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COBERTURA
Espetáculo de dissimulação
José Antonio Palhano
A recente passagem do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, pelo prestigiado Roda Viva traz à lembrança uma outra sua sentada, esta na sabatina do Senado, ocorrida há poucos meses. Apesar de sermos assumidamente um povo desmemoriado, vale a pena recordar aqueles emocionantes momentos que nos foram proporcionados por alguns titulares daquela egrégia Casa, na ocasião acometidos de inaudito fervor moralista (e de uma intestina e inesperada crise de compostura).
Quando menos para ressaltar a medular e assustadora abulia das nossas maiores redações por acontecimentos tão escandalosamente didáticos no que se refere aos costumes políticos tupiniquins (e conseqüentemente ao inefável fervor cívico com o qual tocamos a nossa normalidade institucional). O silêncio tumular que se estabeleceu de lá para cá, simultaneamente à volatilidade conceitual com que batizamos e rebatizamos Fraga, alçado da mísera condição de sacripanta-globalizado-impatriótico-a-soldo-do-Grande-Pirata-Especulador ao solene posto de autoridade-monetária-idônea-plenamente-reconhecida-e-assimilada, berra a plenos pulmões por um pingo que seja de sensatez e comedimento.
Ou por uma misericordiosa atenção da parte de nós, fazedores e leitores de jornais, uma minoria mixuruca há muito já convencida de que está dispensada de fazer coisas caretas e inócuas tipo "dar o exemplo" a uma choldra desde sempre tida como irrecuperável.
Na maior felicidade
Imaginemos então, já que no mundo do faz-de-conta não é preciso se preocupar com isso, alguém como um jovem estudante, cheio de energia e de vontades (e de crenças mil no nosso Brasil).
Suponhamos que tenha assistido àquela histórica e canibalesca performance dos tais senadores, competentemente liderados por Roberto Freire e Saturnino Braga. Na certa nosso fictício e inocente telespectador foi dormir naquela noite plenamente convencido de que Armínio Fraga não passava de um tremendo picareta, despachado para cá pelas forças do Mal a fim de sugar nossas reservas. Não sem antes agradecer aos anjos e ao seu santo protetor pela graça do seu país contar com semelhantes homens públicos, autênticos e devotos vigilantes (ou seguranças, expressão mais in) da moral e do patrimônio público, capazes de desmascarar o bandidão assim tão sem contemplação e via satélite.
No outro dia, pela manhã, o rapaz já no banheiro especula sobre o cruel e justo destino reservado ao malvado Fraga. Ora imagina-o apodrecendo numa carceragem imunda da Zona Norte, ora prognostica-o amargando o exílio em Canapi, hospedado em casa de algum parente de madame Rosane. Ao chegar à banca para dar uma olhada nas manchetes dos jornais, toma um baita choque com a notícia de que o pilantra financista e entreguista, ao contrário da sua torcida, tomaria posse na maior felicidade.
O tempo passa, o tempo voa (e os ingleses se apoderaram do Bamerindus numa boa) e o nosso jovem, se já compreensivelmente um pouco mais amadurecido, ainda persiste na mesma e valiosa condição etária. O que andará pensando?
Rublo furado
Não deve ser lá muito fácil para ele continuar acreditando tanto em seu país. Afinal, o tal Fraga está no Banco Central até hoje. Pior: deu lá um jeito nas coisas de uma maneira que o mundo inteiro o aplaude. Domou o câmbio, nocauteou a inflação que vinha desavergonhadamente botando as manguinhas de fora e inseriu o Brasil novamente na agenda financeira mundial.
Mas será que o nosso rapaz ainda pensará tanto em Armínio Fraga? Periga estar mais é encucado com aqueles senadores outrora tão arrebatados e chocalheiros. Por que será que estão tão quietos? Já não seria hora de apresentarem um destruidor e definitivo dossiê contra Fraga? Afinal, ele já está há tanto tempo no Banco Central... Pelo que falaram dele na sabatina, imagina o que já não teriam aprontado por lá.
Decididamente o nosso personagem ainda tem muita coisa para aprender. Entre as quais constatar que grassa no Senado uma epidemia de baixa estima de proporções jamais vistas, capaz de fazer com que gente como Roberto Freire e Saturnino Braga paguem, mais quietos que à época em que a ditadura os amordaçava sem dó, um mico desta natureza.
Alguma força desconhecida submete-os a uma humilhação infinitamente maior que aquela que quiseram impingir a Armínio Fraga. Prestam-se a um espetáculo de dissimulação jamais pensado nem pelas mais recalcitrante e sangrenta direita: na moita, sem imprensa para encher a paciência, fantasiam-se de moedas podres ambulantes, cujos escrúpulos morais não valem um rublo furado. Enquanto isso, Antônio Carlos Magalhães e Michel Temer, eternamente agradecidos, tocam o expediente.
Continua valendo, enfim, a definição dada a Saturnino Braga por Millôr Fernandes: o homem que desmoralizou a honradez. A dupla agora caprichou ainda mais: desmoralizou-se a si própria.
Mas aquele nosso jovem não está nem aí para essas abobrinhas. Ele agora só liga a TV no programa do Ratinho.
JORNALISMO NA ILHA
A imprensa cubana
e o fenômeno jurídico
Beatriz Wey (*)
Como todo jornal, o Granma funciona como um filtro diante da infinidade de informações disponíveis. O ato de selecionar, hierarquizar e organizar o que se considera mais relevante não é privilégio da imprensa cubana, mas uma realidade dentro de todas as sociedades mediadas pelos meio de comunicação.
Neste momento não me aventuro a questionar se o papel do Granma tem sido desempenhado corretamente, tampouco a forma como esta imprensa se apresenta há 34 anos, pois creio que já o fiz em outra oportunidade. Espero agora avaliar as escolhas diárias que atuam como mecanismos para a prevenção e a composição de conflitos que emanam do meio social.
Um dos aspectos que servem melhor para exemplificar esta questão refere-se à forma como o Granma tem procurado aproximar o leitor do universo jurídico. Aparentemente, este é apenas um dos temas disponíveis para que o Estado, através de seu órgão oficial, possa gerar uma maior credibilidade no próprio Parlamento. No entanto, se analisarmos alguns aspectos dessa postura veremos que ela não pode ser compreendida tão superficialmente. Se por um lado, ao criar um espaço para a divulgação dos trabalhos realizados pelos órgãos legiferantes, ela reproduz um suposto discurso democrático, por outro, ao aproximar o leitor do direito, revela seu intuito de provar a eficácia das leis – seja porque são legitimadas pelas autoridades responsáveis, e em conseqüência estão condicionadas ao sistema de governo do país, seja porque existe infra-estrutura suficiente para colocá-las em prática.
Código vigente
O ato de divulgar o que está sendo alterado ou mantido é uma forma de tornar público o que deve ser respeitado e aceito, o que é de direito e o que é de dever. Em suma, fazer da justiça algo acessível e transparente, uma tarefa impossível de ser realizada pelas próprias instituições que compõem a justiça, em vista de suas atribuições e de sua linguagem, distantes da realidade de boa parte do povo.
Ora, poderíamos nos indagar se esta não é só mais uma forma de fazer valer uma situação já ganha mas difícil de ser sustentada. Sinceramente, creio que não. Normalmente não existe interesse algum por parte da imprensa em democratizar as informações referentes à justiça, ainda que estando de acordo com o sistema de governo, ou sendo o próprio governo. Há muitos outros caminhos para defender um sistema que não este. Ao fazê-lo, o Granma se destaca mais uma vez, diferenciando-se das demais imprensas.
O que normalmente lemos na imprensa escrita sobre a justiça é algo que não pode mais ser escondido – nestes casos, os órgãos estão envolvidos em algum tipo de escândalo. No entanto, no Granma a lei aparece como um dos caminhos plausíveis para os indivíduos compreenderem o universo a que estão subjugados. Este posicionamento não é uma forma simples de traduzir o direito como controle social externo, mas de aproximá-lo daquele que o usufrui, querendo ou não.
Ainda que tais leis não sejam convenientes para a sociedade cubana, esta tem o direito de conhecê-las e, a partir de então, questioná-las. Por mais que seja improvável alterar a legislação em Cuba, o fato de conhecê-la é meio caminho para buscar uma transformação. Duvidar disso é duvidar do poder da opinião pública.
No entanto, não me parece ser essa uma prática comum da imprensa de forma geral, pelo menos não se nos reportarmos à nossa realidade. A exemplo disso podemos citar o Poder Judiciário, tão em voga em função de uma CPI, mas totalmente esquecido com relação às reformas que deve sofrer, reformas que estão engavetadas há anos e que ninguém ousa comentar profundamente. Pouco ou quase nada sabemos sobre as reformas do Judiciário. No fundo, nada conhecemos sobre a nossa legislação e menos ainda sobre as alterações que deve sofrer para melhor funcionar.
Mesmo que o cubano não tenha poder algum para transformar o código vigente (coisa que nós brasileiros também não temos), a ele, todavia, cabe o direito de estar informando sobre o assunto. Será que não divulgam nossas leis simplesmente para que elas não sejam cumpridas? Em Cuba, pelo interesse do governo de colocá-las em prática, há diariamente relatórios sobre o universo jurídico.
Normas de conduta
Não acho que a resposta seja tão simples visto que o direito, mais que um mero instrumento do Estado para a reprodução de um modo de produção, é também o resultado de uma realidade social condicionante, que em grande número de casos transforma o costume em direito positivo, acolhido e institucionalizado nas leis que os órgãos da sociedade editaram – além de emanar das associações e sindicatos, criando obrigações e deveres intragrupais não-oriundos dos órgãos do Estado, mas que por vezes possuem força coativa superior às que o são e prevalecem em casos de conflito.
Desta forma, vale salientar que mesmo agindo em prol da manutenção da ordem instituída, o Granma tem assumido o compromisso de divulgar cada nova lei e até mesmo analisá-la.
Ao traduzir com certa freqüência o direito como um bem adquirido que direta ou indiretamente lida com situações conflitantes, essa imprensa prioriza, ao menos neste aspecto, o conflito e sua composição, fazendo do direito algo público.
Cabe repensarmos o quanto tem interessado à nossa imprensa a omissão em sua tarefa de tornar público o que é de interesse público, e de mostrar o quanto a justiça pode nos beneficiar se soubermos interpretá-la adequadamente. A exemplo disso, podemos citar o Estatuto da Terra – quanto maior a pressão social e seu grau de contradição, maiores as possibilidades reais para que haja uma verdadeira reforma agrária.
Que fique claro nesta sintética exposição que não estou defendendo o conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais em Cuba ou no Brasil, mas sim a possibilidade de conhecermos mais do que escândalos de corrupção que envolvem instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições; ou seja, de conhecermos a fundo as nossas próprias leis e suas reais limitações.
Se não cabe à imprensa realizar a tarefa, quem mais poderá fazê-la?
(*) Mestre em Ciências Sociais e integrante do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC/SP
GRANMA
Resposta de B.W. a Sandro Vaia
Lamento, por motivos pessoais, não ter respondido anteriormente às críticas que o senhor me enviou. Embora eu tenha sido por demais bem representada pelo coordenador Miguel Chaia, a quem muito admiro e respeito, me disponho agora a comentá-las e desde já agradecer sua contribuição ao engradecimento do meu trabalho.
Decerto que, ao escrever sobre o Granma, estamos nos referindo a um tipo de jornalismo muito singular, que por apresentar uma linguagem própria, com significados específicos e limites visíveis, parece por vezes se aproximar de um outro gênero literário que não o analisado por nós neste contexto. No entanto, este fator não compromete a nossa postura de enfrentar os desafios para melhor compreendê-los, tampouco o desqualifica como imprensa escrita. Em outras palavras, se não consideramos como fazendo jornalismo aqueles jornais que sustentam um projeto político do Estado, como o Granma, ou de um grupo econômico qualquer, estaremos restringindo o jornalismo apenas aos jornais abertamente informativos, o que limitaria demasiadamente o conceito que temos do que é jornalismo.
O desafio de interpretar o Granma além de seu papel de um "mero instrumento do Estado", como o senhor mesmo coloca, é abrir uma porta para detectar os comportamentos sociais a ele inerentes, comportamentos que traduzem uma certa ideologia e compõem as bases de construção de um imaginário nacional.
Ao qualificar o Granma como um "tedioso e soporífero boletim oficial de um governo totalitário", o senhor perde a oportunidade de avaliar as referências às quais esta imprensa está pautada e, por conseqüência, de detectar as repercussões na sociedade cubana.
Devo ressaltar, finalmente, que, ao estudar uma forma de exercício do jornalismo, tenho me debruçado a analisá-lo sob diversos ângulos, acreditando que o trabalho científico não deve ser precipitado e simplista.
Espero em breve ter a oportunidade de escrever mais sobre este tão instigante jornal e demostrar que é possível extrair do Granma mais do que chavões tão conhecidos por nós. Beatriz Wey.
Resposta de S.V. a B.W.
Professora Beatriz, em uma coisa pelo menos concordamos: o jornalismo do Granma é, de fato, "singular". E a edição de hoje, dia 15/6, está mais "instigante" do que nunca: a manchete é a íntegra do discurso do comandante-em-chefe no encerramento do Congresso Internacional de Cultura e Desenvolvimento, pronunciado no dia 11. Realmente, o conceito que temos de jornalismo é diferente. Até mesmo na velocidade da transcrição das notas taquigráficas. O trabalho científico do governo de Cuba para construir o "imaginário nacional", assim como o trabalho científico da professora, não deve ser nada precipitado e simplista. Tanto que são necessários quatro dias para conseguir juntar numa edição só a torrente de palavras do caudaloso chefe.
Pena que eu perca a "oportunidade de avaliar as referências às quais essa imprensa está pautada". Mas não se preocupe: eu desconfio quais sejam essas "referências". Atenciosamente, Sandro Vaia.
TV ALELUIA
O grande barato
do fundamentalismo
Wagner Guerra (*)
A direita cristã no Brasil já não se contenta em usar a política com o objetivo de manipular a população, dominando apenas as escolas católicas ou evangélicas. Eles pretendem, fulminantemente, dominar a mídia. Basta ligar a televisão em determinados canais para ver o incrível poder que esses grupos estão exercendo sobre as pessoas. Em países de economia crescente, empregos sobrando e toda uma perspectiva de futuro, duvido que essa pretensão ortodoxa e alienadora sobreviva.
A sociedade moderna americana é um exemplo. Acho muito difícil essa tal idéia unificadora de quererem meter em nossas cabeças, através da mídia, um estilo de comportamento apregoado por eles de "correto". Infelizmente há fatores mais realistas que suscitam essa unificação. Miséria, fome, desemprego, que é o grande barato no Brasil, constituem-se bases de sustentação intrínsecas às igrejas evangélicas. É por isso que elas estão em ascensão. Milhares de pessoas passam a freqüentar essas "empresas da fé" atrás de dias melhores.
Aqui mesmo no Brasil ocorre um sucesso extraordinário: as igrejas se apropriando das concessões de rádio e televisão, a opulência do grupo Edir Macedo exorcizando, em horário nobre, o dinheiro estirpado dos crédulos pecadores e, recentemente, a audácia da autodenominada "perua de Cristo", aquela senhora do programa Renascer, que fala toda engraçada de Cristo, como se fosse uma espécie de amante dele. "Ô, meu Cristo, meu amor...". Quase que essa mulher leva a TV Manchete para o reino de Deus.
Essas igrejas estão transformando a religião numa espécie de paraíso possível na terra. Estão oferecendo não mais felicidade post mortem, mas uma felicidade em que, se o sujeito pagar o dízimo, se obedecer a Deus, ele pode colocar aquele paletozinho e aquela gravatinha "caretas" e prometer shoppings centers e aumento de salário aos ignorantes.
"Mais felizes"
Apesar da péssima situação financeira do brasileiro, as igrejas evangélicas, principalmente as picaretas, assaltantes da miséria do povo e recolhedora de grana dos mais vulneráveis, são vistas com bons olhos. "No meio dessa desgraça é até meio aceitável pagar o dízimo. O cara pára de beber e bater na esposa, a mulher deixa de ser prostituta e os meninos começam a estudar. Isso cria uma unidade mínima, já que a comunidade brasileira é jogada às baratas pelo governo federal", afirmam. Dessa forma, as igrejas evangélicas estão criando comunidades aglutinadas: "As pessoas se sentem mais felizes, mais assistidas", dizem.
Embora achem a igreja evangélica ridícula, causadora de alienação, hoje em dia os sociólogos apoiam essas igrejas por organizarem socialmente as comunidades desgraçadas.
A igreja católica também não fica muito atrás. A bendita religião faz campanha contra o aborto, enquanto milhares de mulheres brasileiras morrem por ano cometendo esse pecado em recintos clandestinos. O problema da CNBB é ficar se metendo onde não é chamada. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil insiste em nortear o Ministério da Fazenda, enviando diretrizes econômicas. Opinam em aumentar ou diminuir o dólar, se o país tem que ter "desenvolvimentismo" ou não.
Diante desse vácuo, as igrejas evangélicas se beneficiam, pois no seu plano administrativo não tem interesses na política, atrasando ainda mais o seu progresso.
(*) Estudante de Jornalismo da UnP, Natal

Imprensa cubana e imaginário nacional
O jornalismo do Granma
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