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LINHA 174
Tem que esfregar na cara

Fabiano Golgo

As pessoas não podem confundir seu desconforto em ver cenas de barbárie urbana – das quais no Brasil não temos como fugir, devido à oferta elevada –, de absurdos nesse terreno miscigenado (de raças e classes), com a obrigação jornalística de mostrar, sim, essas cenas. E depois de esgotar o assunto para que se entenda o que é que está afinal acontecendo conosco. O dever da imprensa é exatamente esse.

Se os Sandros não são exceção, se acontecem inúmeras vezes por dia Brasil-cidade afora, então temos é que tentar de uma vez por todas entender de onde isso vem, o que "devemos" fazer para que não deixemos essa panela de pressão explodir, e a mídia é o meio mais abrangente para isso [veja remissões abaixo].

Os autistas que alardeiam não terem jamais sido alvo de violência que se perguntem se pelo menos não conhecem alguém, no plural, que já não tenha sido. Ora, moradores de zonas urbanas do Brasil construído a concreto supervalorizado vivem rodeados pela violência, pelo perigo mais que possível de serem assaltados ou coisa pior.

Em visitas a Sarajevo descobri que seja qual for seu horror diário, exatamente por ser diário e repetitivo, o cidadão se acostuma, digere, se adapta, às vezes em condições ridículas de tão extremas, como no caso da capital da Bósnia. Tiradas as diferenças óbvias entre Rio/São Paulo e Sarajevo, fica o fato de que tendemos a nos acomodar à realidade a nossa volta. Vivendo na bela e pacífica Praga, onde se pode cruzar um parque sem iluminação no meio da noite, demorei até a perder o instintivo (para brasileiros) estado de alerta, pronto para reagir a qualquer movimento no escuro.

Agora, uma coisa é certa: temos que assistir, sim, a esses horrores. Só que a imprensa precisa aprender a se aprofundar. Faculdades e cursinhos internos de nossa mídia parecem não estar se dedicando muito a ensinar aos repórteres a necessária contextualização das coisas reportadas. É preciso um "espremer antropológico" dessa violência endêmica. Não apenas o esfregar da realidade em nossas caras, sem um debate amplo de suas origens para que possamos arriscar possíveis soluções.

Foco desviado

Boa parte de nossa fascinação com a violência é, na verdade, um mecanismo de proteção. Como temos medo de que aquilo ocorra conosco, reagimos como a espécie humana reage – e é o que a diferencia das outras espécies animais –, analisando, examinando, racionalizando, quebrando em miúdos, ou qualquer dos vários nomes dados àquela nossa capacidade mental que também é o nosso principal mecanismo de defesa. Cada animal tem seu próprio mecanismo de defesa: uns mudam de cor para se esconderem, há os que liberam veneno, outros têm partes do corpo adaptadas ao ataque ou à fuga. Todos os (outros) animais os têm em seu próprio corpo.

O nosso mais eficiente sistema de defesa, apesar de emanado de uma parte do corpo – o cérebro – efetiva-se em terreno virtual, manifestando-se como idéias, cálculos, constatação comparada e outros afluentes da análise. Alçamos vôo enquanto espécie por nos diferenciarmos como a única capaz de racionalização. E, ligada a essa capacidade, usamos da artimanha de procurarmos "entender", no sentido de "desvendar" o inimigo, ou qualquer potencial perigo à nossa vida.

O nosso mecanismo de defesa é desenvolver um antídoto, uma arma mais forte, um meio que evite nossa derrota. E, para desenvolvê-lo, precisamos entender o que é exatamente o tal perigo. E é daí que vem nossa atenção quase instintiva a esses episódios. Queremos desvendar esse horror, queremos que ele não aconteça conosco, prestamos atenção de olhos arregalados e batidas de coração semelhantes às que temos quando à beira de algum perigo. Grudamos os olhos no televisor, ou desaceleramos o carro na auto-estrada quando há um acidente nas redondezas. Não é mera morbidez, é um interesse natural, ancestral, uma tentativa subconsciente de entender para dominar.

Só que soluções mágicas, tipo esse engodo em forma de caro pacote anunciado pelo governo federal, com aumento do combate à criminalidade via repressão, ou mais lugares nesses cursos de pós-graduação em bandidagem que são as cadeias, confiar em governos de estado e polícia para resolver um problema da proporção desse é mais que ingenuidade, é desfaçatez.

Política de sobrevivência

Do governo o que se precisa é educação conjugada com oportunidade de emprego. A educação para que nossos conterrâneos jogados nessa latrina que são as ruas dos grandes centros urbanos, à sua própria sorte, tenham algum tipo de luz no fim do túnel. Da população de classe média e alta o que se precisa é uma educação de seus costumes, para mudar esse eterno apartheid social. É claro que não vai cair um raio nas consciências brasileiras e fazê-las aceitar o pobre, esse indivíduo que fala quase a mesma língua, mas tem um entendimento de convívio em sociedade e do valor da vida muito diverso. O fechar os olhos para as multidões de desgraçados que rodeiam nosso sonho de shopping center e país do futuro tem sido nossa defesa.

Na verdade, essa negação quase psicótica deixou que o problema inchasse chegando ao ponto atual. Ou se acaba de uma vez com todas com esses entulhos propagandísticos para fazer de conta que combatemos a criminalidade e acaba-se de uma vez com os abusos dos que têm contra os que não têm, e se adequa o ensino à realidade brasileira, ou bye, bye, Brasil, para usar o título do filme como profecia.

Nisso entra a mídia também. Telecursos antes do sol nascer, atrações infantis totalmente desprovidas de conteúdo educativo, o incessante desfile de futilidades e horrores na TV e no rádio são mais que irresponsabilidade e não-cumprimento dos objetivos de órgãos de comunicação – são também um erro fatal, pois de nada adianta manter o status quo das classes participantes da economia quando se mora em uma Kosovo. Melhorar as condições do oceano de desprovidos do mais básico em nosso país é política de sobrevivência.

O Brasil anda nervoso

É um equívoco achar que se pode reprimir essa vasta camada da sociedade que cresce sem a menor esperança de futuro, que é maltratada diariamente pela realidade e que não tem nada a perder, pois nada tem. Honestidade é luxo de quem nada precisa que não esteja ao alcance. E é artigo raro, seja em que classe se procurar. As armas e os métodos é que podem diferir, mas o traço humano do passar por cima dos outros em busca de satisfação pessoal não é exclusividade das favelas. Honestidade se incentiva com educação, espiritualidade, exemplo familiar e pressão do imediato ambiente social. Mesmo assim, falha.

O Brasil anda nervoso, as pessoas vivem à beira de um ataque. Discutem o tempo todo, perdeu-se a capacidade de argumentar, passou-se ao desaforo constante. Todo mundo pegando em bandeira, tomando partido. Fico pasmo de tanto ler classificações mais que ultrapassadas – "direita", "esquerda", "comunista", até os mais recentes "centro" e "neoliberal". Que tal levantar a bandeira do bom senso? Que tal não nos entrincheirarmos uns contra os outros? Até quando se lê o Observatório da Imprensa percebe-se esse nervosismo, essa tendência ao desaforo. Seja nos ataques de alguns leitores-patrulheiros, no sentido partidário, boçal, até as respostas dos atacados, em textos que soam como berros, com linguagem aquém do que se espera de um veículo de análise de mídia.

Marginais e elites

Chego a ficar ofendido quando um extremista é tratado com extremismo, em vez de pedagogia no rebote das reclamações – que, diga-se de passagem, mesmo quando nos soem equivocadas devem ser respondidas com objetividade, sem emoções, confirmando que estamos numa democracia e entre adultos. Mas vejo que esse é o clima em que se vive no Brasil hoje em dia. Todo mundo de faca na bota.

A mídia acertou ao esfregar em nossa cara o Brasil que a gente não quer ver. É pena que não tenha tido a capacidade de estender o tema para uma discussão nacional de maior profundidade sobre o estado das coisas. Pena que os brasileiros tenham se perdido nos clichês primitivos quanto a sua própria realidade, e não sejamos capazes de nos mobilizar para o bem comum. A passeata em protesto à violência que não deu certo, no Rio, é a prova desse nosso individualismo sorridente, em que só nos interessa o nucleozinho mais próximo.

Falta coesão e falta seriedade em nossas chamadas elites. Não cabe ao marginal tentar mudar, mas a nós tentarmos melhorar a vida dele para que deixe de ser marginal. E não é a polícia que vai fazer isso, pois educação ela também não teve o suficiente.

 

ASSESSORIA DE IMPRENSA
Desconfiem, desconfiem

Cláudia Rodrigues
(*)

Há algum tempo surgiu uma minipolêmica sobre os assessores de imprensa serem discriminados pelos colegas. Acho que está na hora de voltar ao assunto, pois parece que o resultado da discussão serviu para que as redações amolecessem o coração e perdessem, no mínimo, o senso crítico.

As assessorias de imprensa, de maneira geral, fazem um serviço de marketing da empresa, ocultando informações, encaminhando as entrevistas de maneira a peneirar melhor as informações e outras cositas mais ou menos indignas. Dia desses, eu, que vivo em Florianópolis, e portanto sou obrigada a usar telefone para entrevistas em outras capitais, entrevistava uma farmacêutica da Tetrapak. Primeiro, sentindo a ansiedade da moça, deixei que ela discorresse longamente sobre as vantagens do leite industrializado mas, finalmente resolvi fazer as perguntas que me cabiam como jornalista a serviço da verdade e da informação ao leitor.

De repente, sentindo-se "apertada" pela minha curiosidade sobre a quantidade de peróxido de hidrogênio para desinfetar a embalagem e o citrato de sódio, usado no leite como estabilizante, a moça simplesmente me encaminhou à assessoria de imprensa, dizendo que apenas o pessoal do marketing tem autoridade para falar desse assunto.

Imprensa e marketing se casaram depois que a ditadura passou e o Muro de Berlim caiu. Foi assim, um acordo do capitalismo com o capitalismo.

Copiando folhetos

Mas a matéria do leite, que está preta aliás, nem sei se será publicada. Eu faço a matéria e depois procuro o veículo, uma tática que me mantém honesta e sempre com saldo perto de zero no banco. Os alternativos não pagam ou pagam pouco. Sabe por quê, leitor? Porque você não investe neles, porque você compra a revista mais colorida, com o ator global na capa e com o símbolo do globinho ou da arvorezinha. Acordem, queridos leitores, o bom jornalismo depende dos seus olhos!

Além da moça da Tetrapak, cooptadinha, que não é um caso isolado, tive outras dificuldades com engenheiros alimentares, nutricionistas, biólogos e pediatras. Engolidores de sapos! Os assessores simplesmente protegem, com unhas e dentes, os seus carguinhos, e os profissionais das empresas entrevistadas fazem o mesmo. A coisa está tão absurda que quando se começa fazer uma entrevista primeiro somos obrigados a dar o briefing (uma espécie de resumo) da matéria, e logo depois escutar um press release (propaganda da suposta notícia que a fonte quer dar). Não dou o briefing, claro, mas sempre escuto o press release e aperto depois.

Bem, em alguns casos é impossível. O pessoal está tão mal-acostumado pelos colegas enfadados que não se dá ao trabalho de pensar e perguntar, e vai logo copiando folhetos e anotando tudo o que a fonte diz. É triste, mas é verdade. Comprar briga com o patrão, sabe como é, sempre dá demissão. Mas, se não tem polícia com o trabuco na cara da gente está mais do que bom, não é mesmo?

Tenho minhas dúvidas. Uma vez tive a experiência de ser editora de um caderno de cultura de um jornal do Espírito Santo (A Gazeta), em que era absolutamente lógico e comum que o entrevistado sentasse às costas do repórter e começasse a ditar a matéria. Ninguém entendeu quando eu disse que aquilo era imponderável. O argumento de uma das repórteres foi o seguinte: "Nós fazemos assim para não ter problemas depois, para o entrevistado não reclamar, agora você vai ver só quanta reclamação teremos".

Caldo de desinformação

A nova forma de apurar e escrever matérias, a matéria-press-release, a máxima do momento, é capaz de veicular uma campanha nacional de uma fabrica de brinquedos de plástico (honestamente não lembro o nome, mas é das maiores & melhores), que simplesmente diz que brinquedos de madeira não são adequados para as crianças, por terem felpas, e que o melhor piso é um tal piso artificial de borracha, apropriado para receber as quedas. Façam-me o favor! Essa matéria saiu em pelo menos três jornais na mesma semana. Nenhum dos repórteres que "apurou" a bendita teve a dignidade de se informar melhor. Era um informe publicitário com propaganda enganosa travestido de matéria. É de arrepiar! E o pior: está cheio deles nos jornais e revistas.

Muita "força jovem" foi contratada para engrossar esse caldo de desinformação. Nada contra os jovens. Alguns são maravilhosos, dão nós em nossos cabelos brancos, mas a maioria desses jornalistas recém-formados fica tão deslumbrada em estar empregada que não quer nem imaginar como seria uma indisposição com o chefe, a empresa e a fonte.

Saiam da massificação

Muitas vezes é por pura ingenuidade também. Os mais velhos, lhes garanto, quando escrevem essas matérias-press-release são mesmo maus profissionais, pessoas submetidas ao sistema, ou pior que isso, e também presentes no mercado: ganham, por baixo, para fazer o serviço. Há os que perseguem a informação e a verdade, que fazem malabarismos intensos para dizer ao leitor tudo o que puderem. Mas o melhor vocês quase não ficam sabendo: é o famoso off.

Assim, queridos leitores, desconfiem de tudo em primeiro lugar, leiam entrelinhas e saibam que a ditadura guardou as armas e se travestiu de liberdade, mas está vivíssima e vive de matar a sua capacidade de pensar e refletir de um jeito extremamente perverso.

Afinal, ninguém se indigna mais com coisa alguma, e a imprensa está usando e abusando desse lugar "imparcial". Sei a dificuldade que tenho para publicar verdades e principalmente minha opinião e interpretação sobre os fatos, e nada tem a ver com a qualidade do meu texto, que é normal. Espalhem o Observatório, leiam revistas e jornais alternativos, invistam no seu jornal de bairro, saiam da massificação e ajudem as pessoas a sair deste lugar embaçado em que se encontram, ou não seremos uma nação, jamais acordaremos da escravidão.

(*) Jornalista

 

MÍDIA E PROSTITUIÇÃO
Descoberta do novo catecismo

Vera Silva
(*)

Um amigo me perguntou por que a prostituição total e proporcional no Brasil é tão alta, conforme estudo recentemente publicado. Ele achava, o que me honrou, que eu poderia esclarecê-lo já que entendo dessas coisas. Confesso que senti um frio na espinha. Pergunta de amigo é como pergunta de filho, tem que ter resposta precisa porque amizade se mantém com a verdade da alma.

Fui, então, reler duas mulheres magníficas, que na década de 80 se puseram a pesquisar a sexualidade brasileira, Rose Marie Muraro e Marilena Chauí. Fiquei de cara (como dizem os adolescentes hoje) com o que reli! Elas me fizeram descobrir o papel da mídia na difusão do novo catecismo: sexo não é mais pecado, os exageros é que o são.

Em seu livro Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil, publicado em 1983, Rose Marie Muraro escreve as conclusões de uma enorme pesquisa sobre a sexualidade em três classes sociais, o campesinato, o operariado e a burguesia.

Nas conclusões de seu livro podemos ler que "...a sexualidade, o corpo é realmente, em última instância, o locus onde o poder se exerce [..........] O corpo é preparado logo que nasce para assumir o lugar que o socius lhe designa dentro do sistema produtivo". No corpo de cada um de nós, portanto, o poder inscreve os seus valores, os seus interditos, os seus "mandos", através da forma como as nossas necessidades, desde que nascemos, são atendidas.

Exemplificando, um bebê que chora de fome e não é atendido aprende desde pequeno a não ter as necessidades atendidas. Outro bebê, que sempre que chora de fome é atendido, aprende a ter suas necessidades atendidas. Esses dois bebês ao crescerem vão ocupar lugares específicos no setor produtivo: o excluído e o incluído.

Ser desejante

Podemos ler ainda no livro de Rose Marie Muraro: "O que é o desejo? (...) ele também é produzido. (...) São os homens dominados também que dão aos atributos físicos da mulher maior valor erótico. Quanto mais excitante o físico, mais condições dá à sexualidade masculina, mais localizada no físico, de "funcionar melhor".

Essa conclusão começa a explicar por que a prostituição por aqui é tão alta. Se o corpo é preparado para ocupar seu lugar no sistema produtivo, o desejo que surge para suprir uma falta também o é. Dependendo do lugar que se ocupa, a falta a ser suprida é diferente, condicionando o desejo ao prazer permitido.

Assim, os homens dominados pelo poder, em seus vários estágios de dominação, quanto mais dominados mais valorizam os atributos físicos da mulher como instrumentos de prazer, e que lhes provocam maior ereção quanto mais próximo esse corpo estiver do padrão erótico do momento.

Rose Marie avança mais em seu livro quando conclui que "(...) quanto maior o domínio do homem pelo homem, maior, também, o da mulher pelo homem". Num sistema baseado no poder do mais poderoso sobre o menos poderoso, o homem tem sido o símbolo do poder maior porque é aquele fisicamente mais forte, podendo encarnar o domínio da força econômica sobre o prazer. Assim, é fácil entender por que quanto menos domínio o homem tem sobre o econômico mais poder ele precisará exercer sobre a mulher para restaurar seu equilíbrio como ser desejante.

Em troca do perdão

Mas o que faria uma distorção tão grande do desejo ser aceita sem revolta por tanto tempo, perguntei-me. Fui procurar respostas no livro Repressão Sexual: essa nossa (des)conhecida, publicado em 1984 por Marilena Chauí. Nesse livro ela discute as origens da repressão sexual no Brasil, assinalando o papel da religião católica no estabelecimento e na manutenção desta repressão.

Escreve ela que "(...) o encontro matinal da puta, voltando do trabalho, com a freira, indo à missa, é uma espécie de síntese da imagem feminina brasileira para o olhar masculino (...). Do ponto de vista moral, portanto, a repressão sexual opera de modo duplo: pela criação de obstáculo ao vício (educação da vontade) e pela mostração de, se incorrigível (...)". O papel da religião para manter o prazer escravizado é ensinar cada um a dominar a vontade de suprir a falha gerada pelo desejo, através da aproximação de Deus e do exercício da castidade. Como o bebê de nosso exemplo, cada um deve aprender que não é para atender ao que o corpo quer, porque assim fazendo estará mais próximo do reino dos céus.

Contudo, seria necessário mostrar o que ocorre com aqueles que, incorrigíveis, se entregam ao "prazer", no caso as prostitutas. São proscritas, confinadas às zonas, ou aos classificados dos jornais, transformadas em prestadoras de serviços sexuais. A elas se nega o reino dos céus, e, por conseguinte, o amor do homem, e do Cristo, que a freira, porque casta, pode obter. Paradoxalmente a prostituição indicaria o caminho da castidade ao homem e à mulher.

Entre o poder e a religião, o medo do desconhecido faz com que cada um troque o prazer aqui na terra pelo reino dos céus que não se pode ver. É claro que não estamos dizendo que Deus existe ou não existe, estamos dizendo que para se controlar o comportamento do homem se tira dele o amor e se faz com que ele genitalize o prazer e consuma o desejo, a pretexto de alcançar a justiça divina. De quebra se tira da mulher o exercício do direito ao prazer. Ambos, homem e mulher perdem o direito à sexualidade em troca de um suposto perdão divino.

(Des)vestindo meninas

Vamos começar a explicar nossa afirmação inicial de que a mídia está difundindo o novo catecismo e com isto contribuindo para o aumento da prostituição no país.

O reino dos céus demora muito a chegar, e os pobres têm que enfrentar duras provações, a classe média tem que trabalhar duro para comprar seu apartamento e seu carro, então... É necessário providenciar algum prazer para uns e outros não desistirem e partirem para uma revolução que provoque mudanças na chamada pirâmide social, que no Brasil mais parece um picolé quadrado com palito curto.

A mídia passou a (des)vestir as meninas, tornando-as cada vez mais parecidas com as prostitutas que se oferecem nas ruas: seminuas, barrigas à mostra, saias curtas e apertadas o bastante para entrever as curvas do bumbum e o desenho da calcinha, blusinhas apertadas sem soutien, bocas bem pintadas, unhas vermelhas, cabelos ouriçados. Além disso, treina à saciedade as meninas na dança rala-rala-bate-coxa-na-boquinha-da-garrafa. Tanta exibição de corpo em movimento como se gozasse, fica tão parecida com o ritual da prostituta que atrai freguês que nenhum homem vai se sentir responsável ou amoroso em relação a elas, porque prostitutas não têm direito ao amor e ao casamento.

Licença para a violência

O homem dominado ao vê-las tão atraentes tem garantidos ereção e prazer. Mesmo os pais se desfazem de seu papel sem remorsos, porque a mulher que ele vê foi feita para seu prazer e domínio, aumentando casos de estupro de filhas e enteadas pelos pais. E ainda nos espantamos com o aumento dos casos de gravidez na adolescência!

O novo catecismo é lido na imagem da TV. Aquilo que ele mostra é que o sexo não é mais pecado, já que passa na TV. Pecado hoje, segundo a TV, são os excessos sexuais: o homossexualismo, a recusa à maternidade, o uso da camisinha, pegar doença sexualmente transmissível, machucar seriamente a parceira, parecer uma freira, parecer gorda, escolher o parceiro, amar... Assim, o homem pobre e o burguês atormentado podem exercer o poder, que cada vez está mais centralizado e mais voraz. Para o homem, e para a mulher, por tabela, o consumo do sexo substitui o consumo dos objetos globalizados ou a eles se associa. Prazer se compra, quando se tem poder, é o novo catecismo.

O desejo produzido não vê mais a pessoa, mas o corpo, adequadamente preparado para o consumo. E como fazer sexo e gozar não é mais pecado, ninguém precisa se confessar e estamos todos salvos.

Neste contexto a prostituição tenderá a aumentar cada vez mais, pois o sexo é mais um produto de consumo, permitido aos que podem pagar. E há modelos para todos os bolsos: de crianças de rua a R$ 5 a prostitutas de luxo para a elite.

Quanto aos excluídos, a eles só é permitida a violência, pois não é preciso pagar por ela.

(*) Psicóloga

 

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