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JORNAL DE DEBATES CPI, MAR DE LAMA Alberto Dines As impressionantes conclusões da CPI do Senado sobre o futebol e a sua repercussão na imprensa suscitam, de imediato, duas questões: ** Os escândalos se relacionam com o mau desempenho do nosso futebol, sobretudo na fase eliminatória da Copa do Mundo? ** Os jornalistas devem se preocupar exclusivamente com o jogo e os jogadores? Se você responder "sim" à primeira pergunta estará obviamente respondendo "não" à segunda. E se escolher "não" para a proposição inicial estará não apenas obrigado a responder "não" á segunda, como também propondo um status diferenciado para o jornalismo esportivo se comparado com os outros setores ou especialidades. Isso é o mais grave. Se não, vejamos: A editoria de Cidade deve preocupar-se apenas com os buracos das ruas, o lixo nas sarjetas, a água, os esgotos e o barulho das discotecas? Os jornalistas da área local devem funcionar apenas como olheiros, meros registradores de fatos, ou devem investigar a origem das mazelas que constataram? O que se passa nos bastidores da administração municipal, nos gabinetes de seus executivos ou mesmo nas sessões do legislativo não teriam ligação direta e causal com o estado das ruas e dos serviços urbanos? A editoria de Política deve limitar-se à cobertura das ações dos ministérios políticos, do legislativo e dos partidos, ou deve informar os leitores sobre o que se passa além das sessões ou reuniões – conversações, acertos e desacertos, negociações e negociatas? E a editoria de Economia & Negócios, deve apenas ater-se aos movimentos das bolsas, aos resultados das empresas, às tendências do mercado, ou deve ir mais fundo, revelando o que está por trás das cotações, os jogos de interesses, as jogadas e as parcerias? Para este observador é óbvio que o esporte – e sobretudo o esporte-rei, o futebol – não pode ser coberto apenas na sua manifestação pública e ostensiva, a competição. Primeiro porque no Brasil qualquer cidadão com mais de 16 anos, além de eleitor, é também abalizado técnico de futebol. Em segundo lugar entre nós o acesso à informação esportiva – jogos, treinos, contusões, tratamentos e fofocas – é formidável. Seja em matéria de intensidade, veemência, multiplicidade e universalidade. A informação esportiva no Brasil é absolutamente democrática. Sem distinção de segmentos socioeconômicos ou localização geográfica, da classe A à classe E, todos sabem de tudo o que rola no futebol. Só não se sabia que atrás dos placares e dos fatos havia poderosos artefatos – colossais arranjos e mamatas envolvendo cartolas locais, nacionais e internacionais, justiça desportiva, técnicos, atletas, empresas de marketing e, inclusive, redes de TV. Desconhecimento puro e simples, ou descaso, o que é muito pior. A verdade é que, dentro dos paradigmas e procedimentos usuais da nossa mídia, o jornalismo esportivo deveria estar atrelado unicamente às paixões dos leitores: a bola rolando no relvado (como se diz em Portugal). A "política" sempre foi considerada secundária. Chata. Não "vendia". Cansava o público porque não tinha bola na rede (que é o que interessa, dizem os experts). Quando a revista Placar, da Editora Abril, no início dos anos 80, começou a fustigar o oficialismo desportivo e os escândalos da loteca, grande parte da mídia ignorou. Já estávamos começando a submergir na Era do Mercado, aquilo era coisa de radicais, desforra política contra o regime militar. Vinte anos depois, a CPI do Futebol escancara este imenso lodaçal. Nos porões das entidades, embaixo da grama, atrás dos placares. O vexame em Paris, em 1998, funcionou como uma espécie de catarse.Enquanto nosso futebol brilhou no exterior admitia-se tudo: os deuses – e seus mentores – eram intocáveis. Com a fragorosa queda dos ídolos, deu-se o estalo, não do padre Vieira, mas da mídia esportiva. A vergonha mexeu com os ânimos. Estava ai o gancho para as duas CPIs, da Câmara e do Senado. O que nos remete à questão inicial: se o jornalista se ocupar apenas com o que se passa no gramado jamais poderá explicar aos leitores os segredos da relação causa-efeito. Estará fazendo um jornalismo pela metade. Se a moda pega em outras editorias, nossa imprensa está ameaçada nos seus fundamentos. A bola, no seu curso em direção à rede, é comandada pela força do chute, o ângulo do toque, a direção do vento. Quando a grama vira lama, ela não sai do lugar. [Estas observações não poderiam se encerrar sem uma confissão pessoal. A última vez que este Observador esteve num estádio para assistir futebol ao vivo foi há quase duas décadas, durante a campanha do Brasil na Copa da Espanha (1982). Sua "militância" também não o credencia: é um dos cinco sobreviventes da galera do outrora bravo América Futebol Clube (Rio). Mas aqui não estamos discutindo futebol, e sim, jornalismo – imprensa, credibilidade, busca da verdade.] | ||