O NÚMERO-NOTÍCIA
Um Brasil confinado a São Paulo
Fabiano Golgo, de Praga
A cobertura cerrada que a Folha de S. Paulo e outros periódicos, em menor extensão, estão dando à briga pela audiência entre Gugu e Faustão (cujas diferenças entre si são tão pequenas quanto as entre Republicanos e Democratas do espectro político americano) utiliza a psicose dos números, como sempre.
Mas chega a ser risível, se não triste, que todo esse jogo que envolve esses veículos televisivos de massa se dê em função de números de um tal Ibope, que calcula a sintonia brasileira baseado em obscuros telespectadores dotados de aparelhos de televisão especiais que registram suas preferências, e de uma pesquisa telefônica que segue os tradicionais métodos de classes, etc.
Mas tudo em São Paulo! O que impressiona é a falta de protesto contra essa distorção ingênua do que pretende ser uma amostragem do gosto brasileiro.
Ora, se as diferenças entre paulistas e cariocas vão até o papo de bar, e é significativa a variação de gostos, imagine-se quão maiores são as variações entre estes e os paraenses, ou mato-grossenses. E por aí afora.
Quando a teoria da amostragem se apresentou eficaz, ela considerava a homogenia da cultura americana ou de países pequenos europeus. O Brasil é outra historia. Em nosso país não se podem utilizar os mesmos métodos que foram criados levando em consideração o padrão de comportamento (e gostos) de lugares onde a realidade é outra.
O centro e as margens
A falta de comunicação eficiente em nossa nação-continente permitiu uma panacéia de tendências que podem variar mesmo de uma cidade a outra. Não que se ignorem certos generalismos verdadeiros quanto à personalidade nacional. Mas há muito somos enjaulados pela idéia de que o que o centro contemporâneo oferece é o que as margens consomem com grado.
O que quer que seja produzido nas capitais da mídia será absorvido pela vassalagem cultural do resto do país, mas isto não significa que os números do Ibope paulista são precisos no que respeita ao possível verdadeiro mapa da teleaudiência nacional. O gaúcho pode estar assistindo mais ao global Faustão, por exemplo, nem que seja pela regional personalidade preocupada com o status - que cria preconceito contra a "emissora do Silvio" em vantagem à da festejada monarquia local (motivo de orgulho bairrista) da família Sirotsky (galho quase independente da Globo no estado), e por aí afora.
Ou seja, considerações subjetivas que é impossível aferir por esse arcaico termômetro que se chama Ibope e é centrado no que se considera o centro (redundância proposital, pois deflagra a anomalia do processo) acabam por delinear essa novela protagonizada pelos animadores de auditório.
Ditadura das massas alienadas
A febre dos números contamina a consciência nacional na medida em que determina o que deve ser veiculado.
O que está acontecendo, nessa aplicação tropical do pop (fruto do neoliberalismo vigente - ou o que acreditam seus aplicadores ameríndios que seja o neoliberalismo), é a asfixia das empreitadas que poderiam atingir a um publico sedento e não-atendido que pende para uma estética e conteúdo mais trabalhados que os do Tchan e outras cretinices.
O Ibope paulista revela o gosto de uma população em busca de entretenimento fácil para o pós-enfrentamento da selva de pedra alienante (via trabalho e outras difíceis tarefas não remuneradas de acordo). Não serve para a vida tranqüila de uma cidadezinha do Espirito Santo ou para uma região alemã do interior de Santa Catarina.
Pode-se argumentar que a TV atual só se preocupa com a classe emergente, consumidora de margarina e iogurte, mas se esquece que o indivíduo que pode comprar o carro ou o último televisor, o computador, ou mesmo aqueles materiais de limpeza ou embelezamento mais supérfluos, não está sendo atendido com programas de seu interesse, submetido à ditadura das massas alienadas. E’ por isso que o Jornal Nacional perdeu audiência, é por isso que cada vez mais se prefere um barzinho à noite em vez do televisor. Por mais que esta nova situação seja favorável, do ponto-de-vista da diversificação saudável que provoca, ainda assim se tem uma anomalia burra como causadora.
É pura preguiça brasileira de se esboçar uma pesquisa mais ampla, que reflita os regionalismos (ou paraenses não compram iogurte?) e estabeleça os preços dos anúncios de acordo. É por causa dessa ditadura do Ibope que muitos programas que atenderiam a uma faixa de público não atingida pelos pesquisadores paulistas (e, em menor freqüência, cariocas) deixam de ser criados.
Da arte de interpretar pesquisas
Mauro Malin
Em seminário promovido no Rio em 28/11/97 pela Fundação Konrad Adenauer, do Partido Democrata-Cristão alemão, a gerente do Ibope de São Paulo, Márcia Cavallari Nunes, deu uma informação preciosa e fez uma rememoração esclarecedora.
1) A informação: bancos e outras empresas compram pesquisas em períodos eleitorais para determinados candidatos. Ou seja: não sem trata nem dos partidos, nem de veículos de comunicação, mas de entes privados. Essa espécie de agrado interesseiro escapa aos ditames da legislação eleitoral - qualquer pessoa tem direito de encomendar pesquisas -, mas não deixa de produzir efeitos políticos (junto às mais altas esferas dos grupos em competição), além de funcionar como financiamento indireto de campanha.
2) O comentário, um entre centenas que a experiente Márcia Cavallari poderia fazer sobre a maneira como os números das pesquisas são trabalhados pela imprensa (só na campanha de 1989, o Ibope realizou e divulgou 31 pesquisas nacionais): às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial de 1989, a Folha de S. Paulo deu em manchete algo assim: "Pesquisa põe Lula no segundo turno contra Collor".
Acontece, lembrou Márcia, que a diferença entre Lula e Brizola era de 1%, absolutamente dentro da chamada margem de erro. Dar a dianteira a Lula foi uma "interpretação". Era impossível garantir, com base em pesquisas, quem enfrentaria Collor no segundo turno (a diferença a favor de Lula foi de 0,63 ponto percentual, cerca de 500 mil votos).
Mas a Folha (redação e patrão, com motivações antagônicas, claro) preferia Lula como candidato contra Collor. Sem que entremos aqui no mérito do que seria "melhor para o país": Lula, Brizola ou Collor.
Já o Jornal do Brasil, naquele mesmo dia, depois de ouvir Homero Icaza Sanchez - simpático ao pedetista e contemplando o panorama de sua casa no bairro carioca do Jardim Botânico - , deu o contrário: "Brizola enfrenta Collor no segundo turno".
Tudo chute. Mas chutes em direções diferentes, com conseqüências políticas diferentes.
Chutes miríficos. Nessa época, o IBGE projetava uma população que o Brasil só foi ter anos depois. Todos os, com perdão da palavra, parâmetros usados pelos institutos de pesquisa estavam errados.
O porto de Belo Horizonte
M.M.
Lá onde batem os tamborins e ronca a cuíca, os impulsos que regem o voto (y otras cosas más) não são tão "racionais". Quer dizer: a maioria que decide eleições não segue a racionalidade dos institutos de pesquisa. Como os beques russos concebidos por Feola para Garrincha.
Às vezes, o quadro é gaiato. Cacareco, Feijão. Às vezes, patético. Celso Russomano. Às vezes, sombrio. Enéas. Mas é sempre realidade. Como toda boa realidade, tragicômica. Fiquemos aqui com o bom humor.
Vinheta "Tô maluco", Jovem Pan FM, dia desses de novembro.
- A senhora sabia que o governo de Minas Gerais proibiu a atracação de navios estrangeiros em Belo Horizonte?
- Sabia. Eu vi na televisão.
- Onde?
- Na Globo.
- Globo Rural?
- Isso mesmo.