Victor Gentilli
Mauro Malin




XUXA S. A.

DIVULGAÇÃO

Sem paparazzi, mídia
continua o voyeurismo

A.D.


O único jornalão que recusou o caminho da idiotização na segunda- feira, 8/12, foi o Estadão. Os demais embarcaram entusiasmados para celebrar a gravidez do século anunciada pelo Faustão no domingo. O jornal cobriu o evento comercial promovido pela trinca Xuxa Meneghel, Marlene Mattos e Luciano Szafir, publicou-o no caderno de variedades mas recusou exibi-lo na primeira página.

A nova direção do jornal parece querer demarcar-se do jornalismo marqueteiro e vem adotando algumas decisões de princípio, uma delas esta: jornal de qualidade não imita a imprensa popular (a outra relaciona-se com a nobilitação da primeira página dominical, recusando a apelação da concorrência).

A Folha, que volta a investir ferozmente contra o grupo Globo, quando se trata de nivelar por baixo não pensa duas vezes: badalou o feito do grupo adversário com o mesmo empenho com que o fez quando Michael Jackson arrendou a barriga da enfermeira.

A mesma Folha, através da sua revista dominical e com chamada na primeira página (14/12), produziu a suíte mais infeliz deste surto: matéria com meia dúzia de perfeitos idiotas que se consideram "reprodutores", abandonados pelas parceiras. Conseguiu o que parecia impossível: reproduzir a mais estúpida suíte depois da morte de Diana Spencer (na capa da mesma revista). Isto é o que se chama "qualidade média". Mais uma destas invenções e teremos consagrado o Padrão Folha de Qualidade.

Como se trata de uma produção da Casa, quem abriu o profundo debate intelectual que se seguiu à revelação de Xuxa foi O Globo.



Lady Xuxa

M.M.


Veja (17/12/97), que conseguiu publicar um perfil de Roberto Mangabeira Unger sem apresentar suas idéias, sobre Lady Xuxa pontificou: "Existem bons motivos para que o Brasil inteiro passe os próximos meses de olho na barriga de Xuxa".

Logo ocorreu, ao cérebro que produziu a frase, a dúvida perturbadora: existem?

E tome explicação. Quase um tratado socioantropológico de botequim: "Além de ser uma celebridade em todas as camadas sociais e faixas etárias, a apresentadora demonstra o dom de transformar assuntos de foro íntimo em temas de interesse público." Etc.

Finda a digressão que pretende justificar toda a baboseira subseqüente, pedem-se desculpas para lascar mais uma barbaridade: "Com o perdão da comparação, no final das contas Xuxa está para os brasileiros assim como a princesa Diana esteve para os ingleses. [Desejamos melhor sorte a Xuxa, em todo caso.] E isso não pode ser subestimado como fenômeno de massa."

Yes, indeed. Vamos parar por aqui. E sem essa de perdão.



Mundo Xuxa

Mario Vitor Santos (*)


"Carta do leitor Bernhard Kraus, pároco da paróquia São Bonifácio (São Paulo, SP): ‘Que a Xuxa vai ter nenê não é nenhum milagre ou coisa do outro mundo. Ao contrário do que possa parecer, desejo-lhe uma ótima gestação, que curta bastante esse período, e que a Nossa Senhora do Bom Parto lhe acompanhe e lhe dê uma boa hora. Agora, fazer de um fato destes meia página de reportagem e ainda na primeira página não lhe parece exagerado?’

O protesto do leitor resume vários outros enviados à Folha para criticar o destaque dado pelo jornal à recém-anunciada gravidez da apresentadora Xuxa. Algumas dessas manifestações críticas foram publicadas no Painel do Leitor, sem comentários. A notícia da gravidez saiu na segunda-feira passada. A primeira página da Folha estampava um grande quadro na parte superior. ‘Xuxa anuncia na TV que está grávida" era o título, acompanhado de uma foto da apresentadora e do namorado Luciano Szafir no Domingão do Faustão exibido no dia anterior.

O destaque obedece a uma tendência já antiga no sentido de acompanhar com atenção tudo o que acontece na televisão, mais ainda na TV Globo -especialmente aos domingos. A premissa é que os brasileiros despendem grande parte do seu tempo assistindo televisão, o que é ainda mais verdade nos fins-de-semana. A Folha não poderia ignorar tamanha presença da TV na vida do público.

O argumento é questionável, pois nada assegura que as pessoas só se interessam pelo que sabem e vivem. As edições de segunda-feira da Folha sempre ofereceram oportunidade para que tivessem destaque reportagens mais aprofundadas do que as das edições dos outros dias.

Nas segundas, valendo-se do vácuo noticioso dos fins-de-semana, o jornal se permitia destacar temas especiais e arriscar enfoques alternativos.

Era o momento de provocar encontros acidentais de leitores com notícias que, embora relevantes, em geral não teriam condições de vencer a competição com as manchetes quase obrigatórias (os anúncios, os pacotes, as declarações bombásticas) dos outros dias úteis, por assim dizer.

O que provoca agora reações dos leitores não é o abandono da publicação de reportagens especiais das segundas-feiras; é o destaque desmedido - e até dominante - que o jornal dá à fofoca; é o endosso e a rendição passiva ao jogo mercadológico das celebridades, à novelização do noticiário.

Tanto é assim que, ao longo de todas as edições da semana, a continuou acompanhando - mais discretamente, é verdade - os desdobramentos do anúncio de Xuxa. Os pais do namorado criticaram o fato de ele ser apresentado à maneira de um objeto, usado apenas como fornecedor dos meios para que Xuxa possa ter um filho.

Avaliações críticas e distanciadas foram raridade no cômputo final. Quase nada sobre a influência da atitude de Xuxa sobre o público, especialmente sobre milhões de crianças e jovens que a seguem.

Apenas notícias sobre números de audiência, disputa por mercado e fofoquinhas. No máximo, uma avaliação das estratégias mutantes (mas nem tanto) da TV Globo para cativar o telespectador dominical. Será que, a esta altura, a mídia ainda tem condição de exercer a fundo uma vigilância crítica sobre ela própria?"

Reproduzido da coluna do Ombudsman, Folha de S. Paulo, 14/12/97.



O filho da Xuxa

Carlos Heitor Cony (*)


"Rio de Janeiro - Estamos condenados a passar nove meses preocupados com o filho (ou filha) que Xuxa vai ter. A moça merece ser feliz e, segundo consta, um rebento trará felicidade a ela e à plebe que a consagrou como uma das deusas de nosso tempo.

O diabo é que eu já tenho problemas demais e ser obrigado a ter mais um é dose talvez imerecida. Ainda que não queira, a mídia me empurrará esse assunto pela goela. Outro dia, a manchete da primeira página de um jornal aqui do Rio, justo no dia em que mexiam no meu Imposto de Renda, informava que ‘o carioca prefere a praia da Barra’.

Não era uma notícia chutada. Pelo contrário, lá estavam os números, o universo pesquisado, a divisão por sexo, idade, profissão e renda, tudo nos conformes. Cada vez mais a mídia procura informar correta e honestamente, evitando opiniões pessoais e sacramentando a vontade ou o gosto da maioria. Por 79% contra 12% mais 9% de indecisos ou que não sabem, chegamos à verdade (seja ela qual for) que durante 8.000 anos filósofos e teólogos perseguem sem resultado.

Evidente que vamos torcer numa corrente pra frente a fim de que tudo corra bem para a moça. Antigamente, havia um tal do teste do sapo, era um dos exames para se saber se a gravidez corria bem ou mal. Desconfio que a ciência já dispõe de recursos melhores para isso. Mas nunca se deve brincar com essas coisas e o melhor mesmo é esperar pelos nove meses protocolares para podermos relaxar.

Até lá, teremos um Natal, um réveillon, um Carnaval e uma Copa do Mundo. O ano que vem será denso para nossas cores, enquanto o filho da Xuxa não nascer seremos obrigados a consumi-lo antecipadamente. Peso, tamanho, cor dos olhos, alimentação, brotoejas - tudo isso será prioridade nacional.

De minha parte, só ficarei tranquilo quando Dona Neuma da Mangueira e Dona Zica do Cartola garantirem pelos jornais que tudo está bem."

(*) Reproduzido da Folha, 10/12/97. Copyright Folha de S. Paulo.



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