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JORNAL DE DEBATES
O PARADIGMA HIPÓLITO
I Alberto Dines A palavra útil é mencionada três vezes na Introdução, ou plataforma editorial, que abre a primeira edição do Correio Braziliense (junho de 1808, volume I, págs. 3 e 4). Domina o primeiro parágrafo e a primeira idéia logo na 2Ş linha, reaparece no mesmo parágrafo à 10Ş linha desdobrando o raciocínio inicial, e ressurge como apoteose no trecho final, à 53Ş. Mas todas as 60 linhas do texto estão profundamente embebidas no conceito de utilidade moral. A peça toda é uma convocação ao oferecimento, à participação e à solidariedade do ser humano em benefício da melhoria e bem-estar dos semelhantes. Ação a serviço de idéias, serventia como virtude. Nada de extraordinário considerando que Hipólito José da Costa era maçom, herdeiro da cultura iluminista e contemporâneo da alvorada romântica. Um homem do seu tempo. Admirável é que este ideário de devoção ao bem público foi dirigido exclusivamente aos redactores das folhas públicas, os jornalistas, palavra esta que sequer existia [ver Nota 1]: "...Ninguem mais util pois do que aquelle que se destina a mostrar, com evidencia, os acontecimentos do presente, e desenvolver as sombras do fucturo..." Com esta visão social da atividade jornalística, Hipólito, se não foi o primeiro, foi certamente um dos primeiros a formular explicitamente a doutrina do serviço público hoje inquestionável e amplamente difundida embora tão infringida. "...O indivíduo que abrange o bem geral d uma sociedade, vem a ser o membro mais distincto della: as luzes, que elle espalha, tiram das trevas, ou da illuzão, aquelles, que a ignorancia precipitou no labyrintho da apathia, da inepcia, e do engano..." Como exemplo desta prestação de serviços, Hipólito lembra o episódio da insurreição portuguesa contra a dominação espanhola (1640, que ele designa como Guerras da Aclamação), quando os primeiros boletins emitidos criaram o clima de mobilização popular que levaram à Restauração [Nota 2]. Mais admirável ainda é que essa devoção à causa pública, este "utilitismo" (não confundir com o utilitarismo de Stuart Mill, seu oposto), deveria funcionar a partir da difusão do conhecimento por intermédio da propagação das artes e das ciências. O jornalismo começou no Brasil desvinculado da pretensão de ser o primeiro despertador dos factos que excitam a curiosidade dos povos. Mas como instrumento de tudo aquillo que pode ser util á sociedade em geral. Os patriarcas do Iluminismo eram chamados genericamente (e até depreciativamente) de filósofos. Eles forneceram as bases intelectuais à Revolução Americana e à Francesa. A Revolução Brasileira pretendida por Hipólito seguia a mesma linha: juntar filosofia com ação, levar o pensamento à esfera cotidiana, melhorar o sistema político a partir da melhoria do homem. Visto com esta ótica, o seu Armazém Literário é muito mais do que um almanaque com as últimas novidades literárias ou bibliográficas. É um projeto de esclarecimento coletivo, verdadeira revolução cultural a ser empreendida por todos aqueles que assumem a responsabilidade de tornar evidentes os acontecimentos. Como balizamento moderno da proposta de Hipólito, vale a pena recordar o que escreveu The Economist ao comentar a recente biografia de um poderoso empresário da mídia alemã, escrita por Ralf Dahrendorf: dependendo das circunstâncias, ser dono de um jornal pode equivaler à autorização para imprimir dinheiro [Nota 3]. (Continua) NOTAS 2 Neste texto Hipólito atribui erroneamente aos portugueses a introdução dos boletins impressos periódicos. Antes de 1649 houve na França o Mercure Français (1611) e a Gazette de France (1631). 3 O biografado é Gerd Bucerius, dono do Die Zeit e, posteriormente, do semanário popular Stern [The Economist, 2/6/01, pág. 89]. | ||||