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BATE-BOCA
Mme. Xuxa, o tiro
saiu pela culatra
Alberto Dines
A diretoria de Xuxa & Cia não contava com esta: depois do estrondoso sucesso do primeiro aniversário do subproduto Sasha, entrou em cena um ministro que não tem papas na língua dizendo em alto e bom som aquilo que todas as pessoas sensatas e responsáveis estavam dizendo.
A charmosa apresentadora tem todo o direito de fazer as opções pessoais que bem entender. Mas a partir do momento em que escancara sua intimidade e faz propaganda ostensiva dessas opções, deve sujeitar-se ao debate. Sobretudo porque essas opções são badaladas para incrementar o seu negócio.
As críticas do ministro da Saúde José Serra à "produção independente" tem todo cabimento porque Xuxa não é uma starlet de cinema ou telenovela. É apresentadora de um programa de TV que há quase duas décadas faz a cabeça do público infanto-juvenil milhões de meninas e mocinhas que adotaram a apresentadora como modelo e exemplo.
Xuxa não pode abdicar de suas responsabilidades. Xuxa não pode esquecer que sua atividade se exerce no âmbito da TV, uma concessão pública. E o poder concedente é o governo do qual José Serra faz parte.
O ministro lançou ao debate o papel da mídia eletrônica na educação das futuras gerações de cidadãs e Xuxa tem que comportar-se com um mínimo de decência e seriedade neste debate. Se não existisse no Brasil o gravíssimo problema da gravidez adolescente, a interferência de José Serra poderia ser questionada. O problema existe e é gravíssimo.
O que não teve cabimento foi a posição do cronista Luis Fernando Verissimo, que tentou comparar o ministro Serra com o ex-vice-presidente americano Dan Quayle, que reclamou quando a personagem Murphy Brown, encarnada pela atriz Candice Bergen num seriado de TV, optou pelo caminho da mãe-solteira. O seriado era uma ficção aliás uma divertida sátira ao mundo midiático americano que a desastrada entrada do parlapatão Quayle tirou do âmbito do faz-de-conta. Aqui, Xuxa é Xuxa, Sasha é Sasha e a badalação que a apresentadora, sua empresária e a Rede Globo fizeram no aniversário [veja remissão abaixo], e aqui criticadas, devem ser obrigatoriamente discutidas pela sociedade. Verissimo escreveu como um dirigente de partido da oposição, esquecido de que Marta Suplicy, do mesmo partido e um pouco mais credenciada para pronunciar-se na matéria, aprovou as observações de Serra.
A crítica do ministro teve outro mérito: se Xuxa teve o direito de resposta imediato e ao vivo no Jornal Nacional (edição de 10/8/99), fica aberto, pelo menos em tese, um salutar precedente. Esperamos que seja estendido não apenas às celebridades da casa.
Um antigo hábito
Orlando Lemos (*)
Muita gente inclusive o ministro, apesar de bem-intencionado está confundindo a gravidez das adolescentes com a chamada produção independente. São duas coisas totalmente diferentes. Enquanto a gravidez das nossas meninas tem a ver, sim, com desestruturação familiar, que desemboca na falta de informação, a produção independente é fruto de uma visão distorcida do feminismo. Lembro de uma famosa cantora que certa vez disse ter vocação para ser mãe mas não ter vocação para esposa. Essas mulheres não influenciam a juventude, que entra na gravidez não como opção, mas por falta de informação e medo de se abrir com os pais.
No início do ano recebi a informação de que minha filha, que iria completar 15 anos dois meses depois, estava grávida. Ótimo, uma bênção, vamos cuidar. O melhor plano de saúde, alimentação balanceada e carinho, muito carinho. Há quase um mês sou avô de um menino robusto e, espero, bem equilibrado. Pouco tempo depois, uma amiga da minha filha, alguns anos mais velha, apareceu com a mesma notícia. Só que o pai da moça também separado, como eu enfiou a mão no bolso, pegou uma nota de cem reais e entregou à filha para comprar um remédio abortivo.
Foi minha filha, já então avançada na gravidez, quem deu o apoio necessário à outra. Minha filha, como a amiga dela, jamais pensou em produção independente, atitude que tem muito a ver quando a mulher se sente forte e capaz de sustentar uma família, mas dispensa a participação masculina. Mas toda criança tem o direito de ter o nome da mãe e o do pai em sua certidão e de viver ao lado deles e de aprender com ambos. As duas figuras são basilares, e não sou eu quem diz.
Falta às nossas meninas um conhecimento melhor sobre o corpo delas que muitas das mães também desconhecem e sobre o corpo do namorado, amigo, noivo. Falta informação sem hipocrisias a respeito do sexo e das relações sexuais. Porque a libido está aí na cara de todos. E não venham me dizer que danças, gestos, requebros não têm influência sobre menstruação e outros processos. Não podemos esquecer que somos biológicos também e que em outras espécies é o movimento, a dança, a corrida que estimulam a ovulação. Ou os animais saracoteiam antes da cópula apenas para divertir os humanos? Tudo tem função biológica e com nossa raça não vai ser diferente. Quanto mais precocemente se estimularem essas funções, com gestos nas danças modernas que muitas vezes simulam o movimento do ato sexual, tão mais cedo essas nossas meninas vão passar a ovular, ter interesse no sexo e começar a praticá-lo.
Não é culpa de ninguém. A imprensa é uma fotografia da vida, e a vida tem tudo isso. Falta diálogo, família reunida, mesa posta. Mas a história da produção independente vem de outro sentimento. O mundo, os trópicos, a exposição a tudo da qual não se pode fugir fazem o trabalho. Só o que falta é o diálogo, um antigo hábito dos humanos.
(*) Tradutor e jornalista
DIA DA IMPRENSA
Homenagem (imerecida)
ao (antigo) Correio Braziliense
Carlos Alves Müller (*)
O Senado aprovou, em 3 de julho, um projeto do deputado Nelson Marchezan (PSDB-RS) que estabelece, em todo o país, a data de 1Ί de junho de cada ano para as comemorações do Dia da Imprensa. O texto ainda não foi sancionado pelo presidente da República, mas nada indica que será vetado. Assim, o Dia da Imprensa deixará de ser comemorado em 10 de setembro, como ocorre desde que Getúlio Vargas o instituiu. A existência de um Dia da Imprensa pode ser irrelevante. As circunstâncias de sua adoção, entretanto, não devem ser ignoradas.
O 10 de setembro foi adotado porque nesse dia, em 1808, circulou a primeira edição da Gazeta do Rio de Janeiro, precursora do atual Diário Oficial da União. O caráter oficialista da Gazeta e o fato de que antes disso, em 1Ί de junho, Hipólito José da Costa tivesse fundado o Correio Braziliense ou Armazem Literario, em Londres, levaram o deputado Marchezan a propor a mudança de datas, acolhendo sugestão da Associação Riograndense de Imprensa (ARI). A iniciativa foi apoiada pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), presidida por Paulo Cabral de Araújo, presidente do Correio Braziliense, fundado por Chateaubriand e principal jornal de Brasília, DF. Aceitando-se que a efeméride deva ser oficializada, ainda assim a substituição de 10 de setembro por 1Ί de junho não é tão pacífica quanto o calendário e a natureza oficial da Gazeta fariam supor. A polêmica envolve uma questão recorrente na história da imprensa brasileira e na legislação que a rege, atualíssima hoje: a questão da nacionalidade das publicações e de seus editores.
Há uma bibliografia relativamente abundante sobre o Correio Braziliense e seu editor, mas isso não torna menos polêmica a indicação de ambos como patronos da imprensa nacional. Hipólito da Costa Hippolyto Joseph da Costa Pereira Furtado de Mendonça , natural de Colônia do Sacramento (atual território uruguaio), editou o Correio Braziliense de junho de 1808 a dezembro de 1822, sempre em Londres, mesmo depois, portanto, que se tornou possível a instalação de prelos no Brasil. Entre as questões mais controvertidas estão:
1) até que ponto o Correio Braziliense pode ser apontado como "independente" num confronto com a oficialista Gazeta do Rio de Janeiro, já que sua circulação era viabilizada por subsídios de ingleses e portugueses?;
2) o tratamento reverente que dava a Dom João VI;
3) o formato e a periodicidade do Correio Braziliense;
4) e, principalmente, sua oposição à independência do Brasil, como demonstra a passagem abaixo.
Na justificativa de seu projeto, o deputado Marchezan afirma que "o Correio Braziliense pregou incessantemente a independência brasileira", o que é um equívoco, desfeito pelo próprio editor em seus textos. Basta consultá-los no original ou na coletânea feita por Barbosa Lima Sobrinho. Hipólito da Costa não se opôs apenas circunstancialmente a movimentos independentistas. Pelo contrário, suas manifestações contrárias aumentaram em freqüência e contundência à medida que o processo de emancipação avançava.
Quando até D. Pedro já se insurgia contra a autoridade de Lisboa o "Fico" do príncipe regente foi a 9 de janeiro de 1922 Hipólito da Costa seguia se opondo à Independência.
"...Recomendando a união, temos sempre dirigido nossos argumentos aos brazilienses, não ocorrendo sequer a possibilidade que nos portugueses europeus pudessem existir essas idéias de desunião; porque a utilidade deles, na união dos dois países era da primeira evidência. Mas infelizmente achamos que as cousas vão muito contrário, e que é entre os portugueses e alguns brasileiros, e não entre os brazilienses, que se fomenta e se adotam medidas para essa separação, que temos julgado imprudente, por ser intempestiva; e que temos combatido, na suposição de que os portugueses europeus nos ajudariam em nossos esforços, para impedir, ao menos por algum tempo, essa cisão", afirmou na edição de fevereiro de 1822, voltando ao assunto na edição de março: "...se os brazilienses, imitando esse comportamento inconsiderado das Cortes, derem também o passo inconsiderado de se declararem independentes...". [grifos meus]
[O próprio Hipólito da Costa esclarecia: "Chamamos Braziliense, o natural do Brasil; Brasileiro, o portugues europeu ou o estrangeiro que lá vai negociar ou estabelecer-se..."]
Mesmo que se aceite que uma publicação editada em Londres, por uma pessoa nascida onde hoje não é território brasileiro e que opôs-se "obstinadamente" à separação do Brasil (palavras de Carlos Rizzini), seja tomada como marco fundador da imprensa brasileira, ainda assim as características do próprio Correio Braziliense forneceriam motivos formais à argumentação contrária ao projeto do deputado Marchezan. Tais elementos encontram-se no livro de Nelson Werneck Sodré, A história da imprensa no Brasil: "...o Correio era brochura de mais de cem páginas, geralmente 140, de capa azul escuro, mensal, doutrinário muito mais do que informativo, preço muito mais alto... Mensalmente, reunia em suas páginas o estudo das questões mais importantes que afetavam a Inglaterra, Portugal e o Brasil, questões velhas ou novas, umas já postas de há muito, outras emergindo com os acontecimentos. Em tudo o Correio Brasiliense se aproximava do tipo de periodismo que hoje conhecemos como revista doutrinária, e não jornal..."
A questão de fundo no debate é: qual a fonte histórica de inspiração do jornalismo brasileiro? O oficialismo da Gazeta do Rio de Janeiro ou o Correio Braziliense de Hipólito José da Costa, explicitamente contrário à independência do Brasil? Por que não Antônio Isidoro da Fonseca (o primeiro tipógrafo a se instalar e a imprimir no Brasil, em 1746)? Ou João Soares Lisboa (editor do Correio do Rio de Janeiro, que se insurgiu contra uma lei de imprensa baixada por D. Pedro I e propugnou pela convocação de uma constituinte brasileira)? Ou Frei Caneca (Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo), um dos líderes intelectuais da Revolução Pernambucana de 1817 e, posteriormente, da Confederação do Equador? (Frei Caneca morreria fuzilado, tornando-se o primeiro mártir da imprensa brasileira.) Ou Líbero Badaró (médico italiano Giovanni Baptista Libero Badaró, editor do Observador Constitucional, defensor com igual veemência da liberdade e da responsabilidade da imprensa, assassinado em novembro de 1830)? Ou ainda Bento Teixeira, autor da Prosopopéia, o primeiro livro escrito no Brasil e que, por suas convicções, expostas a quem o quisesse ouvir, enfrentou a Inquisição?
(*) Jornalista
500 ANOS
Um polêmico projeto
chamado Brasil
Flávio Rodrigues (*)
O projeto Brasil 500 Anos, sob coordenação da fotógrafa Paula Simas, está sendo consolidado de forma pouco divulgada. Um projeto com essa grandeza, que prevê a edição de um livro contendo fotografias produzidas no dia 22 de abril de 2000 por um grupo de 100 fotógrafos brasileiros, deveria ter sido divulgado em toda a mídia nacional, jornais, rádio e TV.
Não tendo sido assim a divulgação, deixou de fora dezenas de profissionais brasileiros que certamente poderiam figurar do elenco. O Grupo Photosynthesis vem publicamente questionar o encaminhamento dado ao projeto e solicitar informações sobre alguns pontos específicos:
** A origem das verbas (Lei do Incentivo à Cultura) que apóiam financeiramente o projeto não indica a necessidade de divulgação nacional?
** Qual a verba destinada ao projeto? E se do livro produzido advier retorno financeiro, a quem será ele destinado, aos autores ou ao órgão financiador do projeto?
** Qual o cachê destinado a cada participante do projeto?
** Por que a falta de divulgação prévia, quanto às normas do projeto, principalmente no que diz respeito à escolha do corpo de fotógrafos?
** Por que a Federação Nacional dos Jornalistas e as associações representativas dos fotojornalistas não foram avisadas do projeto?
** Por que existem, na já divulgada e finalizada lista de fotógrafos, nomes de pessoas que vivem no exterior, o que acarretará custo extra e desnecessário com transporte e hospedagem, além do que implica indiscutível discriminação a fotógrafos que residem no país e não foram incluídos na lista de seleção?
** Com que critério a organização do projeto selecionará editores e diagramadores que escolherão as fotografias produzidas no dia 22 de abril? Haverá convocação dos interessados nesse trabalho, já que pode haver recompensa financeira?
(*) Fotógrafo, coordenador do site de Fotografia Photosynthesis <www.photosynt.net>
Resposta de Paula Simas
Como colaboração ao Grupo Photosynthesis, gostaria de dizer que o Projeto Brasil 500 Anos é um projeto pessoal. Foi idealizado no final de 1995 e partiu de uma experiência vivida por mim a realização do livro Discovering Ecuador and the Galapagos Islands. O livro foi editado pela Universidade de Missouri (EUA), onde fiz especialização em Fotojornalismo, certamente razão pela qual fui convidada para o projeto em questão, junto com outros 37 fotógrafos de onze países diferentes.
Imaginei que um projeto semelhante no Brasil precisaria de um gancho muito bom. Foi daí que surgiu a idéia de fazer um livro que tivesse como assunto os 500 anos do Brasil, tema que, tinha certeza, iria gerar muito interesse. Estava certa.
O passo seguinte foi submeter o projeto aos critérios da Lei de Incentivo á Cultura, no Ministério da Cultura. Os projetos aprovados nesta lei dão às empresas que os patrocinam o direito de abater do Imposto de Renda devido à Receita Federal a quantia que investirem. Outros projetos culturais importantes do país passam pelo mesmo processo. Ou seja: estar inscrito na lei não quer dizer ser patrocinado pelo governo, ou ter recursos financeiros públicos e muito menos ser um projeto governamental. O governo, nesse caso, apenas criou um mecanismo de incentivar a realização de cultura no país. O alcance da lei termina aí.
O filme Central do Brasil, por exemplo, foi aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura. Captou recursos de diversas empresas, públicas e privadas (Governo do Estado da Bahia, Credicard, Coca-Cola, Telebahia, prefeituras dos municípios do Rio de Janeiro e São Paulo, entre outras).
O autor tem liberdade de convidar a participar do projeto aqueles que julgar mais bem qualificados para sua realização. Foi assim que pudemos, todos, ter a grata satisfação de assistir ao brilhante trabalho de Fernanda Montenegro em Central do Brasil.
Outro exemplo pode ser encontrado no excepcional livro fotográfico Brasil Bom de Bola, também submetido à Lei de Incentivo à Cultura.
Enfim, lamento profundamente que tenham ficado de fora do Projeto Brasil 500 Anos excelentes profissionais da fotografia, como os colegas que fazem parte do Grupo Photosyntesis. Mesmo não contando com a participação de Sebastião Salgado, Mário Cravo Neto, Maureen Bisiliat, Miguel Rio Branco e Cláudio Edinger (que também foram convidados e infelizmente não puderam participar), tenho absoluta certeza de que minha lista de convidados está composta por excelentes profissionais, que vão acrescentar talento e qualidade ao livro que será editado pelo Projeto Brasil 500 Anos.
Tenho certeza de que, além de mim, fotógrafos como por exemplo Ed Viggiani, que também tiveram experiência na captação de recursos pela Lei de Incentivo à Cultura, podem falar sobre como nossa categoria pode se unir e contribuir para que no futuro projetos como esses se multipliquem. Terei o maior prazer em compartilhar minha experiência em questões como organização, construção de orçamentos, tramitação por leis e estabelecimento de prazos para que, cada vez mais, possamos ter disponíveis em livrarias de todo o país livros fotográficos bem feitos. (Paula Simas)
Réplica de F. R.
Embora a mensagem não esclareça muito, principalmente no que concerne às perguntas 2, 3 e 7, agradecemos a colaboração de Paula Simas.
Aproveitamos para ressaltar que não estamos discutindo a qualidade dos profissionais que participarão do projeto. A lista é forte e conta inclusive com a participação de cinco integrantes de Photosynthesis. Nosso questionamento é quanto aos critérios de escolha e divulgação.
De acordo com o publicado na Revista Marketing Cultural (abril/1999), a primeira fase do projeto custou 550 mil reais, obtidos por meio de patrocínio das empresas CSU-CardSystem, Petrobras, Telebrasília e Fuji Foto Filme do Brasil. Faltam ainda outros 650 mil reais que serão usados para editar o livro. (F. R.)
ILUSÕES PERDIDAS
Rubempré,
sonho e pesadelo
Maurelio Menezes (*)
As redações, talvez como reflexo da vida, estão repletas de Lucianos de Rubemprés, o personagem que Balzac criou como que antevendo o jornalismo que se faria mais de um século depois. Quando se entra para um curso de Comunicação e, especificamente, para o de Jornalismo, têm-se o sonho de mudar o mundo. De formar, por meio da opinião, um mundo melhor. Luciano de Rubempré também tinha este sonho ao se mudar para Paris. A prática fez com que ele jogasse fora aquelas ilusões, na verdade perdidas em alguma esquina escura da Cidade-Luz.
Grande parte dos colegas faz isso também. E o mais grave, passa o resto da vida vendendo uma imagem que não é apenas mais um Luciano de Rubempré. Todos os manuais de redação avisam: há um lugar próprio para a opinião. Todos os teóricos, do americano Frazer Bond aos brasileiros Celso Kelly, José Marques de Mello, Cremilda Medina, entre tantos outros, apontam esses lugares, estabelecendo uma divisão sobre o que é informativo e que é opinativo enfim, estabelecendo o que, academicamente, conhecemos como gêneros jornalísticos. E todos, conceitualmente, concordam que o objetivo do jornalismo é a busca do bem comum.
Nos últimos anos, entretanto, tem se estabelecido nas redações o que Pièrre Bourdieu chamou de mentalidade índice de audiência (in Sobre a Televisão, pág. 75), segundo a qual a informação a ser veiculada atenderia o interesse do mercado.
Mas quem define este mercado? Num teste simples aplicado a leitores e a doze editores da Folha de S.Paulo, o resultado, para muitos, surpreendeu. A posição dos leitores na maioria das questões não batia com a dos editores, aqueles mesmos que, regra geral, justificam a veiculação de determinada informação, pelo "clamor do mercado".
Em nome do mercado busca-se o furo. E têm-se cometido alguns absurdos. Uns ficaram famosos. Escola Base, que surgiu da necessidade de um delegado de polícia de aparecer no principal noticiário da TV brasileira, que, como tal, precisava garantir o furo, esquecendo o principio básico segundo o qual o jornalismo é uma moeda. Não por ser objeto de compra e venda, mas por, necessariamente, ter duas faces. Bar Bodega, TAM etc. etc. são capítulos de uma mesma história.
Este mesmo mercado tem feito repórteres, ao sair para uma matéria, se preocuparem não com o que seriam os princípios básicos do jornalismo, mas sim com a possibilidade de conseguir a manchete do dia. Em nome dela vale tudo, até invadir um hospital e seqüestrar um recém-nascido para mostrar que o hospital é inseguro. O mal que isso pode causar aos pais não importa. O mercado não se importa com este aspecto.
Não se importa?
Ao fazer análise das críticas sobre a cobertura do caso Clinton/Monica Levinsky, o então correspondente da Folha em Washington, Carlos Eduardo Lins da Silva, argumentou que a imprensa agiu corretamente. Como argumento citou um dos princípios básicos do jornalismo, que ele chamou de "função primordial": informar corretamente o público a respeito de assuntos relevantes para a sociedade, valendo-se de métodos eticamente aceitáveis (Folha, 23/2/99).
A própria sociedade americana, entretanto, questionou esta relevância em pesquisas de opinião publica realizadas nos Estados Unidos. Para Lins da Silva, o público estava sendo cínico porque ao mesmo tempo em que criticava o espaço dedicado ao "sexgate" fazia aumentar substancialmente a audiência das emissoras de TV e a tiragem dos jornais desde que o caso ganhou manchetes.
Os vários exemplos de desvio dos fundamentos básicos do jornalismo nos levam a uma constatação: ao compactuar com esses desvios, o jornalista, regra geral, atende outros interesses, estes absolutamente diversos daquele que deveriam nortear a conduta do profissional.
A mentalidade índice-de-audiência desvia o jornalismo de seu objetivo básico; e os critérios atuais de seleção de notícias prejudicam a geração de uma cultura política que promova o equilíbrio social do grupo.
(*) Professor de Telejornalismo da UFMT; trabalhou 20 anos em TV (Bandeirantes, Manchete, SBT, TVE, Globo); ex-diretor do Cidinha Livre
BOXE
Popó e o jornalismo
Victor Gentilli
O boxe profissional brasileiro volta a ter um campeão mundial o baiano Popó anos depois de Eder Jofre. O campeão atingiu seu objetivo ao deixar seu adversário em coma. Só foi liberado do hospital no dia seguinte. Uma atividade cujo objetivo é destruir o adversário não pode ser considerada esporte.
O Observatório já tratou disso [veja remissão abaixo]. Na Espanha, o El País decidiu não noticiar as atividades do boxe profissional porque não o considera esporte. Seria muito pensar neste assunto no Brasil? Temos coisas mais sérias.

Xuxa e o capitalismo
Mães-crianças
Glamou e miséria no país onde tudo pode
Xuxa volta a atacar, Sasha faz um ano
Boxe não devia ser considerado esporte
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