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JORNALISMO SOFT
A publicidade sem fronteiras

Heci Regina Candiani (*)

Estilo de vida, serviços, celebridades, moda, beleza, saúde, decoração, carreira. Esses temas têm ocupado cada vez mais espaço nas coberturas de jornais e revistas, muitas vezes assumindo características de temas tão importantes quanto política, economia ou cultura. São setores econômicos que movimentam muitos recursos, e a mídia não está alheia a esse fator.

Mas, mais do que reconhecer a importância econômica e, portanto, social e política desses setores na sociedade, o chamado jornalismo soft é o resultado de uma mudança – agora já completamente consolidada – no papel social do jornalismo na sociedade.

O jornalismo soft é uma zona de fronteira sem demarcação entre o jornalismo e a publicidade. Ele abre portas para editoriais que podem ser atrelados a anúncios e informes publicitários sem entrar em choque com os interesses dos anunciantes e, mais do que isso, é uma prática que valida a organização social baseada no consumo.

Para entender como se dá este processo, é preciso resgatar a importância do discurso publicitário como mediador entre as esferas de produção e de consumo. Em outras palavras, de acordo com Everardo Rocha, é a publicidade que promove a transformação da impessoalidade característica do universo da produção para a distinção, a "singularidade" da experiência do consumo.

"News you can use"

O produto, que na esfera da produção é apenas mais um em uma série, produzido por um trabalhador que se resume a mais um elemento da cadeia produtiva, ganha vida ao ser alvo da publicidade. É por meio desse discurso que a mercadoria se torna atraente, útil, diferente de seus similares de prateleira, capaz de atender a desejos, necessidades e contextos de um consumidor que, diferentemente do trabalhador, tem direito a sua individualidade, à escolha, à distinção. Isso significa que a publicidade faz a mediação não apenas entre a produção e o consumo mas, também, estabelece as bases para a permanência da complementaridade entre as duas esferas. É pela produção que o trabalhador existe no universo do consumo; é este que valida seu papel no trabalho. É a publicidade que reproduz, reforça e comprova essa lógica, que pode ser transposta para o papel do jornalismo na sociedade contemporânea.

O jornalismo está econômica e ideologicamente atrelado ao papel da publicidade, e os sintomas disso são: a não-veiculação de notícias que possam contrariar os interesses dos anunciantes; a associação do produto jornalístico – historicamente alvo de maior credibilidade do público consumidor do que a peça publicitária – a eventos ou produtos; a substituição de uma linguagem política e socialmente crítica por termos mais "amenos" no noticiário; a criação de suplementos informativos cujo apelo nada tem de factual, transformando-os em veículos imediatos para publicidade, entre outros. Atualmente, um dos principais papéis de um editor é criar suplementos como esse em qualquer redação de jornal ou revista.

Os jornalistas também estimulam uma relação diferente entre o leitor e os artigos publicados. Esse novo tipo de relação já foi inclusive batizado como "News you can use" (notícias que você pode usar). Trata-se de oferecer ao leitor artigos que abordam, de forma despolitizada, a vida cotidiana e as formas de melhorá-la, incluindo aí matérias sobre comportamento, relações pessoais e de trabalho, saúde, alimentação, esportes. Essas matérias, que ocupam cada vez mais espaço do editorial dos jornais e revistas, vêm ilustradas por relatos de celebridades que dão seu aval a um estilo de vida – exatamente como na publicidade, ao divulgarem determinados produtos – baseado no culto do corpo e da carreira profissional, na lógica da compensação pessoal e da conquista.

Mídia utilitária

Notícias raramente interessam aos jovens. Tanto no Brasil como no exterior existem pesquisas demonstrando que a população com menos de 30 anos tem pouco ou nenhum interesse em ler o que jornais e revistas publicam, não prestam atenção aos telejornais e, na internet, buscam mais entretenimento do que informação.

A constatação é pouco animadora, mas não estarrecedora. Pouco do que se publica pode ser novidade para um grupo que está "engajado" na cultura de consumo. Uma cultura que se reproduz nas vitrines, nos programas de TV voltados ao entretenimento, nos concertos de rock, nas festas e na escola. A lógica das relações sociais enfatiza o consumo, valoriza as mercadorias não apenas pela sua utilidade, mas pelo seu poder de conferir ao consumidor distinção social, satisfação pessoal e segurança – funciona como uma referência para que o indivíduo encontre seu lugar no grupo e para que os outros reconheçam este lugar.

Paradoxalmente, uma das auto-imagens mais presentes na sociedade é a de que ela vive do consumo de informações. Antes de mais nada, é importante ter em mente que o próprio conceito de informação perdeu seu significado original ligado ao desenvolvimento do conhecimento e da capacidade crítica para assumir uma característica mais utilitária. Informação, como já visto, é aquilo que tem utilidade.

Intermediários culturais

Assim, como enfatiza Mike Featherstone: "Nesse contexto, o conhecimento se torna importante: conhecimento dos novos bens, seu valor social e cultural, e como usá-los de maneira adequada. Esse é, especificamente, o caso dos grupos aspirantes, que adotam uma atitude de aprendizes perante o consumo e procuram desenvolver um estilo de vida. Para esses grupos, como as novas classes médias, a nova classe trabalhadora e a nova classe rica ou alta, são muito importantes revistas, jornais, livros e programas de rádio e televisão associados à cultura de consumo, que enfatizem o aperfeiçoamento, o desenvolvimento e a transformação pessoais, como administrar propriedades, relacionamentos e ambições, como construir um estilo de vida realizador."

Como Mike Featherstone chama atenção, os produtos jornalísticos têm um papel fundamental nesse processo. As "notícias que você pode usar" atendem aos interesses de grupos sociais dispostos a consumir, ou melhor, a investir na imagem e no aperfeiçoamento pessoal – justamente os grupos sociais que mais interessam aos anunciantes.

Mike Featherstone chama a atenção para o papel de um grupo social específico na sociedade de consumo: os intermediários culturais. São jornalistas, publicitários, professores, estilistas e outros profissionais cujas atividades envolvem produção, comercialização e divulgação de bens simbólicos. É possível afirmar que os produtos jornalísticos são o retrato também daqueles que os fazem. Há uma identidade entre os grupos sociais de consumidores e os grupos de produtores de bens simbólicos. Fatores característicos dessa identidade são a preocupação com o indivíduo e sua sobrevivência, explicitada em matérias sobre saúde, bem-estar, como obter e garantir um bom emprego, como se relacionar com namorados(as), amigos(as), colegas de trabalho e chefes etc. O jornalismo soft está repleto de matérias sobre esses temas e outros correlatos.

Internet herda práticas

Outro ponto em comum entre jornalismo e publicidade na sociedade de consumo é o fato de que ambos se caracterizam como discursos sobre a sociedade. A objetividade, a imparcialidade e todos os demais valores ligados à prática jornalística como forma de garantir a elaboração de um retrato da sociedade atendem a um interesse ainda mais profundo dos grupos sociais que se caracterizam pela adoção da lógica do consumo. O jornalismo descreve a sociedade contemporânea da forma como ela pode e quer ver a si mesma.

Não se trata, entretanto, de uma novidade sobre o jornalismo. Em seu livro A rebelião das elites e a traição da democracia, Christopher Lasch já havia chamado a atenção sobre isso. O casamento jornalismo-publicidade não é uma novidade da sociedade atual, tem origens no século 19, quando o noticiário apartidário, neutro e objetivo foi forjado por uma imprensa que abdicou de uma das suas funções principais – a de ampliar o debate social. "Uma imprensa responsável, em oposição a uma partidária ou dogmática, atraía um tipo de leitor que os anunciantes estavam ansiosos por atingir: leitores abastados, a maioria dos quais provavelmente se consideravam eleitores independentes. Esses leitores queriam a certeza de estar lendo todas as notícias dignas de serem impressas, e não as visões idiossincráticas e, sem dúvida, tendenciosas de um editor. A responsabilidade foi equacionada à evitação de controvérsias porque os anunciantes estavam dispostos a pagar por isso. (...) Numa curiosa deformação histórica, anúncios, publicidade e outras formas de persuasão comercial acabaram disfarçando-se de informação."

As novas tecnologias de comunicação acabaram sendo alvo de uma série de expectativas em relação à quebra de todas essas tendências na produção cultural. Com a internet, dizem seus defensores, é possível realmente democratizar a divulgação de informações. Qualquer um pode publicar o que quer, pode incitar o debate político, pode expor suas idéias, pode retrucar quando algo não lhe agrada, pode obter conhecimento. Tecnologicamente, é verdade, isso é possível. A internet é um gigantesco arquivo de artigos, reportagens e opiniões sobre praticamente qualquer tema. Também permite o acesso fácil a essas informações e dispõe de sistemas de busca capazes de localizá-las com relativa rapidez e pertinência. Além disso, permitiu a criação de listas de discussão em que qualquer pessoa pode, teoricamente, participar expondo suas opiniões. E, ainda, permite que jornais e revistas possam, através de páginas interativas, praticar o "jornalismo em tempo real".

Mais que selecionar, ocultar

Entretanto, a internet está herdando uma prática jornalística despolitizada, e muito do que se faz no jornalismo online é ainda a adaptação do jornalismo impresso tradicional a um novo suporte tecnológico.

A relação publicidade-jornalismo se reproduz também na internet. O conteúdo dos sites jornalísticos tem forte dependência econômica dos anunciantes que, agora, podem contar com um mecanismo ainda mais eficiente de divulgação de seus interesses, o link. Através dele, o leitor migra imediatamente de uma página jornalística para a página do anunciante, com informações por ele selecionadas. Estas páginas, muitas vezes, também trazem notícias em formato jornalístico. Esse fato tem peso importante na caracterização do jornalismo online, já que a página destinada a divulgar produtos e serviços de empresas começa a prestar um serviço antes exclusivo de empresas jornalísticas.

Nesse sentido, o papel de gatekeeper também começa a migrar das mãos do jornalista para as do anunciante ou, mais do que isso, para as de uma instituição que tem fortes interesses em, mais do que selecionar informações "amenas", ocultar informações, sejam elas de que tipo forem.

Fantasia e realidade

O casamento informação-tecnologia coloca a primeira à mercê dos interesses de empresas especializadas na segunda, para as quais certamente fala mais alto o interesse comercial não de um jornal ou revista, mas de um produto. Se a imprensa ainda dispunha de cuidados com a credibilidade das informações prestadas, esse cuidado corre o risco de se diluir em meio a outros interesses.

Outro fator é que a internet – por sua própria forma de organização, em portais ou provedores de conteúdo – não consegue manter desvinculados informação, entretenimento, comércio, lazer. Tudo isso se mistura num mesmo serviço, permitindo que a confusão já existente entre informação e diversão se intensifique e que a rede seja caracterizada cada vez mais como um ambiente capaz de atender aos desejos do consumidor, oferecendo-lhe a possibilidade de obter de forma fácil e rápida aquilo que procura.

A internet se transforma num campo fértil para a realização de fantasias e para uma diferenciação cada vez mais tênue entre fantasia e realidade, um dos elementos-chave da sociedade de consumo.

(*) Jornalista, cientista social e mestranda da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero

 

CUT & PASTE
Jornalismo na área de transferência

Mozahir Salomão (*)

O único redator de uma emissora de rádio FM, nem tão pequena assim, chega à redação para trabalhar. Liga o computador e conecta-o à internet. A partir daí, visita sites noticiosos: jornais online, outras emissoras de rádio e os plantões de sites especializados. Se for ágil no manuseio do equipamento, rapidamente terá 10, 20, 30 notícias sobre os mais diversos assuntos (inclusive temas locais) para preencher todos os noticiários do dia. Assim, tem início o mais moderno e triste procedimento jornalístico da atualidade. Em lugar da apuração jornalística e da reportagem, janelas e mais janelas de sites noticiosos; em lugar da redação e da edição, uma mera e nem sempre precisa adequação de linguagem. Ou seja, reduziu-se o jornalismo, em algumas situações, ao Crtl+C e Crtl+V.

O discutido agendamento da mídia ganha agora um processo de horizontalização. Não mais apenas de pautar os debates da população, mas um agendamento de mídia para mídia. Os estudos sobre a hipótese do agenda setting (a mídia pautando o debate público) talvez não tenham se dado conta ainda desse novo fenômeno: os veículos com maior poder de fogo estão não apenas pautando, mas tornando-se fonte quase que exclusiva de notícias para outros veículos. Esse "acesso" de segunda mão à informação tem levado a práticas desviantes no jornalismo.

No caso das mídias locais, percebe-se um afastamento ainda maior da realidade das comunidades onde estão inseridas. Em relação às notícias veiculadas, a importante etapa da checagem sequer é cogitada. A premissa sempre é de que tudo é verdade, num mundo sem contradições e equívocos. O processo é de uma descontrolada multiplicação de notícias cunhadas a partir de pontos de vista bem próprios de empresas jornalísticas que já têm fortíssima presença junto ao público. As conseqüências, obviamente, são gravíssimas.

Sem nenhum tipo de postura apocalíptica, o que se pode dizer é que a existência e a intensificação de práticas desse gênero colocam em questão a promessa da pluralidade e da multidimensionalidade que seriam garantidas pela facilitação do acesso à informação. Um primeiro resultado de tudo isso é que o restrito agendamento temático proposto pelos grandes veículos é cada vez mais reforçado pela própria rede – um processo na contramão da tão esperada pluralidade.

Pensar sobre a sociedade

É certo que o fenômeno não é exatamente novo. A chamada gilette press (rádios que copiam notícias de jornais) nasceu, de alguma maneira, com o próprio radiojornalismo. No início, ainda sem linguagem específica para produzir e falar as notícias, o rádio dava as informações exatamente como estavam nos jornais impressos. Nas últimas décadas, porém, o radiojornalismo constituiu linguagem própria e definiu seu conceito de notícia. Mais que isso, ganhou o respeito e o reconhecimento do público pela sua natureza marcada pelo imediatismo e a objetividade.

O que chama a atenção agora, no entanto, é o fato de que a fácil obtenção e a ágil atualização pela rede do material noticioso pode estar gerando uma indevida e acrítica apropriação dessas notícias, colocando em risco ainda mais a qualidade e a credibilidade do radiojornalismo brasileiro. É importante frisar que não se faz aqui nenhuma generalização. Há emissoras, inclusive pequenas e médias, que têm o bom senso de "cobrir" e acompanhar com seriedade o que conseguem e o que entendem ser o possível interesse de seus ouvintes.

Distribuir notícias pode ter ficado fácil. Produzi-las deve continuar sendo o resultado de complexas operações de caráter intelectual e de séria utilização de procedimentos inarredáveis do jornalismo, como a reportagem e a exigência de boa apuração e checagem. A super-oferta de informações e/ou notícias na rede é um bem em si, desde que não entendida como fonte direta por veículos que se dispõem a informar ao público com responsabilidade.

O correto jornalismo não abre mão do diagnóstico, da problematização e da confirmação do que se apurou. Não abre mão de pensar sobre a sociedade em que está inserido. E deve propor-se a fazer uma mediação que ligue o ouvinte à informação de primeira hora, colhida no ambiente de sua ocorrência. Não pode ser uma vida de colagens. Na área de transferência.

(*) Professor de Radiojornalismo da PUC-MG e do UNI-BH

 

TRÉPLICA
Acerca da resposta de Kujawski

Wilmar da Rocha D’Angelis
(*)

Escrevi um comentário ("Contra equívocos, enganos"), que o Observatório da Imprensa divulgou [veja remissões abaixo], a respeito de um artigo publicado por Gilberto Kujawski, no Estado de S.Paulo, em que o jornalista pretendia apontar três grandes equívocos na leitura (ou escrita) da história do Brasil. Meu comentário, no Observatório, veio acompanhado de uma "resposta" de Kujawski, que merece reparos.

A resposta de Kujawski é uma peça diversionista, que foge ao debate e, em nenhum momento, responde às críticas que lhe fiz. Começa por um categórico "enquadramento" que, pelo tom, pretende ser uma desqualificação: "O professor (...), no texto que subscreve, mostra-se um legítimo representante daquela ‘nova história oficial do Brasil’, apontada por Antonio Risério...".

Se quiser entrar num debate sobre as visões de história do Brasil, o jornalista precisará informar-se melhor, e sair do largo, porém vazado, manto de Risério. Para dar apenas um exemplo: em 1965 já se publicava, no Rio de Janeiro, de Luis Luna, Resistência do índio à dominação do Brasil. Mas, ao dizer que isso que ele chama de "contra-história brasileira" surgiu como "novo discurso hegemônico", "basicamente a partir da década de 1970", Kujawski nos dá outra idéia do lugar de onde pensa e interpreta o país. Afinal, onde estaria o jornalista nos anos 70? Quem não viu, naqueles anos (e nos que os precederam), universidades mutiladas, repressão política à solta, jornais censurados, editoras pressionadas, livros banidos, ensino público mediocrizado? Para não falar dos cidadãos mortos, inclusive jornalistas! Onde, naqueles anos, houve espaço para um discurso hegemônico que não o oficial-militar?

Mas, o que é mais obviamente insustentável, é a tentativa do articulista de sugerir que há uma "História do Brasil" (com raízes no passado português), e uma "contra-história". Em outras palavras, haveria a história "verdadeira", e uma "falsa" história que ele se encarrega de denunciar.

E é nessa vertente que Kujawski volta a insistir na "lenda negra" (que não era o tema de minha crítica). Diz ele que "a expressão ‘lenda negra’ foi divulgada em 1914 por Julián Juderías, a propósito das acusações vindas de toda a parte contra a Espanha retratada como um país inquisitorial, ignorante, fanático e incapaz de figurar entre os povos cultos".

Acho que poderíamos recuar bem mais, e isso seria bastante útil para mostrar o quanto não se trata de intriga ou viés "esquerdista" de historiador contemporâneo as acusações a que ele se refere (sem que eu esteja interessado, aqui, nessa questão particular): Alfredo Bosi destacou que "sabe-se que, em 1556, quando já se difundia pela Europa cristã a leyenda negra da colonização ibérica, decreta-se na Espanha a proibição oficial do uso das palavras conquista e conquistadores, que são substituídas por descubrimiento e pobladores, isto é, colonos" (A. Bosi, Dialética da Colonização, 3ª ed. S. Paulo: Companhia de Letras, 1995:12).

Chamo a atenção, novamente, à data referida por Bosi e, mais ainda, à palavra escolhida, oficialmente, na Espanha quinhentista, para contrapor-se à denúncia de "conquista" da América: "descobrimiento", exatamente aquela que Kujawski defendeu, distorcendo argumentos dos seus contrários, o que demonstrei na minha crítica.

Se "Espanha e Portugal nunca estiveram sozinhos, nem jamais detiveram o monopólio da violência", isso não está em discussão: não afirmei, não insinuei, nem creio que tenha dado margem para se concluir isso de meu texto (aliás, sequer mencionei a Espanha, e a única referência que fiz a espanhóis foi, como veremos, abonadora).

Mas, a que veio, afinal, a "lenda negra" na resposta de Kujawski? Creio que essa passagem explica: "O espírito da lenda negra é o seguinte: isolado um ponto concreto, de caráter negativo, que pode ser até verdadeiro, apoiado exclusivamente nele, procede-se à mais sistemática e categórica desqualificação de um país, de uma civilização, de certa instituição, de determinado feito histórico, como a catequização no seu todo, sem a ressalva de nada de mais aproveitável." O que Kujawski diz recusar é uma atitude tendenciosa e propositadamente falseadora da história. E, parece, pretende apontar seu dedo-argumento para mim. Mas, é curioso que o jornalista queira apontar um cisco em meu olho, com uma trave diante do seu. Senão, vejamos:

(i) quando escreveu seu artigo "Os 500 anos: festival de equívocos e confusões", o jornalista defendeu a ação catequética jesuíta, apontando os nomes sempre tomados por heróicos e exemplares de Nóbrega, Anchieta e Vieira. Em meu comentário, tomei exatamente os nomes mencionados por ele, e apontei, em documentos assinados por aqueles jesuítas, a apologia da violência contra os índios, da subjugação e escravização. Apontei mais, para quem quiser consultar, a extensa obra De gestis Mendi de Saa, poema épico laudatório de Anchieta dirigido ao manda-chuva de plantão, onde a cada passo se exalta a "justa vingança" (divina, certamente, mas pelas mãos humanas de Mem de Sá) contra os índios que não se submeteram ao colonizador português e aos missionários. Leia-se o teatro anchietano em tupi, e encontrar-se-á a mesma mentalidade;

(ii) em meu texto, fiz questão de registrar que não vejo a catequese como um processo único e invariável, da mesma forma que não vejo "os jesuítas" como um "bloco monolítico", e para isso escrevi: "Vale ressaltar que a prática missionária jesuítica nos territórios espanhóis, à mesma época, era bastante distinta daquela levada a efeito no Brasil. Daí que havia, também, ‘jesuítas’ e ‘jesuítas’". O que eu pretendia mostrar era a compreensão limitada e aplastadora do senhor Kujawski, lembrando a ele exatamente isso: que não se pode tomar um "ponto isolado" e querer, sobre ele, erigir a história "de certa instituição, de determinado feito histórico, como a catequização no seu todo", sem quaisquer ressalvas.

No caso, pretendia mostrar a falácia de se construir a imagem dos jesuítas como homens das "posições mais avançadas" de sua época e, por tabela, construir uma imagem santificadora da ação catequética, com base exclusivamente em sermões de Vieira (e a defesa deles por homens tão do nosso tempo como nós). Escrevi, por isso: "É preciso, pois, não confundir sermões de Vieira com a prática documentada das missões jesuíticas, e não tomar palavras quase isoladas de um pregador, em certa época, como representativas d’os jesuítas, e daquele (algum) tempo. E vale ressaltar que a prática missionária jesuítica nos territórios espanhóis, à mesma época, era bastante distinta daquela levada a efeito no Brasil. Daí que havia, também, ‘jesuítas’ e ‘jesuítas’."

Grave é a forma como o jornalista tenta responder à minha afirmação de que o discurso da "não-politização" é, na verdade, um discurso político. "E de direita – escrevi –, porque é um discurso interessado no apagamento, ou melhor, no mascaramento dos conflitos de interesses e, portanto, um discurso que serve ao poder dominante. Esconder ou fugir ao debate político interessa a quem tem algo a perder com ele."

Kujawski não encontra argumentos para contradizer-me, mas sai-se, evasivamente, com a idéia de que "a esquerda do mundo inteiro está unida para dizer sempre as mesmas coisas, do mesmo jeito e até com as mesmas palavras". Até aqui, aceito o mau gracejo, ainda que ele mesmo denuncie seu ridículo. Mas não aceito, do senhor Kujawski, uma frasezinha de mau gosto e cretina: "Adolf Hitler pensava do mesmo jeitinho, acusando a física de Einstein e a psicologia de Freud de ‘ciência judaica’. Muito cuidado com o extremismo, portanto."

Que tipo de debate é esse, senhor Kujawski? Como no caso da palavra "descobrimento", sua única forma de debater é distorcendo os argumentos que não lhe agradam? Não é capaz de discuti-los na forma como foram formulados? O que disse, volto a dizer, talvez com um pouco mais de didatismo: não há ninguém, incluídos o Sr. Kujawski e o papa, que fale de um lugar que não seja também um lugar político, e que não expresse uma visão política desde uma determinada perspectiva ideológica, quando se posiciona diante dos fatos. Quando a igreja católica pede "perdão ao Pai" por "nem sempre ter defendido" índios e negros, ela faz uma escolha política de palavras, e evita (recusa-se a) pedir perdão aos índios e deixa de reconhecer que muitas vezes foi cúmplice ativa dos crimes contra eles.

Por isso, palavras como "descobrimento" ou "conquista", "achamento" ou "invasão", "desenvolvimento" ou "desenvolvimentismo", "subdesenvolvido" ou "emergente" são repletas de carga ideológica, e não são apenas verbetes congelados de dicionários. É pelo mesmo motivo, porque seu discurso é político, que o Sr. Kujawski não entra no debate desarmado, e não trata dos meus argumentos pelo que escrevi, mas prefere insinuar semelhança entre o que digo e o que teria dito um Hitler. Esse tipo de atitude não pode ser respondida, só pode ser denunciada: é falta de honestidade intelectual.

Quanto aos medos do Sr. Kujawski, são problemas para o seu analista, não para mim.

(*) Lingüista e indigenista, professor do Instituto de Estudos da Linguagem – Unicamp

 

CARTAS
De anedotas e flores

Estimado Kujawski,

Gostamos da anedota. Mas ficamos com uma dúvida: como o passageiro do bonde soube que o sentimento do condutor era ódio de classe? O senhor parece não conhecer o beatífico espírito espanhol. Talvez o olhar de ódio do condutor seja uma resposta visceral diante da tentação. Realmente estamos fritos quando a moral cristã pode mais do que os hormônios.

Já que o senhor traz levianamente à tona o nome de Adolf Hitler, o que a sua resposta nos lembra é a máxima de Goebbels de que uma mentira repetida até o cansaço torna-se uma verdade. A sua postura de negar-se à argumentação séria é lamentável em alguém que tem espaço em meios de difusão maciça, e que se diz jornalista.

Estimado Wilmar,

Você está jogando flores aos porcos.

Carmen María Olivera Müller, Andrés Pablo Salanova, Maria Amélia Reis Silva

 

INFORMAÇÃO & OPINIONISMO
Mídia e formação da exclusão social

Vera Silva
(*)

É preocupante a forma descuidada com que se fala e escreve na imprensa brasileira. Digo preocupante porque é através da linguagem que a informação se materializa para o informado. Assim, sendo descuidada a forma com que a informação é apresentada ela pode informar outras coisas além da notícia. Pode, em outras palavras, transformar a informação em editorial, substituindo a análise individual do leitor pela análise feita pelo veículo da informação.

Vamos discutir alguns exemplos, nada edificantes, da transformação do jornalista em editorialista.

A maioria das notícias sobre a aprovação do Orçamento da União, principalmente na TV, foi lida em seus números absolutos, cheios de bilhões, com a voz eufórica de quem achava que eram números demonstrativos da grande prioridade que se estaria dando ao desenvolvimento do país. O orçamento de R$ 20 bilhões para a saúde, mais R$ 1,3 bilhões para investimentos na área de saúde, soou-me, na TV, como o grande final de uma sinfonia épica.

Sem elementos para julgar

Dispus-me a fazer uma simples conta, dividindo R$ 21,3 bilhões por aproximadamente 150 milhões de brasileiros (devemos ser mais, mas não tenho dados precisos): encontrei exatos R$ 142/brasileiro/ano! Será esta uma proporção realmente boa para desenvolver a saúde do brasileiro? Será possível que com R$ 11,83 por mês o SUS possa assegurar que cada brasileiro, em 2000, vá uma vez por ano ao dentista e ao médico e que possa fazer os tratamentos indicados? Com este valor será possível que cada gestante e cada bebê possam ir uma vez por mês ao médico? Será possível também assegurar que cada criança possa fazer pelo menos um exame oftalmológico antes de começar a pré-escola e que, caso precise usar óculos, eles lhe sejam fornecidos, e que os exames oftalmológicos anuais possam ser feitos, com as mudanças de lente e conserto dos óculos, que por certo serão necessários, para que possa acessar o mundo dos alfabetizados?

Numa passada rápida da câmera, pude vislumbrar alguns valores da educação que me pareceram menores que os da saúde. Pensei cá com os meus botões, se forem mesmo menores e incluírem os projetos de reciclagem profissional e os salários dos professores sob responsabilidade da União, menos de R$ 142/brasileiro/ano serão suficientes? Incluirão estes valores o que é gasto com o desenvolvimento cultural?

Outro exemplo foi o famoso fundo da pobreza: quanta euforia por causa de R$ 4 bilhões para dividir com 30 milhões de pobres! Mas, perguntei-me: será possível erradicar a pobreza com R$133/pobre/ano, quando nesses 30 milhões estão incluídos 24 milhões de miseráveis?

Confesso a minha ignorância em administração financeira pública, mas sei que qualquer projeto dirigido a um segmento tem que dividir parte dos valores dos projetos com seus procedimentos administrativos. E isto gasta dinheiro. Como cidadã me senti muito mal informada pela imprensa do meu país. Não tenho elementos para avaliar a condução orçamentária do governo do FHC.

Sempre não-cidadãos

Creio que há uma discussão em questão sobre esta forma editorialista de informar, e creio mesmo que há uma opção clara por ela no caso de alguns jornalistas. Examinemos a discussão que se dá entre o indigenista W.R. D’Angelis e o jornalista G.M. Kujawski:

"Vamos discutir a proposição sobre o terceiro ‘equívoco’. Segundo Kujawski, trata-se da idéia de se considerar a catequese como prejudicial aos ‘índios’. Sua tese é que, ‘em relação ao índio, havia três alternativas: a) ou se escravizava o índio; b) ou se massacrava o índio; ou c) se catequizava o índio’. O jornalista está convencido, seguindo argumento de pesquisadores acadêmicos, de que ‘os jesuítas defendiam as posições mais avançadas daquele tempo’, por serem ‘contrários à escravização dos índios, ao uso da violência física contra eles’."

Reproduzido do artigo Contra equívocos, enganos, de Wilmar da Rocha D’Angelis, lingüista e indigenista, professor do Instituto de Estudos da Linguagem – Unicamp, publicado no Observatório da Imprensa, Última Hora, 12/5/2000, numa crítica ao artigo do jornalista G.M. Kujawski, no OESP, em 4/5/2000 [ver remissão abaixo].

Ao que o jornalista refutou:

"(...) Eis aí o que faz a politização: substitui a realidade concreta, na sua pujança de significado, na sua diversidade de aspectos, na sua riqueza de perspectivas e sabores, por um mísero esquema classista, uma tosca classificação, um rótulo vazio. Suprime o concreto, uma mulher de carne e osso, por uma abstração. Tenho medo de que o senhor faça o mesmo com os índios. Receio que o senhor troque o índio, com suas virtudes e defeitos, por uma abstração inventada pela civilização branca do iluminismo, o bom selvagem. Até que ponto os defensores dos índios podem saber e decidir o que é melhor para eles? Ou será que os pobres aborígenes estarão passando, agora, por uma segunda catequese, a catequese da mais-valia e da luta de classes?"

Em Gilberto de Mello Kujawski responde a Wilmar da Rocha D’Angelis, a propósito do artigo Contra equívocos, enganos.

O que impressiona numa discussão desse tipo é o fato de o jornalista tomar o todo pelas suas partes e as partes pelo todo. O indigenista dizia que o jornalista não entendeu que, ao se discutir descobrimento versus achamento, não se discutia o uso da palavra, e sim que se buscava restaurar a verdade histórica do massacre da história dos índios e da violência física contra eles. E o jornalista diz que o índio não era bom e que os brancos não foram cruéis. Que reavaliar a história é um erro, porque estamos catequizando o índio com marxismo-leninismo. Que beleza de editorial, não é mesmo? Índio não é cidadão para o jornalista. Não temos, portanto, segundo ele, nenhuma obrigação de tratá-lo dentro das regras de cidadania, mesmo que o tenhamos trazido para dentro da nossa cultura, à custa de violar a sua.

O índio e o negro nas entrelinhas e linhas das reportagens são sempre os não-cidadãos. Querem um exemplo? Eu estava lendo sobre a prisão daquele empreiteiro da obra do tribunal de São Paulo quando me deparei com esta informação fantástica: policiais federais tiveram muito problema para prendê-lo, porque não se pode entrar numa residência sem mandado judicial e, mesmo com mandado, não se pode entrar numa residência após as 18h! Por sorte o mandado chegou antes das 18h.

Excluídos entre excluídos

Puxa vida, eu nunca ouvi dizer que a polícia teve problema para invadir casa de pobre por causa disto. Foi preciso prenderem um empreiteiro para eu saber que depois das 18h ninguém pode entrar na minha casa para me prender mesmo que tenha mandado judicial.

A todo o momento nos jornais e TVs vêem-se policiais entrando nas casas dos pobres no meio da noite, quebrando, algemando, e nenhum jornalista informa que isto é uma ilegalidade. Isto é notícia ou editorial?

"O sentimento da dignidade humana parece desfeito. Deixa de ser espontâneo. É preciso um esforço de atenção para conservá-lo. Um esforço nem sempre eficaz para o humilhado – um cidadão pobre não é humilhado porque sente ou imagina sê-lo: o sentimento e a imaginação estão fincados numa situação real de espoliação econômica e aviltamento público. No humilhado, a submissão é que se torna espontânea. Diríamos melhor: torna-se automática, compulsiva. A humilhação social é, sem dúvida, um fenômeno histórico.[....] A humilhação social é fenômeno ao mesmo tempo político e psicológico, caracteriza assiduamente a psicologia do oprimido: desencadeia afetos embriagantes ou paralisadores. As formas deste desencadeamento podem variar: são lágrimas, o emudecimento, o protesto confuso, a ação violenta e até o crime.[....] Os pobres sofrem freqüentemente o impacto dos maus tratos. Psicologicamente, sofrem continuamente o impacto de uma mensagem: ‘Vocês são inferiores’. E, o que é profundamente grave: a mensagem passa a ser esperada. Para os pobres, a humilhação ou é uma realidade em ato ou é freqüentemente sentida como uma realidade iminente, sempre a espreitar-lhes, onde quer que estejam, com quem quer que estejam.

José Moura Gonçalves Filho, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP, em Humilhação social: um problema político em psicologia, copyright Jornal do Federal (informativo do Conselho Federal de Psicologia <www.psicologiaonline.org.br/jfcidadania2.html>), n° 62, março de 2000, publicado no Observatório da Imprensa, Última Hora, em 12/5/2000]."

Um jornalista perguntou por que não se viam negros no MST. Provavelmente, respondo, porque se consideram totalmente excluídos. Eles formam a maioria dos excluídos do país, conforme dados recém-divulgados pelo IBGE.

Acrescentando mais um ponto ao artigo do professor Wilmar, após 500 anos descobrimos que, além de não considerarmos os índios como brasileiros, nós os transformamos nos novos-pobres que, à semelhança dos negros, vão integrar as estatísticas do IBGE como os mais pobres e os mais desassistidos entre todos os brasileiros.

Quando escrevemos, lemos e vemos notícias que reforçam nos pobres o sentimento de inferioridade social estamos todos sendo coniventes com a manutenção dessa discriminação horrenda. Já passou da hora a reação.

(*) Psicóloga

 

TV A CABO
Informação filtrada

Mauro Giller

Recentemente assinei um serviço de TV a cabo, e notei que realmente o acesso à informação de qualidade é negado a quem tem apenas os chamados canais "baixos". Um exemplo: na Globo News foi colocado no ar o pronunciamento de FHC sobre a votação do mínimo, em que o presidente dava seu recado de represálias aos governistas que não apoiaram o projeto do governo e jogava louros aos que apoiaram os R$ 151, em clara demonstração de que vivemos num pseudo Estado democrático.

Isso porque, naquele momento, os canais baixos não transmitiam o pronunciamento. Nem mesmo a TV Cultura (que decepção!). Em vez disso, novelas, repórteres policiais e a baixaria usual da TV normal. Não é a toa que os canais são os "baixos". Combina com o status de baixaria.

Isso me deu a percepção de que existe uma filtragem boa entre canais altos e baixos. Quem acompanha notícias e documentários internacionais, em outras línguas, vê que muito mais informação é filtrada de fora para dentro.

A pergunta que fica é: os canais baixos não poderiam melhorar o conteúdo? Para manter o ibope temos que forçar a população a ficar na ignorância, sujeita a programas de qualidade discutível?

 

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Contra equívocos, enganos – Wilmar da Rocha D’Angelis

Gilberto Kujawski responde

Humilhação social: um problema – José Moura Gonçalves Filho

 



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