O que pensa a Time
sobre o Times
Alberto Dines
A última edição internacional da revista Time (29/9, vol. 150, nș 13) traz um artigo sobre o The New York Times. Os dois veículos não concorrem diretamente mas disputam prestígio e, no entanto, o semanário rendeu-se à excelência do jornal considerado emblema do jornalismo americano produzindo uma peça altamente elogiosa a propósito das recentes inovações gráficas e jornalísticas (ver The New York Times investe em qualidade, Circo da Notícia, número 30.)
Excertos:
* O jornal não faz pesquisas de opinião quantitativas para testar seus padrões. Prefere discussões de grupo, qualitativas (Ver Painel de Leitores para inglês ver, Circo da Notícia).
* Bom jornalismo é bom negócio. O jornal dirige-se à elite e não faz concessões. Continua em ascensão em matéria de circulação e faturamento publicitário.
* O jornal não se importa em chegar atrasado (isto é, ser furado) em assuntos quentes. Só entra quando tem certeza de que não está numa fria (caso das denúncias sobre o financiamento da última campanha eleitoral de Clinton, quando as matérias de Bob Woodward o precederam). Em compensação, quando começa a cobrir um caso, valida-o definitivamente. Foi o único que não entrou na corrida para transformar em culpado o guarda suspeito de ter colocado a bomba no Parque Olímpico de Atlanta.
* "Se você trabalha aqui e olha o que se passa na profissão, você percebe que, se este jornal desaparecer, não poderá ser reinventado. Isto dá ao nosso trabalho um sentido de missão" (Howell Raines, editor de opinião).
* "Queremos vender jornal, não estamos acima disso. Mas, se no fim do dia, uma chatíssima reunião sobre não-proliferação nuclear ou aquecimento global produzir uma resolução que nossos editores considerem capaz de modificar a vida das pessoas daremos a ela o maior destaque" (Joseph Lelyveld, 60 anos, editor executivo do jornal).
* Há tempos discute-se internamente se o jornal deve lançar uma coluna mundana (na cidade que é capital mundial de mundanismo). O projeto está na gaveta diante da oposição dos editores. Mas está em andamento uma seção sobre "controvérsias intelectuais".
* Apesar de manter ainda algumas pequenas emissoras de TV, a empresa ainda não decidiu se vai diversificar - "depende do quanto pretendemos nos desviar do nosso perfil" (Russel Lewis, presidente da empresa).
Convém notar:
A) A Time, na última década, fez opções em sentido oposto ao do Times.
B) A edição latino-americana da Time não incluiu a matéria da edição internacional mas fala de um livro-lixo sobre família real britânica - é o que merecemos (ver Circo da Notícia)
Encol e jornalismo regional: uma pauta pública
Victor Gentilli
Uma empresa com 700 obras paralisadas no país é exemplar para o estudo do jornalismo regional. O tema Encol, problema não resolvido mas aparentemente envelhecido para a mídia, é exemplar para avaliarmos nossos jornais, que afirmam oferecer informação confiável aos seus leitores, assinantes ou adquirentes em banca. O valor de um jornal não é medido pelo valor do papel e da tinta, mas pela qualidade da informação que é oferecida aos seus consumidores.
O caso Encol é rico porque diversificado. São cerca de 700 obras paradas da empresa distribuídas praticamente por todo o país. Assim, cada jornal tem uma situação peculiar em relação à empresa. O questionário abaixo é uma pauta cujas respostas servem sobretudo ao cidadão. Os jornais que produzirem respostas e esclarecimentos só têm a ganhar. Jornais vivem de informação. Não podem ignorá-las. A qualidade das respostas obtidas é um bom indicador da qualidade e da confiabilidade da imprensa.
Vamos lá:
1) Na área de abrangência do jornal, a Encol fez obras? Quantas? Quando?
2) A Encol participou de licitações públicas? Quais? As obras continuam? Quais os órgãos públicos envolvidos?
3) Quantas obras a empresa tem hoje paradas na área de abrangência do jornal? Quantos mutuários foram tungados? Qual o valor da tunga?
Bem mais numerosas são as perguntas dirigidas à reflexão dos jornalistas. Quem quiser cumprir a pauta e remeter para o OBSERVATÓRIO, está convidado:
1) A empresa anunciava no jornal? A empresa chegou a ser uma grande anunciante?
2) O jornal chegou a receber aqueles anúncios em que a empresa aceitava carros, telefones, o escambau? O jornal desconfiou desses anúncios?
3) A Encol era boa pagadora? O jornal hoje é credor da empresa? A dívida é grande? Qual a dimensão?
4) Durante a crise da empresa, circularam boatos sobre empresas em dificuldades?
5) O jornal mobilizou-se para apurar as condições da empresa e informar os seus leitores?
6) O jornal consultou a agência sobre a situação da empresa? O jornal refletiu sobre os anúncios que publicava? O jornal pensou em discutir o tema no Conar (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária)? Como parte do tripé anunciante-agência-veículo, o jornal se considera co-responsável pela crise da empresa?
7) O jornal recebeu informações em "off" (sigilosas) sobre a crise da empresa?
8) Algum leitor, mutuário, cidadão escreveu cartas ao jornal, lembrou de sugerir a pauta ao jornal?
9) Quando o jornal começou a produzir matérias sobre a crise da Encol?
10) O jornal apenas reproduziu matérias de agências noticiosas vinculadas aos jornalões ou produziu material local? Como o jornal entende que se comportou na cobertura da Encol?
11) Os materiais editoriais do jornal são totalmente produzidos pela redação? Outros departamentos do jornal, desvinculados do jornal mantém espaços editoriais? Por quê?