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JORNAL DE DEBATES
ROBERTO MARINHO (1904-2003) Claudio Julio Tognolli (*) O bruxo da Calle Maipú já notava que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Portanto o que se segue estará direcionado, judiciosamente, aos que sofrem da Em 1914, Henry Ford criou o Departamento Sociológico na fábrica de motores da Ford. Mesmo assim, nota Christopher Lasch, ele considerava a supervisão da vida privada dos operários meramente como um meio de fazer deles homens sóbrios, seres produtores "diligentes e parcimoniosos". Anos levaram os mesmos empregadores para notar que não era boa coisa ter em seus peões figuras refratárias ao álcool, ao tabaco e "contra a dissipação". O mesmo Lasch nos deu sempre os mapas desse construto: tornar o peonato produtor, ele também, uma peça fundamental no consumo. A posse é subordinada à aparência. Como diria Neném Prancha, "quem pede, recebe; quem se desloca, tem preferência": a movimentação, portanto o espetáculo, substitui a essência. Criamos uma série de repórteres O mesmo Lasch já nos dera as pistas, ainda nos anos 1980, de que o futuro da publicidade não seria apenas vender necessidades não necessárias, mas criar a figura do consumidor perpetuamente insatisfeito, intranqüilo, ansioso e entediado. Ou, como escreveu ele: "A publicidade defende o consumo como a resposta aos antigos dissabores da solidão, da doença, da fadiga, da insatisfação sexual; ao mesmo tempo, cria novas formas de descontentamento peculiares à era moderna. Joga sedutoramente com o mal-estar da civilização industrial. O consumo promete preencher o doloroso vazio; em conseqüência, a tentativa de cercar as mercadorias de uma aura de romance; com alusões a lugares exóticos e a vívidas experiências". Por que falar tanto em Lasch? Porque ele foi o primeiro a apontar, num livro que trata de tudo menos de jornalismo, que na propaganda – como na publicidade, como na mídia – a Para Lasch, um público educado deseja fatos e não alimenta senão a ilusão de ser bem informado, por isso "o moderno propagandista evita usar slogans retumbantes; raras vezes apela para um destino mais elevado; poucas vezes apela para o heroísmo e o sacrifício, ou faz lembrar à sua audiência o passado glorioso. Ele se atém aos fatos. A propaganda funde-se, assim, à informação". No cravo, na ferradura Tratando-se do ethos da Globo, tais interpretações ganham alguma força adicional. Já é tido e havido com um clichê global conferir à notícia ares de espetáculo (nas já repassadas teorias de Pierre Bourdieu e Guy Debord). Recentemente, nessa dança de signos em rotação, inverteram inteligentemente o papel: conferir ao espetáculo ares de notícia, como foi Gloria Perez ter colocado depoimento de adictos de carne e osso enxertados no meio da novela O Clone. Na semana retrasada, quando Vanessa Gerbelli levou os tiros no centro do Rio também para a novela das 8, uma novidade: a espetacularização virou notícia, previamente revestida de declarações do autor Manoel Carlos aos telejornais globais, OK, a Globo continua mestra na disposição dos signos em rotação oferecidos pelos seus produtos, seja novela ou reportagem. Mas os jornais impressos da Globo mostraram-se semana passada não estar ao pé de igualdade das novelas, no quesito invencionices state of the art, ou "último modelo de fábrica". Porque as publicações globais cometeram o erro Na semana passada, ao ver a respeitosa manchete do Pasquim sobre a morte de Roberto Tudo isso veio obviamente (a explicação é para quem chegou de K-Pax agora) como reação natural de quem se vexou com a notícia revestida de propaganda. Se Lasch estiver certo, e De uma ou de outra forma, se tanto se deu no cravo, o golpe na ferradura veio em 34 linhas justificadas de texto da CartaCapital, à página 18, na edição datada de 20/8/03 e que chegou aos assinantes no sábado, dia 16. Aliás, golpe na ferradura curiosamente dado por cavalo bretão com boa fama de ser xucro. Vejamos: The Economist, a mídia e o dr. Roberto A mais influente revista destoa da imprensa brasileira ao analisar o legado do fundador da Globo A revista inglesa The Economist registra a morte de Roberto Marinho na edição que vai às bancas nesta sexta-feira 15. Conhecida por sua independência, invejável capacidade analítica e humor refinado, a revista dedicou a seção People a um epitáfio na contramão das derramadas biografias da quase totalidade da imprensa brasileira. Na coluna dos reconhecimentos, os ingleses anotam o papel de Marinho e da Rede Globo na unificação do Brasil: "No fim do dia, dr. Roberto poderia, com razão, proclamar que uma fração importante dos 175 milhões de brasileiros junta-se para ver a Rede Globo (...) "Rede Globo e você: tudo a ver" é constantemente repetido durante os intervalos comerciais. Sempre impiedosa com seus personagens, a revista criticou duramente Silvio Berlusconi e não poupou a BBC no episódio do suicídio do cientista David Kelly. Marinho foi tratado com elegância. Mas não foi poupado de observações ferinas que o apresentam "como um habilidoso homem de negócios que gostava de ser chamado de jornalista... e um amigo do regime militar que se dizia liberal". Dr. Roberto, diz a matéria, costumava dividir seus conterrâneos entre os "patriotas" e os "maus brasileiros". Mas admitia que as pessoas pudessem saltar de uma categoria para a outra. As Organizações Globo hostilizaram Lula nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Na última eleição, "a Globo tratou a campanha de forma equilibrada. Com a morte de Marinho, cessaram as hostilidades, Lula decretou três dias de luto oficial e agora todos são patriotas". Sobre os programas da Globo, o texto fulmina: "Homem orgulhoso e apenas humano, é pouco provável que Roberto Marinho tivesse consciência de que sua fantástica audiência fosse fomentada a lixo e, menos ainda, que seus auxiliares usassem tal palavra em sua presença. Se isso tivesse ocorrido, ele poderia argumentar que pelo menos era um lixo bem-feito". (*) Repórter especial da Rádio Jovem Pan, professor da ECA-USP e do Unifiam (SP), membro do International Consortium of Investigative Journalists (www.icij.org) | ||