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PORTUGUÊS DE MENAS
A novilíngua do jornalismo pós-moderno

Marinilda Carvalho

Enquanto os lingüistas se batem contra ou a favor do português livre como um passarinho, uma única coisa preocupa os usuários mortais: a língua que estamos realmente escrevendo no jornal ou falando na TV. De uns cinco, seis anos para cá, assistimos na mídia a uma carnificina do português, que contamina cartas dos leitores, artigos de opinião e, o que é pior – por alimentar o círculo vicioso –, focas do jornalismo.

Alguns exemplos, colecionados ao longo das últimas semanas:

** Especialistas/entendidos/estudiosos. O que é isso? Não basta uma palavra? Pois imitando os textos dos executivos (ai, que modelo...), seja de americanos ou de brasileiros colonizados, jornalista deu para escrever sinônimos entre barras. É um tal de "torcedores/fãs/amantes do esporte", "defensores/amigos/admiradores do Sol" que só se pode concluir/deduzir/inferir que o sinônimo acabou/terminou/morreu.

** O mesmo. Os muitos empregos de mesmo, seja o adjetivo ("As palavras seriam as mesmas da comédia; a ilha é que era outra", Machado de Assis, Quincas Borba, pág. 156), seja o substantivo ("Mandar-vos comprar vossa soltura a custo de tão leve risco, quase que é o mesmo que perdoar-vos", Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas, I, pág. 392) eram sempre nobres no jornalismo – à altura destes dois exemplos tirados do Aurélio.

O uso da palavra como substituto de pronome ou artigo era privativo de secretárias, advogados e executivos de imaginação pouca, que precisavam apenas daquele textinho burocrático, sem alcance maior, para executar sua missão na Terra. Pois "o mesmo" agora está nos jornais e na TV. O mau gosto chegou a tal ponto que a versão 3.0 do Aurélio Eletrônico registra uma inédita recomendação:

[Parece conveniente evitar o emprego de o mesmo com outra significação que não essa, ou seja, como equiv. do pron. ele, ou o, etc.: Vi ontem F. e falei com o mesmo a respeito do seu caso; Velho amigo desse rapaz, já tirei o mesmo de sérios embaraços. No primeiro exemplo se dirá, mais apropriadamente, falei com ele, ou falei-lhe (por "falei com o mesmo"), e no segundo, já o tirei (em vez de "já tirei o mesmo"). É tão freqüente esse uso, pelo menos deselegante, de o mesmo, que podemos observá-lo num mestre como Camilo Castelo Branco (Cenas da Foz, p. 30): "A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera bastante influência no quartel-general de Lord Wellington, e jogara, por causa de um ajudante-de-ordens do mesmo, o sopapo com uma viscondessa celebrada." Seria melhor, sem dúvida, por causa de um seu ajudante-de-ordens (sem perigo, a nosso ver, de ambigüidade), ou por causa do ajudante-de-ordens deste.]

"Pelo menos deselegante." É preciso dizer mais alguma coisa?

** 1,2 mil. Como ler isso? O que é 1,2 mil? Qual o problema com 1.200? Invenção da Folha, alastrou-se como praga por jornais e revistas do país, mesmo os mais cuidadosos com a língua, maltratando o perplexo leitor. Culpa de quem? Provavelmente das primeiras concessões em títulos, até necessárias porque economizavam os muitos zeros: 1,2 bilhão cabia na manchete. Daí passamos a 1,2 bi, 1,2 mi (para milhão) e 1,2 mil... Que não tem razão alguma de ser, já que exige dois caracteres a mais do que 1.200!

** Enviar para. Ninguém mais envia alguma coisa a alguém, mas para alguém. Praga que se estende a outros verbos: dar para o pobre, em vez de dar ao pobre; pedir para ele, em vez de pedir a ele. Deve ser resultado da má qualidade da escola, que não ensina mais ao aluno regência de verbo. Como parece que repórteres e redatores atuais não sabem mais conjugar verbos, combinar e o que dirá contrair preposição e artigo, acabamos no para. No caso específico, enviar para não existe. A única forma correta é enviar a. Ajuda muito a postura colonizada dos "novijornalistas": como os bons e velhos tradutores estão saindo de cena nas redações, traduz-se o verbo inglês "send to" como "enviar para".

** Existe. Da mesma forma, nada mais , só existe. Como não sabem conjugar o verbo haver, os novijornalistas usam existir. Se tomam coragem, tascam houveram em casos como "não houve demissões". "Mas como? Demissões é plural!", argumentam, céticos. Espanto! Então, para não pensar, usam a praga do existir. Há redações inteiras em que nem uma única pessoa sabe que "houveram demissões" é errado.

** TV's, DVD's, ONG’s, CD's. Nem é necessário comentar que essa praga vem do inglês, certo? Pois ela aparece, cada vez com maior freqüência, nos textos da nossa imprensa. Na internet e nos folhetos (em português!) das multinacionais são a coisa mais comum. Será que os lingüistas da liberdade acham que devemos incorporar isso também?

** Onde. "Uma época onde", "uma novidade onde"; "Muitas cores, onde a variedade...", "Uma revolução de arquivos, onde"... E por aí vai, dia após dia, na TV, na imprensa. Desconhecem que o uso de onde se aplica apenas a lugar: "Vim da redação, onde vi um bando de analfabetos". Mais uma praga do mau inglês: os ignorantes daqui reproduzem as mancadas dos ignorantes de lá.

** Comentar sobre. Não se comenta sobre. Comenta-se a festa ou o evento. Qual será a origem desta nova praga? O Aurélio diz, numa das acepções de comentar:

Falar sobre; conversar acerca de: Todos comentavam o desastre; "Elisiário entrou a comentar a bela obra anônima" (Machado de Assis, Páginas Recolhidas, p. 33).

Falar sobre, portanto, tudo bem. Mas comentar sobre não existe!

** Irá escrever. Escreverá ou vai escrever, como pede a nossa língua, nem pensar. Tem que usar o colonizado "will" do inglês.

** Cujo o. Ignorância levada às últimas conseqüências, é cada vez mais comum nos textos jornalísticos. Alguns argumentam que cujo ficou "arcaico", e preferem "de que", "do qual". Besteira, não sabem é usar este belo e preciso pronome relativo, que economiza palavras.

** Dentro de. Não se usa mais em, no. Só se vê "dentro do partido", "dentro na escola", "dentro da empresa". Vem de onde? De lá: "Inside the company..."

** sol, lua, terra. Assim mesmo, em minúsculas. Embora devam ser grafados com inicial maiúscula, se usados na acepção de corpos celestes que têm seus nomes próprios, aparecem sempre desse jeito na imprensa.

** Segunda-feira, Terça-Feira, Agosto, Setembro. Assim mesmo, em maiúsculas. Só porque dias da semana e meses do ano são grafados desse jeito em inglês. Nossos colonizados executivos e secretárias determinam essa grafia, e o rebanho obediente vai atrás.

** Folha de São Paulo, Estado de São Paulo. É o que mais se vê na imprensa. Até em texto de jornalista veterano. Quem escreve assim nunca sequer olhou para o logotipo dos dois jornais, nos quais se lê: Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo. Com o "S" assim mesmo, colado no ponto. Parece bobagem, porque não é uma questão de respeito à língua. Mas é desrespeito ao que está diante de nossos olhos.

Algumas pérolas recentes

** Ele fez a ação. É como subir para cima ou descer para baixo. (Em cima da hora, Globo News)

** Apanhou muito de carcerários. A apresentadora mirava os carcereiros, mas acertou nossa rica língua que, claro, caiu fulminada: prevê apenas "população carcerária", "sistema carcerário", "equipamentos carcerários", nada além. (Em cima da hora, Globo News)

** Local onde ele foi deslocado. Além de atingir nosso vocabulário, por não descobrir variações para as palavras local e deslocado, essa agressão põe onde no lugar de para o qual. (Em cima da hora, Globo News)

** Acha possível então encontrarmos formas de vida lá embaixo? O repórter queria saber de um técnico se no fundo das águas de um rio amazônico inexplorado haveria vestígios da presença de tribos antigas. (Globo Repórter, TV Globo)

** A Venezuela será o único país que o Brasil ganhou. O Brasil ganhou a Venezuela? Ou a Venezuela será o único país de que o Brasil ganhou? (TV Globo, colaboração do leitor Jhebal G.Lino)

** Vão ter dois candidatos do governo, é isso? O certo, claro, é vai ter. "Ué, mas dois candidatos não é plural???" Espanto! (TV Globo, idem)

** Existem momentos que nós precisamos de mais uma oportunidade. O locutor, ignorante, não tem condição de consertar o péssimo texto do ignorante redator. (Chamada do Warner Channel)

** Por se tratar de um meio que convivo diariamente e tenho muito amor. Nunca ouviu falar de no qual e pelo qual. (Texto de um jornalista)

** O jogo que reuniu os dois jogadores melhores ranqueados entre os participantes (...) O autor não põe vírgulas separando o aposto, emprega melhores no lugar de mais bem – também nunca ouviu falar da regra – e usa sem-cerimônia um verbo não incluído em dicionário. Tudo bem, a língua é viva! (Folha Online)

** Vamos mostrar o que acontece por trás dos bastidores de Harry Potter e a pedra filosofal. O que mais pode haver por trás dos bastidores do filme? Só os esgotos e a "casa dos artistas"... (Canal USA)

** "Quando toda a honra e a dignidade de uma nação repousa em chuteiras, meus amigos, melhor estar onde repousa o Saldanha..." Será que concordância também é questão de liberdade da língua? (Jornal do Brasil)

Romildo Guerrante, na edição nº 13 do site Nave da Palavra, de 15/10/99 <www.navedapalavra.com.br/cronicas/novilingua.htm>, fala da "novilíngua" das secretárias ("Ele não se encontra" e "Quem gostaria?") e de seus chefes:

"Os economistas pegaram a palavra ‘apoio’ e a substituíram por ‘suporte’, que eu tenho lá em casa para não deixar a estante cair. Trouxeram diretamente do inglês, sem a menor preocupação com a existência de uma palavra apropriada na língua-mãe."

Para quem já ouviu Malan falar na TV, esse trecho não surpreende. Guerrante continua:

"Eu já estava até suportando essa palavra quando li num texto que me enviaram para revisão: ‘...as ações serão suportadas...’. Não dá! De algum tempo para cá venho notando uma substituição eufemística de algumas palavras por outras supostamente mais sofisticadas. Morrer tornou-se falecer, ter virou possuir, parentes foi substituída por familiares, aliás foi trocada por inclusive, vender foi vencida por comercializar, definir ocupou o lugar de decidir, pôr virou colocar (exceto para o Sol que se põe e para as galinhas poedeiras, felizmente). Todas foram mudanças impróprias. Mas estão aí, impulsionadas pela mídia."

Não falta apenas conhecimento da língua, mas cultura, e da mais simples. Para ilustrar: a TV exibiu no outro dia um costureiro explicando com muitas palavras e muitos gestos, como se fosse algo novo, difícil de entender, o que é o corte enviesado. Ignorava completamente, e a repórter idem, pois não interferiu, a velhíssima palavra evasé, de origem francesa e usadíssima nos anos 60 e 70. Imaginem a dificuldade para explicar isso sem recorrer a "corte enviesado" ou "evasé"! Se um repórter não consegue contextualizar o evasé, o que dizer de todos os fenômenos filosóficos, sociológicos, políticos e econômicos de nossa complexa sociedade?

A atual geração de jornalistas é diplomada, mestrada, doutorada, preparada, fala línguas, domina a tecnologia, tem tudo para trabalhar direito. O que falta então? Os especialistas podem pesquisar, virar o problema do avesso, mas não adianta: o que falta é leitura. A maioria dos jovens jornalistas nasceu ontem, e acha que seu ontem é o passado mais remoto que existe.

O ponto de esgarçamento

De quem é a culpa concreta dessa catástrofe? Primeiro, da família. Pais e mães não lêem mais, e a criança, que segue exemplos, não lê também. Segundo, da escola, de todos os níveis, cujos professores, humilhados e desmotivados, mal se sustentam em pé diante da classe. Terceiro, do governo, que nada faz para devolver à escola aquele eterno fazer febril que, nos anos 50 e 60, estava nos transformando em nação. Quarto, da população, especialmente a classe média, que determina o padrão dos serviços: trocou a escola pública pela particular (fez o mesmo com saúde e segurança), caiu na teia do lucro capitalista e vive uma angustiante busca de uma escola melhor, que é sempre mais cara, mais fria. Quinto, da TV, que brutaliza, inibe a imaginação e a fantasia que só o livro é capaz de adubar.

Sexto, da imprensa. Todos os jornais são culpados, porque expulsam cada vez mais das redações a figura do redator – não há mais quem mostre ao jovem repórter os erros de seu texto. Os editores mal têm tempo de baixar suas páginas na hora, quanto mais pôr um repórter do lado para falar de matéria. E são culpados especialmente alguns jornais. No tempo em que o Correio da Manhã e depois o Jornal do Brasil eram os jornais-modelo, o texto jornalístico era primoroso. Bem, pode-se dizer o mesmo da família, da escola, da classe média, do governo...

Hoje, os manuais de redação é que orientam a juventude. São até razoáveis: tentam ensinar as regras básicas da língua, condenam os clichês, mostram o caminho da escrita clara e eficiente. Tirando o da Folha. O manual de redação da Folha produziu uma regra desastrosa, mais ou menos assim: cada parágrafo deve ter no máximo três linhas, contendo no máximo duas sentenças, com no máximo dois conceitos. Por considerar o leitor burro, o manual da Folha emburreceu seus repórteres. E, como atualmente os jovens jornalistas do país têm na Folha seu jornal-modelo, todo mundo emburreceu junto. Hoje a Folha nem é assim tão rígida, mas o mal está feito.

Os defensores da mobilidade do português precisam estabelecer pelo menos um limite para o esgarçamento da língua, não importa se a popular ou a culta – as duas caminham juntas. Lembro que nos anos 70 uma novela da Globo causou furor nos jornais e nas conversas de rua porque o ator Tarcísio Meira disse num diálogo "entre eu e você", e não "entre mim e você"! Hoje, os erros cometidos nos telejornais são muitíssimo mais graves. Até que ponto podemos chegar? É bom saber, porque se formos muito longe pode não haver mais língua alguma.


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