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Sondagens, modo de usar
O Mal-Estar da Pesquisite ou A Verdade e seus Descontentes
Alberto Dines
A opinião pública é aquilo que se publica. (Millôr Fernandes)
Quantos tolos são necessários para se fazer um público? (Goethe)
Sondages, mode d’emploi é o título de um livrinho francês de autoria do sociólogo Roland Cayrol recém publicado na França (Presses de Sciences-Po, 136 pgs, 75 francos). O autor é também diretor de uma instituto de pesquisas (CSA) – portanto não se deve esperar uma diatribe contra prévias ou pesquisas. O autor, supõe-se, vive delas. Não poderia rebelar-se contra o seu ganha-pão.
Mas é suficientemente honesto para sentenciar que a técnica das sondagens permite apenas "a apropriação de opiniões expressas isoladamente numa situação artificial". Explica as diferenças entre os métodos aleatórios e os métodos de quotas e revela o ideal do sondador: combinar quantidade com qualidade. Isto é: selecionar universos de entrevistados de tal forma que as respostas possam ser consideradas como uma opinião para a tomada de decisões.
Cayrol também constata que são muito complexos os resultados das opiniões medidas pelas sondagens. Significa que as pesquisas-relâmpago para esquentar um assunto do noticiário – como aquelas que a imprensa brasileira tanto venera – precisam ser avaliadas com cuidado para não se converterem em mera manipulação de números.
O autor, obviamente, não se detém para examinar a palavra francesa sondage (sondagem, também usada em Portugal) – com conotação mais cautelosa, menos definitiva do que pesquisa (que remete ao conceito de exatidão da Ciência e da atividade científica). A nossa fascinação "pesquisótica" vem da submissão ao inglês: poll é votação, escrutínio. Pode-se entender a mentalidade americana (ou daqueles que a copiam, voluntária ou involuntariamente) através desta forçada aproximação entre uma prévia e a votação consumada. É o mesmo do que confundir o virtual com o real, a estimativa com a constatação.
Tudo isso para dizer que o mea-culpa Datafolha-Folha não foi simples acidente de redação mas o desabamento do sistema de totens numerológicos que a mídia usa para se auto-confirmar como dona tanto da vontade pública como da opinião pública. Quando uma empresa de sondagens associada a uma empresa de jornalismo anuncia que ouviu 1.843 pessoas em 43 cidades do estado de São Paulo e, depois, nas entrelinhas, descobre-se que foram ouvidas 1.092 pessoas na capital e apenas 751 nos demais 42 municípios, percebe-se a grosseira manipulação estatística. Será esta a representação da distribuição demográfica paulista? Se é, porque foi escamoteada?
Quando se sabe que o ideal dos sondadores (ou mesmo pesquisadores) é dirigir perguntas apropriadas para um universo específico de entrevistados – pelo menos é o que diz Roland Cayrol –, fica evidente a leviandade de perguntar a qualquer paulista se é a favor ou contra a privatização do Banespa sem considerar se esta opinião tem alguma validade ou peso, seja quando emitida por um funcionário ou cliente. A exibição de quantidades de respostas sem o contrapeso qualitativo serviria numa votação direta. Aqui funciona a aritmética. Mas a aferição de opiniões para o real entendimento de uma situação pressupõe metodologia mais sutil e menos autoritária onde os atributos (ou perfil) do entrevistado validam a cruzinha que se coloca ao lado da pergunta que se lhe apresenta.
Na verdade atrás desta discussão está outra, muito maior: a febre das sondagens é curiosidade de saber ou cumpulsão de impor?
Aos interessados recomenda-se um texto de Pierre Bourdieu: "A opinião pública não existe" (Temps Modernes, janeiro, 1973)
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