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Questão de método
Cláudio Weber Abramo
Creio que cabem algumas observações puntiformes sobre o artigo "Folha e DataFolha em surto de pesquisite", de Alberto Dines, publicado no Observatório [veja remissão abaixo]. Preocupo-me com o assunto porque se refere a um tema freqüentemente sujeito a mal-entendidos. Não tenho nenhuma observação quanto ao modo como a pesquisa em questão foi apresentada na Folha de S.Paulo, mesmo porque não prestei atenção. Limito-me a observações quanto à amostragem, cuja metodologia Dines ataca. Ele faz três perguntas:
1.
Como é que, com um mesmo universo de entrevistados, pode-se obter uma avaliação confiável sobre quatro questões tão diferentes?
Não há nenhum problema com isso. O procedimento é corriqueiro e tecnicamente inatacável. Para perguntas como as da pesquisa, basta que a amostragem seja significativa em relação à população (ou seja, que pessoas com nível de renda, escolaridade, sexo, idade e demais características usuais estejam representadas na amostra em porcentagens mais ou menos equivalentes às da população geral).
2.
Uma pergunta sobre a privatização do Banespa não implicaria selecionar os entrevistados entre os clientes do banco para saber se estão satisfeitos com os serviços oferecidos?
Essa é uma pergunta de outra natureza, que decerto poderia ser feita, mas não obrigatoriamente – e, como Dines aponta, em amostragem diferente. A privatização do Banespa não é assunto que interesse apenas aos clientes do banco. Na verdade, como clientes do Banespa são, em enorme medida, funcionários públicos, e como a opinião destes é com freqüência encarada com suspeição (não opino aqui sobre se a suspeição é ou não justificada), uma pesquisa feita nessa clientela refletiria necessariamente esse fato. A interpretação dos resultados (procedimento extra-estatístico) ficaria sujeita às chuvas e trovoadas que se pode imaginar.
3.
A previsão sobre a futura gestão da prefeita de São Paulo não deveria ser dirigida aos moradores da cidade? Tiveram este cuidado. E aqui mostrou-se um buraco ainda maior: foram ouvidos 1.092 moradores da cidade. Considerando que o universo total de entrevistados na pesquisa do dia 8/11 foi de 1.843 pessoas e subtraindo-se os 1092 moradores da capital, chega-se à conclusão que nos demais 42 municípios só foram ouvidas 751 pessoas! Média de 17,9 pessoas por cidade!!! Como é que se pode aferir a eleição para governador do Estado ou a privatização de um banco estadual com um universo tão microscópico?
Não há, em princípio, problema com a dimensão da amostra. Uma amostragem pode ser representativa da população de um estado sem sê-lo em cada município isoladamente. E não há problema no fato de a amostra ser significativa para a cidade de São Paulo e não sê-lo em outros municípios. Haveria problema se os resultados da pesquisa fossem "fechados" sobre Barueri, por exemplo, e a sub-amostragem de Barueri não fosse representativa de sua população.
O tamanho da amostra da pesquisa em questão é certamente mais do que suficiente para ser representativa da população do estado de São Paulo (guardado o condicionante dos perfis mencionados acima). Na verdade, uma pesquisa nacional pode ter amostragem dessa ordem.
Muitíssimo ao contrário do que muitas vezes se repete, as pesquisas de opinião são muito confiáveis, e são realizadas com amostragens que, ao exame desavisado, parecem muito pequenas em relação às populações. Ocorre que o poder preditivo dos procedimentos amostrais, guardados os cuidados técnicos usuais, é grande. As melhores ocasiões para ver isso são, exatamente, eleições, porque fornecem uma avaliação direta da precisão das pesquisas no momento da eleição: o voto (é claro que o voto nada diz quanto à precisão da pesquisa um mês antes). Como disse César Maia, no Rio, "uma regressão simples por mínimos quadrados indicava minha vitória". Referia-se ele à tendência de crescimento que as pesquisas indicavam.
O desempenho dos institutos de pesquisas idôneos – como, fora de dúvida, é o caso do DataFolha, do Ibope etc. – tem sido muito bom em eleições. É evidente que erros acontecem, mas isso é raro e sempre claramente assinalado.
De modo geral, creio que há muita desinformação sobre o que são pesquisas e como interpretá-las. Creio também que há questões éticas não muito bem solucionadas. A mais relevante delas me parece a seguinte: institutos de pesquisas não deveriam se ocupar da interpretação política de resultados ou da emissão de opiniões a respeito do que o candidato Fulano deveria fazer em face do resultado de uma pesquisa. Isso é tarefa de conselheiros políticos, jornalistas etc. Não é assunto para institutos de pesquisas. Os institutos deveriam apresentar seus relatórios e tirar o time de campo. Na verdade, não consigo compreender por que, às vezes, representantes de institutos se apresentam publicamente no desempenho desses papéis, uma vez que isso vulnerabiliza sua posição profissional.
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Folha e DataFolha em surto de pesquisite – Alberto Dines
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