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3º SETOR IMITA OS OUTROS
Prêmios não garantem
excelência em jornalismo

Alberto Dines

Para início de conversa é preciso registrar que os reparos deste Observador sobre a pletora de prêmios de jornalismo [veja remissão abaixo] não invalidam a justiça de algumas premiações, passadas ou recentes.

Isto posto, registre-se também o espanto do cidadão comum quando descobre que jornalistas de economia e política precisam ser galardoados com prêmios em dinheiro para assim se interessarem pela sorte das crianças e jovens brasileiros.

Pois é isso que insinua a presidente do Instituto Ayrton Senna (IAS) na amável carta que enviou a este Observador [clique abaixo em Próximo Texto para ler a íntegra]. Ao referir-se no item 4 ao fato de que "praticamente todas as editorias participam por meio de inscrições, com exceção justamente de economia e política que fizeram uma cobertura tímida do tema", admite-se que a escolha dos melhores jornalistas de economia e política tem por objetivo comprar as simpatias dos profissionais da área para problemática tão importante.

Aqui reside um duplo e portentoso engano daqueles que confundem exposição na mídia com credibilidade: um bom colunista de política ou de economia deve exibir suas excelsas virtudes no acompanhamento da política e da economia. É esse o seu compromisso liminar. É isso que o leitor e a sociedade querem dele – coragem para apontar erros e acuidade para perceber novos caminhos. Na sua esfera específica. E se o fizer com isenção e grandeza estará contribuindo decisivamente para resolver todos os problemas nacionais. Mas se, porventura, precisa ser estimulado por um prêmio para tratar dos problemas da infância e da adolescência, então ele (ou ela) não merece os louros que lhe estão sendo oferecidos.

Os assessores de marketing ou comunicação do IAS desconhecem que uma das deformações da nossa cobertura política é a sua fixação na Praça dos Três Poderes e o quase descaso com a Esplanada dos Ministérios. Continuamos centrados no jogo político tradicional e esquecidos das políticas públicas. O único jornalista brasileiro que teve o talento e a ousadia para quebrar esta rotina é também o autor da metáfora acima, sobre os logradouros brasilienses. E como não foi incluído na lista dos 10 premiáveis selecionados pelos 3 mil nomes consultados pela instituição pode ser aqui nomeado sem com isso quebrar-se a confidencialidade da escolha. Chama-se Márcio Moreira Alves e tem uma coluna em O Globo", página 4). Nos cinco ou seis anos em que se ocupa da tarefa jamais precisou de prêmios para manter a qualidade de suas matérias (embora tenha sido um dos primeiros premiados pelo Esso, no início dos anos 50).

Que os marqueteiros recorram aos prêmios de jornalismo para vender a imagem de suas empresas, produtos ou serviços não é novidade. Este Observatório tem-se ocupado freqüentemente desta distorção promocional e de algumas aberrações pitorescas, caso do prêmio instituído pelos importadores dos relógios Bulgari [veja abaixo].

O número de prêmios nacionais de jornalismo é enorme. Difícil de precisar porque não há um controle sobre eles, seus critérios, procedimentos e mesmo resultados. A Fenaj ou a ABI, naturalmente indicadas para disciplinar essa enxurrada, não fazem o acompanhamento. Raros são os certames que escapam dos arranjos e combinações informais onde todos levam alguma coisa e ninguém reclama.

A prova disso é que o Prêmio Esso, o mais antigo e mais prestigiado de todos, buscando legitimidade e isenção, resolveu proceder à eleição dos jurados dentro das principais redações do Rio e de São Paulo. Isso foi nos longínquos anos 60. Depois foi o prêmio "terceirizado" para uma assessoria de imprensa e só nos últimos anos voltou a ser coordenado pela própria Esso (ou Exxon).

No ano de 2001, este Observatório foi procurado por quatro grandes empresas multinacionais para organizar diferentes prêmiações de jornalismo. Algumas efetivamente meritórias. Recusou todas. Se aceitasse, estaria simplesmente oferecendo um aval para uma mera jogada de marketing. Além disso eram prêmios em dinheiro.

Aqui voltamos ao caso do IAS. Junto com as cédulas de votação informa-se com uma ponta de orgulho que nos cinco anos de sua existência foram gastos, somente em prêmios para os 75 vencedores, 770 mil reais! Isso dá uma média de 10.266 reais per capita laureada sem contar outras despesas referentes às cerimônias, impressos, coquetéis etc., etc. Devidamente aplicados num fundo de investimentos poderiam render outro tanto e fornecer recursos para fabulosas iniciativas voltadas para crianças e adolescentes que, por seus próprios méritos, dispensando prêmios ou estímulos, seriam amplamente divulgadas pela imprensa.

Ao trazer a questão dos prêmios de jornalismo para o debate público, embora o gancho motivador tenha sido um evento promovido por uma entidade do Terceiro Setor, procuramos não personalizar considerando suas meritórias atividades. Este Observatório também faz parte do Terceiro Setor e também ele pretende preencher vácuos deixados pelo setor privado e setor público.

Em função disso, sentimo-nos à vontade para tratar de algo que nos diz respeito. Há outros institutos do Terceiro Setor que por mimetismo marqueteiro do setor privado ou mera jogada política desperdiçam seus preciosos recursos fazendo em todas as redações uma farta e constante distribuição de folhetos, dossiês e kits, maravilhosamente impressos que vão diretamente para as cestas de lixo.

O Terceiro Setor foi criado para funcionar junto à sociedade onde nem a empresa nem o órgão público conseguem chegar ou atuar. Se o Terceiro Setor não consegue chamar a atenção da mídia por meio dos seus próprios feitos e efeitos é porque nem a mídia nem os mediadores são sensíveis às suas responsabilidades sociais. Neste caso só resta ao Terceiro Setor, como um todo, mobilizar-se para melhorar os padrões da nossa mídia em vez de fascinar-se com iniciativas que só reforçam suas deficiências.

Leia também

Terceiro Setor tropeça nos vícios dos demais – Alberto Dines

O que se esconde atrás dos prêmios de jornalismo – A.D. (rolar a página)

Prêmio Esso: importante, desejado, disputado, criticado – Paulo Oliveira

O Clube dos Treze – P. O.

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