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CENSURA
Liberdade de expressão para quê?

Vera Silva (*)

 

Ao escrevermos muitas vezes sobre um mesmo tema começamos a nos cansar dele e, quando isto acontece, passamos a considerá-lo matéria vencida.

Assim, pensava haver esgotado tudo o que eu queria dizer sobre a responsabilidade de quem escreve, faz edição e/ou apresenta notícias na imprensa em geral.

Contudo, depois de ler alguns artigos no Observatório da Imprensa, assistir a alguns programas de TV e acessar alguns sites na Internet nestas semanas passadas, comecei a querer dizer mais alguma coisa.

O problema

Há uma discussão sobre a liberdade de expressão na Internet ligada ao uso que dela se faz para divulgar a discriminação racial, a violência e o abuso sexual de menores. Há uma outra discussão similar na imprensa sobre a liberdade para se transformar a notícia em show, principalmente quando se trata de divulgar crimes violentos, escândalos e problemas da população de menor poder econômico.

São duas discussões que têm sido mantidas separadamente como se separadas fossem. Não são separadas, porque ambas têm origem no direito à liberdade: liberdade de uso da concessão pública de um meio de comunicação; liberdade de uso das infovias; liberdade de expressão individual e liberdade de acesso da população de menor poder econômico à TV.

A liberdade

O direito à liberdade pressupõe sempre a existência de outro que também detenha o mesmo direito, uma vez que liberdade é um direito coletivo, embora seja individualmente exercido.

Explico-me: como liberdade pode ser definida como o direito de eu fazer minhas próprias escolhas, ela só tem sentido quando há outras escolhas além das minhas.

Do mesmo modo que em matemática se diz que não é possível fazer operações com grandezas diferentes, não é possível discutir a liberdade de expressão de quem se propõe a eliminar o direito de escolha de outro grupo.

Exemplificando:

  • aquele que propaga a morte de uma raça está propondo que as pessoas desta raça não tenham o direito de viver;
  • aquele que propaga a discriminação dos homossexuais está propondo que estes não tenham o direito à livre opção sexual;
  • aquele que expõe a intimidade de quem tem baixo poder econômico como condição para que este acesse um tratamento médico está reafirmando que atendimento médico digno, sempre que for necessário, não é um direito dos que são pobres;
  • aquele que noticia um crime violento em forma de show está dizendo que temos o direito de nos entreter com a miséria moral do outro.

Muitos outros exemplos poderiam ser descritos, mas o que nos interessa é mostrar que sob a capa da liberdade pode estar escondido um violador dos direitos humanos.

A mídia

Esta forma de trabalho da mídia tem prosperado entre nós porque há uma tendência para considerarmos o coletivo apenas como sendo composto por nós, excluindo eles do grupo.

As regras são feitas para abarcar o nós e as idéias que nós temos. Por isso é raro presenciarmos vários grupos de nós discutirem em conjunto uma regra geral para a sociedade.

A discussão sobre a liberdade de expressão vai ficar capenga se não tiver a participação da coletividade, pois o todo social é que poderá determinar o que consideramos básico para a nossa vida e, portanto, o que a ameaça.

Se decidirmos que a liberdade é um bem maior, não será possível aceitar os que propagam qualquer tipo de discriminação ou violência, porque isto será, realmente, considerado crime.

Vamos nos preocupar, inclusive, em educar as crianças para considerarem a liberdade como um bem, vamos discutir as nossas leis, a aplicação da justiça e os governos sob a ótica da liberdade como um bem maior.

Até lá, vamos continuar achando que impedir a propaganda de crimes, de qualquer tipo, na Internet, ou a exploração de quem está em situação de miséria moral e/ou física, na TV ou rádio, é fazer censura.

(*) Psicóloga

 

ECOS DA GUERRA
Internet e liberdade
de informação

Ana Amelia Schuquer de Oliveira (*)

 

Qualquer pronunciamento contra a agressão que a Otan, de 24 de março a 8 de junho, promoveu contra a Iugoslávia, foi encarado (será que ainda é?) como conivência com a barbárie praticada pelos sérvios. A expressão "limpeza étnica" foi a primeira arma ou argumento que os países agressores utilizaram para que o bombardeamento que se seguiu fosse aceito, mundialmente, como "justo". Opor-se a essa agressão, mesmo sob a alegação de que ela ocorreu à revelia do Conselho de Segurança da ONU, significou (será que ainda significa?) ser a favor da "limpeza étnica".

A mídia fez o papel que dela era esperado: cobriu a "guerra". Poucos foram aqueles que frisaram a ilegalidade da intervenção. Pouquíssimos foram – e ainda são – aqueles que identificaram que a agressão à Iugoslávia foi, como diz o título do recém-lançado livro de Mário Augusto Jakobskind, um "laboratório de uma nova ordem mundial".

Por outro lado, muitos foram aqueles que, vindos de diversas partes dos Estados Unidos da América do Norte, protestaram contra essa "guerra". Em 5 de junho, numa demonstração sem precedentes desde a guerra do Vietnã, dez mil pessoas se encontraram e marcharam, em Washington, do Vietnam Veterans Memorial até o Pentágono. O relato desse evento pode ser encontrado, na Internet, no site <www.iacenter.or/65tentho.htm>. A confirmação do evento (que as autoridades locais tentaram, por todos os meios, cercear) consta, entre outros, do site International Action Center, em release do dia 3 de junho. A mídia (New York Times, Washinton Post, ABC, NBC, CBS a PBS’s NewsHour) ignorou a marcha. A CNN fez apenas uma breve menção ao protesto. É possível ouvir uma reportagem sobre a marcha na Pacifica Radio’s "Democracy Now!" no endereço <www.webactive.com/webactive/pacifica/demnow.html>.

A citação da Internet como "referência bibliográfica" começa a se esboçar apenas em nível acadêmico. Aqui, a partir do assunto de que se trata – uma "guerra" –, é difícil convencer que uma mídia tão corrompida pelo lixo de homepages inúteis, por chats juvenis e – por que não? – de difícil manejo possa ser verdadeiramente útil. Mas o que há de "salvador" nessa mídia é que ela traz a possibilidade de verdadeiramente informar e, portanto, de transformar. A Internet é uma arma tão poderosa quanto uma clusterbomb ao inverso: disseminando informações, ela pode impedir a bomba.

O site <www.beograd.com>, criado um dia após o bombardeio à Iugoslávia, trouxe (e continua trazendo) informações tão valiosas que, em 12 de maio, ali foi noticiado que haviam informações confiáveis de que o governo norte-americano ordenara a suspensão do sinal de satélites para usuários da Iugoslávia, como "resultado do bombardeio aéreo da Otan, em flagrante violação dos contratos comerciais com a ISPs da Iugoslávia, bem como um ataque à liberdade na Internet."

Houve protestos de diversos internautas e de centros dedicados à paz em todo o mundo, mas é possível que o satélite não tenha sido cortado devido a interesses comerciais. De qualquer forma, restou a certeza de que a Internet está ameaçando a "liberdade" da imprensa. Todo cuidado é pouco para que evitemos que essa grande rede de informação, sob pretextos "justos", venha a ser objeto de censura ou de obstáculos que dificultem acessá-la.

(*) Mestre em Ciência da Informação pela UFRJ

 

TREMAS E HÍFENS
Ortografia não é língua,
é código de trânsito

Carta de um português a um amigo brasileiro

Fernando Correia da Silva

Caro Amigo,

Muito obrigado pelas suas boas palavras a propósito do trabalho que estamos a desenvolver em Vidas Lusófonas <www.vidaslusofonas.pt>, biografias com intriga romanesca, a acção no indicativo do presente, etc. Mas logo a seguir Você não consegue aguentar-se e manda-me alguns remoques, que umas vezes usamos hífens e tremas e outras não, o mesmo acontece com as consoantes mudas, e que é preciso vigiar a ortografia para preservarmos a nossa língua, porque assim e assado, etc. e tal. Com tais remoques Você está mas é a desafiar-me para uma briga das antigas, da qual nunca desisto, embora saiba que não tem fim. Arregaço as mangas da camisa:

A língua portuguesa recusou-se a ser o galego do sul, fez-se ao mar, deitou raízes por vários continentes, adaptou-se a novos solos e climas. Em vez de rosnarmos contra as naturais e inevitáveis variantes, melhor será gozar-lhe a sombra, vastidão. De acordo? É claro que está de acordo. O diabo é que logo aparecem uns rodriguinhos a defender minúcias para esquecer o essencial, a entronizar a ortografia para esquecer a língua. Você pode ficar escandalizado, mas reafirmo que ortografia não é língua. Conheço um ou dois analfabetos que pensam e falam melhor do que muitos doutores que andam por aí a arrotar erudições. Estou a pensar, concretamente, no nosso já falecido poeta popular António Aleixo, semi-analfabeto mas pensador profundo e criativo.

Amigo, ortografia é apenas código de trânsito. O que é preciso é saber se conduzimos pela direita como na Europa continental e no Brasil, ou se pela esquerda como na Inglaterra e em Moçambique. Em nada me incomoda que africanos, brasileiros e portugueses falem com sotaques locais, até acho deliciosa a variedade. Em nada me incomoda que o nortenho português diga Bocê não bai por bom caminho desde que escreva Você não vai por bom caminho; ou que o nordestino brasileiro diga ó xente, vamos imbora, desde que escreva ó gente, vamos embora; que o alfacinha diga cravão, mas escreva carvão; que o alentejano diga porrêro, mas escreva porreiro; que o carioca diga carnavau bonitchinho, mas escreva carnaval bonitinho; que o caipira diga cigarro di paia mas escreva cigarro de palha. Apenas isso, código de trânsito, nada mais do que código de trânsito. Faço-me entender? É imbecilidade que nos desmerece não termos ainda assentado num acordo ortográfico para a nossa língua comum. Lindley Cintra, por Portugal, Celso Cunha e Antônio Houaiss, pelo Brasil, bem o tentaram, trabalho exemplar. Mas depois entraram em cena os patrioteiros, os daí e os daqui; "neo-colonialismo" gritavam uns, "abastardamento da língua" berravam outros. E o trabalho, o acordo penosamente conseguido, foi-se à viola; ou foi pró beleléu, se preferir. Já estou por tudo: se, para haver um acordo ortográfico, houvesse que ressuscitar o ph, tranquilamente eu escreveria pharmácia e telephone. O que eu preciso saber é se, ao escrever na minha língua, devo conduzir pela direita ou pela esquerda. Dentro do universo da lusofonia, ao mudarmos de país sermos coagidos a mudar de mão, eis o estúpido convite aos desastres em cadeia...

Por isso, amigo, quando Você me fala em tremas, fico logo a tremer de raiva. Embora ainda estejam em uso no Brasil, aqui já não se usam tremas, nem constam sequer no teclado com o qual estou a escrever-lhe. Garanto-lhe que eu não sou a favor nem contra os coitadinhos dos tremas. Código de trânsito, apenas código de trânsito, quero lá saber do resto, estou me borrifando, estou-me nas tintas, pouco ligando, a língua é mais importante do que todas as grafias que lhe inventam. Inveja tenho eu de ingleses e americanos... Repare na forma diferenciada como uns e outros falam e na forma quase igual como uns e outros escrevem.

Enquanto prosseguirem as patriotadas de aquém e além mar, provisoriamente decido que em Vidas Lusófonas autores portugueses escrevem com actual ortografia portuguesa, e autores brasileiros escrevem com a actual ortografia brasileira. Mais evidente ficará assim a gráfica burrice de que nós, e vós, somos portadores.

Entende agora o motivo por que Você, em Vidas Lusófonas, ora viu, ora deixou de ver hífens, tremas e consoantes mudas?

Não me leve a mal o discurso e tome lá um abraço. Fernando

 

500 ANOS
Prêmio Má-Fé do
Jornalismo Brasileiro

Vilmar Berna (*)

 

Às vésperas de comemorarmos 500 anos do Descobrimento, vale lembrar um exemplo de mau jornalismo.

Imaginávamos que todas as agressões aos índios já haviam sido praticadas, até descobrirmos o caso Paiakã. Quem pode esquecer aquela capa da Veja, em pleno clima da Eco-92 (edição de 10/6/92), com foto do cacique Paiakã e a manchete "O selvagem" seguida da chamada: "O cacique símbolo da pureza ecológica tortura e estupra uma estudante branca e foge em seguida para sua tribo"?

Na edição anterior, de 3/6/92, quando todos os holofotes se concentravam no Fórum Paralelo das ONGs e nas declarações oficiais dos quase 200 chefes de Estado presentes à Eco-92, Veja apresentara matéria carregada de ironias sobre o movimento ambientalista mundial, afirmando que "está na hora de corrigir erros dos estrangeiros que falam de índios, queimadas e Amazônia".

Para Tito Rosemberg, que conhecia Paiakã bem de perto, o cacique foi vítima de uma armadilha, cujos autores, até hoje ocultos, não precisavam ver Paiakã preso, bastando para eles apagar o brilho da abertura da Eco-92 e ao mesmo tempo desacreditar um ícone dos ambientalistas no mundo inteiro. Uma vez isto feito, o resto não era importante. Conseguiram seus objetivos. E o momento que escolheram para fazer isso não poderia ter sido mais próprio, tanto que a vergonhosa capa da Veja, talvez parte da armadilha, mesmo inconscientemente, foi para as bancas "coincidentemente" poucas semanas antes da abertura da conferência.

Por três semanas consecutivas, Veja condenou Paiakã e levantou dúvidas sobre os interesses dos ambientalistas na Amazônia. Tratou o Caso Paiakã como "fato consumado", quando o inquérito policial tinha sido instaurado apenas dois dias antes. O inquérito se baseava no laudo do médico Édereson Silva e afirmava, por exemplo, que a vítima teve o bico do seio arrancado com mordida. Este mesmo médico, muito influente e ligado aos políticos do local, estava sendo processado por Paiakã, pois teria resolvido por conta própria ligar as trompas de Irekã, sem pedir autorização nem a ela nem a seu marido (O Estado de S.Paulo, 6/3/91). A partir daí a mulher de Paiakã, que já tinha três filhas com ele, ficou sem poder ter mais filhos, e Paiakã sem ter o filho homem que desejava para seguir como chefe de sua aldeia. Depois deste incidente, Paiakã teria perdido o interesse na mulher e ela teria se tornado alcoólatra.

Um segundo laudo foi solicitado pelos advogados da Funai, e os médicos constataram que os seios de Sílvia Letícia estavam perfeitos. Segundo os peritos, a moça apresentava apenas "lesões abrasivas e contundentes", ou seja, arranhões em todo o corpo, além de braços e joelhos ralados (Jornal do Brasil, 14/6/92). O delegado José Barbosa de Souza, que instaurou o inquérito, disse que ouviu quatro testemunhas que assistiram ao crime, mas só apresentou Hélio Silva, caseiro de Paiakã, que mentiu no depoimento. O caseiro disse que viu o cacique de pé com um pedaço de arame tentando estrangular Letícia, mas, conforme apurou o Jornal do Brasil, os médicos não encontraram qualquer sinal de estrangulamento no pescoço da vítima. Meses depois, esse mesmo delegado foi preso, acusado de chefiar uma quadrilha especializada em roubar cargas de caminhão e em assassinatos (O Estado de S.Paulo, 5/11/92).

Mas Veja não esteve sozinha nesse episódio. Contou com a participação da TV Globo, que, no Jornal Nacional, exibiu entrevista com Paiakã na qual ele culpava a bebida pelo episódio. Respondendo a uma pergunta suprimida na edição, disse Paiakã: "Realmente, aconteceu. A gente bebendo, eu bebendo, a minha mulher bebendo, a menina que chama Letícia bebendo e as pessoas que estavam acompanhando bebendo. Tudo ocorreu por causa da bebida. Agora, eu não estou com medo nem me escondendo aqui" (OESP, 11/6/92). Em entrevista gravada em vídeo, em 11/6/92 e divulgada pelo NDI, Paiakã nega que tenha mantido relação sexual com Silvia Letícia e acusa a TV Globo de ter montado as imagens em que "confirmou" o estupro. "A Globo fez uma montagem. Ela não mostrou na televisão a pergunta que me fez. Eu confessei apenas que havia bebido muito e que houve uma briga de Irekã com a menina" (OESP, 18/6/92).

A mulher de Paiakã disse à CPI da Câmara dos Deputados que praticou agressão sexual contra Sílvia Letícia porque estava enciumada e pediu à deputada Sandra Starling que providenciasse sua acareação com Silvia Letícia (Diário Popular, 17/7/92). Paiakã e Irekã prestaram depoimento no fórum de Redenção e mantiveram a versão de que "Silvia Letícia não foi estuprada, mas agredida por Irekã", num acesso de ciúmes (JB e Folha de S.Paulo, 30/7/92). Quem já viu briga de índias sabe como costumam ser violentas quando enciumadas, e é comum agredirem a oponente que tenta seduzir o marido enfiando a mão em sua vagina.

Quase um ano depois de ser vítima do suposto estupro, Sílvia Letícia, 19 anos, casou-se com o agricultor Roberto Afonso Cruz, 21 anos (Folha, 6/5/93). Aos 21 anos, Sílvia Letícia foi presa na delegacia de Redenção, acusada de tentar passar "instrumento de fuga" a seu marido, condenado e preso por homicídio (Folha, 3/7/95).

Julgado e condenado sumariamente pela Veja e pela TV Globo, talvez nem haja mais conserto para o mal que os caras-pálidas da imprensa fizeram a Paiakã. Sua reputação foi jogada na lama e, com ela, todo um passado de luta dos povos indígenas do Brasil. Sem falar na perda que o Brasil sofreu com o silenciar de uma voz simples mas coerente, um dos raros brasileiros nativos brilhantes em suas postulações. Mas, e o papel dos profissionais de imprensa nesse episódio? Até quando permanecerão impunes os jornalistas apressados que, sem investigar direito, transformam suspeitas e indícios em provas e se dão o direito de acusar pessoas de bem?

Só consigo pensar num jeito: lançar a própria opinião pública contra os maus veículos e maus profissionais com uma espécie de prêmio para más reportagens, assim como os ambientalistas fazem com os poluidores.

Lanço desde já a indicação da Veja e da TV Globo, no episódio Paiakã, como candidatos ao Prêmio Má-Fé do Jornalismo Brasileiro. Para que situações desse tipo não se repitam. E, se se repetirem, Prêmio Má-Fé neles – a ser concedido pelos próprios jornalistas, após debates nas faculdades de Comunicação, com AM-PLÍS-SI-MO espaço de defesa para os profissionais que participarem dessas imundícies travestidas de jornalismo.

(*) Editor do Jornal do Meio Ambiente. Ganhou este ano o Prêmio Global 500, da ONU, para o Meio Ambiente

 

ARTIGO 222
Resposta de Carlos Tautz a Luiz Egypto

 

Caro Luiz Egypto,

Creio que foi no mínimo descortês de tua parte fazer constar ao final de meu artigo (Observatório on line, "Quem será o dono?", edição 71, de 20 de julho de 1999) um comentário teu, sem sequer ter-me avisado com antecedência que faria isso. Qual a razão? Será que você não admite uma opinião divergente da tua? Ademais, os teus comentários em nada conseguem desdizer minhas afirmações. Como se não bastasse, ainda cortou, sem minha autorização, parte insuprimível do texto (que é reenviado, na íntegra, ao final dessa mensagem).

Eu disse e reafirmo que foram poucas as discussões sobre um assunto tão estratégico para a Brasilidade quanto o aumento da participação de capitais estrangeiros nos media Brasileiros. Por maior que seja a audiência do Observatório, que debateu o assunto, esse aqui é um veículo infelizmente limitado à parcela reduzida da categoria dos jornalistas. Não alcança, como é imprescindível nesse caso, a massa da sociedade Nacional.

Também vale ressaltar, caro Egypto, que minha opinião não está carregada de qualquer xenofobia. Eu mesmo estou envolvido no projeto de publicar a versão Brasileira do jornal Francês Le Monde Diplomatique, em reconhecimento à contribuição que os media internacionais podem dar ao jornalismo Nacional.

Mas, observo que o principal de nossa divergência se prende à extensão do impacto da chegada desses capitais ao Brasil. Eu estou preocupado com a influência potencialmente maléfica dos conteúdos jornalísticos que conglomerados internacionais da informação podem trazer para os grupos locais de media.

E você, pelo que escreveu, tenta encontrar uma saída para a incompetência administrativa e gerencial única e exclusiva dos controladores das empresas brasileiras, que mais uma vez se meteram em canoas furadas de investimentos (vultosíssimos), em áreas que não dizem respeito ao seu negócio principal (core business, para os globalizados) – e se estreparam! É o caso, por exemplo, do grupo publicador do jornal Zero Hora, no Rio Grande do Sul, que pretendeu monopolizar o mercado de conteúdo e de meios físicos de telecomunicações naquele estado, através da compra da CRT. Quebrou a cara, levou uma rasteira de seus sócios espanhóis no leilão da Telebrás e foi obrigada a fazer o passaralho... na redação do diário porto-alegrense!

É essa incompetência empresarial que gera desemprego em massa entre a categoria dos jornalistas. Isso também é agravado pelo fato de que parte considerável das demissões – não sei quantificar com precisão – se deve à decisão estratégica dos grupos de comunicação de concentrar seus negócios em poucas praças, acabando com os postos de trabalho nas sucursais.

Cabe ressalvar, ainda, que jornalistas, historicamente, pouco se assumiram enquanto categoria profissional e não conseguiram construir sindicatos fortes que os defendessem da matança generalizada de empregos.

A solução para esses problemas já estruturais da categoria certamente não é escancarar corações e mentes Brasileiras à criatividade destruidora principalmente da patológica media estadunidense, que se delicia com um padrão de jornalismo que valoriza o individual em detrimento do coletivo, a uniformidade da versão dos grandes conglomerados, a valorização mórbida e histérica da violência.

Mas, como você me pediu sugestões para criação de empregos e, até, de propostas de salvação de capitalistas incompetentes, aqui vão algumas, de graça. Por uma delicadeza que até agora você foi incapaz de expressar, queira publicá-las – na íntegra, sem cortes – na próxima edição das suas observações, ou melhor, do Observatório da Imprensa.

Luiz Egypto responde: É um exagero considerar uma descortesia a nota que assino ao pé do artigo "Quem será o dono?", (Observatório nº 71). Houve apenas o propósito de lembrar aos leitores que, ao contrário do que o artigo aponta, "os poucos comentários que se lêem a respeito" da necessidade de modificações no Artigo 222 da Constituição não têm variado "do corporativismo ao colonialismo mental disfarçado de realismo econômico". O Observatório da Imprensa não se enquadra nessa generalização e nada mais compreensível que seu redator-chefe se manifeste a respeito, até por obrigação institucional. Já o corte mencionado pelo autor do artigo refere-se ao último parágrafo do texto original, inadvertidamente suprimido e incluído logo após a edição do O.I. ter entrado no ar.

A seguir, a continuação da mensagem de Carlos Tautz. O título é do redator que assina esta nota. No pé, links para o artigo original de Tautz e matérias sobre o Artigo 222 publicadas no Observatório da Imprensa. Este é um debate que o Observatório sempre estimulou. Foi pioneiro nessa discussão, modéstia às favas. (L.E.)

 

Empregos e desconcentração

Carlos Tautz

 

1. Ponha-se para funcionar o Conselho de Comunicação Social, conforme previa a Constituição promulgada em 1988. Se o órgão tiver coragem, vai exigir que as grandes emissoras sigam o contrato de concessão (empresas de radiodifusão são concessionárias de um serviço público) e tenham taxas mínimas de produção local. Aí, meu caro, fica até difícil de calcular quantos novos postos de trabalho serão abertos. Isso sem falar que a cultura regional será valorizada;

2. Acabe-se com as restrições legais e informais (lobby das grandes emissoras) para o funcionamento de emissoras de sinais de rádio e TV de pequena potência. Muitas delas operam segundo o princípio de rádios e tvs comunitárias e têm demonstrado viabilidade econômica, porque expressam o ponto de vista local e ganham audiência e reconhecimento da comunidade onde estão instaladas. É o caso da rádio Novos Rumos, no município fluminense de Queimados, que pagava a seus funcionários salários até superiores aos da média do mercado e recebia anúncios de grandes cadeias de supermercado. Foi seguidamente fechada pela Polícia Federal, sob alegação de ser "radio pirata". Na prática, sabia-se que foi violentamente cerrada porque seus índices conseguiam ser superiores naquela região aos, por exemplo, de uma rádio comercial auto-proclamada "campeã de audiência" ;

3. Permita-se, por via de legislação, que sindicatos, partidos políticos e associações da sociedade civil sejam proprietárias de emissoras de sinais de rádio e TV e pronto: mais uma mini-explosão do mercado de trabalho.

Essas ações, simples, carregam em si o duplo germe da geração de empregos – milhares deles, não apenas para jornalistas mas para todos os profissionais de empresas de comunicação – e de desconcentração da propriedade de meios de comunicação, esse último pré-requisito para a democratização do acesso aos conteúdos veiculados pelos meios de comunicação de massa. O grande bloqueio mental a que muitos estão restritos é a incapacidade de perceber que a solução do problema não reside na sustentação de grandes conglomerados, que quando vêm abaixo causam impactos sociais e econômicos consideráveis.

A alternativa economicamente viável e politicamente democratizante localiza-se na geração distribuída de informações. A exemplo da velha máxima do movimento ambientalista, small is beautiful. Mesmo que não se seja capaz de enxergar.

 

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