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  O dia 19 de junho de 2001 marca o lançamento oficial da coleção facsimilar completa das 175 edições do Correio Braziliense ou Armazém Literário – o jornal criado e redigido por Hipólito José da Costa no exílio, em Londres, entre 1808 e 1822. A coleção é composta de 31 volumes. Nesse dia, vêem à luz os volumes números 1, 3 e 31 – este, com o índice do Correio Braziliense, organizado em 1976 pela Biblioteca Nacional. Em 4 de julho, as cinzas de Hipólito José da Costa – trazidas da Inglaterra, onde morreu – serão trasladadas para o Museu da Imprensa, em Brasília.

A cada 40 dias, em média, deverá ser lançado mais um volume da coleção. O último a ser editado – o de nº 30 – é inteiramente original e trará contribuições sobre o Hipólito, seu jornal e sua época, além de bibliografia e cronologia. A coleção, organizada por Alberto Dines, é uma co-edição da Imprensa Oficial do Estado de S.Paulo e do jornal Correio Braziliense (dos Diários Associados, Brasília), realizada pelo Observatório da Imprensa e Labjor por intermédio de sua entidade mantenedora, o Instituto Uniemp.

O PARADIGMA HIPÓLITO – I
A questão da utilidade, 193 anos depois

Alberto Dines

A palavra útil é mencionada três vezes na Introdução, ou plataforma editorial, que abre a primeira edição do Correio Braziliense (junho de 1808, volume I, págs. 3 e 4).

Domina o primeiro parágrafo e a primeira idéia logo na 2ª linha, reaparece no mesmo parágrafo à 10ª linha desdobrando o raciocínio inicial, e ressurge como apoteose no trecho final, à 53ª.

Mas todas as 60 linhas do texto estão profundamente embebidas no conceito de utilidade moral. A peça toda é uma convocação ao oferecimento, à participação e à solidariedade do ser humano em benefício da melhoria e bem-estar dos semelhantes. Ação a serviço de idéias, serventia como virtude.

Nada de extraordinário considerando que Hipólito José da Costa era maçom, herdeiro da cultura iluminista e contemporâneo da alvorada romântica. Um homem do seu tempo. Admirável é que este ideário de devoção ao bem público foi dirigido exclusivamente aos redactores das folhas públicas, os jornalistas, palavra esta que sequer existia [ver Nota 1]:

"...Ninguem mais util pois do que aquelle que se destina a mostrar, com evidencia, os acontecimentos do presente, e desenvolver as sombras do fucturo..."

Com esta visão social da atividade jornalística, Hipólito, se não foi o primeiro, foi certamente um dos primeiros a formular explicitamente a doutrina do serviço público hoje inquestionável e amplamente difundida embora tão infringida.

"...O indivíduo que abrange o bem geral d’ uma sociedade, vem a ser o membro mais distincto della: as luzes, que elle espalha, tiram das trevas, ou da illuzão, aquelles, que a ignorancia precipitou no labyrintho da apathia, da inepcia, e do engano..."

Como exemplo desta prestação de serviços, Hipólito lembra o episódio da insurreição portuguesa contra a dominação espanhola (1640, que ele designa como Guerras da Aclamação), quando os primeiros boletins emitidos criaram o clima de mobilização popular que levaram à Restauração [Nota 2].

Mais admirável ainda é que essa devoção à causa pública, este "utilitismo" (não confundir com o utilitarismo de Stuart Mill, seu oposto), deveria funcionar a partir da difusão do conhecimento por intermédio da propagação das artes e das ciências.

O jornalismo começou no Brasil desvinculado da pretensão de ser o primeiro despertador dos factos que excitam a curiosidade dos povos. Mas como instrumento de tudo aquillo que pode ser util á sociedade em geral.

Os patriarcas do Iluminismo eram chamados genericamente (e até depreciativamente) de filósofos. Eles forneceram as bases intelectuais à Revolução Americana e à Francesa. A Revolução Brasileira pretendida por Hipólito seguia a mesma linha: juntar filosofia com ação, levar o pensamento à esfera cotidiana, melhorar o sistema político a partir da melhoria do homem.

Visto com esta ótica, o seu Armazém Literário é muito mais do que um almanaque com as últimas novidades literárias ou bibliográficas. É um projeto de esclarecimento coletivo, verdadeira revolução cultural a ser empreendida por todos aqueles que assumem a responsabilidade de tornar evidentes os acontecimentos.

Como balizamento moderno da proposta de Hipólito, vale a pena recordar o que escreveu The Economist ao comentar a recente biografia de um poderoso empresário da mídia alemã, escrita por Ralf Dahrendorf: dependendo das circunstâncias, ser dono de um jornal pode equivaler à autorização para imprimir dinheiro [Nota 3].

(Continua)

NOTAS

1
– Hipólito emprega a expressão jornaes politicos (ou públicos) em oposição aos jornais íntimos, os diários. Nos primeiros dicionários portugueses (Bluteau e a 1ª edição do Morais), a palavra jornal significa o pagamento pelo trabalho diário, jornada (neste sentido, o jornaleiro). Hipólito utilizou a palavra inglesa de origem francesa journal (aquilo que é escrito diariamente). Também na 2ª edição (1813) do dicionário de Antônio Morais Silva (amigo e companheiro de Hipólito) nada sobre jornalismo ou jornalistas, expressões introduzidas pelos franceses no fim do século 18 mas vulgarizadas em meados do século seguinte.

2 – Neste texto Hipólito atribui erroneamente aos portugueses a introdução dos boletins impressos periódicos. Antes de 1649 houve na França o Mercure Français (1611) e a Gazette de France (1631).

3 – O biografado é Gerd Bucerius, dono do Die Zeit e, posteriormente, do semanário popular Stern [The Economist, 2/6/01, pág. 89].

Leia também

Outros textos sobre "O Paradigma Hipólito", nesta edição

História, compromisso e modernidade – A.D.
A mídia e o Brasil do século 21 – A.D.

 

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