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NO BLOCO DA MÍDIA
Ziriguidum
Carlos Vogt
O Carnaval passou, passou Maria Rosa, e como a vida é feita de mudanças, mudaria o Natal ou mudei eu, a longa estiagem do verão não de água, mas de notícias, que se afogaram em lama, em sofrimento das mesmas populações, nos mesmos locais, nas mesmas tragédias, com a mesma incúria das autoridades (in)competentes, o vaivém das escolas de samba, a cura milagrosa de Pinochet, que saiu saltitando da cadeira de rodas assim que seus pés, ou melhor, as rodas da cadeira, tocaram o solo abençoado da terra natal, irrigada pela emoção triunfante dos militares que o aguardavam, o teto salarial do duplex dos já-com-teto-múltiplo, o descanso do presidente numa casinha lá na Marambaia, só vendo que beleza, a comitiva que o acompanhou no Airbus fretado da TAM, é grande é pequena é maior que as outras de outras viagens, o ministro Greca a bordo da nau catarineta que o atira ou não atira no mar fervente do azeite da demissão, a viagem de volta, não dos que foram em comitiva, mas dos que ainda não vieram e já estão vindo em frota de Boa Esperança, iates, veleiros, na rota de Cabral que, finalmente, depois de quinhentos anos de solicitações constantes, teve a reforma de sua casa deferida pelas autoridades portuguesas, em meio ao regozijo dos que comemoravam a beleza simples da moradia de nosso fundador (para uns) e afundador (para outros) e a algazarra organizada dos sem-terra que atravessaram o mar e provocaram, por sinédoque, sopapos do presidente português nos jornalistas luso-brasileiros, que lá estavam, como sempre estiveram, em busca do novo na novidade vanguardista da "reviagem" de Cabral ao Porto Seguro de sua singela casinha de Santarém, agora reformada e pronta para ser alugada a todos aqueles que se interessarem em fazer a viagem do descobridor e aportar na baía onde nasceu o Brasil que, como o Rio de Janeiro, continua lindo, balançando a pança de quem tem pança para balançar.
Bom mesmo O talentoso Ripley, no cinema, e melhor ainda a leitura de Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, Estação Carandiru, de Drauzio Varella, e Da mão para a boca - Crônica de um fracasso inicial, de Paul Auster, em que, além de um interessante relato autobiográfico do autor, um como que retrato do artista quando jovem, há uma fantástica novela policial - A estratégia do sacrifício - para ser lida em ritmo de Dashiell Hammett e compasso de Raymond Chandler, que ninguém é de ferro.
Expropriação
André Teles Guedes (*)
O samba se transformou num tipo de manifestação totalmente deturpada, em que o agente precursor negro se vê, hoje, sufocado por uma enchente de elementos brancos mercantilistas. É historicamente fácil perceber: não existiu aceitação da cultura negra no Brasil, nem mesmo a um alto preço, como pregam certos pesquisadores.
O que existiu e existe é um lento processo de expropriação cultural, no qual o molde do que deve ser visto e ouvido na Avenida toma espaço do negro. A Globo, o "canal da família", abastece o consumismo tolo.
Atendendo ao gosto da pequena burguesia, e o reproduzindo, a mídia enfatiza e incentiva, como elementos principais na transmissão do Carnaval, aspectos atraentes para a classe média. Ou seja, comercializáveis. O pensamento é lógico e imoral: mais atrativo = mais audiência = mais lucro = mais poder. Sensualíssimas mulatas (e muitas loiras), carros monstruosamente sofisticados - distantes da realidade em que se originou o samba -, enredos em nada próximos da tradição ou do ideário popular, mas sim envoltos pela ideologia "positivamente" dominante, plena de história oficial e arma da manutenção do status quo.
A cor da pátria
Nesse ponto o processo de expropriação da cultura negra se efetiva. A mídia de hoje, a escola de hoje, o governo de hoje são omissos quanto à história do samba, quanto a sua ligação com o morro e as manifestações dos negros escravizados.
Aliás, no Brasil de hoje prevalece a verticalidade racial, a "pirâmide da cor", na qual quanto mais escura a pele menor o poder aquisitivo, mais explorado se é, menos oportunidade e dignidade se tem. Para que esta situação se perpetuasse sem questionamento, índios e negros vêm tendo sua atuação histórica violentada.
A elite de hoje os julga novamente culpados por terem deixado "sua cor" ao que nos obrigam a chamar de pátria. É revoltante ver um povo festejando seus 500 anos de desgraça e, no Sambódromo mercenários inescrupulosos (dirigentes, jornalistas e demais comparsas) apresentando o Brasil "como jóia que ainda pode ser lapidada".
Carnaval hoje é coisa sem passado, e que nos perdoem os que o vêem como alegria e habilidade do nosso povo. Nas mãos de boa parte da mídia, nossa cultura é instrumento modelável de uma elite que de uma só cajadada consegue desviar as atenções da realidade miseravelmente injusta e lucrar com sua "natural" competência.
Diz o samba-enredo deste ano da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro:
"A história vem mostrar
A transmigração da realeza
Chegando à Bahia, trazendo luxo e riqueza
E no Rio de Janeiro a corte veio encontrar
No carioca maneiro, um povo festeiro a comemorar"
Observamos o suor que escorre do rosto negro na Avenida e ouvimos estes versos sem raízes brotando da boca dos componentes. Pairam no ar as perguntas: será que neste instante da história é isso que nos resta? Um povo miseravelmente maneiro e passivo?
(*) Aluno de História da Universidade Estadual de Goiás (UEG)
ASPAS
Maria da Conceição Tavares
"Heróis do mar e Chile lindo no Carnaval dos 500 anos", copyright Folha de S.Paulo, 12/3/00
"‘Heróis do mar, nobre povo, nação valente, imortal!’, cantava eu na escola primária, de braço levantado, como era obrigatório em pleno salazarismo fascista! Mais tarde, ainda menina, lendo a Mensagem de Fernando Pessoa, recitava com novo entendimento ‘as Armas e os Brasões assinalados’ e esperava a chegada do ‘5º Império’. O primeiro havia se mudado para a colônia, inaugurando as ‘vergonhosas transações’ que levariam o novo Império brasileiro a ser um ‘imenso Portugal’ no séc. 19. (Os tempos sempre trocados mesmo com a ajuda de Chico Buarque!)
‘O la tumba será de los libres, o el asilo contra la opression’ cantava, já na maturidade, com os olhos marejados junto com os brasileiros exilados em Santiago 30 anos atrás. De punho em alto, na Alameda, centenas de milhares de pessoas escandíamos com júbilo ‘El pueblo unido jamais sera vencido!’, para celebrar a vitória de Allende. Voltei a cantar o mesmo em 1989, junto com o povo chileno depois do plebiscito, embora os militares continuassem a ocupar a parte mais substancial do poder. As massas pobres chilenas e as juventudes socialistas ainda repetiram o estribilho no enterro oficial de Allende. Que cantarão os chilenos hoje, depois da volta ‘triunfante’ de Pinochet e da posse de Ricardo Lagos?
Enquanto essas memórias me assaltavam, o Carnaval dos 500 anos explodia no Rio sem ordem cronológica e sem ufanismo. As escolas recordaram a tortura e a ditadura, representaram as dores da escravidão, não leram a carta de Pero Vaz de Caminha, mas a de Getúlio Vargas. Não se enalteceu o ‘tropicalismo triunfante’ de JK, em que os intelectuais e o povo brasileiro achávamos pela última vez que estávamos construindo não um Estado Novo, mas uma nação democrática e multirracial a caminho do desenvolvimento.
Finalmente, depois de 21 anos de ditadura e de 15 anos de transição democrática apodrecida, as ‘Visões do Paraíso’, os mitos e arquétipos da cultura brasileira foram atravessados por 500 anos de dores populares. O Rio de Janeiro, a cidade que no dizer de meu amigo Carlos Lessa é o espelho partido da nação brasileira, foi a passarela completa e retumbante do novo tropicalismo. Os cacos multicoloridos - prata e preto, azul anil e verde das matas e da bandeira - lá estavam deslumbrantes na avenida. Em enredos imaginados pelos ‘intelectuais orgânicos’ do nosso maior empreendimento de ‘capitalismo popular’ e fantasias trabalhadas por milhares de cariocas pobres e mal pagos. Na passarela lá estavam os nossos índios imaginários em acrobacias brilhantes e descendo de uma nave espacial o índio que virá! Na Sapucaí ocorreu o nascimento do rei Obá 2º representando a transcendência dos descendentes dos africanos escravos, acompanhado do refrão realista batucando nos ouvidos da arquibancada: ‘Do lado de lá, luxo e riqueza, do lado de cá, lixo e pobreza’.
Os do lado de fora, a maioria dos membros das ‘comunidades’, moviam-se que nem condenados para ganhar uns trocados sem participar da festa. O luxo dos emergentes e das ‘estrelas globais’ no meio das escolas atravessou o samba e destroçou o enredo. Lá estavam, junto com o luxo, os piolhos da corte de dom João 6º na sua vinda para o Brasil e finalmente a bandeira nacional pintada e depois apagada no corpo nu da mulher loura.
O nosso presidente-ator terminou o seu repouso carnavalesco fantasiado de fuzileiro naval e foi dar a partida às naus de Pedro Álvares Cabral, um dia antes da hora. Na Câmara de Lisboa, a pretexto da globalização, defendeu a ‘vocação comum ao universalismo dos ‘países irmãos’. Mais tarde voou até o Chile para levar a seu colega a solidariedade de ‘estadista do Mercosul’. Do lado de cá da cordilheira, os que sobraram do exílio e não estão no poder ficaram cantando no Bloco de Segunda e nos restos do ‘Simpatia é quase amor’.
Recolho-me na Quarta-Feira de Cinzas para uma ‘plegaria por los muertos’ e uma prece muda pelos vivos que continuam a luta. Nesta semana caótica não tenho sossego suficiente nem perspectiva clara: a Revolução dos Cravos já terminou; a Constituição Cidadã já foi desproclamada; a transição democrática chilena continua se arrastando... Os hinos, como todos os símbolos, estão fora de lugar. Não há asilo contra a opressão nesta terra em transe global. A nossa pátria mãe gentil é rejeitada pelos ‘livres’, os da liberdade do comércio e do capital. Para quem existe então? Para os presos e carcereiros? Para os torturados e torturadores, para os exilados? Os hinos voltam sempre trocados: herói do povo, nação mortal, levantai hoje de novo a luta dos que precisam do pão nosso de cada dia. A paz, se vier, fica para depois da Quaresma. [Maria da Conceição Tavares, 69, economista, é professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora associada da Universidade de Campinas (Unicamp) e ex-deputada federal (PT-RJ). URL: <www.abordo.com.br/mctavares>; e-mail: mctavares@cdsid.com.br>]"
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