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FONTES
Vocês têm razão
Vitor Sznejder (*)
"( ) A imparcialidade
do rabi de Chelem granjeara fama num circuito de milhas. Um dia, dois litigantes
o procuraram para resolver uma contenda. O rabi escutou longa e pacientemente
o queixoso e depois disse-lhe:
- Tens razão.
Ouviu em seguida
o réu e declarou-lhe igualmente:
- Tens razão.
Os litigantes retiraram-se,
muito satisfeitos; mas a esposa do rabi, presente ao fato, estava intrigada.
( )
- Como é
possível objetou ela que ambos tenham razão?
O rabi ponderou
demoradamente, voltou-se para a mulher e replicou:
- Queres que te
diga? Você também tem razão."
[M. Scliar, P.Finzi e E.Toker,
em Humor Judaico, Editora Shalom ]
Estou prestes a completar 30
anos de jornalismo. Metade deles passei em redações, reclamando
e ouvindo os colegas reclamarem do "despreparo das fontes". Tínhamos
razão: as fontes (em geral) sempre julgam que o que lhes sucedeu
especialmente se positivo ou às suas empresas, partidos e instituições
"é notícia". Como tal, justifica a convocação
de uma coletiva, a abertura de manchete nas primeiras páginas e
quem sabe um bloco inteiro no telejornal da noite.
A outra metade, passei-a como assessor
de imprensa de grandes empresas, nacionais e multinacionais, de cujos executivos
ouvia:
- Como são despreparados os
jornalistas brasileiros!
Tínhamos razão: os
jornalistas (em geral) chegam às entrevistas ignorando completamente
o assunto em pauta ou, ao contrário, tendo formado a seu respeito
prévia opinião, que buscavam de qualquer modo confirmar.
As falhas cometidas pelos jornalistas costumam impactar gravemente a imagem
de cidadãos e empresas; e imagem, sabemos todos os profissionais
da comunicação, leva-se anos para construir e um minuto para
destruir.
As falhas cometidas por executivos
ou políticos no seu relacionamento com a imprensa, ao contrário,
tendem a cair sobre o seu próprio telhado. No final do dia, a última
palavra, a derradeira imagem, o viés do título ou da legenda
são sempre uma escolha subjetiva e política do veículo.
Quer dizer que ambos - jornalistas
e fontes - têm razão em suas reclamações? Creio
que sim. A relação Imprensa-Empresa é naturalmente
adversária. E cabe à fonte e ao jornalista transformá-la
em aliada momentânea. Afinal, para uma fonte, "no news is good news"
(tudo vai bem lá em casa, na empresa, no país etc.);
para os jornalistas, "good news is no news" (se um cachorro morde um
homem isto não é notícia etc.).
Não tenho a pretensão
de igualar-me seja em sabedoria ou em santidade ao bondoso rabino de Chelem,
mas creio estar podendo dar uma pequena contribuição aos
"litigantes": como professor de Comunicação, de um lado,
e como diretor de uma empresa de RP, de outro, digo aos meus pacientes
ouvintes que ambos "têm razão".
E se dentre algum dos leitores
houver quem discorde, aviso antecipadamente que, embora me apeteça
um saboroso debate talmúdico, concedo-lhe, antecipadamente também,
a razão.
(*) Jornalista, 47
anos, professor da FGV/EPGE e diretor da Burson-Marsteller
CENÁRIOS
O futuro do jornal impresso
Antonio Caetano (*)
Assinante de dois jornais, todo dia
me faço essa mesma pergunta diante de uma pilha de papel tão
precocemente envelhecida. O futuro imediato é o lixo, claro. Pois
o que fazer daquelas centenas de páginas, das quais, quem sabe,
uns 5% foram de fato consumidos? No meu caso, talvez menos ainda: por conta
de meu trabalho como editor de conteúdo de um site, cada vez faço
mais uso das versões digitais dos jornais daqueles jornais que são
de fato publicações , isto é, coisa pública
, e não meros instrumentos de marketing de provedores de acesso
(sim, estou falando da Folha de S.Paulo ...).
O jornal impresso como o conhecemos
hoje é ainda um produto típico do século 19, do tempo
em que a fumaça das chaminés era um admirável sinal
de progresso. Ou seja: o jornal impresso é ainda um produto marcado
pelo signo do desperdício.
Recolham esse lixo
Mas é justamente esse inferno
cotidiano, futuro previsível de todo assinante, que abre a perspectiva
de uma especulação sobre o futuro do jornal impresso. Porque
é óbvio que os departamentos de marketing carecem de humor
e imaginação, portanto para se oferecerem não só
para entregar como também recolher os jornais que distribuem.
Nem será necessário.
A Internet e a digitalização da informação
resolverão o problema. Simples: como a tendência do acesso
é tornar-se gratuito ou quase tão barato quanto ligar a TV
ou o rádio, o jornal será distribuído pela Rede. Até
aí nada demais, todos nós que usamos a Internet de modo intensivo
já intuímos isso ou simplesmente o ouvimos dos inúmeros
futurólogos que andam assinando matérias por aí.
Um quadro próximo
Portanto, sejamos mais criativos. Vamos
tentar juntos imaginar um quadro que nos pareça, ao mesmo tempo,
claro e verossímil, isto é, próximo. Primeiro, vamos
enumerar os dados para a construção do nosso cenário.
Vamos supor que:
1) Muito
rapidamente as telas de cristal líquido, aquelas telas fininhas
dos laptops e dos caixas automáticos, serão baratas e populares,
produzidas nos mais diferentes formatos e tamanhos.
2)
O acesso à Rede, como
já foi dito, será tão barato quanto ligar uma TV.
3) E
o sempre tão esquecido, nesses exercícios de futurologia
marota, segmento das impressoras ganhará rumos mais surpreendentes.
Pronto: estes são os
elementos.
Agora imagine que você
é assinante de um jornal. Você acaba de acordar e, em vez
de ir até a porta pegar o lixo do dia seguinte, você liga
uma tela de cristal líquido do tamanho de um jornal tablóide.
Um pequeno programa embutido no aparelho já se encarregou de fazer
o download da edição do dia. Você pega sua tela ela
funciona sem fio também! , leva-a para a mesa junto com o café
da manhã e começa a "folhear" seu jornal clicando, digamos,
um controle remoto. E vai lendo e marcando as matérias que lhe interessam
aqueles tais 5% ou 10% diários que você consome.
Mas o que você gosta
mesmo é de ler no papel.
Claro, o contato com o papel
é uma sensação insubstituível. O papel, o livro,
a bicicleta, a orquestra sinfônica, a bola são objetos perfeitos
(mas isso é outra história...). Pois bem, à sua tela
de cristal líquido está acoplada uma impressora. Você
clica um botão e pronto: a edição do jornal que você
selecionou é impressa em sua casa!
Eis aí, em síntese,
um bom cenário futuro para o jornal: ele não deixa de ser
impresso, mas não o será mais em imensos parques gráficos
caríssimos, que por sua vez exigem complicadas e caríssimas
operações de distribuição. Ele será
impresso em sua casa.
O custo da aparelhagem, claro,
estará diluído no preço da assinatura que, óbvio,
será infinitamente mais barato do que é hoje pois, além
da aparelhagem, o que estará incluído no preço será
o salário dos jornalistas e técnicos envolvidos na produção
da notícia.
Adeus, empresários
Agora, imagine o que isso significará
em termos de independência política, econômica e editorial...
Será o fim dos "grandes empresários" da notícia. E
a variedade de publicações será imensa!
Enfim, eis aí um cenário
que é a fantasia mais gloriosa tanto de assinantes quanto de jornalistas.
E o pesadelo dos magnatas do pedaço. Um pesadelo muito próximo
mesmo. Mas que dependerá muito da pressão que faremos nós
cidadãos, assinantes e jornalistas. Pois a nova tecnologia é
essencialmente aberta e flexível. O limite é nossa imaginação,
e sobretudo, nosso poder de influência.
Obs.
: Não quis introduzir aqui, neste cenário construído
rapidamente, tecnologias já em estado avançado de desenvolvimento,
como o reconhecimento de voz a Internet ainda é meio apavorantemente
silencioso ou as possibilidades que os mecanismos de busca já oferecem
para o aprofundamento de qualquer notícia. Em outra oportunidade,
gostaria de falar sobre o conceito de tempo na Internet e sua relação
com o radical exercício da vontade individual que a Rede oferece.
(*) Editor de conteúdo
do Café Impresso < www.cafeimpresso.com.br>
DIPLOMA
Galisteu, Franco e Casoy
Orlando Lemos (*)
Claro que o título deste
artigo não é mais uma manchete escandalosa. Vou direto aos
fatos. Num recente bate-papo com Jô Soares, o ex-presidente do Banco
Central Gustavo Franco disse que atualmente está lecionando na PUC
e colaborando para dois jornais e uma revista. E concluiu: "Agora sou jornalista".
Claro que não é, Sr.
Franco. A legislação permite até seu registro como
colaborador, mas não como jornalista. Há coisa de dois anos
o ex-prefeito César Maia, do Rio de Janeiro, passou por uma questão
semelhante quando escrevia para O Dia. O Sindicato dos Jornalistas
disse que ele só poderia escrever como técnico, nunca como
jornalista. Mas aí fica a dúvida se foi apenas uma decisão
legal ou se pesou o lado político.
O caso da modelo Adriane Galisteu
tem a ver com a imprensa por caminhos indiretos. Todos lembram da grita
da classe artística depois que Adriane foi chamada a integrar o
elenco da peça Deus lhe pague . Ainda mais que ela foi para
o lugar da reconhecida atriz Lucélia Santos. Sem entrar no mérito
da questão, simpatizo com a classe artística. Só que
esses mesmos artistas estão invadindo a área dos jornalistas
todos os dias. Seja no Planeta Xuxa , seja no Walking Show
e principalmente no Carnaval.
Como concorrer?
Ora, a cada semestre as faculdades de
Jornalismo estão lançando no mercado centenas de jovens para
disputar um setor apertado e em franca redução. Como é
que uma moça ou rapaz saídos da faculdade poderão
concorrer com um rosto conhecido e com desenvoltura já tarimbada
de várias novelas?
Claro que essa discussão
toca na questão do diploma. Independentemente das opiniões,
se existe a obrigatoriedade do diploma é preciso respeitar a lei.
A democracia parte do pressuposto de que uma verdade aceita e aprovada
é verdade de todos, pelo menos para fins de cumprimento do preceito
legal. As faculdades ficam quietas e as particulares aceitam as inscrições
e ganham rios de dinheiro de forma inócua, já que esses profissionais
não terão mercado que os absorva. Não seria estelionato?
No mais, enquanto tudo isso
era discutido, só vinha à cabeça a vinheta do Boris
Casoy, afirmando: "Isso é uma vergonha".
(*) Tradutor
e jornalista. E-mail: <lemos.tradutor@openlink.com.br>
FOLHA
& GAÚCHOS
Ideologias provincianas
André Roca
Questões sobre direitos, deveres,
liberdade de expressão se confundem quando abordadas sob a ótica
do jornalismo. Com a máxima "vale tudo para se conseguir a melhor
matéria" sempre na ponta da língua, muitas vezes o profissional
passa por cima de princípios básicos morais, em troca de
reconhecimento.
Muito já se discutiu sobre
essas questões éticas. Inúmeras foram as conclusões
tiradas; porém, na prática, ainda pouco se fez. A instituição
do ombudsman, adotada pelos principais veículos de comunicação,
amenizou a falta de controle sobre o que era produzido. Controle, neste
caso, não é censura. É uma forma de permitir ao receptor
uma versão diferente da que lhe foi apresentada. O que é
eticamente justo.
Em 22 de setembro, um colunista
da Folha de S.Paulo , ao tentar justificar a falha de um jogador
de futebol, acabou cometendo um grave erro. A jornalista, ao abordar uma
questão de racismo que já envolvia três pessoas, acabou
agredindo todo um estado, acusando-o de ter pensamento esnobe e separatista
em relação ao resto do país.
Eis o que ela escreveu: "...
acusações feitas pelos jogadores Rincón, do Corinthians,
e Wagner, do São Paulo. Os dois afirmam que Paulo Nunes é
racista e que foram alvo de ofensas inaceitáveis por parte do jogador.
Paulo Nunes é goiano, mas pensa que é gaúcho, e a
gente sabe o que os gaúchos acham do resto do país. Mas,
até aí, morreu neves..."
As declarações
repercutiram rapidamente entre os gaúchos. Almir Freitas, um conceituado
jornalista gaúcho, afirmou ter ficado surpreso com o que acabara
de ler. "Deparei-me com uma questão que acreditava estar banida
dos grandes veículos de imprensa."
A ética jornalística
continua muito distante do que poderia ser considerado ideal. As divagações
sobre o que é moralmente aceitável e o que deve ser evitado
ainda serão motivo de muitas divergências. Contudo, as empresas
de comunicação precisam se adaptar à realidade. Continuar
publicando comentários que insistem em divulgar ideologias provincianas,
sem base histórica alguma, tende a derrubar a credibilidade do veículo.
Credibilidade abalada, crise na certa.
TV
LIXO
O vilão somos
nós
Marco Aurélio
Távora (*)
Sobre o empobrecimento e a
frivolidade da grande mídia, vale uma reflexão: todo mundo
é vilão. O público consumidor de meios de comunicação
se queixa, mas a sociedade hoje se sustenta dos sonhos dos ricos e famosos,
das mulheres de ancas imensuráveis e data de validade ampla, é
ávida por entretenimento burro, por informação inútil.
Para quem sai fresquinho da
faculdade, então, parece que jornalismo é informar que Justus
se separou de Galisteu, que Ronaldinho namora outra lourinha, as tiazinhas
se espalham pelo país, fulano foi visto num restaurante da moda
com aquela modelo que posou nua mês passado.
Que prazer dar uma passada
na banca de jornais! Olhar a casa daquela atriz, ver o quanto ganha aquele
cantor. E como não sonhar com todo esse poço de inutilidades?
No mundo todo, por mais evoluído que seja o país, a banalidade
impera, o sensacionalismo é abençoado pelos departamentos
comerciais. O estilo tablóide infesta as antes sérias primeiras
páginas dos jornais. E a culpa não é de Justus nem
de Galisteus.
Geraldo, o começo
Se olharmos para trás, veremos
que tudo começou como um programinha sem muita audiência,
copiado de um clássico de vulgaridade da sociedade mais fútil
do planeta (a americana, claro), chamado Geraldo . A cópia
foi perfeita, tão chula quanto nula, e nem fez tanto sucesso. Mas
as coisas rolam de emissora para emissora há muito tempo, e o modelo
foi parar em uma que soube cativar o público para a novidade. A
fórmula do sucesso é simples: notícias irrelevantes,
assuntos polêmicos não por sua importância, mas pela
forma de exibi-los, e o melhor de tudo: brigas, histórias familiares,
divórcios, traições, cinco minutos de fama e de difamação
em horário nobre para todo o Brasil atento e sedento da novidade.
Agora, ouvimos os gritos de basta
de jornalistas, escritores e artistas que perderam seu espaço sagrado
para uma loura, uma fofoca, um programa de variedades.
Mas a vaca já foi para
o brejo.
(*) Pesquisador
da Biblioteca Nacional e estudante de Administração
CARTAS
A elite tucano-paulista
O artigo de Maria Salete Souza Amorim,
"Collor, o retorno" [veja remissão abaixo ], padece de um
típico raciocínio tucano-paulista, qual seja: desvio de conduta
e suspeição criminosa só cabe para político
corrupto de outro estado. Antes de mais nada, deixo claro que nunca votei
e jamais votarei no Collor, mas foi o raciocínio da elite tucano-paulista
que levou Collor ao poder. O mesmo raciocínio que leva a votar em
Maluf, Mário Covas ou Ciro Gomes: "Mudar tudo para que tudo permaneça
como está", diria Tomaso di Lampedusa.
De Mario Amato e seus empresários
na lista de espera do aeroporto ao atual presidente implorando para ser
ministro, Pitta & Maluf e seus precatórios, São Paulo
abençoa a elite corrupta. Tudo o que se dizia de Collor, e era verdade,
pode-se dizer de FHC, com a diferença de que agora as provas são
fornecidas por membros autofágicos do próprio governo. Nunca
se roubou tanto no governo brasileiro como agora, inclusive pelas palavras
de outro paulista ilustre que já começa a freqüentar
as páginas policiais: Mário Covas.
A demonização
de Collor só serve para desviar o foco sobre o mais corrupto dos
governos brasileiro: FHC. Para não ir muito longe: Sivam, Pasta
Rosa, grampos do BNDES, compra de Votos, show da Elba Ramalho no Diário
Oficial , os calendários do Humberto Lucena, a desvalorização
de janeiro vazada para amigos, Pérsio Arida e amigos na outra desvalorização...
Gilmar
Antonio Crestani
Maria Salete Souza Amorim responde:
Caro leitor, entendo sua angústia em querer artigos que tratem
da atual onda de corrupção no governo federal, estadual e
municipal; entretanto, priorizei falar apenas do ex-presidente Fernando
Collor de Mello e de seu envolvimento no esquema PC Farias por dois motivos:
primeiro, pelo fato de ter trabalhado neste tema em minha dissertação
de Mestrado, na PUC/SP e, segundo, porque Collor teve seu mandato cassado,
e agora volta ao cenário político, lançando sua candidatura
à Prefeitura de São Paulo.
Se esse assunto é pauta nos
mídia, então deve ser objeto de discussões e debates.
Atenciosamente, M. S. S. A.

Collor,
o retorno
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