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INFORME PUBLICITÁRIO
Ainda a questão do
jornalista/garoto-propaganda
A.D.
O N de Notícia agora apresentado por William Bonner (Globonews) deu seqüência ao tópico levantado na capa de nossa última edição sobre a participação do jornalista Paulo Henrique Amorim no informe publicitário que apresentou a megafusão cervejeira [veja remissão abaixo].
Bonner teve a gentileza de convidar este Observador para participar do programa que foi ao ar na semana 11-16 de julho. Antes de encerrar, fez uma pergunta aos três participantes mais ou menos nestes termos:
"Quem deve zelar pela ética jornalística o profissional, a empresa ou o público ?"
Este Observador foi claro a conduta profissional é uma questão que diz respeito primeiramente ao profissional, questão de foro íntimo.
E por que não à empresa jornalística ?
Simplesmente porque está voltada para o mercado. Ela compõe a mídia, ou, para sermos exatos, o sistema mediático um universo de interesses hoje distanciado das premissas e pressupostos que haviam transformado o jornalismo em Quarto Poder.
O jornalista pode ser agente e instrumento desse sistema mas, não obstante, ele também é o responsável e zelador dos seus valores e crenças. As empresas não admitem que seus empregados apresentem mensagens porque estão apenas interessadas em preservar uma imagem que lhes pertence. É domínio seu, das empresas. Seus cuidados são comerciais legítimos certamente mas os cuidados do jornalista são morais.
As empresas admitiriam que jornalistas fizessem comerciais ou anúncios sobre ela própria? Jornalistas e âncoras da CNN acedem em fazer propaganda institucional do seu canal, o que não acontece com os grandes âncoras das redes abertas da TV americana.
A maioria das nossas empresas jornalísticas permite que seus jornalistas recebam um cachê para fazer conferências ou apresentar eventos. Mas muitos jornalistas mesmo prestadores de serviços, não contratados acham que não é correto. Receber pagamento por uma palestra cria vínculos e dependências (claro que isso não inclui aulas em universidades ou programas de treinamento).
O debate merece desdobramentos.
VIDA DE JORNALISTA
"Reaja ou se demita" (*)
Moisés Rabinovici (**)
(*) "Reaja ou se demita" foi o conselho de uma psicóloga a quem recorri mais como paciente do que como repórter. Reagi escrevendo. A IstoÉ quis para capa. Saiu a capa, mas não o texto. Só soube que o texto não sairia no feriado de sexta-feira, à tarde. Podiam ter me avisado antes. Reagi mais uma vez. Mandei o texto para o Clóvis Rossi. Ele o passou adiante dentro da Folha. Ia sair no domingão. Mas a Folha me pediu para adiá-lo para a próxima quinta-feira. E fazer uns cortes. E despersonalizar a abertura, que não está personalizada. Os pedidos não foram uma condição. Mas não topei. Com a IstoÉ na banca, que sentido teria um texto despersonalizado, cinco dias depois? Ei-lo:
Quando nos conhecemos, num jantar em Nova York, meu novo chefe foi dizendo: "Você é o nosso melhor correspondente." Mas logo ele iniciou um perverso processo para me tirar dos Estados Unidos. Quando nos reencontramos em 1998 num novo emprego, ele em São Paulo e eu em Paris, trocamos dois e-mails: "Nosso homem em Paris", ele titulou o primeiro. E ao se tornar de novo meu chefe, mandou o segundo: "Conto contigo." Mas logo começou a me boicotar, excluir e humilhar, perseguindo a minha demissão.
Qualquer chefe tem o poder de demitir quem não queira. Mas torturar, não. A dose dupla de tortura de que fui vítima me levou à pesquisa de um fenômeno no mundo do trabalho batizado de bullying (tiranizar), na Inglaterra; mobbing (molestar), nos Estados Unidos; harcèlement moral (assédio moral), na França; e murahachibu (ostracismo social), no Japão.
Algumas vítimas se matam. Outras são tratadas com antidepressivos ou tranqüilizantes. Muitas pedem demissão e renunciam a direitos de indenização, dando a vitória ao bully, o tirano. E há as que resistem. A primeira pessoa a denunciar a tirania nas relações de trabalho foi uma jornalista inglesa, Andrea Adams. Ela escreveu dois documentários para a BBC Rádio 4, de Londres, que provocaram uma enxurrada de cartas de ouvintes. A inesperada repercussão a levou a publicar um livro, Bullying At Work, em 1992. Até alguns dias antes de morrer, com câncer, em 1995, ela fez campanha para tornar o psicoterrorismo no trabalho um delito como o assédio sexual.
"Ir ao trabalho é como entrar na jaula de um animal imprevisível para enfrentar outra semana de crucificação profissional", disse Adams em seu último discurso, num sindicato, em maio de 1994. Um drama clandestino sofrido por um mínimo de 12 milhões de europeus, segundo uma pesquisa pioneira da Organização Internacional do Trabalho, em 1996, e pela média de 2 milhões de americanos por ano, incluindo assaltos contra taxistas, na estatística de 1998 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. No Japão, uma experiência telefônica, a "bullying hot-line", atendeu a 1.700 consultas num só mês. Como o poder de um tirano se mantém pelo medo que cala suas vítimas, impossível medir o fenômeno em escala mundial.
Há inúmeras formas de tiranizar um empregado. Adams as resumiu em alguns exemplos: marcar tarefas com prazos impossíveis; passar alguém de uma área de responsabilidade para funções triviais; tomar crédito por idéias de outros; ignorar ou excluir um funcionário só se dirigindo a ele através de terceiros; segurar informações; espalhar rumores maliciosos; criticar com persistência; e subestimar esforços. O processo é lento. As agressões, sutis. As reclamações serão interpretadas como choque de egos, atribuídas a uma nova forma de administração, à reorganização, reengenharia, ou rejeitadas. Não há lei que não a do mais forte. Uma psiquiatra francesa, Marie-France Hirigoyen, escreveu o livro Le harcèlement moral: La violence perverse au quotidien (O assédio moral: A violência perversa no cotidiano). Os cinco mil exemplares da primeira edição esgotaram-se rapidamente. Outros 60 mil, em janeiro. O livro vai aparecer em português, editado pela Bertrand Brasil, depois de traduzido para doze idiomas. A revista Le Nouvel Observateur consagrou-lhe uma capa: "Esses colegas e patrões que o deixam louco". Os colegas entram no título como cúmplices: temem pelo emprego. Quem for solidário com uma vítima poderá se tornar a próxima.
Hirigoyen traça o perfil do tirano. É um "narcisista perverso", que acha o próprio equilíbrio descarregando em outro a dor que não consegue sentir e as contradições internas que se recusa a perceber. Um sanguessuga: procura fora de si a substância para sua vida. Tem um senso grandioso da própria importância. Vive absorvido em fantasias de sucesso ilimitado e de poder. Pensa ser especial e único. Precisa muito de admiração. Acha que tudo lhe é devido. Inveja os outros. Comporta-se com arrogância. Explora todos nas relações interpessoais. E posa de referência, de padrão do bem, do mal e da verdade.
As vítimas são impotentes? Nada podem fazer? perguntei a Hirigoyen.
Elas têm que aprender a se proteger, a dizer não respondeu.
Mas, como?, com o desemprego em alta?
Há um momento em que a opção é a saúde mental ou o emprego. Tenho uma paciente que se demitiu para preservar sua personalidade.
A vítima fica só, sem a solidariedade dos colegas...
Solidariedade não existe, é cada um por si.
Golpes mesquinhos
"Aqueles que podem, podem. Os que não podem, tiranizam" proclama na Internet o Bully OnLine (www.successunlimited.co.uk), criado por Tim Field, autor de Bully in Sight (Tirano na Mira), guia que ensina a prevenir, resistir e combater o assédio moral no trabalho. Ele acrescenta atributos ao mais comum dos tiranos, os que praticam serial bullying, a destruição em série de empregados. É vingativo, quando só, mas inocente, diante de testemunhas. Médico e monstro, como Jekyll & Hyde. Mente compulsiva. Torna-se agressivo, se chamado à responsabilidade.
Só existe legislação para proteger as vítimas de assédio moral na Suécia, na Alemanha, na Itália, na Austrália e nos Estados Unidos. A Organização das Nações Unidas (ONU) anexou à Declaração dos Princípios Fundamentais de Justiça uma nova e abrangente definição de vítima. "Vítimas são as pessoas que, individual ou coletivamente, sofreram um dano à sua integridade física ou mental, um sofrimento moral, uma perda material, ou uma ofensa grave a seus direitos fundamentais, como conseqüência de atos ou de omissões que ainda não constituem violação da legislação penal nacional, mas que representam violações de normas dos direitos do homem reconhecidas internacionalmente".
As vítimas brasileiras da guerra de nervos no trabalho estão perdidas. Um chefe pode abusar do poder impunemente. Ou o empregado se submete à lenta destruição por golpes mesquinhos e covardes, que acabam acertando toda a sua família, ou vai embora. "O silêncio e o vazio cercam aos poucos a pessoa visada", diz Hirigoyen. "Às vezes, a solidão é tal que vira rápido um drama". Mas ela pergunta à "sociedade cega diante desta forma indireta de violência":
Não nos tornaremos cúmplices, por indiferença?
Conhecimento de causa
Primeiro da turma de 1975 de Ciência da Computação na Universidade Staffordshire, na Inglaterra, Tim Field especializou-se em assédio moral no trabalho, na prática, ao ser forçado a sair de um emprego, em 1994. Hoje, ele mantém um serviço de aconselhamento por telefone e na Internet, escreve livros e dá consultas a empresas e sindicatos. Entre seus clientes ingleses estão vários departamentos de Polícia, o Correio, o Ministério da Defesa e algumas universidades.
Depois de responder a 3 mil telefonemas e receber 26 mil visitas no seu site da Internet, Tim Field chegou aos conselhos básicos para quem quiser reagir a um chefe tirano. Aqui, um resumo dos que se aplicariam às vítimas brasileiras.
- Lembre-se de que um chefe tirano projeta em suas vítimas as próprias fraquezas profissionais e morais. Assim, não as introjete;
- Sentir vergonha, dificuldade, culpa e medo é uma reação normal, mas imprópria se render ao tirano o controle e o silêncio de sua vítima;
- Não se pode enfrentar sozinho um chefe tirano. Procure ajuda. Consulte o departamento médico de sua empresa;
- Aprenda o máximo que puder sobre assédio moral no trabalho;
- Supere toda a falsa percepção sobre assédio moral, como a de que se trata apenas de uma forma dura de chefiar, ou de reorganização empresarial;
- Anote tudo. Não é um único incidente que conta, mas a regularidade com que acontece, o seu padrão e o conjunto;
- Guarde cópia de cartas, memorandos e e-mails;
- Faça um diário com as reclamações e críticas do chefe tirano. Se puder obtê-las por escrito, tanto melhor. Se as tiver pedido, e não for atendido, registre. A repetida recusa de justificar ou substanciar faltas cobradas pode ser usada como prova de assédio;
- A tiranização no trabalho estressa. Se o médico a diagnosticar, que inclua a causa as condições no local de trabalho;
- Reclame do assédio moral ao escalão superior. Mas, cuidado: em geral, o tirano é que receberá o apoio de cima;
- Não se deixe levar pela armadilha da saúde mental: os sintomas e efeitos do assédio moral são uma lesão psiquiátrica, não doença mental;
- Uma licença-médica deve ser registrada como acidente de trabalho, e a sua causa, a opressão do chefe tirano, denunciada ao empregador;
- Se o chefe tirano fizer suas críticas em público, procure um advogado para adverti-lo, por carta, de que ele é passível de processo por difamação e calúnia;
- Considere demitir-se como uma decisão positiva, uma opção entre saúde e emprego;
- Se forçado à demissão, denuncie a causa ao empregador, por escrito, e oriente-se com um advogado antes de assinar qualquer documento;
- Considere tornar público o seu caso.
GUIA DE NAVEGAÇÃO
Os autores do livro Work Abuse: How to Recognize and Survive it (Abuso no trabalho: Como reconhecer e sobreviver), Judith Wyatt e Chauncey Hare são conhecidos em <www2.netcom.com/~workfam1>;
"A campanha contra o assédio no emprego", uma organização sem fins lucrativos nos Estados Unidos, fundada pelos autores do livro BullyProof Yourself At Work (Proteja-se do Assédio no Emprego), tem um completo site na Internet: <www.bullybusters.org>;
Uma associação finlandesa antiassédio a crianças na escola passou a dar conselhos também a adultos: <www.kiusattujentuki.fi>;
<www.uow.edu.au/arts/sts/bmartin/dissent/> é um site australiano;
Na Irlanda: <www.clubi.ie/killick/cab/>;
Na Austrália: Beyond Bullying Association, <www.davdig.com/bba/>;
Na África do Sul: <www.voiceclinic.co.za>;
Na Itália, um site do escritor Harald Ege: <http://aziende.iol.it/prima>;
A violência no local de trabalho ganhou um site no Departamento de Polícia de Sacramento, nos Estados Unidos, fundado por Larry J. Chavez: <www.workplace-violence>;
sindicato suíço dos Serviços Públicos, em Lausanne, criou uma página na Internet sobre mobbing, que traduz por "terrorismo psicológico". Em <www.vpod.ethz.ch/f/mobbf.htm> há definições, conselhos e história do assédio moral no trabalho, "tão antigo quanto o próprio trabalho";
professor de Psicologia e Ciências do Trabalho Heinz Leymann, alemão vivendo na Suécia desde 1955, já tratou de mais de 1.300 vítimas de assédio moral. Ele mantém um supersite na Internet, o "Mobbing Encyclopedia", <www.leymann.se/English/frame.html>, resultado de 20 anos de pesquisas.
(**) Ex-correspondente de Época em Paris.
ARTIGO 222
Quem será o dono?
Carlos Tautz (*)
O Congresso estuda mudança da legislação sobre o controle acionário das empresas de comunicação no Brasil. Mas como a sociedade pode garantir o controle sobre os conglomerados da informação, cujos proprietários ninguém sabe quem são?
O Congresso Nacional está para votar uma nova legislação sobre a participação eventualmente, até o controle acionário do capital estrangeiro nas empresas de comunicação nacionais. Os poucos comentários que se lêem a respeito variam do corporativismo ao colonialismo mental disfarçado de realismo econômico. Os dois tipos de análise servem prestativamente aos proprietários de rádios, TVs, jornais e revistas que andam muito mal das pernas. Alguns, inclusive, precisam desesperadamente dos caraminguás que os estrangeiros pingarão na conta da famiglia controladora.
Falta analisar como essa medida, se implementada, vai impactar o país nas suas relações internacionais, visto que o crescimento da indústria da informação visa a alcançar escala pelo menos latino-americana. Mais capital estrangeiro nos meios de informação de massa não irá prejudicar o processo de formação da civilização brasileira?
Como garantir que a multifacetada e pluriétnica cultura nacional seja valorizada em suas inúmeras manifestações, diante de produções que os capitais chegantes certamente trarão de seus países de origem? Em sua maior parte estadunidenses, essas peças quase sempre estão voltadas para a superficialidade, o consumismo patológico e a estigmatização de tudo que foge do padrão capitalista-branco-ocidental-católico-adulto-machista.
São características que divergem da miscigenação étnica e cultural e concentração de renda aprofundadas que se verificam no Brasil ainda que esse país continue a alimentar racismos e preconceitos econômicos subliminares. Quem garante que a injeção de recursos virá acompanhada da obrigatoriedade de produção jornalística e artística local? Há formas de evitar a veiculação de tipo jornalística tradicional em cadeias de TV estadunidenses que misturam informação e entretenimento?
O senso comum entre os que estão informados a respeito é que a capitalização das empresas geraria mais empregos. Haveria mais produção e, automaticamente, mais postos de trabalho para uma categoria que os vê desaparecerem rapidamente. Pelos exemplos do que já ocorreu em outras áreas que se escancararam à entrada de capital estrangeiro, não é isso o que acontecerá.
Essa visão ignora o que ocorre nos setores de telecomunicações e de energia, nos quais a chegada de grandes grupos estrangeiros, durante o tucanato de Fernando Henrique Cardoso, capou milhares de empregos e substituiu os funcionários mais qualificados por nacionais dos países de origem das empresas controladoras. Em todas as companhias vendidas a grupos não-brasileiros, boa parte dos cargos de gerência a direção está ocupada por franceses, espanhóis, portugueses, chilenos etc., dependendo da nacionalidade dos grupos majoritários. Essa é a lógica xenofóbica do capitalismo da escala global.
Os que defendem essa tese não percebem que os departamentos de jornalismo das empresas localizadas fisicamente no Brasil passarão a ser meros tradutores de material produzido na sede dos conglomerados da comunicação. Mercados globais significam produção centralizada e em escala igualmente global. Do ponto de vista da lógica empresarial, é um método mais barato, rápido, produtivo e convergente com a visão de mundo dos controladores das empresas, que estariam sediadas em países cujos cidadãos têm sistemas mentais e paradigmas civilizatórios diferentes e às vezes até contraditórios aos nossos.
Do ponto de vista da democracia, dificilmente haverá pluralidade de opiniões, visto que a cartelização do setor é crescente nos centros do capitalismo nos Estados Unidos, década após década encolhe o número de grupos de comunicação de massa. Menos versões, menos material jornalístico, menos empregos. E menos democracia.
Em outro campo estão os que encaram a questão com a inércia típica dos acomodados. "Isso já é uma realidade hoje em dia", "o Grupo Time-Life construiu a Globo nos anos 60 e ninguém conseguiu fazer nada", "é um protecionismo para os grupos de comunicação já instalados no Brasil; por que não aplicar a esse setor a abertura instalada nas demais áreas da economia?", são alguns dos argumentos utilizados.
Fortemente baseados numa perspectiva corporativista, esses pensamentos erram ao ignorar o fato de que informação, por ser simbólica, não é uma commodity. É um bem de valor político e potencialmente democrático, estratégico e indispensável a um povo em processo de se constituir como nação. Isto se dá principalmente no caso brasileiro, em que os antropólogos observam traços civilizatórios humanistas e incompatíveis com as marcas sociais presentes em outras culturas como a anglo-saxônica, protestante e estrutural-funcionalista, de onde é quase certo que provirão os capitais que, em caso de aprovação da abertura, controlarão os meios de informação de massa no Brasil.
Mas cabe a pergunta: quem nos garante que toda essa tragédia não aconteceria de qualquer maneira? Mesmo que os controladores fossem nacionais, como assegurar que suas mentes não estejam colonizadas com valores alheios ao nosso modo de vida (como ocorre com a equipe econômica do governo federal, boa parte dela lobotomizada nos anos 70, na Harvard University)?
O Brasil não dispõe de meios democráticos de controle do conteúdo jornalístico e artístico constante nos meios de informação de massa. A sociedade brasileira ainda não colocou em prática o Conselho de Comunicação Social, como previsto na hoje esquartejada Constituição Cidadã de 1988. No máximo, o que se alcançou foi um mero instrumento de marketing dos cartéis da comunicação, articulados no Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária, o Conar.
Mas a diferença entre um patrão nascido no Brasil e outro, de nacionalidade estrangeira, é grande. Mal ou bem, os centros de decisão do sistema brasileiro de informação de massa ainda estão em território nacional e, portanto, sujeitos a leis criadas no parlamento brasileiro, lógicas de condução medianamente adaptadas à nossa realidade e principalmente na esfera da pressão social regional.
Em se internacionalizando o controle desses meios como pretende o empresariado e a parcela subserviente do Congresso Nacional , a sociedade brasileira perderá os fragilíssimos instrumentos de controle que exerce sobre a informação no Brasil. Em caso de dúvida, olhe para a lâmpada que periga não acender no verão carioca ou o celular que não funciona direito em São Paulo. Depois, pergunte: alguém aí conhece os donos verdadeiros da Light ou da Telefonica?
* A combinação, na prática imiscível, cria distorções e confusões. Acabou gerando entre pesquisadores estadunidenses desse fenômeno midiático a criação do termo híbrido infortainement, para designar a promiscuidade entre information (informação) e entertainement (entretenimento), principalmente nas programações televisivas. No Brasil, o exemplo mais notório é a proliferação dos talk shows (conversa-espetáculo, numa tentativa de tradução literal) Jô Soares Onze e Meia à frente. Mais recentemente, a indefectível Rede Globo plagiou e incrementou o paradigma, ao destacar o excelente repórter Marcelo Rezende para capitanear o Linha Direta. Nesse programa, misturam-se realidade e ficção, elementos cinematográficos e produção jornalística, confundindo e dificultando a análise crítica por parte da audiência.
(*) Jornalista
Nota da Redação: Prezado Carlos, até por dever de ofício é preciso contestar sua afirmação de que "os poucos comentários que se lêem a respeito [da abertura de capital das empresas de comunicação] variam do corporativismo ao colonialismo mental disfarçado de realismo econômico"(sublinhado meu). Este Observatório não se enquadra nessa generalização apressada: foi o primeiro a levantar a lebre e o único veículo a sustentar a discussão sobre o projeto de emenda constitucional que modifica o Artigo 222. Clique na estação Busca deste site, procure pela palavra-chave Artigo 222 e você verá (e lerá) o quanto aqui foi dito a esse respeito. Se tiver outra alternativa para as empresas jornalísticas brasileiras mergulhadas numa crise sem precedentes, para um processo de concentração antidemocrático e para um mercado de trabalho cada vez mais fechado, mande-nos suas idéias. (L.E.)
TELEVISÃO
Vocês querem bacalhau???
Teresa Barros (*)
Nos meus tempos de Colégio Pedro II (por volta da Era do Bronze), travei uma acalorada discussão sobre o programa do Chacrinha com um colega, Luiz Felipe Oiticica (por onde andará?). Oiticica, se não me falha a já deficiente memória, estava revoltado com o baixo nível do espetáculo, que considerava uma exploração descabida, um circo onde o povo incauto e desinformado levava um bacalhau de presente ou uma frustrante buzinada no sorriso desdentado. Meu colega considerava que a TV era um veículo de educação, e que se o nível popular era baixo, cabia ao veículo elevá-lo, transmitindo informação e entretenimento menos grotesco e humilhante. Eu, ao contrário, sob os efeitos de uma época de CPCs e glorificação do povo pelo povo, insisti em que a TV era um reflexo da sociedade, e que atender aos seus anseios fazia parte do negócio da televisão.
Tenho saudades do Pedro II, do Oiticica e do Chacrinha, num momento em que uma antiga discussão com um colega de turma mostra-se tão atual. A nostalgia se justifica diante do que vemos hoje na TV: Ana Maria Braga fazendo confidências sexuais no programa vespertino da Xuxa, o Sérgio (a propósito) Malandro humilhando moças em fio dental sobre touros mecânicos chacoalhantes, o Faustão exibindo vídeos caseiros em que bebês gracinhas esguicham fezes, programas pretensamente jornalísticos repetindo, a pedidos, gente pelada, inclusive o repórter, numa colônia de nudismo. Sem falar da maestria das tailandesas que fumam pela vagina. E de Regina Casé falando de peidos num elevador. E de Hebe "gracinha"... E de...
Pois bem. Eu estava errada e estava certa nos tempos do CPC. O programa sobre a colônia de nudismo desbancou a audiência; o Malandro dá picos, como se diz, e Ana Maria Braga promete desbancar todos esses picos, arrancando do Louro José muito mais do que as piadas sobre orgasmo feminino já exibidas antes da hora do almoço.
Oiticica, saudades! Você também estava certo e estava errado. Oh, Terezinha... Oh, Terezinha...
(*) Jornalista, autora, com Márcia Braga, de O bestiário do emprego (Ed. 34/SP)
500 ANOS
Descobrimento e a mídia
Ceci Maria A. Honório
Pegando carona na comemoração dos 500 anos "dourados" do Descobrimento, a mídia tem aberto um espaço maior aos povos indígenas. Mas que espaço é este? Em um exemplar da Folha de S.Paulo deste mês [julho], localizo logo a notícia da invasão: "Índios invadem os programas infantis".
Acho que entre descobrir, comemorar e invadir há diferenças.
Consultei, então, alguns verbetes do nosso velho Aurélio para entender melhor essas diferenças (ou não) semânticas. Destaquei alguns sentidos:
Invadir: entrar à força ou hostilmente em, ocupar à força, conquistar;
Descobrir: tirar a cobertura, véu, aparecer à vista, dar a conhecer;
Comemorar: trazer à memória, fazer recordar, lembrar, festejar.
Bem, voltemos à notícia. Informa a Folha que a invasão se dá por ocasião da comemoração do programa Disney Clube nΊ 500, do SBT.
Ora, parece que é isso mesmo: este é o ano de se comemorar invasões! Afinal, não foi isso o que aconteceu há 500 anos? O Brasil não foi invadido? Vamos então comemorar?
Conta a história oficial que os portugueses descobriram o Brasil. E, agora, os índios invadem a TV. E quem comemora? O que se comemora?
Os povos indígenas têm já afirmado sua posição quanto a este fato: não têm motivos para comemorar. Então, nos perguntamos: será que a mídia tem contribuído para que a população brasileira compreenda a indignação e a luta destes povos?
É fato que a mídia em geral tem tematizado com mais freqüência a questão indígena. Muitas informações e muitas imagens. Muitas linguagens... Será que agora "todo dia é dia de índio"? Na imprensa, o índio romantizado e folclórico continua alvo de repórteres fotográficos. Congelando imagens do tipo "retrato", regadas a pena, luz e cores, estes profissionais têm contribuído, de certa forma, para a cristalização e perpetuação da imagem do "índio" genérico. Antigas fantasias (européias) do Brasil que se espalham no olhar dos brasileiros.
Sem falar nos outros "caras-pálidas" que se fantasiam de índio e teatralizam a "suposta" vida indígena. É o que aconteceu no programa do SBT, em que os apresentadores fantasiaram-se de índio para comemorar os 500 anos. Enquanto isso, a revista Nova Escola (nΊ 499) sugeria, também em comemoração ao Descobrimento: "Atividades para os caras-pálidas".
Resultado: os índios, um pouco distantes dessas "fantasias", precisam agora também se fantasiar de índio, para que possam ser nomeados como tal e garantam sua existência.
Brasil, acho que tá na hora de mostrar sua outra cara. Onde estão aqueles que continuam resistindo a invasões materiais e simbólicas? Onde está o Brasil real, além (ou aquém) do paraíso?
A manchete da Veja de 30/6/99 "Xingu a vida dos índios que preservam um paraíso ecológico do tamanho da Bélgica" parece saber sobre este paraíso. A comparação entre Xingu e Bélgica, apresentada na manchete, sugere, pelo menos, duas interpretações: o Xingu é do tamanho da Bélgica (equivalência geográfica), o paraíso do Xingu é do tamanho do paraíso da Bélgica (equivalência cultural). Este duplo movimento geográfico-cultural, ao projetar o Xingu para fora dele mesmo e do próprio Brasil, produz, de uma certa forma, o apagamento da história da constituição destas civilizações que, além de distintas, são contraditórias. Apaga, ao mesmo tempo, a história do Brasil indígena.
O sentido de preservação, tal como se apresenta na manchete, trabalha, ainda, o paradigma da imobilidade: paraíso preservado, índio preservado. Não há movimento, não há história. Tudo no seu lugar, como num quadro paradisíaco. Tudo permanece igual, como em sua origem.
Perguntamos então: é possível pensar um lugar e sujeitos sem história? A ação dos exploradores (madeireiros, mineiros, missionários etc.) não têm afetado e mudado a vida destes índios? Por quanto tempo poderão estes povos proteger e se proteger em seu "paraíso"?
Obviamente que um leitor mais precavido contra a perfídia das manchetes seguirá adiante na notícia, procurando obter mais informações, mais fatos que possam lhe dar um panorama, se não crítico, pelo menos mais amplo da situação. Mas, o leitor absorvido pela era da velocidade, pela modernidade e o avanço tecnológico, não buscará muito mais do que manchetes, fotos, gráficos, mapas e tabelas. Bastam esses flashes. Bastam imagens e imagens. Está pronta a leitura. E a manchete, em vez de induzir à leitura, conduz a imagens que bastam por si sós.
A mídia, como farejadora do mercado, tem apresentado, muitas vezes, notícias que, em vez de produzir conhecimento, produzem desconhecimento daquilo que é o Brasil, e de quais são as atuais condições de existência dos povos indígenas brasileiros.
Discutir estas manchetes e imagens, aqui neste espaço, tem para mim não o objetivo de criticar o valor documental ou estético destes textos, mas o de explicitar seus efeitos na produção de um imaginário do Brasil e no Brasil, efeitos esses que podem gerar um certo imobilismo social, mecanismo eficaz de exclusão.
Deste ponto de vista, considero importante problematizar estas imagens (verbais e não-verbais), pelo confronto entre o que foi e o que é ser índio no Brasil hoje. O que representa esta memória histórica no presente? Estaria ela ainda funcionando para produzir a imobilidade social, conservando, pacificamente, as minorias no lugar do excluído?
Acredito que a educação indígena, representada principalmente pelo movimento dos professores indígenas e pelas organizações indígenas, procurando entender a educação como política, pode ter um papel fundamental nesta história. Reivindicar um espaço real na mídia, que não se constitua somente pela factualidade da notícia, mas pelo trabalho contínuo de atualização e historicização deste processo, é um dos caminhos.
A mídia, dentro das aldeias e de suas escolas, se por um lado pode ser vista como caminho para a aculturação, por outro pode ser também entendida como um lugar de reivindicação, de problematização, de crítica. Lugar de transformação. Um material exposto a muitas (re)leituras. Uma forma de se entender como se interpreta o índio e como essa interpretação chega ao resto do Brasil.
Procurando contribuir com a autonomia dos povos e das escolas indígenas, em processo de construção, o objetivo deste texto é muito mais refletir sobre o papel da mídia na democratização do conhecimento sobre e para os povos indígenas, com a participação destes povos, do que fornecer ou defender modelos ou métodos de educação através da mídia. Acredito que a autonomia (relativa) só é conseguida por uma política indígena. Política que implica ética. Implica um gesto de responsabilidade de todos aqueles comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa.
Acho então que devemos seguir caminho nesta trajetória dos 500 anos na "mídia", se queremos ver e entender aonde e como vamos chegar... Haverá ainda terra (à vista)?...

Jornalista pode fazer comercial?
Jornais emagrecem rumo ao tablóide
Os clones
Gazeta Mercantil rejeita modelito do cartel
A volta do Chacrinha
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