| ||
|
JORNAL DE DEBATES QUADRINHOS Cláudio Weber Abramo Imagina-se um título besta qualquer. Rabisca-se uma figura, também qualquer (não precisa parecer viva). Varia-se ligeiramente sua posição, ou a posição de alguns de seus componentes (não precisam ser todos, pois isso dá muito trabalho). Escreve-se qualquer bobagem que venha à telha. Não importa que não faça sentido algum. Pronto: está criada uma nova tira em quadrinhos.
Foi assim que se produziu a tira que ilustra esta coluna: incidentalmente, em alguns minutos. Se não desse jeito que algumas tiras publicadas em jornal são concebidas e executadas, se, ao contrário, tais tiras exigem de seus criadores horas e horas de árdua reflexão, ingente busca por significantes e metódica aplicação de habilidades artísticas exaustivamente aperfeiçoadas ao longo de anos de labuta, a coisa é ainda pior. De fato, se depois de tanto esforço o que se produz é aquilo que sai publicado, como deve ser a cabecinha do sujeito? Alguns desses cartunistas demonstram uma predileção toda especial pelo mau gosto, pelo grosseiro e pelo baixo. As tiras que produzem notabilizam-se apenas pela feiúra, seja dos traços, seja das falas e situações. Acresce que, no caso de alguns desses cartunistas que infestam os jornais, sua familiaridade com a arte de desenhar é remota, se tanto. Dirão eles que é de propósito. Assim fica fácil. É como aquele filme horrível que fizeram aí alguns anos atrás, sobre o período de D. João VI no Brasil. Numa cena, o microfone aparecia no alto da tela. Com a cara mais dura do mundo, afirmou a diretora ter sido isso intencional. Claro. Se não sabem desenhar, se carecem de habilidade verbal, se a imaginação lhes falta, então o que explicaria o fato de serem publicados? A resposta só pode ser encontrada naquilo que têm em comum – a grosseria. Nada poderia ser mais apropriado ao público brasileiro. (*) Secretário-geral da ONG Transparência Brasil <http://www.transparencia.org.br>; e-mail <cwabramo@uol.com.br> | ||