Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

PESQUISÓTICA 2000
A Lei, o Espírito da Lei
e a tentação das sondagens

Alberto Dines

A mídia insiste em chamá-las de pesquisas – para assumir ares de precisão científica. Sondagem, amostragem ou mesmo prévia seria mais verdadeiro: significam o flagrante de uma preferência momentânea do eleitorado. Por que então a insistência na disposição enganosa? Para que os resultados convertam-se num instrumento de indução e persuasão.

A mídia, que no estado moderno detém o poder de informar, agora quer ir além – interferir. Os surtos de pesquisite eleitoral evidenciam o sintoma que este Observatório vem diagnosticando há tempos: a transformação da imprensa-informadora em imprensa-protagonista.

A versão 2000 da legislação que regula as sondagens (Resolução do TSE, nº 20.556, de 24 de fevereiro), ao contrário do que se pratica em outros países, é extremamente complacente no tocante à publicação dos resultados das prévias eleitorais:

  • admite a sua divulgação em qualquer tempo, inclusive no próprio dia das eleições (Art. 5º), ignorando que o eleitor indeciso ou pouco convencido gosta de apostar no vencedor;
  • exige apenas a informação suplementar sobre o período em que se realizou a amostragem e as margens de erro (Parágrafo único).

Não obriga:

  • dar destaque à margem de erro;
  • mencionar o número de entrevistados e onde o foram.

No entanto esta mesma versão da legislação eleitoral é extremamente rigorosa, quase draconiana, no tocante à cobertura da campanha eleitoral e à organização dos debates nas emissoras de rádio e TV (Resolução 20.562, Caps. III a VII) – o que provocou uma candente reação dos editores, diretores ou empresários da mídia eletrônica de massas contra esta intervenção indevida nos procedimentos jornalísticos. Tantas foram as restrições que não apenas a mídia eletrônica, mas também a impressa, sentiram-se cerceadas no seu direito de organizar e apresentar a cobertura da campanha.

Repetiu-se mais uma vez a velha ambigüidade nacional: controla-se uma ponta e libera-se na outra.

Pergunta: nos jornalões – de onde se irradiam a maioria das sondagens – foram obedecidos o espírito e a letra da lei?

Compare e comprove:

O Estado de S.Paulo de domingo (1/10/00) deu na manchete principal "Alckmin 14%; Maluf, 14%; Tuma, 12%". No subtítulo, Luiza Erundina foi "tecnicamente eliminada" e Marta Suplicy, que estava em primeiro lugar, foi mencionada no fim da informação. No texto da chamada não se atenderam às exigências legais de informar o período da realização da coleta e as margens de erro. Se a margem fosse de 2% para mais ou para menos Erundina não estaria eliminada, mas empatada com Tuma.

Em O Globo, do mesmo domingo, dia das eleições, a manchete dramatizada também não atendeu ao espírito da legislação: "Ibope: Benedita 19%, César 18%". Desconsiderando a margem de erro de 2% – mencionada em letra pequena no corpo da chamada – o jornal cometeu dois erros: foi desmentido pelos resultados (aliás, o único dos jornalões que comeu mosca e arrastou o instituto que produziu a sondagem) e não obedeceu ao espírito da lei.

No Jornal do Brasil, também no domingo, dois tentos: resistiu à tentação de embarcar na "pesquisótica" desvairada, preferindo a linha cívica – destacou a entrevista com o presidente do TSE alertando para o perigo das campanhas milionárias. Porém, na edição anterior (sábado), passou ao largo da resolução do TSE: não informou na primeira página a margem de erro e a data da realização da sondagem, que, aliás, confirmou-se: "Conde x César e Marta x Maluf em 2º turno no Rio e SP".

Na Folha de S.Paulo (único dos jornalões que possui um instituto próprio, e talvez por isso tem sido o mais frenético no uso das sondagens como substitutas de investigação), uma edição criteriosa atendeu à legislação e à isenção: na linha-fina, a data e o empate técnico entre os quatro colocados em segundo lugar e, na manchete, a informação não comprometida: "Adversário de Marta está indefinido".

Ética e Técnica andam sempre juntas.



Veja também

Resultado da Urn@ Eletrônica do OI sobre sondagens eleitorais

19/9/00

Você acha que os eleitores se deixam influenciar pelas prévias eleitorais publicadas na imprensa?

Respostas

Votos

Porcentagem

Sim

415

84%

Não

79

16%

Total de votos: 494


Compacto do Observatório na TV sobre cobertura eleitoral [clique nº 114 – 8/8/00]

Compacto do Observatório na TV sobre sondagens eleitorais [clique nº 118 – 5/9/00)


Volta ao índice

 



Mande-nos seu comentário





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você