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O PARADIGMA HIPÓLITO – II
História, compromisso e modernidade
(*)

Alberto Dines

O primeiro dever do homem em sociedade he ser util aos membros della; e cada hum deve, segundo as suas forças Phisicas, ou Moraes, administrar em beneficio da mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte, ou a educaçaõ lhe prestou...

Assim mesmo – sem acentos, com esta pletora de "h", solenes maiúsculas, consoantes dobradas, til no "o", vírgulas soltas e um erro de concordância no último verbo – completava-se a primeira frase da primeira matéria da primeira edição do primeiro periódico brasileiro.

De Londres, com data de 1º de junho de 1808, quase anonimamente (não estava assinada, embora na primeira pessoa do singular), inaugurava-se um novo capítulo na história do Brasil: a era da imprensa.

Ou da modernidade. O protagonista da façanha de introduzir no Brasil este serviço público hoje designado como jornalismo, dois séculos depois de introduzido na Europa e três séculos depois do descobrimento, em plena vigência da censura, foi o gaúcho Hipólito José da Costa Furtado Pereira de Mendonça, mais conhecido como Hipólito da Costa (1774-1823).

A republicação da coleção completa do Correio Braziliense ou Armazém Literário que se inicia na próxima semana não é fato isolado. Conhecido como país sem memória e sem saudades, no caso do patriarca da sua imprensa, o Brasil está empenhado numa inédita e perseverante operação de resgate que já dura meio século. Hipólito vem seduzindo intelectuais do porte de Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Rizzini e Antônio Cândido. Num golpe de mestre, Assis Chateubriand batizou o jornal que JK pedira para fundar na nova Capital como Correio Braziliense. Trinta anos depois é um dos grandes diários regionais.

Os jornalistas não ficaram atrás. Com os gaúchos à frente, tanto pressionaram o Legislativo que o Dia da Imprensa deixou de comemorar o lançamento do primeiro diário oficial (a Gazeta do Rio de Janeiro) para lembrar o início da imprensa livre. Dentro de duas semanas, o governo federal deverá estar realizando as exéquias das cinzas de Hipólito no Museu da Imprensa, em Brasília.

Doutor em leis e filosofia por Coimbra, alto funcionário da Coroa portuguesa, amigo de Benjamin Franklin (um dos patriarcas da revolução americana que o introduziu na maçonaria), preso pela Inquisição de Lisboa justamente por suas atividades clandestinas, Hipólito escapou do cárcere e refugiou-se em Londres onde, durante 14 anos, de 1808 a 1822, editou o primeiro periódico a circular no Brasil e também o primeiro periódico português sem censura.

A imprensa brasileira nasceu no exílio e antes mesmo da criação formal do Estado brasileiro já antevia uma nacionalidade e uma cidadania. Título e subtítulo do mensário são sínteses do projeto de Hipólito: brasiliense, para ele era a pessoa natural do Brasil, não apenas uma rica colônia mas um Império (no primeiro número a designação Império do Brasil aparece diversas vezes). Seu conceito de armazém literário nada tinha a ver com a arte literária propriamente dita, mas com tudo aquilo que está contido nos livros – idéias.

Temos assim uma premissa e um projeto claramente enunciados desde o início: a formação de uma elite capaz de assumir aquele colosso que nos 308 anos anteriores esteve imerso na mais completa obscuridade. De Londres, por controle remoto, Hipólito da Costa comandou um processo civilizador que preparou o Brasil para a emancipação política e administrativa e lançou Portugal numa nova era. Caso raro de um jornal que foi, ao mesmo tempo, uma escola de líderes.

Muitas coisas aconteceram no Brasil no ano de 1808: a chegada da corte portuguesa que fugia de Napoleão, o estabelecimento da primeira tipografia, os primeiros cursos superiores, o primeiro censo, a criação do Banco do Brasil etc. Mas o cimento que juntou e deu sentido às diferentes inovações tornando-as parte de um processo de desenvolvimento foi um veículo jornalístico que assumiu como prioridade a melhoria do homem através do conhecimento.

Filho do Iluminismo e parceiro do Romantismo, polígrafo e poliglota, encarniçado inimigo da tirania, da escravidão, da intolerância, Hipólito defendia o secularismo e a liberdade de opinião e de crença. Não era um panfletário truculento, dado a tiradas desabridas, como muitos de seus contemporâneos e sucessores, mas um argumentador firme, convicto e convincente. Graças a esses dotes consegue ser o inspirador das oposições (no Brasil e Portugal) e, ao mesmo tempo, incentivador de ações governamentais.

Editou, escreveu e revisou sozinho todas as 175 edições do seu mensário pensando apenas na utilidade dos conceitos que veiculava. A distância e o tempo não lhe permitiam ser o "primeiro despertador da opinião pública nos fatos". Detinha a exclusividade e a primazia da informação mas não se deixou levar pela arrogância. Preferiu reportar minuciosamente o turbilhão que envolvia a Europa napoleônica e que tanto influiu no futuro da Ibero-América. Apostou na difusão das ciências e das artes. Queria construir.

Nestes 193 anos que nos separam da primeira edição do Correio Braziliense tudo mudou: o mundo é um pontinho no cosmo, aplastaram-se as singularidades, as folhas públicas ganharam tanta importância que se confundem com o espetáculo público, a velocidade converteu-se em finalidade e turvou-se a própria noção de utilidade – palavra-chave da profissão de fé do patriarca.

Permaneceu um Paradigma Hipólito. Um homem com suas palavras, um redactor com suas idéias, um patriota com seus projetos.

...Feliz eu se posso transmitir a uma naçaõ longinqua, e socegada, na lingua que lhe eh mais natural, e conhecida, os acontecimentos desta parte do mundo, que a confusa ambiçaõ dos homens vai levando ao estado da mais perfeita barbaridade...

(*) Publicado originalmente com o título "O Paradigma Hipólito", copyright Jornal do Brasil, 16/6/01



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