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PREVIDÊNCIA
Ponto-e-vírgula
Carlos Vogt
Proponho que daqui por diante chamemos ponto-e-vírgula todo expediente usado por autoridades domésticas, sindicais, patronais, municipais, estaduais, federais, enfim, autoridades de qualquer tipo, credo e time de futebol, para acomodar na forma o conteúdo do que gostariam que tivesse sido, e não foi.
Proponho também que o paradigma-padrinho desse batizado seja a intenção do governo federal de interpretar o ponto-e-vírgula da Emenda Constitucional número 20 da reforma da Previdência como um e, aditivo, conjunção que realiza, na língua, a soma de conteúdos proposicionais e que tem, do ponto de vista lógico, condições de verdade bem específicas, a saber: a proposição complexa formada pela adição de duas proposições simples só é verdadeira se, e somente se, as duas proposições simples forem elas próprias verdadeiras.
O trecho polêmico, e ainda mais polemizado pela imprensa/mídia, da Emenda Constitucional número 20 é o seguinte:
"É assegurada a aposentadoria no regime geral de Previdência Social, nos termos da lei, obedecidas as seguintes condições: 35 anos de contribuição, se homem e 30 anos, se mulher; 65 anos de idade, se homem e 60 anos, se mulher."
De acordo com o que foi acima dito, a se interpretar o ponto-e-vírgula que separa as duas condições a serem obedecidas, segundo o texto da emenda, como um e aditivo, o enunciado dessas condições só será verdadeiro se os dois enunciados simples forem simultaneamente verdadeiros. Isto é, para se aposentar, o homem precisa contribuir para a Previdência por 35 anos e ter 65 anos de idade e a mulher, por 30 anos e ter 60 anos de idade.
Como não se imagina, na Constituição, a intenção de mentir, dos constituintes, o enunciado das condições de aposentadoria é verdadeiro, e se ele é verdadeiro é que cada uma das condições enunciadas é necessariamente verdadeira.
Deve ter sido esse o raciocínio que fizeram as autoridades da Previdência, ao tentar fazer passar uma interpretação do texto que contraria frontalmente, se bem nos lembramos todos, o que foi aprovado na reforma, quando as idades mínimas de 55 e 60 anos, respectivamente para mulheres e homens, foram rejeitadas pelos legisladores.
Já na época os aposentados, quer dizer, todos os trabalhadores, foram ameaçados com a possibilidade de que, não tendo vingado a proposta dos 55/60, prevaleceria a alternativa pior dos 60/65, existente do texto da Constituição, desde sua promulgação em 88.
Não deu outra: sobre o argumento técnico de que a Previdência deixará de economizar R$ 1,7 milhão se não se fixar o critério da idade mínima de aposentadoria, o governo fez entrar pela janela, isto é, pelo ponto-e-vírgula, o que tinha saído pela porta da sala, ou pela supressão do e aditivo. Mas enquanto o convidado não voltava disfarçado de ponto-e-vírgula, ficaram parados, no INSS, em sinal amarelo, perto de 900 processos de aposentadoria, aguardando a confecção do disfarce para o carnaval de enganos.
Não deu certo: a grita foi geral, o presidente da República interveio e mandou dizer que o ponto-e-vírgula não é e mas sim ou, e tudo pareceu pacificar-se, ao menos até que outra investida interpretativa seja traçada pelos estrategistas jurídico-lingüístico-previdenciaristas e mais um torneio pândego de equívocos freqüente nossa imprensa/mídia para o seu gáudio, para a diversão dos leitores/espectadores e para a tristeza das políticas públicas sociais no Brasil.
A imprensa/mídia parece com um amigo meu cuja característica mais marcante é o gosto pela controvérsia tão acentuado que na falta de uma que se lhe proponha, ele próprio começa a contradizer-se e a contrariar-se em busca do prazer da adversidade retórica. Mas meu amigo não vende a controvérsia, apenas compraz-se com alimentá-la, diferentemente da imprensa/mídia que, careca de saber, no caso da Previdência, que a interpretação do governo é lógica, técnica e politicamente abusiva, faz todo um jogo de cena para, esticando o assunto, esticar também o espetáculo de bobagens que assola o nosso cotidiano.
O ponto-e-vírgula não é e, nem ou; é uma pausa maior na gestualidade do discurso que justapõe enunciações distintas e não soma necessariamente o conteúdo proposicional de seus enunciados. Nesse sentido, pode ser interpretado de muitas formas, todas dependendo, como bem já se disse, das intenções do enunciador, no caso os legisladores que aprovaram o texto, a forma e o conteúdo da reforma da Previdência. E a intenção, todos sabemos, não foi recusar a idade mínima de 55 para mulher e 60 anos para homem, para permitir que se inscrevesse o mínimo de 60 e 65 anos, respectivamente. Isso seria moralmente cruel, eticamente cínico, tecnicamente artificioso e socialmente absurdo.
A imprensa/mídia sabe disso. Por que, então, não dizê-lo com todas as letras, vírgulas e ponto-e-vírgulas?
SAÚDE NA TV
O que não ajuda,
atrapalha 2
Vera Silva (*)
Encontrei um amigo zangadíssimo com a novela das oito da TV Globo. O meu amigo, assim como eu, trabalha na área de saúde e gasta muito do seu tempo orientando as pessoas a usarem a rede pública de saúde e a exigirem bom atendimento.
Ele sabe que uma das coisas que pioram a saúde das pessoas de menor poder aquisitivo é acharem que estão doentes e não vão melhorar porque se tratam na rede pública.
Pois, para sua indignação, a Lavínia, da novela das oito, grávida e sem dinheiro, disse que ia se "virar" para arranjar dinheiro para pagar seu atendimento pré-natal e o parto, porque para hospital público ela não iria. "Como é que um autor coloca isto numa novela de grande audiência? Será que ele não sabe que a auto-estima popular é baixa, e que este tipo de fala reforça a crença de que o sistema público de saúde é pior do que o particular?", perguntava ele, entre perplexo e indignado.
Será mesmo, me perguntei, que o serviço público de saúde é tão bom quanto o particular? Analisando as reclamações que lemos nos jornais e vemos na TV, contra o setor público de saúde, percebemos ser a grande maioria delas referente ao tempo de espera: por uma consulta, por um exame, pela consulta de retorno, por uma ambulância, pelo conserto de um equipamento, por um remédio ou vacina que acabou etc. Há muita reclamação contra a falta de empatia do corpo clínico, contra a feiúra dos ambientes. No campo dos erros médicos, se considerarmos o número de pessoas atendidas percentualmente, penso (não conheço as estatísticas) que os setores público e privado se igualam.
Seria possível que o problema da rede pública de saúde fosse decorrente de não haver prioridade política para a assistência de saúde à população? Teríamos um bem qualificado corpo profissional nos hospitais e centros de saúde públicos, mas este staff seria insuficiente em relação à demanda e os equipamentos e material careceriam de manutenção e também sua quantidade seria insuficiente para o número de pacientes.
Por que então a mídia reforça a crença de que a qualidade do atendimento é ruim sem especificar em que é ruim? Por que não discute a falta de planejamento estratégico na área de saúde, o não-cumprimento da Constituição, que garante o direito de cada cidadão à saúde sem ônus pessoal, a não ser aqueles decorrentes dos impostos que todos pagamos?
Será que toda a mídia, inclusive os profissionais de saúde da rede pública, foi infectada pelo vírus do "privatismo" a ponto de ignorar a Constituição do Brasil?
Neste caso, meu amigo tem razão: a TV Globo está fazendo mal à saúde da população brasileira quando individualiza uma questão social: não tenho saúde porque não tenho dinheiro para comprá-la. Ao fazer isso, imobiliza o cidadão, que deixa de reivindicar o seu direito e passa a esmolar assistência de saúde, ou a pensar que médico bom é aquele que cobra mais caro.
É hora de mudar, vocês não acham?
(*) Psicóloga
DEBATE
O jornalismo do Granma
Tréplica de Sandro Vaia a Miguel Chaia
Caro professor Chaia,
Muito louvável o seu esforço, no último número do Observatório da Imprensa [ver remissão abaixo], para manter no ar a bola da professora Beatriz Wey e sua tese sobre o Granma, mas continuamos com os mesmos problemas.
O senhor diz coisas que, francamente, escapam à minha compreensão. Por exemplo: "A imprensa constitui um sistema de fontes jornalísticas etc. etc. etc.". Ou ainda: "O jornal existe mesmo antes da constituição da imprensa". O senhor também discorre sobre a diversidade dos jornais nas sociedades democráticas, e lembra que "internacionalmente, vale lembrar as distinções entre Monde e Figaro, dois jornais ideologicamente distintos".
O fato de existirem jornais distintos em sociedades democráticas prova apenas que essas sociedades são mesmo democráticas, pois se não o fossem, os jornais não seriam distintos como ocorre em Cuba. Bom, mas e daí?
Daí, na comparação entre a prática do jornalismo em países autoritários e/ou totalitários e em países democráticos é que a maionese ideológica desanda. Diz o senhor que, na primeira situação, "têm-se jornais e jornalistas que informam e noticiam tendo em vista funções políticas específicas e clarificadas (pelo projeto de Estado)". Mas alerta, com argúcia, que "isto não quer dizer que o jornalismo nas democracias também não tenha funções políticas, às vezes difusas ou mascaradas". Como se as "funções políticas" de um jornalista do Granma, ou de qualquer outro jornal de país de partido único, pudessem ser comparáveis às "funções políticas" de um jornalista do El País, do Die Welt, do El Mercurio, do Los Angeles Times, do La Stampa, do Correio Braziliense ou do Globo ou de qualquer outro jornal de país democrático.
Sem cair no "simplismo maniqueísta", como diz o senhor, continuamos no mesmo impasse. Não há nada contra o fato de a professora Wey estudar o Granma. Ela pode estudar o que bem lhe aprouver, tendo em vista a existência de alguém que lhe fornece os meios. Mas colocar sobre esse estudo um glacê acadêmico e pseudo-científico, solenizando a banalidade com palavras pomposas é que eu chamo de embuste ideológico. Se alguém fosse estudar a imprensa brasileira do período da ditadura militar, submetida a uma ferrenha censura, e dissesse, como o senhor, que "a realidade é muito rica em paradoxos e tensões", chamaríamos isso de tergiversação, porque a ditadura era ditadura e a censura era censura. Hoje temos que chamar a ditadura cubana de "específico momento histórico" e esse olhar piedoso e benevolente sobre um panfleto de propaganda oficial de "ciência". Atenciosamente, Sandro Vaia.
O jornalismo do Pravda
Marinilda Carvalho
Acho que o que falta nesse debate sobre o Granma é definir quem é quem. Não conheço nenhuma das pessoas envolvidas, e não pretendo fazer juízo de valor. Mas sei que Sandro Vaia é jornalista, provavelmente liberal já que odeia ditaduras, especialmente as vermelhas , e Beatriz Wey é cientista política, provavelmente de esquerda dificilmente iria a Havana estudar o Granma com a intenção de "desconstruir" o jornal-símbolo da revolução cubana (pena que ela mesma não volte ao Observatório para participar do debate). Um odeia jornalismo "sob controle"; a outra admite, sem preconceitos, ou talvez para efeito de seu estudo, que um jornal possa desempenhar um papel "não-informativo", "ideológico" numa sociedade que pretende ignorar os valores burgueses. (Usei as aspas porque não conheço jornal, nas sociedades ditas burguesas, que não sofra algum tipo de controle ou não sirva a alguma ideologia, e daí até deixe de informar. Aos 52 anos, vejo isso com naturalidade.)
Acredito que Beatriz tenha simpatia por Cuba e pelo Granma. Eu também tenho, imensa. Mas jornalistas rejeitam jornais "tão" controlados, seja o Sandro Vaia ou um jornalista comunista. Em 1969, plena ditadura aqui, plena era Brejnev lá, um coletivo de 28 estudantes comunistas visitou, a meu pedido, única jornalista do grupo, a redação do Pravda, em Moscou. Além da tal "simpatia" pela URSS e por seu principal diário, eu tinha uma curiosidade imensa em saber como se fazia o jornal que sustentava o, digamos, "imaginário nacional" dos soviéticos.
Pensei, nos meus 22 anos, que encontraria uma redação vibrante, colegas entusiasmados participando da construção de uma nova sociedade, um jeito socialista de fazer jornal, exclusivamente no interesse do leitor/novo homem.
Quase caí dura no chão, ao chegar. A redação era um velório, os "colegas" pareciam burocratas, não entendiam minhas perguntas. E o pior: as páginas das futuras edições de toda a semana seguinte! estavam prontas, compostas... pregadas nas paredes!!! Em cada uma havia um buraco pequeno, 2 x 20, ou 2 x 30 no máximo (aos não-jornalistas: o "2" significa duas colunas e o "20" a altura da coluna) para alguma notícia "inesperada". Estupor. Encanto quebrado. Fiz a viagem de volta ao abchejitie (alojamento?) em profunda depressão.
Ninguém concordou comigo. Todos os 27 companheiros acharam natural e até imperioso que o Pravda funcionasse assim. "Tem a propaganda burguesa..." etc. etc.
Acho que é isso que diferencia Sandro Vaia de Beatriz Wey. Ele é jornalista. E para nós, como dizia Millôr Fernandes, no Pasquim, imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Em tempos de pensamento único, essa idéia foi completamente esculhambada, é verdade. (A propósito, leiam Renato Pompeu no Entre Aspas) Mas ela continua na nossa cabeça.
PIZZA
Morte anunciada
da CPI da Propina
Vera Chaia (*)
Muito se tem falado sobre a CPI da Máfia dos Fiscais que investiga a corrupção dos fiscais nas administrações regionais na cidade de São Paulo, que chegou a envolver um grupo de vereadores. A Câmara Municipal paulistana esteve presente nas primeiras páginas dos jornais, telejornais locais e nacionais, programas de rádio e na conversa cotidiana dos cidadãos paulistanos e brasileiros.
A de 24 a 29/5/99 foi marcada por intensos debates políticos e por inúmeras articulações feitas nos bastidores do cenário político visando enterrar a CPI. Os interessados nesta articulação procuraram "salvar a própria pele" (vereadores envolvidos no esquema das propinas), impedir o andamento do processo de impeachment do prefeito Celso Pitta, ou atendiam aos apelos do ex-prefeito Paulo Maluf, que objetivava sair "ileso" destas investigações.
As CPIs não são novidade na Câmara Municipal de São Paulo: a legislatura que funcionou durante a gestão de Maluf (1993-1996) instalou uma CPI para averiguar denúncias de corrupção de fiscais da Prefeitura, em 1995. Mera coincidência?
Quais as semelhanças entre a CPI instalada em 27/9/95 e a de março de 1999? Ambas foram formadas para apurar corrupção dos fiscais da Prefeitura. O vereador José Eduardo Cardozo (PT) foi o solicitante e o presidente designado para dirigir os trabalhos de ambas as CPIs; o PPB deteve maioria parlamentar em ambos os períodos; os prefeitos envolvidos Maluf e Pitta começaram suas gestões pelo PPB; a mídia teve papel importante, pois denunciou os primeiros casos que desencadearam os processos para a formação das CPIs.
A comparação é possível de ser feita, fundamentada na pesquisa que estamos desenvolvendo sobre "A Imprensa e a Câmara Municipal de São Paulo 1989 a 1996", na qual se elege como tema a dimensão política da imprensa voltada a analisar o complexo relacionamento entre os jornais e a Câmara Municipal de São Paulo nas legislaturas de 1989-92 e 1993-96, nos governos de Luíza Erundina (PT) e Paulo Maluf (PPB). Para tanto foram analisados os diários Folha da Tarde, Folha de S.Paulo, Diário Popular, O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde.
A maioria das notícias até agora analisadas ressalta que a imprensa destacava apenas fatos pitorescos ou irregularidades ocorridas na Câmara Municipal. Os projetos e as iniciativas de maior relevância apresentados e discutidos pelos vereadores foram esquecidos e raramente ganharam destaque, nos jornais. Em alguns casos, quando o vereador fazia uma denúncia que atingia outros políticos ou apontava problemas da administração municipal, como contratação de assessores da Prefeitura sem concurso público, a notícia aparecia e repercutia nacionalmente. Portanto, pode-se antecipar que a maioria das matérias sobre a Câmara Municipal de São Paulo, veiculadas pelos jornais da cidade, são depreciativas, desqualificam os políticos e denunciam vários tipos de problemas no Legislativo municipal.
Partindo de uma análise parcial e restringindo as conclusões à cobertura do jornal Diário Popular, pode-se contabilizar, comparando as duas legislaturas, a presença expressiva de notícias sobre CPIs na gestão Maluf. De um total de 283 (100%) de notícias específicas sobre o assunto, 81 (28,6%) foram veiculadas na gestão Erundina e 202 (71,4%) na gestão Maluf.
A partir desse levantamento preliminar, procuraremos reproduzir o que aconteceu com a CPI instalada no dia 27/4/95 e que teve como objetivo apurar as irregularidades na fiscalização do comércio de ambulantes. A denúncia partiu de uma jornalista da Rádio Bandeirantes, que havia noticiado indícios de corrupção dos fiscais da Administração Regional da Sé.
A manchete do Diário Popular estampou a implantação desta comissão: "CPI da corrupção ouve depoimentos na quarta" (27/4/95). Vários camelôs prestaram depoimentos, fiscais da Prefeitura foram denunciados, o administrador da regional da Sé, Vitor David (sogro de Hanna Garib) foi chamado a depor e argumentou que ele não tinha condições de acabar com a corrupção na sua administração, isentando-se de culpa. Naquela ocasião a CPI teve a seguinte composição: Mario Noda (PTB), José Índio (PMDB), Mohamad Said Mourad (PL), que votaram contra a formação da CPI; Alex Freua Netto (PPR) [faleceu durante a CPI, sendo substituído por Cosme Lopes (PPB)] e José Eduardo Martins Cardozo (PT), que havia pedido a sua formação e foi designado presidente da CPI. É importante ressaltar que quem designa a composição da CPI é o presidente da Casa, na época o vereador Miguel Colassuono (PPB).
As conseqüências daquela CPI: o relatório final elaborado pelo vereador Cosme Lopes circunscreveu a culpabilidade a um grupo de fiscais e denunciou inúmeras irregularidades, dentre as quais se destacam o aluguel e vendas de pontos comerciais, denúncias de corrupção e contravenção penal, ameaças contra a vida, arrecadação de valores com fins eleitorais etc. Naquela ocasião, o vereador José Eduardo Cardozo fez seu voto em separado e ressaltou que deveriam ter sido investigadas outras administrações, pois havia denúncias de corrupção e irregularidades em várias regionais. Também questionou a atuação do Sr. Vitor David, não totalmente investigada, além de uma série de problemas encontrados e não devidamente apurados. O relatório final, com todos os depoimentos e provas colhidas, foi encaminhado ao Ministério Público para futuras investigações.
Avancemos no tempo e procuraremos analisar como se deu a formação da CPI da Máfia dos Fiscais, em 1999: o presidente da Câmara Municipal, Armando Mellão (elegeu-se pelo PPB e atualmente está sem partido), designou como presidente da CPI o vereador José Eduardo Cardozo (PT), solicitante da mesma. A comissão foi composta por Dalton Silvano (PSDB), Brasil Vita (PPB), Wadih Mutran (PPB), Milton Leite (PMDB), sendo que estes três últimos vereadores votaram contra a formação da CPI na primeira votação e estão diretamente envolvidos com a indicação de administradores regionais. Portanto, os limites desta CPI também já estavam traçados a partir de sua própria formação.
A CPI da Máfia dos Fiscais, instalada em março de 1999 [ver remissão abaixo] foi sepultada em maio de 1999, com uma manobra, muito bem articulada, executada pelo prefeito Celso Pitta, que trocou com sua base de apoio na Câmara a não-aprovação de um processo de impeachment pelo encerramento da CPI, que poderia ser prorrogada pelo regimento, em mais 90 dias, período necessário para que fossem realizadas todas as investigações.
Neste caso específico, apesar de toda a pressão e o acompanhamento feito pela mídia denunciando e investigando por conta própria e publicizando os fatos relacionados à CPI, conseguimos constatar que a política possui uma certa autonomia, pois foi exatamente nos bastidores do poder ("surdina da noite") que os acordos políticos entre o prefeito Celso Pitta, o grupo ligado ao ex-prefeito Paulo Maluf e os vereadores situacionistas foram feitos sem a presença dos meios de comunicação e na ausência do Ministério Público.
Quais os limites de uma CPI? O primeiro aspecto que chama a atenção, como já foi destacado, é o procedimento utilizado para sua composição. Normalmente o presidente da Câmara é quem pede a CPI e geralmente o vereador que solicitou sua formação é indicado a presidente. Os outros componentes serão designados pelo próprio presidente da Câmara. Caso o solicitante seja de um partido de oposição, dificilmente uma CPI com características de denúncia contra algum vereador situacionista ou contra um prefeito que detém maioria parlamentar vai chegar a um relatório final conseqüente, que puna os culpados.
Após as investigações, com depoimentos e coletas de provas, a CPI elabora um relatório em que aponta os responsáveis pelos problemas levantados e o remete ao Ministério Público, pois não tem poderes policiais e não pode se responsabilizar pela penalização dos eventuais culpados. A competência da Câmara não é punir, mas apontar responsabilidades. A Casa pune somente os casos que envolvam vereadores; aí é uma questão de comissão processante, que avalia a possibilidade de um processo de cassação de mandato.
As CPIs, segundo pesquisa divulgada pela CNI/Vox Populi em 5/5/99, foram avaliadas positivamente por 64% dos eleitores entrevistados, e somente 25% as avaliaram negativamente. Neste sentido, o que se pode esperar de nossos políticos, que menosprezam e não levam em conta a opinião pública? Pesquisa da Unesco, recentemente divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo (25/5/99), teve como universo pesquisado jovens do Rio de Janeiro. Ao serem solicitados para atribuir notas de 0 a 10 ao grau de confiança nas instituições, a maioria (classes A e B) destacou em primeiro lugar a família, com nota 9,0, seguida da Igreja, com 7,2, e dos meios de comunicação, com 7,1. Ao Congresso Nacional e aos partidos políticos foram atribuídas notas 4,1 e 2,5 respectivamente. Neste caso, pode-se colocar sob nova perspectiva a questão referente à desqualificação dos políticos e das instituições pela mídia fazendo aflorar maiores dúvidas quanto a essa responsabilidade.
Com a morte (anunciada) da CPI da Máfia dos Fiscais, o Legislativo paulistano sepultou as últimas esperanças para limpar a administração pública paulistana, ou para realizar uma verdadeira "desmalufização" da máquina administrativa municipal. Foram preservadas práticas políticas como o clientelismo, o nepotismo e a corrupção, presentes na cultura política brasileira há longa data.
A mídia cumpriu sua parte, pois denunciou, investigou, cobrou e acompanhou todo o processo da CPI. Quem perde com esta "morte" é a democracia, a vida parlamentar, as instituições políticas e os cidadãos brasileiros.
(*) Professora do Departamento de Política e membro do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política) da PUC/SP
MÍDIAS
Internet e jornais murais
Jairo Faria Mendes
As análises sobre as novas tecnologias deixam a impressão de que estamos participando de um filme de ficção científica. Teóricos como Pierre Lévy insistem em dizer que estamos passando por uma revolução tecnológica que rompe com os paradigmas da chamada cultura de massa ou indústria cultural. E eles realmente têm razão.
No entanto, paralelamente a essa revolução, as novas tecnologias também fazem reaparecer processos comunicativos antigos e, de certa forma, rudes. Apesar de toda a complexidade da Internet, ela lembra os jornais murais que ainda sobrevivem em algumas cidades. São João Del Rei (MG), por exemplo, sempre teve vários jornais murais. Em Barbacena (MG), fez história o tradicional e respeitado Jornal do Poste. Até mesmo a UNE tem aproveitado esta mídia com um jornal mural impresso, que também poderia ser chamado de um jornal-cartaz.
No jornal mural, as informações ficam afixadas em um lugar público à disposição dos pedestres ou uma horrível palavra "transeuntes". Estes, logicamente, não podem manusear o jornal, por isso simplesmente passam os olhos pelas matérias. As informações precisam ser de fácil leitura e despertar interesse no leitor. Coisas como os resultados dos jogos de ontem, acontecimentos políticos polêmicos, notícias exóticas e informações de utilidade pública (das farmácias de plantão até classificados de imóveis). Quanto às notícias, é importante que tratem de algo desconhecido pelo "transeunte".
Guardadas as devidas proporções, na Internet as coisas não são muito diferentes. A rede se assemelha muito a um grande mural eletrônico. Texto e imagem ficam afixados virtualmente, esperando que alguém se interesse por eles. Ao público basta a opção de passar os olhos, só que nesse caso o texto também passa, some, volta a aparecer.
O fato de que os textos são estáticos, e não dão a possibilidade de serem tocados como nos jornais e revistas, cria uma situação de comunicação que não desperta muito entusiasmo no leitor. É como a informação que se lê porque é colocada à frente do olhos como cartazes, outdoors... Que é lida porque passa a fazer parte do espaço público.
Na Internet, assim como nos jornais murais, as informações precisam trazer novidades e ter leitura fácil. Por isso, a ênfase nos links "últimas notícias". Mas, bem diferentemente dos jornais murais, a Internet é um grande banco de dados.
A Internet também tem recursos tecnológicos que podem fazer dela algo mais do que este grande mural virtual. Pode utilizar mais o som, a imagem em movimento, os chats, os games etc. A tendência é que cada vez mais ela se pareça com um parque de diversões doméstico. E que cheguemos à alienante situação em que ficaremos "divertindo-nos até a morte", de acordo com as palavras do crítico da mídia Neil Postman.

Jornalismo do Granma 1, 2 e 3
Máfia e cidadania 1 e 2
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