07/05/2003 5/5

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MUNDO COCA-COLIZADO
O nome do nosso Deus

Leandro Marshall (*)

A globalização de costumes, idéias, hábitos e conceitos é um fenômeno tão palpável e concreto quanto o fato de que 1 bilhão de pessoas falam inglês e bebem Coca-Cola todos os dias no planeta. Existem até várias vertentes diferentes usadas pelos teóricos quando se quer falar neste novo acontecimento. Internacionalização, universalização, shoppinização, ocidentalização ou coca-colização são variações usadas para falar do mesmo tema. Não há divergência para o fato de que o globo virou uma quitinete global, e as semelhanças entre os povos são mais do que mera coincidência. Tudo bem. Agora, tratar o fenômeno da globalização com ingenuidade e puritanismo é pagar caro por um cavalo de Tróia.

Para os desavisados, o fenômeno pode até transparecer que finalmente aconteceu a vitória da vontade humana de que todos os povos vivam juntos em fraternidade. As guerras acabaram e a paz é universal, considerando que afinal de contas fica difícil fazer guerra quando existe uma impossibilidade técnica: não existem inimigos. Quem pensa assim, pensa pela metade. A coisa é bem mais profunda.

Mais do que um simples fenômeno de comunhão universal dos povos, a globalização revela-se como um intrincado processo de aproximação e unificação de gostos, hábitos, comportamentos, idéias, tecnologias, sistemas sociais, legislações, opiniões, éticas, estéticas, com efeitos diretos sobre todos os acontecimentos sociais, econômicos, políticos e culturais da humanidade. Esta nova era representa a soberania hegemônica de um único sistema econômico, o capitalismo, com distribuição de benefícios e prejuízos para toda a sociedade civil mundial.

Este novo processo civilizatório mudou os conceitos de espaço e de tempo e embaralhou as relações sociais entre os homens. Embora, estas observações em si não digam tudo. O fenômeno ataca a sociedade por todos os lados. "Na maioria das vezes, ele aparece associado a processos que se desenvolvem na economia como a circulação ou a integração produtiva em escala mundial. Há quem o utilize para descrever fenômenos que vêm ocorrendo em outras esferas da vida social como a criação, expansão e o fortalecimento de instituições supranacionais, a universalização de padrões culturais e o equacionamento de questões que dizem respeito ao planeta na sua totalidade". (Muçouçah, 1995)

É consenso no meio acadêmico que a nova era da globalização é resultado direto da vitória mundial do sistema econômico capitalista, um sistema que se revelou ao longo deste século como um moderno e eficiente instrumento neocolonialista.

Lênin já dizia no distante ano de 1916, na sua obra Imperialismo, etapa superior do capitalismo, que "o capitalismo se transformou num sistema universal de opressão colonial e de asfixia financeira da imensa maioria da população do globo por um punhado de países ‘avançados’. E a partilha deste ‘saque’ faz-se entre duas a três aves de rapina, com importância mundial, armadas até os dentes, que arrastam consigo toda a terra na sua guerra pela partilha de seu saque". (Lênin, 1916)

Portanto, dentro desta lógica, a derrocada das nações socialistas foi mais uma conseqüência da ação corrosiva e imperialista do neoliberalismo, em sua marcha globalizante, do que devido às fraquezas do sistema de governo e de economia daqueles povos. Esta onda liberalista que inundou os cinco continentes foi mais forte e conseguiu ter uma ação mais virulenta do que a própria contribuição para a globalização feita pelos meios de comunicação de massa.

Um subfenômeno

Falar de globalização é considerar em primeiro lugar que existe atualmente uma delicada concentração de renda e poder nas mãos de poucas pessoas na humanidade. As 385 pessoas mais ricas do mundo têm patrimônio maior que a renda anual das pessoas que compõem 45% da população da terra (2,5 bilhões de pessoas). "Dos US$ 23 trilhões anuais do PIB mundial, US$ 18 trilhões cabem aos países industrializados, e só US$ 5 trilhões aos países em desenvolvimento, onde estão 80% da população. Nos últimos 20 anos, a renda dos 20% mais pobres da humanidade caiu de 2,3% do total para 1,4%. Já a renda dos 20% mais ricos subiu de 70% para 85%". (Novaes, 1996)

O que dizer da globalização quando vemos que apenas cinco empresas, as cinco maiores dos EUA, têm faturamento anual igual a todo o PIB do Brasil? E que as 10 maiores empresas do mundo têm faturamento anual igual ao PIB somado de Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e Venezuela? "O sistema econômico mundial estará acentuando, nesta virada do século, as tendências de globalização já claramente visíveis na organização produtiva mundial. Um pequeno grupo de corporações mundiais estará decidindo em pouco tempo o que, como, quando, quanto e onde produzir os bens e serviços utilizados pelos seres humanos" (Dupas, 1996).

A Coca-Cola fatura US$ 16 bilhões por ano, e em 1994 foi a corporação que mais adicionou valor ao seu negócio: US$ 60 bilhões.

Um jornal norte-americano perguntou a seus leitores em março deste ano se por acaso a economia dos EUA não estará caindo na mão de poucos donos, haja vista que "há só um fabricante de aviões, apenas três fornecedores de armamentos, cinco ferrovias, poucos bancos, empresas de telefonia, companhias de seguro, hospitais. Fusões e aquisições chegaram ao recorde de US$ 659 bilhões. O Banc One comprou o First USA por US$ 7 bilhões. A Boeing comprou a McDonell Douglas por US$ 14 bilhões. A British Telecom comprou a American MCI por US$ 20 bilhões. Desde 1990, o número de bancos comerciais foi reduzido em 25%. A próxima fusão da Conrail com a CSW ou com a Norfolk reduzirá o ramo ferroviário a quatro empresas. No setor de saúde, a fusão da Columbia HCA com a Value Health certamente aumentará os preços dos serviços". (Lodi, 1997)

Este subfenômeno da globalização, a concentração de poder e dinheiro, ataca também a área da mídia mundial. No Brasil, apenas 9 grupos familiares controlam 90% da informação. Na Europa, 14 grupos têm o comando do mercado de informação. Nos EUA, apenas 23 grupos dirigem a comunicação.

A mesma palavra

O Instituto Europeu da Comunicação, sediado na Grã-Bretanha, estima que nos próximos anos a informação na Europa estará nas mãos de sete ou oito grandes grupos de comunicação. Ben Bagdikian afirma em seu livro O monopólio da mídia, lançado em 1984, que em dez anos existirão apenas dez corporações globais de comunicação. "Se deixarem, apenas três cidadãos cujas iniciais coincidem, os RM, tomam conta dos meios de comunicação no planeta: Rupert Murdoch, Robert Maxwell e Roberto Marinho". (Túlio Costa, 1991)

"O empresário australiano Rupert Murdoch tornou-se um dos 2 controladores da TV a cabo nos EUA quando sua empresa, a News Corporation, comprou 80% da New World, resultando em 22 canais e 40% dos lares norte-americanos. Os outros 40% são controlados pela Time Warner Turner, incluindo a CNN e a HBO. A Capital Cities/ABC fundiu-se com a Disney, juntando produção e distribuição. A CBS comprou a mexicana Telenotícias. A Silver King e a Home Shopping Network também se fundiram. A rede NBC fez joint venture com a Microsoft. A Rede Globo entrou na aliança com News Corp, Televisa e TCI, formando a Sky Latin America, com 120 mil assinantes até o fim de 1997. O Grupo Abril, por meio da TVA, entrou na DirecTV, controlada pela Hughes Communications, e tem como outros sócios o grupo Cisneros, da Venezuela, e a Multivision." (Lodi, 1997)

As verdades sobre a globalização ficam mais ásperas quando vemos que apenas quatro agências de notícias controlam 96% de todo o fluxo noticioso do mundo. Somente 17 países do mundo têm um PIB maior do que os gastos de publicidade dos EUA. Noventa e cinco por cento dos computadores do mundo se encontram nos países desenvolvidos. E, os leitores do Washington Post consomem a cada domingo mais papel do que um africano no período de um ano.

Esta é a globalização que falta enxergar. Uma globalização que coloca a humanidade numa via de mão única e de onde não se pode mais voltar. Onde mora o fim da história, de Francis Fukuyama, e a realidade virtual de Blade Runner. A coca-colização do mundo e o pensamento único universal.

Como o poema de Mário Quintana, que dizia: "Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe – quem é que não viu? – aquele cartaz. De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio – até que um dia tenham os seus próprios arqueólogos – estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus."

(*) Doutorando em Comunicação pela PUC-RS, professor da UEPG, Paraná

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