa época de pensamento único, a correção desta falsa idéia se faz cada vez mais premente e necessária.

Newton Ramos de Oliveira, professor-doutor aposentado da Unesp

***

O lingüista Carlos Vogt demonstra um certo preconceito com o idioma esperanto, e também comete um engano terrível ao acreditar que o uso do esperanto causaria a homogeneização do mundo ao se referir ao processo de "esperantização". O objetivo do esperanto não é substituir línguas e culturas: é justamente o contrário, ou seja, proteger todas as línguas até as mais pequenas pelo uso de um idioma sem nacionalidade e mais democrático como é o caso do esperanto.

Os falantes do esperanto espalhados pelo mundo são bilíngües, ou seja, usam e valorizam os seus idiomas nacionais, e em ambientes internacionais usam o esperanto como meio de comunicação eficiente.

João Manoel Aguilera Junior



Leia também

Babel, esperanto, línguas e profecias – Carlos Vogt

 



Mande-nos seu comentário

Início do Jornal de debates





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você