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CELEBRIDADE
Em cartaz, a mídia. Sem críticas
Alberto Dines
O jornalismo é um dos primeiros e mais constantes personagens do cinema. The Power of the Press (O poder da imprensa), de 1909, com direção de Van Dyke Brook, é o pioneiro de cerca de 500 títulos sobre o mesmo assunto nestes quase 100 anos da história cinematográfica. O mesmo título serviu a dois outros filmes: um de 1914, com Lyonel Barrymore (produção da Biograph) e outro de 1928, dirigido por Frank Capra [Jornalismo e Cinema, suplemento especial Expresso/Cinemateca Portuguesa, Lisboa, janeiro-fevereiro de 1993].
O romantismo em torno da profissão de repórter, a trepidação das redações, a luta para revelar a verdade, as mistificações do sensacionalismo, a disputa pelo poder e o cerco para calar a imprensa são ingredientes com alto teor dramático que passaram do cinema para a sua herdeira, a televisão.
Com isso, o cinema assumiu-se como a primeira mídia a exercer a crítica da mídia. Produziu alguns clássicos da cinematografia que foram simultaneamente corajosas denúncias contra os abusos da imprensa. Serviu-se da imprensa e serviu à imprensa. Cidadão Kane (de Orson Welles), Montanha dos Sete Abutres (Billy Wilder) e O Quarto Poder (Milos Forman) são exemplos colhidos a esmo de uma rica filmografia que é, ao mesmo tempo, fabuloso antídoto contra o mau jornalismo.
Parte desta façanha deve-se ao fato de que até o final do século passado a indústria cinematográfica mantinha certa distância da indústria da mídia. Embora o mesmo Orson Welles tenha pago um altíssimo preço por retratar de forma implacável um barão da mídia inspirado na figura de William Randolph Hearst, os dois setores mantinham uma salutar distância e autonomia.
Com a formação dos gigantescos conglomerados multimídia, o cinema perdeu o seu distanciamento crítico. Entrou no pacote dos criticados. A Time Warner ou a Fox, hoje, dificilmente se deixariam seduzir por um filme como O Informante (The Insider, de Michael Mann, produção da Touchstone), embora o glamour do jornalismo e alguns dos seus aspectos exteriores continuem fornecendo personagens, cenários ou enredos para comédias, sitcoms, policiais ou suspense.
A crítica à imprensa – como instituição – está em vias de ficar relegada às produtoras independentes. À "indústria" ficarão reservadas as sobras e subprodutos: dramas humanos, conflitos de personalidade, jornalistas em situações especiais, a condição humana numa redação etc.
É o caso de Celebridade, a nova superprodução da TV Globo, estreada nesta semana. Não é a primeira telenovela ou seriado da Vênus Platinada que roça no assunto. Mas é certamente a que mais se aproximou do universo midiático: o vilão é um jornalista sem escrúpulos, um dos seus ambientes é a revista Fama e um dos seus vetores dramáticos é a fabricação de celebridades. Mas a imprensa não está em questão, é pano de fundo. O mesmo conflito e a mesma dinâmica poderiam ser transportados incólumes para a indústria da moda, a indústria fonográfica, a política, o narcotráfico ou até a vida acadêmica.
No espetacular lançamento não se menciona se o autor Gilberto Braga (que foi jornalista) serviu-se do episódio do repórter fraudador Jayson Blair, do New York Times, para criar o personagem vivido pelo ator Fábio Assunção. Mesmo que tenha sido, jamais o saberemos.
Mas a crise da mídia está aí – palpável, audível, visível. Concreta. Não a crise econômica ou a crise política, mas a crise de credibilidade. Resta saber o quanto dela conseguirá aflorar nos próximos seis meses na Novela das Oito exibida às nove, cardápio dos sonhos curtidos por este país afora depois da meia-noite.
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