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ELEIÇÕES 2000
DataFolha pauta a Folha
José Antonio Palhano (*)
"Vantagem de Marta volta a cair." Essa era a manchete da Folha de S.Paulo no domingo (22/10), exata uma semana antes das eleições. Foi assim que o jornal optou por divulgar a mais descarada e escandalosa escalada fascistóide ocorrida naqueles dias de que já se teve notícia entre nós desde o pós-guerra. Traduzindo: a investida animalesca de Paulo Salim Maluf contra sua oponente um frontal e selvagem ataque à mulher brasileira mereceu encimar a primeira página do maior diário do país unicamente sob a ótica da sua intenção e dos seus efeitos: a tática de Maluf e de seus gorilas estava dando resultados. Assim rezou dominicalmente a Folha: conivente, passiva e pusilânime. Logo abaixo, um gráfico colorido, enorme, no qual a curva descendente da candidata do PT tinha a contundência de uma seta apontando diretamente para as profundezas do inferno.
Alberto Dines e outros observadores já escreveram aqui à exaustão a respeito da pesquisite que tomou conta do processo eleitoral brasileiro. Dessa vez, já não se trata de abordar a questão apenas do seu ponto de vista de costume, da conveniência de se publicar tendências de voto de maneira que ignore solenemente as peculiaridades do calendário eleitoral. A Folha agora foi bem mais longe. Sua pesquisa programada para aquele domingo derrubou estrepitosamente um fato jornalístico de primeira grandeza, qual seja a opção declarada, última e desesperada do malufismo pela safadeza machista, suja e covarde. E, muitíssimo pior (o que dá assunto para sociólogos e quejandos até não poder mais), ufanista.
Estúpida agressão
O fato é inédito no nosso jornalismo contemporâneo. Trabalhou-se mais de uma semana, dentro da nossa maior redação, com a única, definitiva e castradora perspectiva segundo a qual nada haveria de ocupar o espaço da manchete domingueira, reservado sob os rigores de um sectarismo equivalente à ânsia com que os adversários de Marta Suplicy partiram para transformá-la em reles meretriz ao sacrossanto resultado do DataFolha.
Cuja publicação foi, sim, além de vergonhosamente alienada com o que acontecia de fato na campanha paulistana, indutiva e pró-Maluf. Haverá na Barão de Limeira, tão pródiga em idolatrar números, quem tenha em mãos quantos milhares (ou milhões) de leitores stop and go tem a Folha de S.Paulo? Aquele exército de eleitores que, apenas para ficar no eixo Rio-São Paulo, param em frente às bancas do centro somente para ler as manchetes dos jornais diários? E, dentre esses, quantos não são fiéis à crença segundo a qual o voto não deve ser sufragado em nome do candidato perdedor? Ou reconhecer que este é um vigoroso e emblemático traço da nossa tenra democracia provoca engulhos na Folha?
Não há como fugir: a leitura do jornal naquele domingo ou foi futebolística "Virada espetacular de Maluf" ou foi turfística "Maluf atropela espetacularmente nos quatrocentos metros finais". Tudo em nome da suprema abnegação pelos números frios e implacáveis. A molecagem assumida de Maluf, tampouco a expressiva (e preocupante) adesão do eleitorado, não foram suficientes para suscitar uma reação que sacrificasse a manchete há muito programada. O importante era registrar a ascensão do candidato, independentemente dos métodos utilizados para tanto.
Estes, até onde a vista alcança, estavam por merecer não só uma manchete condenatória mas, talvez, um caderno inteiro. Como se viu, porém, quem pauta o jornal é o DataFolha. A histérica manchete daquele domingo, acompanhada do gráfico obscenamente colorido, foi, bem diverso de eleitoral e neutra, uma estúpida, inesperada, extemporânea e malufista agressão à mulher brasileira.
(*) Médico, editorialista e colunista político da Folha do Povo, em Campo Grande, MS
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