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OBITUÁRIOS
Uma seção à morte
Luís Edgar de Andrade
Atenção para estes 15 nomes: John Wilder Tukey, Tomislav Karadjordjevic, Silvio Fontanillas, Jozef Tischner, Attilio Bertolucci, Luis Carder, Sviatoslav Fiodorov, Michel Kajan, Terry Coles, Hans Gustav Gueterbock, Joseph Meville See Jr., Anne Wibble, Tom Ferebee, Roger Gaillard e Frederic Dard. Já ouviu falar em algum deles? Aposto que não. O que todos os 15 têm em comum? Em princípio, o seguinte: eram estrangeiros, desconhecidos no Brasil e morreram neste ano de 2000.
O americano John Wilder Tukey inventou nos Estados Unidos a palavra software. Tomislav Karadjordjevic, príncipe sérvio, era irmão do último rei da Iugoslávia. Silvio Fontanillas, caricaturista cubano, morava em Miami. Jozef Tischner foi um padre polonês do movimento Solidariedade. O poeta Attilio Bertolucci era pai do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Luis Carder, um cantor de tangos em Buenos Aires. Sviatoslav Fiodorov, o médico russo que operava miopia com raio laser. Michel Kajan foi cabelereiro de Coco Chanel e Greta Garbo. Terry Coles, um torcedor do Swansea City, que morreu numa briga com torcedores do Rotherland United, dois times ingleses da terceira divisão. Hans Gustav Gueterbock, especialista em hititas, um povo que viveu na antiga Anatólia. Joseph Meville See Jr. foi o primeiro marido de Linda McCartney, mulher do beatle Paul. Anne Wibble, uma ministra da Economia na Suécia. Tom Ferebee, o piloto americano que jogou a bomba atômica em Hiroshima. Roger Gaillard, reitor da universidade de Porto Principe, no Haiti. E Frederic Dard, o romancista policial francês que criou o inspetor San Antonio.
A morte deles todos saiu em "Morre", uma seçãozinha do caderno Cotidiano da Folha de S.Paulo que reserva todo dia três pequenos parágrafos a alguém que, em geral, só é conhecido na própria pátria. A mesma Folha deu-se ao luxo, no entanto, de não noticiar o falecimento do historiador inglês Charles R. Boxer, o maior dos brasilianistas. Se alguém tiver dúvida quanto à sua importância, basta clicar Boxer em amazon.com, a livraria virtual, onde se acham listados, entre disponíveis e esgotados, nada menos que 19 livros. Destacam-se, no nosso caso, The Dutch in Brazil, The Golden Age in Brazil e Salvador de Sá and the Struggle for Brazil and Angola.
É verdade que, nessa omissão, a "Folha" não esteve sozinha. O Globo, o Jornal do Brasil e O Estado de S.Paulo também ignoraram, na seção de mortes, o grande historiador. A própria BBC não incluiu a notícia no serviço em português para o Brasil. Boxer morreu em Londres, com 96 anos, a 27 de abril deste ano. No dia 1º de maio saiu no jornal The Times um necrológio com o o título "Professor Charles Boxer, membro da Academia Britânica, soldado, lingüista, historiador, bibliófilo, antiquário". Na mesma semana o New York Times dedicou-lhe a notícia em duas colunas "C. R. Boxer, uma vida legendária no amor e na guerra".
Os amigos de Boxer no Brasil só vieram a saber que ele morreu, três semanas depois, na Veja de 17 de maio, quando foi publicado o artigo "Uma vida legendária" de Luís Felipe Alencastro, residente em Paris. No dia 5 de junho, saiu no Estado de S.Paulo o artigo "Charles Ralph Boxer (1904-2000)" de Carlos Guilherme Mota. Nesse mesmo dia, o Jornal de Comércio do Recife publicou "Boxer para principiantes" de Luís Edgar de Andrade com este comentário: "Nos séculos XVI e XVII, o período da história a que ele se dedicou, as notícias da Europa levavam mais de um mês para chegar aqui. Vinham a vela. Dizem que, hoje, as notícias são on-line. Por que, então, nenhum jornal brasileiro deu, no obituário, uma linha sobre Boxer? É um paradoxo às vésperas do século XXI".
Vejamos, agora, a recíproca. Morreu no domingo, 16 de julho, no Rio de Janeiro, o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, de 103 anos, presidente da Associação Brasileira de Imprensa. Uma semana depois, no dia 25 de julho, o New York Times divulgou um extenso necrológio, em que o correspondente Simon Romero diz: "Numa carreira que durou mais de 80 anos até seu último artigo, escrito uma semana antes de sua morte, Barbosa Lima personificou o fervor nacionalista da imprensa brasileira, na medida em que o país se transformou, deixando de ser um produtor de insumos à margem da economia mundial para se tornar uma potência regional industrializada". E adiante: "Usando óculos e roupas conservadoras, Barbosa Lima fazia lembrar um tempo mais elegante, quando os jornalistas e homens de estado debatiam idéias políticas com tanta paixão quanto os magnatas da Internet e os economistas que estudaram no exterior discutem, hoje, a economia do Brasil".
Lembro-me de uma entrevista, dada em Paris, nos anos 60, por Jacques Tati, em que o cineasta dizia, muito vivo: "Toda manhã, quando acordo, a primeira coisa que eu faço é pegar os matutinos debaixo da porta. Vou direto ao obituário para saber se eu não morri durante a noite". É que, na França, como na Inglaterra e nos Estados Unidos, as notícias de morte são levadas a sério. No Brasil, ao contrário, Oto Lara Resende, um apóstolo das pequenas causas, escreveu centenas de bilhetes a seu amigo Evandro Carlos de Andrade, então diretor de redação do O Globo para protestar, com veemência, toda vez que a morte de uma pessoa interessante passava em brancas nuvens no Rio de Janeiro. Chegado a uma hipérbole, ele dizia: "Se eu não me jogar do último andar de um edifício na Avenida Atlântica, enrolado numa bandeira do Brasil, garanto que O Globo e o JB não darão uma linha a meu respeito, quando eu morrer." Engano dele. Tanto O Globo como o Jornal do Brasil lhe dedicaram duas páginas no dia em que Oto foi enterrado a 28 de dezembro de 1992.
CULTURA GASTRONOMICA
Gula está morta, viva a Gula
Judith Patarra
Em 1991, José Antônio Dias Lopes saiu de Veja, onde trabalhava desde o início da revista. Foi ser diretor da recém-criada Gula. Assumiu a revista no número 4. Um ano depois tornou-se sócio-proprietário da editora que a publicava, a Trad. A revista, mensal, evoluiu para ser a mais bem sucedida, consistente e primorosa revista de enogastronomia do Brasil. Trazia receitas clássicas ou inovações, especialidades de chefs ou elaborações de gourmets refinados. Outras páginas eram dedicadas ao prazer sensual e intelectual que mesclava – em textos de primeiríssima qualidade – espírito, cultura e sabor, em artigos, atualidades, crônicas lítero-culinárias, além de entrevistas referentes a comidas e bebidas, sem esquecer (horror!) dos baforantes de charutos.
Ocorreu, porém, que Dias Lopes, diretor de redação de Gula, não resistiu ao que chamou de "proposta irrecusável". A moda de empresas engolirem-se ou aniquilarem-se é antiga mas atualmente se caracteriza pela velocidade voraz e aumento dramático de produtividade por meio de rebaixamento salarial e perda de qualidade. Não raro há nas empresas o intuito de "alavancagem", visando a chance de ser também engolidas por propostas irrecusáveis.
A Gula foi vendida para a Editora Camelot, pertencente a um pool de investidores, nacionais e do exterior, articulados por Gianpaolo Baglioni, do Banco Patrimônio. Para evitar mudanças abruptas e a desconfiança dos leitores e anunciantes, Dias Lopes foi mantido, agora como empregado, no cargo de diretor de redação. O arranjo não funcionou bem. Dias Lopes começou a divergir do visual que a Camelot imprimiu na Gula: a abordagem fotográfica, o conteúdo dos textos, a opção por uma linha que privilegiava antes gente-amenidades do que culinária-cultura. Resultado: aos poucos a Camelot lhe foi tirando o poder. O esvaziamento começou com o boicote oficioso à requisição dos serviços dos antigos fotógrafos de Gula (Reynaldo Mandacaru, Mauro Holanda e outros), responsáveis pela imagem da revista nos tempos da Trad. Veio em seguida o controle, pela direção da empresa, da pauta e da arte. Nas últimas edições, as capas eram decididas apenas pela direção da Camelot.
Receita alterada
A Gula antiga, segundo relata Dias Lopes, tinha como leitores gourmets cultos, muitos deles cozinheiros amadores, chefs de cozinha pessoas amantes da boa comida. A nova Gula tem o objetivo de tornar-se muito mais ampla e rejuvenescer, conquistando um público que se chamaria, poucos anos atrás, de yuppies: profissionais de ambos os sexos a partir, digamos, dos 25 anos, com ênfase nos homens – jovens ambiciosos, no caminho do sucesso, muito ativos como consumidores, em geral provenientes de camadas médias da população. Ansiosos por entender de vinhos, discernir pratos, aprimorar o paladar, uma de suas características seria o desejo de transmitir a imagem de quem sabe das coisas. Trata-se, no dizer do diretor editorial da Camelot, Tales Guaracy, de não ficar só na arte de cozinhar, mas a ela acrescentar a arte de comer bem.
Com a mudança no conceito o criador foi-se, deixando a criatura. Gula, que acaba de perder também o excelente cronista Nirlando Beirão, pretende agora ser mais nacional em lugar de centrar-se sobretudo em São Paulo e Rio. O novo diretor é Ricardo Castilho, ex-Playboy.
A atual direção, seguramente, não quer perder o "velho" público. O problema, aqui, é que a Gula rejuvenescida pouco acrescenta a ele: sem ter como personagens Domitila e seu príncipe, dificilmente se interessaria, por exemplo, por um Dia dos Namorados (e com receitas, fotos e orientação no estilo de revista feminina). De outro lado, aos yuppies em ação interessa muito saber o que é um queijo stilton e qual o vinho indicado para acompanhá-lo. Matérias como "40 bons tintos entre 10 e 40 reais" também são bem-vindas. Uma seção como etiqueta, que ensina a pôr a mesa, é pertinente, mas sem furos como deixar de mencionar as diferenças entre copos para tinto e branco: serviço precisa de tempo e investimento para boa reportagem.
Em alguns meses, jovem amadurecida, vai se saber se a nova Gula conquistou o seu público-alvo, e se este é maior do que o anterior. Quanto a Dias Lopes, que no período da Camelot tinha o sonho de plantar uvas e fazer vinho na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, onde nasceu, quem sabe muda de idéia e lança uma revista do jeito que sabe fazer? Terá que ser depois de março de 2001, quando termina o seu compromisso com a Camelot (até lá não pode ser dono de publicação concorrente).
A Gula senior está morta. Viva a nova Gula.
IMAGEM DO BRASIL
Em estado de negação
Fabiano Golgo, de Praga
A internet permite até que um gaúcho em Praga acompanhe sua imprensa bairrista no país sulino. A Rede Brasil Sul, braço da Rede Globo nos pampas e Santa Catarina, tem agora o Clic RBS, que inclui transmissão ao vivo da TV COM (de "comunidade"; UHF e cabos NetSul) e de tradicionais programas da emissora em sinal aberto, como o Jornal do Almoço e noticiários depois de apresentados.
Muito bom, funciona. Mas me deparo com uma "campanha" da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho – leia-se o nome do fundador do grupo – para que as pessoas não dêem esmolas à gurizada nas sinaleiras (semáforo ou sinal, no país vizinho). Não que eu acredite que dar esmolas resolva algum problema. Mas imaginar de que mentes surge o esforço organizacional e financeiro da mobilização de uma outra gurizada – essa mais clara, cabelo lavado com xampu 2 em 1, labutando com orgulho de escoteiro – espalhando folhetos coloridos explicativos, mostrando como recusar os pedidos desse outro mundo que convive conosco no mesmo cenário... Enfim, o combate à desgraça que nos envolve é uma campanha para não dar esmolas... Pronto, agora tudo vai melhorar.
O comentário corrente, não de hoje, é que esses guris só estão ali, insistindo feito moscas em passar um paninho nojento no pára-brisas do carro, porque seus pais ou "vans" de máfias esperam seus trocados, usados por esses terceiros para sustentar seu álcool ou outros marginais. É o que amortece as mentes crescidas de molho na culpa dominical católica.
Lindo, mas nem tanto
A apresentadora do noticiário ainda complementou com um "para que outros percam o incentivo de vir pedir nas esquinas".
Um colega americano que trabalha aqui em Praga esteve no Brasil a convite da Folha de S.Paulo por uns 10 dias. Voltou dizendo que não tinha gostado do que vira, o que chamou de apartheid social. Que tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro seus contatos ficavam tentando convencê-lo de que o Brasil não é aquele mundo que ele via do lado de fora da janela do carro, mas sim um outro que eles descreviam. Que eles nem sabiam direito "como é que essa gente vive". Insistiam em levá-lo a "maravilhas da arquitetura moderna, nossa tradição Niemeyer" (o que Josh chamou de panelaks – acostumado que está à contribuição à base de concreto dos soviéticos para a arquitetura do século 20 por estas bandas).
Disse que o Brasil é lindo, mas nem tanto. Que os extremos são visíveis e que a atmosfera é tensa. Achou a Folha um colosso de gente interessante, o Valor resolutamente falando "americano". Mas os brasileiros que conheceu vivem in denial – em estado de negação, em atitude negativista, nihilista, auto-destruidora.
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