Domésticas e jornalistas
Ancelmo Gois (*), ESTRÉIA
Numa escala de zero a dez, o jornalista recebeu nota 7,6 em pesquisa feita pelo Ipesp que procurou medir o conceito que o brasileiro tem em relação a algumas categorias profissionais.
Confesso que fiquei surpreso. Esperava uma nota menor. O Radar já tinha publicado, em 1994, uma pesquisa do Vox Populi mostrando que 33% dos brasileiros "confiavam sempre" nas empregadas domésticas, contra apenas 28% dos que depositavam sua confiança nas mãos dos jornalistas. (Nada contra, naturalmente, as 4,6 milhões de domésticas brasileiras - uma profissão quase residual nos países civilizados.)
As causas de um certo desamor do brasileiro pela nossa profissão são muito debatidas. Eu prefiro encontrar uma virtude nessa rejeição. É bom que o leitor exercite sempre sua desconfiança sobre tudo o que lê. É uma maneira de não ser uma maria-vai-com-as-outras e de agir por conta própria.
(*) Responsável pela coluna Radar, de Veja
Médicos e jornalistas à míngua de ética
Paulo Lotufo, de Boston
1. O ministro Sergio Motta interna-se no Hospital Albert Einstein sob cuidados do Dr. Bernardino Tranchesi Jr. Pede sigilo sobre o seu estado de saúde, sendo atendido.
2. Comunicado do seu assessor de imprensa, na quarta ou na quinta-feira, afirma que ele se encontra com problemas pulmonares.
3. Sexta feira, o Jornal Nacional (vi na Agência Estado) anuncia que três fontes do Hospital A. Einstein informaram que ele está com câncer.
4. No sábado, a equipe, agora acrescida de dois pneumologistas (professores da USP) informa que ele se encontra com alveolite.
5. No domingo, o Estadão informa que médicos que analisaram o laudo disseram que o caso é mais grave.
6. A equipe faz um novo boletim, tão especifico que só pode ser entendido por médicos, onde fica claro que o senhor Sergio Motta está com alveolite.
As questões são as seguintes:
1. Três fontes do Hospital Albert Einstein romperam com o sigilo médico ou profissional (se estende a todos os funcionários). O Hospital deveria investigar e se, identificados, profissionais e técnicos deveriam ter seus nomes levados ao Conselho respectivo, para processo disciplinar. Se pertencentes ao escalão administrativo, o Hospital deveria tomar as medidas que considerasse adequada, como, por exemplo, demissão por justa causa.
2. Médicos analisam o boletim para a imprensa. Ora, qualquer medico sabe que após examinar por mais de uma hora um paciente e discutir com outros colegas, sobram mais dúvidas do que respostas. A principal dúvida é sobre o prognóstico. Quem dá palpite em cima de boletim para imprensa é pouco sério ou foi pego desprevenido no elevador.
3. O laudo é claro (não precisava ser), um dia talvez o ministro tenha câncer, mas hoje o problema dele é outro. Ou seja, as fontes são furadas ou os três médicos são fraudadores (hipótese que afasto por principio).
Minhas conclusões:
1. Persiste um "jogo pouco limpo" entre médicos e imprensa. Maliciosamente, diria: "Me informa daí, que te promovo daqui" .
2. O número de "chutadores" continua grande. Mais vale mostrar-se bem informado, do que estar bem informado. Se isto ocorre numa situação de pouco ganho, imagino em outras situações, envolvendo dinheiro....
3. Ética é uma questão ainda estranha a setores no Brasil como são o beisebol, o Thanksgiving, o sol-da-meia-noite. Alguém já viu, sabe-se que existe, mas não existe no país.
4. De quem é a culpa: imprensa ou médicos? Ovo ou a galinha? Verifiquei na versão eletrônica que Veja não noticiou e que a Folha repetiu somente o laudo.
5. O caso Tancredo justificou a fúria jornalística porque, em primeiro lugar, a equipe médica mentiu (diverticulite e tumor benigno são coisas bem diferentes), e, em segundo lugar, o destino do país estava em jogo.
6. Sergio Motta gosta dos holofotes e microfones, mas tem o direito de tratar das suas doenças em paz.
7. Médicos não têm segurança em internar seus pacientes em hospitais como o A. Einstein.