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DOSSIÊ CHANTAGEM
A ética aplicada ou
as desventuras da coerência
Vera Silva (*)

omecei a ler o OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, de 5/12/98, pelos magníficos artigos sobre chantagem, papel da imprensa etc., quando se instalou um grande desconforto em mim, exigindo que eu buscasse sua origem.
Encontrei dois pontos que parecem estar sendo confundidos com um só nas opiniões sobre o tema.
O primeiro aponta para a questão do ser que é bom ou do ser que é mau. Ser bom tem sido tratado como uma qualidade inata: ou se nasce com ele no código do DNA ou nada feito. É como a cor dos olhos, se não é a que a gente quer, o jeito é usar uma lente de contato. Na sociedade cristã-ocidental, classificamos as pessoas como boas ou más. Às boas, se credita o bem e, às más, o mal.
O segundo ponto é a questão do agir bem ou agir mal. Estamos trocando os papéis: bom e bem são duas coisas diferentes, não somente na gramática, também nos efeitos.
Vejamos: bom é um adjetivo que qualifica tanto as coisas quanto as ações de que gostamos; bem é um substantivo que atribui às ações um caráter moral, embora também possa ser usado como advérbio de modo, pronome e até adjetivo.
Portanto, bom-mau são vocábulos que expressam a satisfação imediata que temos com as coisas, permitindo que façamos a nossa lista de preferências. Bem-mal são vocábulos que expressam nossa avaliação sobre um contexto, que analisam as nossas experiências e emitem sobre elas um juízo de valor. Assim, nossa língua nos proporciona um conjunto de vocábulos para que possamos agir com ética. O que parece estar acontecendo é que, ao deixar de usar a ética, perdemos esta dimensão e passamos a confundir bom com bem. (Não é por acaso que desaprendemos a usar mau e mal.)
Denunciar passa a ser bom (contrário de mau), porque, quando mostro que o outro é mau, estou mostrando que sou bom (usado como bem). Num contexto de perda de identidade social, isto se torna um referencial de identidade: nós somos seres diferentes dos outros, quando denunciarmos os escândalos (erros). Quando fazemos esta confusão, o bem, que adviria de se extirpar o mal (as más ações), deixa de ter importância, porque se torna refém do orgulho.
Punir o erro passa a ser uma coisa má (contrário de bom), porque, se não sou capaz de perdoar o pecador, me torno mau, sem virtude, como o malfeitor - isto não é cristão. Por tornar a investigação desnecessária, possibilita o "denuncismo". Transformar tudo em pizza se torna um outro referencial de identidade. Quando isto ocorre, mostrar o mal passa a ser mais importante do que se buscar a virtude.
Para analisar a questão do dossiê e das fitas, é necessário distinguir o ser bom ou mau de agir bem ou mal. Montar um dossiê falso e fazer escuta telefônica é não agir bem, tentar manipular um leilão é não agir bem, divulgar fitas ou dados sem checá-los é não agir bem etc. O problema é que, neste caso, temos um conjunto de pessoas que agiram mal, mas não podemos classificá-las como más (que praticam o mal). Somente a Justiça poderia lhes classificar a ação como dolosa (com o intuito de praticar o mal). Até o momento, são culpadas por agir mal.
A imprensa precisa denunciar as ações erradas (agir mal), mas não pode fazê-lo com ações erradas. Não pode julgar as pessoas que as executam (julgar que são más - malfeitoras): isto compete à Justiça. Por isso, precisa investigar todas as informações. No caso da Escola Base, por exemplo, a imprensa julgou como maus os donos da escola, em vez de investigar se, realmente, eles praticaram uma ação errada, antes da publicação. Não houve sensibilidade para entender que, ao denunciar uma ação definida como hedionda, sem comprovação promoveria o julgamento do ser, e não da ação praticada pelo ser.
Há, portanto, uma gradação de crimes (ações erradas) que classifica o ser. Algumas ações, quando praticadas, se configuram apenas como ações erradas, mas não atingem a avaliação do ser; outras, se praticadas, pressupõem que o ser seja mau. Ao acusar alguém, sem provas, de uma ação deste tipo, cometemos um crime de difícil reparação, pois o ser (do outro) é interno, não está visível para mim, portanto o outro não pode me provar que é bom, que é virtuoso.
Voltamos, neste ponto, ao motivo da censura ao artigo de Alberto Dines pela Folha de S. Paulo: a necessidade de se tomar o histórico das ações políticas como currículo, no caso de homens e mulheres públicos; e de se preservar, enquanto privada, a vida pessoal. Isto vale também para os homens e mulheres não-públicos. ¨
(*) Psicóloga
Casa Verde é aqui, e agora
Alfredo Leão (*)

achado de Assis, magnânimo: "Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras." O Alienista. Conflitos. O grande mestre adorava conflitos, d’alma. Eis-me aqui vivendo esta dura e doce expressão. As lágrimas do presente em contraponto às auroras do futuro. Dois insanos pontos maniqueístas, dois complementos freudianos. E Machadão faz de Bacamarte um louco, déspota, na antítese perfeita à sociedade, à política praticada na sua Itaguaí. Eis-me aqui vivendo esta dura e doce expressão. Permanecer jornalista nas entranhas, fazer o que o amigo José Roberto de Alencar adjetivou nas frases: "Tem gente que não está disposta a passar pelo mundo em brancas nuvens e em plácido repouso adormecer. Você é desses.", ou apenas driblar as regras da sanidade, como Machado: "Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades..."
Quedo-me a Bacamarte. Aborrece-me a postura leviana do jornalismo brasileiro desde quando entendo-me por gente. Da submissão à ousadia, uma mera edição, a passada à merda de gatos. Assemelha-se em muito, verifique, à Câmara de Vereadores da cidade da Casa Verde. Os grampos estão à baila. Mas isto vem de longe. Fiquemos apenas nas apurações de dois casos retumbantes, memoráveis: o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, hoje um homem honrado segundo o Judiciário, e aí fico a me amargurar em pensamentos vis: se um poder ilibado averba, o homem é inocente (ou não é?), por que não apurar onde estão as falhas da mídia que, dizem, derrubou-o?, e a expulsão da quadrilha de anões do Congresso, onde estão esses ilustres deputados? se foram pilhados pondo a mão no dinheiro do povo, por que não estão atrás das grades?
Os grandes jornais agem de maneira, no mínimo, insana. Colocam no ventilador. De repente o sujeito vira besta-fera, com a tatuagem 666. O bicho pega, povo mobilizado, lágrimas aos olhos ouvindo os congressistas de mãos nos peitos e seios respectivos entoarem o hino nacional. De repente não é mais nada disto e fica tudo por isto mesmo. Pessoas sérias são caluniadas, cafajestes também, da mesma maneira, sem ir a fundo, as investigações são sempre de superfície. Parece, todos sabem. Vai respingar. Aí sim, baixou o Bacamarte. Não está na hora de questionarmos de maneira mais séria por que toda a imprensa brasileira assemelha-se no comportamento? Apontamos a mediocridade, tão à mostra, facilmente detectada, mas não falamos dos jabás, instituição podre dentro do jornalismo mundial, não só tupiniquim. Alguns colegas estão ricos sem poder comprovar a origem dos bens. Começamos a ver mais claramente o nepotismo, ninguém abre o bico. Os favorecimentos, indicações e pressupostos permeiam a realidade da profissão. Os sindicatos não justificam sequer o nome que carregam. A atuação política transforma-os, ou o caso do Antônio Britto é exceção?
Fico pensando em pô-los, como fez Machado de Assis com o Dr. Simão Bacamarte, todos eles, na Casa Verde. Dividindo-os, como em Itaguaí, os dementes e não-dementes, invertendo-os nas internações, ora um, ora outro. O castigo aos leitores: respeitarem o dito à boca miúda: que não respeitam a imprensa, não acreditam no publicado, sem direito à reclamação, para não parar no hospício machadiano. A superfície não é resultado dos reclamos, é uma prática de caráter. Não chegar ao âmago é preservar os próprios empregos, com eles os jabás, a corrupção desenfreada dos partícipes do sistema capitalista onírico no qual vivemos, as vantagens na importação de papel, os jeitinhos nos aeroportos, a regulamentação do maluco projeto de Lei de Imprensa, a submissão à força pela qual todos passamos. Embalsamaram a alma do jornalismo com o despotismo inerente aos que se acham Bacamartes, a maioria.
Conclamar todos a invadir a Casa Verde, uma insurreição civil em pleno final de século, é impossível, principalmente pelas diferenças geográficas, topográficas e demográficas dos dois universos. Itajaí jamais seria o Brasil, a Câmara de Vereadores nada tem a ver com o Congresso Nacional, mas de doutores Bacamartes o país está cheio. E salve a Dona Evarista, que como nós só suspeita da loucura do marido, mas acha-o um gênio. Dr. Simão Bacamarte, hoje seria apenas SB.
(*) Jornalista
Psicanálise & política
Isak Bezjman
Onde quer que um homem sonhe, profetize
Ou poetize, outro se ergue para interpretar.
P. Ricoeur

lberto Dines, em sua obra O papel do jornal, escreve que os profetas judeus foram capazes de profetizar por terem sido mais jornalistas do que adivinhos; foram pessoas com experiência de vida e visão de mundo em suas épocas históricas que lhes dava condições de antever qual o caminho que o povo judeu trilhava e quais as possíveis conseqüências.
O mesmo acontece com um psicoterapeuta experiente. Ele deve exercer forte autovigilância para não passar por adivinho para seu paciente quando interpreta. A prática faz com que ele se familiarize com diversos caminhos de vida. Porém, o importante é o paciente se dar conta por si mesmo.
Eis aí dois papéis diferenciados sobre o fato de antever uma situação. O jornalista deve torná-la explícita e o psicoterapeuta deve guardá-la para si.
A Bíblia Hebraica nos ajuda a esclarecer por que os profetas foram mais jornalistas que adivinhos. A maior preocupação do principal personagem bíblico, D’us, é com a idolatria. Em toda primeira parte da Bíblia Hebraica - a Torá (conhecimento) - D’us é bondoso quando os ídolos estão ausentes e fica uma fera com o surgimento de qualquer forma de idolatria (aqui é preciso ressaltar que a Bíblia Hebraica jamais se preocupou com o paganismo); é que o ídolo traz a deidade em si mesmo. Já na segunda parte da Bíblia Hebraica, Neviim (profetas), D’us fala através deles. O discurso dos profetas é parecido: mostra aos filhos de Israel o desvio deles para a idolatria e aponta o caminho certo, o do D’us Único, Jaweh.
Um desses jornalistas bíblicos ficou famoso por seus discursos terem sido interpretados como lamentos: Jeremias, com o nome de Lamentações de Jeremias. O povo da Judéia não quis escutar os lamentos de seus jornalistas, que percebiam o desvio, o anunciavam e lamentavam as perspectivas de futuro, e persistiu na idolatria. Sobreveio então a grande queda com a destruição de Jerusalém e do Templo.
Atualmente, também temos jornalistas que sabem das coisas, só que preferem ser descritivos: no Brasil vive-se o momento histórico da mídia descritiva. O país viveu um instante importante para a cidadania, as eleições, e a mídia permitiu que se processassem sem um debate político. Prevaleceu a ideologia da banca. Cobrar ética dos responsáveis pela nacionalidade não é se lamentar, é não querer ver o circo pegar fogo e querer, sim, colaborar para a solução do grande conflito nacional que num país democrático tem que ser resolvido, sim, pela Política com P maiúsculo.
A psicanálise, segundo Freud, está integrada por três condições fundamentais: um procedimento de investigação; um método terapêutico; e um corpo ou conjunto de hipóteses e teorias. Para Josef Bleger, é óbvio que estes três aspectos são estreitamente solidários e de nenhuma maneira independentes. Para ele, terapia e pesquisa nunca se realizam sem teoria, porém a teoria, por sua vez, reflete em grande parte o caráter da terapia e da investigação das quais surge, pelo menos em parte. É importante que os leitores se dêem conta de que as três variáveis acima são dinâmicas, interagindo dialeticamente à medida que a técnica, a pesquisa e a teoria se desenvolvem.
Mas o que é a psicanálise? É uma forma de psicologia cujo campo de ação é o estudo psicológico do ser humano, sua conduta em todas suas atividades e relações.
Foi bem aí que aconteceu o grande equívoco. Essa idéia de amplitude da psicologia estimulou a cristalização de uma idéia distorcida da psicanálise. Ela passou a ser vista por muitos como sendo uma visão de mundo ou uma Weltanschauung, quando na realidade é uma ciência, e não uma ideologia.
Num congresso psicanalítico, um participante propôs que todo chefe de Executivo nacional tivesse à cabeceira um psicanalista, com quem trataria dos graves problemas a enfrentar na administração do país. Foi apartado com a seguinte pergunta de um colega: e quem vai tratar do psicanalista?
A União Soviética não sucumbiu por causa de sua infra-estrutura, que era semelhante à dos Estados Unidos, mas sim porque os americanos têm, na sua superestrutura, um elemento que os soviéticos ignoraram: o mercado. Resultou que o povo da União Soviética teve de criar seu mercado próprio, todo ele um mercado negro. O país tornou-se uma negociata só e uma podridão só. O mercado americano busca homogeneizar as classes sociais, apesar de mais de 30% dos americanos ainda viverem abaixo da linha da pobreza. Todavia é preciso saber que um império não desmorona só porque os pés são de barro. Quando a cabeça que está acima dos pés de barro é de barro também, a queda se dá por desorientação. É que o mercado não deve ser transformado em um ídolo. Acima do mercado deve estar o ser humano.
A ética judaica no judaísmo rabínico se inspira como sempre no grande mar do Talmud, na ética dos nossos mestres (Pirkei Avot). Diz o Talmud que quando um cidadão de uma comunidade é seqüestrado, sendo exigido resgate para libertá-lo, a comunidade não deve e não pode pagar o resgate ainda que o seqüestrado corra risco de vida, pois isto pode tornar a comunidade refém dos bandidos, e esse dinheiro poderá fazer falta à comunidade. Entretanto, familiares e amigos do seqüestrado não estão impedidos de pagar o resgate, se para tanto tiverem condições financeiras.
Este conceito ético sobre a importância do "coletivo social" é a base ética do judaísmo e é por isso também que Israel serve de exemplo no que diz respeito à globalização. Lá o pobre e o rico são responsáveis pela cidadania e a segurança do país, e não o mercado ou a banca; o mercado e a banca são simplesmente o mercado e a banca, e nada mais do que o mercado e a banca; o ser humano, esse sim, é um ser humano, e por isso ele está acima do mercado. Um país com ausência de Tzedaká (distribuição de renda com justiça) é um país muito triste.
Freud adorava fumar grandes charutos. Certo dia foi interpelado por um senhor que sorrindo maliciosamente lhe disse: o senhor está fumando um charuto (um pênis simbólico). Freud respondeu com outro sorriso malicioso: às vezes um charuto é só um charuto.
O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA não é somente um jornal online. É também uma escola de jornalismo, e livre. Dificilmente vários textos publicados pelo OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA teriam guarida em jornais da mídia escrita. Nossa mídia é composta por jornalistas brilhantes trabalhando para jornais cuja linha editorial é puramente descritiva; e em sua maioria conservadora; eles acabam sendo descritivos também. Existem alguns poucos que se aventuram a emitir opinião; mas são poucos.
Precisamos de mais jornalistas emitindo opiniões. A neutralidade descritiva também pode ser antiética. O que aconteceu nas últimas eleições para a Presidência da República não deve acontecer mais. Infelizmente, a mídia não se abriu para o debate e nem o favoreceu ou estimulou. O debate das idéias é fundamental. No Rio Grande do Sul, no segundo turno, os dois candidatos tiveram a chance de debater seus programas à larga. Isso só beneficiará o estado.
A ética é a coisa mais preciosa que o ser humano possui; é sua própria vida. Ética é respeito pelo ser humano. A Cia. Carris de Ônibus de Porto Alegre, empresa de propriedade do município, usa o vidro traseiro de seus veículos para vender produtos. Vende de tudo. Um dos produtos que está sendo vendido se chama "Respeito".
Os técnicos em marketing são sabedores de que o marketing social não tem a capacidade de promover mudanças sociais tanto quanto a educação. Mas por que não acreditar na utopia?
(*) Médico psiquiatra e jornalista
TELEVISÃO
TV que te quero ver...
Débora Garcia (*)

unca saíram da agenda de preocupações de toda sorte de especialistas os efeitos negativos que a TV acarretaria sobre seu público, sobretudo aqueles telespectadores com menor poder aquisitivo, menos acesso aos bens culturais e, como poderíamos supor numa análise apressada, com menos condições de decodificar as mensagens televisivas, selecionando aquelas que de fato seriam as mais adequadas e - segundo nossa visão - "sadias".
Mas especialmente agora, este se tornou um tema candente.
Mais maléficos seriam, neste sentido, os efeitos da televisão sobre as crianças pobres, ainda mais "vulneráveis" a seus "poderes nefastos", com pouca chance de compreensão e depuração das informações veiculadas neste sedutor veículo de comunicação.
Reforçando a compreensão de que as classes populares encontram dificuldades em optar por uma programação de maior qualidade na TV, altos índices de audiência em torno de programas classificados como "populares", com forte apelo em cenas dramáticas, violentas ou mesmo bizarras, têm sido freqüentes.
No entanto, contrariando a crença de muitos teóricos da comunicação e da educação, recente estudo feito com 4.358 estudantes das classes A, B e C de São Paulo revela que justamente os jovens com menor poder aquisitivo são os que mais reclamam por programas educativos, em detrimento daqueles que ridicularizam seus participantes, ou não oferecem conteúdo edificante. A pesquisa foi realizada durante o mês de maio pela empresa CPM Market Research, ouvindo estudantes de 12 escolas particulares e quatro escolas públicas da cidade.
Segundo a pesquisa, 69% dos entrevistados preferem que a TV exiba mais programas educativos, sendo que a demanda por esse tipo de programação cresce à medida que o poder aquisitivo do entrevistado diminui.
O que esses dados significam? Como pode, por exemplo, o jovem pobre assistir a programas de qualidade duvidosa e, ao mesmo tempo, pedir por uma oferta televisiva de conteúdo educativo? Essa foi uma das questões que balizaram pesquisa para dissertação de Mestrado que investigou como crianças pobres cariocas entendem a TV, defendida neste final de ano no Departamento de Educação da Universidade Federal Fluminense. Partimos, então, da idéia de que a criança (e assim também o jovem) faz parte de uma comunidade maior, onde encontra as ferramentas necessárias para construir sua identidade, sua visão de mundo, seus valores e crenças. Todo esse processo acontece nos espaços e vivências cotidianas, com a família, no convívio com o grupo social, na escola e também diante da TV. São essas, portanto, as estruturas básicas que permitirão à criança (ou ao jovem) interpretar o que acontece à sua volta, atribuindo significado e relevância aos acontecimentos sociais.
As crianças com as quais tive a oportunidade e o prazer de conversar são moradoras de favelas da Zona Sul carioca, estudam em escola pública, são filhas de pais com baixíssimo poder aquisitivo e estudam no primeiro segmento do ensino fundamental. Nos nossos encontros ficou a certeza de que TV, para elas, é educação e entretenimento. É informação com propósito, informação que necessariamente precisa ajudar o cidadão pobre a melhorar de vida e a entender o mundo que o cerca.
Recorrentemente afirmaram que não gostam de ver na TV cenas de violência e de sexo. Por viverem um dia-a-dia tenso, povoado por ameaças reais de vida e pela incerteza do amanhã, é compreensível que não lhes agrade depararem-se novamente com tais cenas na tela da TV. Isso diz respeito também às cenas de sexo, pois, em seus depoimentos aparecem esperanças intensas de um futuro mais doce, tranqüilo e também mais romântico.
Coincidindo com os jovens de classe C da pesquisa da CPM Market Research, essas crianças esperam que a TV lhes traga uma certa antecipação de futuro, quando afirmam que este meio de comunicação de massa precisa dizer o que está para acontecer, predizendo o "duvidoso" e permitindo-lhes, de alguma forma, organizar seu cotidiano em função das poucas certezas de que dispõem.
Espantoso também é a forte referência que essas crianças encontram em sua família. Esta funciona como balizadora de atitudes, de comportamentos e de escolhas de vida. Em muitos de seus relatos, ficou patente o respeito e a admiração com que falam do esforço de seus familiares em lhes garantir a comida de cada dia e a possibilidade de acesso à escola.
Por tudo isso, acredito mesmo que esse entorno social é capaz de nortear as escolhas televisivas infantis. E assim o faz. Elas pedem por mais novelas "caseiras", por mais informação útil, por mais prognósticos de futuro e, em contrapartida, por menos violência gratuita e desnecessária.
Mesmo contrariando os índices de audiência, arrisco afirmar que as crianças que participaram desta pesquisa, assim como os jovens de São Paulo já citados - tal como afirmam - querem uma TV menos apelativa, com mais informação útil, com mais compromisso com a ética e com a qualidade. O acesso deste grupo social à Internet, a cursos extracurriculares, a viagens, ao teatro, ao cinema é consideravelmente menor que o de grupos abastados. Para estes, sim, a TV pode ser mais uma possibilidade real de acesso ao saber, além da escola. Para os mais pobres, o tempo urge.
Arrisco também dizer que é possível associar programação atraente, divertida e saborosa à informação, ao conhecimento, a valores... Ou estaríamos vivendo uma profunda crise criativa e emburrecedora que não nos estaria permitindo romper com a lógica de mercado que acredita que "menos é mais"? Respondendo a essa provocação estariam aí os recentes canais a cabo Futura e TV Senac, além das já tradicionais TV Cultura e TV Educativa.
Seja pelo compromisso político de falar com, para e sobre as classes populares, uma vez que assim conhecemos suas lutas, dilemas, fragilidades e conquistas ou simplesmente porque nos indignamos com a tônica da programação de baixa qualidade oferecida pela TV aberta brasileira, é preciso que engrossemos o coro daqueles que, a despeito de suas origens sociais ou conta bancária, clamam por uma TV engajada e ética.
(*) Mestra em Educação pela Universidade Federal Fluminense, autora da dissertação Muito além das Chiquititas: um estudo sobre representações sociais infantis acerca da televisão/1998
A Rede Globo e o psicopata (*)
Renato Sabbatini

programa Fantástico levado ao ar pela Rede Globo de Televisão no domingo 22 de novembro marcou um novo recorde de baixaria disfarçada de ciência na televisão brasileira. Seguindo uma orientação sensacionalista, misturada com esoterismo barato e uma total quebra das normas éticas de uma mídia que se diz responsável (mas que cada vez mais cede aos apelos ibopeanos ditados por essa aberração que se chama "Ratinho"), a matéria entrevistou Francisco Pereira, o confesso "Maníaco do Parque", que assassinou com requintes de crueldade e aberração psíquica um número estimado de 12 jovens mulheres em São Paulo.
Os equívocos e violações da ética começam pelo fato de terem entrevistado um réu já avaliado pelos psiquiatras como sendo "semi-imputável", designação classicamente reservada para os sociopatas acusados de crimes violentos. É uma classificação bastante estranha, cientifica e juridicamente, pois diz que o paciente examinado é louco mas também não é. Em outras palavras, ele pode ter cometido seus crimes sob influência da doença mental, mas estava plenamente consciente da natureza e da conseqüência de seus atos, e portanto é parcialmente responsável por eles. A decisão do júri é baseada em grande parte no testemunho desses especialistas, pois se o réu é insano, ele não pode ser condenado à prisão comum; recebe uma pena indeterminada e fica confinado no manicômio judiciário até que novos exames o considerem "curado" e não representando mais nenhuma ameaça à sociedade. Se ele não é insano, fica sujeito ao código penal, e poderá ser condenado a uma sucessão de penas máximas em presídio comum. Onde ficará Francisco?
O programa da Globo foi simplesmente obsceno. Colocou um astrólogo dizendo obviedades sobre o maníaco, e que impressionaram pela sua precisão e coincidências com a história do rapaz. Lógico: a não ser que o tal astrólogo tivesse vivido no fundo de uma caverna isolada da sociedade nos últimos seis meses, é impossível que ele não soubesse dados e detalhes sobre a personalidade de Francisco, divulgadas à náusea pela imprensa brasileira. Assim até eu acerto, sem saber nada de astrologia.... É patético e vergonhoso (e o pior que tem muita gente que acreditou). O programa também colocou uma "sensitiva" ou médium (que deveria ter desconfiado DE alguma coisa ao ser levada ao Parque do Estado para "sentir" influências malignas ali presentes) e que colocou toda a culpa dos crimes em uma poderosa "entidade" que teria habitado o corpo do coitadinho do maníaco. Nesse passo, ele será absolvido de tudo, com certeza.
Fazendo extenso uso de manipulações dos fatos, através de superposição de imagens e de seqüências de "deixas" verbais, o repórter (que caiu verticalmente no meu conceito depois desse trabalho) tenta dar a impressão que há uma extrema coincidência entre o que o entrevistado fala (espíritos malignos, etc.) e o que os astrologistas e a sensitiva declararam. Como se isso fosse prova de alguma coisa!. É um dos piores exemplos que eu já vi na TV brasileira de manipulação de fatos para comprovar uma hipótese (sensacionalista) que está somente na cabeça do jornalista, e com finalidades mais do que evidentes. A parte científica da reportagem, que poderia ser muito boa, fica por conta de breves intervenções por um psiquiatra. A armadilha montada para enganar o telespectador ficou completa.
Já tive a oportunidade de escrever três vezes no Correio Popular sobre as motivações, a mente e o cérebro dos sociopatas (que é a designação mais correta para os psicopatas. "Maníaco", então, é um termo totalmente sem sentido neste contexto, embora seja muito usado).
Vocês podem ler meus artigos na Internet <www.epub.org.br/correio/medicina>, bem como um artigo científico mais extenso intitulado O cérebro do psicopata, publicado no último número da revista eletrônica da Unicamp, Cérebro & Mente <www.epub.org.br/cm>. Ali vocês vão ver que o sociopata é extremamente ardiloso em querer colocar a culpa de seus crimes em outras pessoas, nas vítimas, e em supostas influências malignas. No mundo todo, as autoridades judiciais não deixam que seus argumentos cheguem em viva voz até a opinião pública e as entrevistas com eles são proibidas (quem será que deixou, no caso da Globo?), ainda mais quando eles ainda não foram julgados.
O sociopata tem orgulho dos crimes que ele cometeu, pois essa desordem de personalidade se caracteriza por um desprezo total e completo em relação à vida humana, frieza e falta de culpa em relação aos seus crimes anti-sociais, um narcisismo patológico e um orgulho de ser um "predador". O sociopata violento não tem cura conhecida, e tem que ser trancafiado pelo resto da vida na cadeia, pois ao sair terá exatamente a mesma compulsão de realizar seus crimes.
O que a Globo fez foi triplamente condenável. Ela deu voz aos delírios do sociopata, arrumou justificativas esotéricas para sua personalidade criminosa e negou aos telespectadores o acesso às evidências científicas sérias a respeito das bases neurobiológicas e psicológicas que estão por trás dos seus crimes aberrantes. E o pior: tudo isso transmitido em pleno horário nobre, com milhões de crianças assistindo a cenas e a depoimentos barbarizantes.
A sociedade precisa protestar, se levantar na condenação desse tipo de coisa, que transforma a TV, um meio excelente para debater e educar, em um veículo nocivo e repulsivo.
(*) Copyright Correio Popular de Campinas
BOOM DA INFORMAÇÃO
Reflexões acerca da
mídia e da imprensa
Fábio Metzger
(Nota: no presente artigo, devo esclarecer a distinção que faço entre os conceitos de mídia e imprensa. O conceito de mídia abrange apenas a mídia eletrônica. Ao que se define como mídia impressa cabe o conceito de imprensa).
Por que, para alguns, a mídia e a imprensa estariam perdendo o seu conteúdo crítico? A resposta talvez ainda não esteja pronta. Mas valem algumas colocações:
Não estariam os meios de comunicação fadados à Grande Revolução das Informações ? A resposta, claro, é positiva. Desta forma, a informação está penetrando no senso comum de nossa sociedade contemporânea como água que cai da cachoeira, constante e intensa. A conseqüência disto é que, não apenas as mídias, como também os veículos de imprensa, meios que sobrevivem da informação, perdem o seu foco original e são induzidos à perda de discernimento crítico. A informação é tanta, de infinitas fontes, que a idéia conjuntural acaba que por perder o seu sentido. Assim, a crítica está dando lugar para a promoção de pessoas e instituições. Desta forma, os veículos de comunicação estão apenas se adaptando a uma nova realidade social.
Em uma outra abordagem, os meios de comunicação apenas refletiriam a realidade de nossa sociedade contemporânea: um mundo bizarro, onde aspectos corriqueiros são o foco de observação. Um mundo dominado pelos anseios primeiros do cidadão dito livre: a ambição. Na verdade, os nossos meios de comunicação são uma resposta institucional de nossas sociedades. Pois apesar de, cada vez mais, buscar o lucro imediato, tais meios ainda possuem o caráter institucional que os fez originar-se. Assim, nesse caso, a conclusão é a de que a razão de existência e sobrevivência dos meios de comunicação está nas atitudes próprias das sociedades.
Pois é assim que as sociedades se encontram: no limiar do narcisismo de cada mortal. Pouco importa se a coesão social está fragilizada. O importante é vencer as longas batalhas que o mundo oferece a todos, para que se ganhe a guerra contra a miséria. Azar de quem sucumbiu à tragédia, à derrota, à exclusão, à marginalização. No fundo, os meios de comunicação têm um profundo interesse em saber como estes últimos terminaram ou estão terminando os seus ocasos. Mas tal interesse só tem base em um importante aspecto: mexer com os brios de leitores, ouvintes, telespectadores e também, por que não, os internautas. O sentimento de revolta deixa a todos a sensação de que nada pode ser realizado. Em tese, este seria o primeiro passo para que a cidadania possa ser exercida. E é aqui que os meios de comunicação ou falham ou simplesmente ainda não conseguiram se aperfeiçoar: a revolta do dia seguinte, da outra semana e do mês adiante está em um novo fato. Ou em um novo factóide. O factóide, este sim, um eterno sinal de esperança que, na verdade, não se concretizará, por não estar apoiado em elementos da realidade.
Em um outro enfoque, a mídia e a imprensa apenas se guiariam conforme interesses comerciais. Mas por que esta guinada no meio do caminho, se antes elas eram um baluarte da democracia ? Não, elas ainda são os mais importantes canais da democracia. Mas como já foi sustentado anteriormente, elas sobrevivem baseadas nas realidades sociais contemporâneas. Vivemos em mundo onde o industrialismo tradicional está sucumbindo perante a sociedade das realidades virtuais e de entretenimento. E quem poderia exercer melhor estas novas opções? Pois é claro, a mídia e a imprensa seriam candidatas mais do que potenciais.
A conclusão desta análise é a de que os meios de comunicação, sendo ainda concebidos como instituições, teriam se transformado em verdadeiras máquinas de lucrar. Mas para onde vão os membros-cidadãos desses meios? Sim, eles sempre continuarão a exercer a sua capacidade de articulação e terão seu espaço. Mas estarão inibidos pelas circunstâncias que os meios de comunicação estarão vivendo.
A verdade é a de que a Revolução da Informação tem uma conseqüência que não está sendo levada em consideração. Com a instantânea transmissão de dados e fatos pelo mundo afora, as pessoas enxergam, a cada novo dia, uma nova realidade social. E as empresas, que visam o lucro, precisam de respostas rápidas para sobreviverem a diversos tipos de realidades. Por isso, elas só procuram as melhores cabeças, os maiores talentos. As instituições, por sua vez, como são compostas e atendem por gente de todas as origens sociais e culturais, apenas refletem a média de pensamento das sociedades. Por isso, suas transformações são sempre arduamente discutidas, e mesmo após as mudanças necessárias, muitos dos atores do debate institucional se queixam e brigam por impedir certas mudanças. O resultado disso é a perda da eficiência e até, em alguns casos, da legitimidade das instituições. E os meios de comunicação estão justamente inseridos entre o conceito de empresa e o de instituição, ou seja, vivem uma permanente ‘crise de identidade’. É o eterno ‘o que você vai ser quando crescer’ dito para o adolescente prestes a completar a maioridade.
Ao que parece, os meios de comunicação já estão bem definidos em relação ao seu destino. Ou ainda haverá tempo de se reverter tal situação ?
O fato é que os meios de comunicação conseguiram se moldar rapidamente a esta nova realidade, ao contrário das demais instituições, até porque o objeto com o qual eles lidam é justamente um dos maiores propulsores do mundo contemporâneo: a informação.
LEI DE IMPRENSA
Uma lei até suave
Jairo Faria Mendes

á muitos anos (pelo menos uns dez) fala-se da necessidade de uma nova Lei de Imprensa. Comenta-se que a Lei de Imprensa, por ter sido promulgada em 1967, traz o autoritarismo do regime militar. Outros dizem que ela precisa ser somente atualizada. Há até quem diga que não é necessária uma Lei de Imprensa, "afinal os Estados Unidos e boa parte dos países desenvolvidos não possuem este tipo de legislação".
No ano retrasado, a discussão da Lei de Imprensa passou a ser um dos principais temas dos jornais. Isso porque o Congresso Nacional queria aprovar uma nova lei que previa para os abusos de imprensa duras penas de prisão aos jornalistas e pesadas indenizações, que poderiam "quebrar" muitos veículos de comunicação. Os parlamentares faziam isso em represália a uma onda de denúncias contra o Congresso.
Os meios de comunicação, naquele momento, uniram-se e a nova lei não foi aprovada. Mais um projeto, de tantos outros sobre a Lei de Imprensa, foi abandonado. Só os muito otimistas podem acreditar que a lei seja revista em curto espaço de tempo. No entanto, em vários pontos ela precisa ser modificada.
Em dois pontos (pelo menos) a Lei de Imprensa apresenta marcas de autoritarismo. O principal foi pela extinção do Tribunal do Júri para o julgamento dos crimes de imprensa.
Desde a criação do Júri no Brasil, em 1822, ele foi instituído para o julgamento dos abusos de liberdade de expressão. Só em 1923 o governo Arthur Bernardes (uma das administrações mais "rígidas" da história do país) retirou do Júri esta incumbência. Em 1934, para julgar crimes de imprensa, Getúlio Vargas criou o Júri misto, com a presença de quatro jurados e um juiz. No entanto, a nossa Lei de Imprensa, em 1967, tirou esta prerrogativa do Júri.
A outra marca de autoritarismo é a "exceção da verdade" (art. 20 – "(...) não se admite a prova da verdade contra o Presidente da República, o Presidente do Senado Nacional, o Presidente da Câmara dos Deputados, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Chefes de Estado ou de governo estrangeiro, ou seus representantes diplomáticos").
Com isso, o jornalista processado por calúnia por estas autoridades é impedido de provar suas acusações, ou seja, é condenado (sendo culpado ou inocente).
Há queixa de que a atual Lei de Imprensa é muito "dura" com os jornalistas, o que é absurdo. Apesar de ter sido promulgada pelos governos militares, ela é muito suave nas penas de prisão, multas e indenizações. Além disso, os crimes de imprensa prescrevem em dois anos, o que dificulta muito a punição dos abusos de expressão.
A atual lei limita em 20 salários mínimos as indenizações por crimes de imprensa (mesmo assim em situações especiais), o que é irrisório em se tratando das superpotências da Comunicação. Ao contrário, nos Estados Unidos, no caso Richard Sprague X Philadelfia Inquirer, a justiça fixou uma indenização de 34 milhões de dólares.
No Brasil, os tribunais fixaram algumas indenizações por crimes de imprensa bem superiores ao previsto na lei. Um exemplo foi a Veja, que teve que pagar US$ 100 mil a João Batista de Andrade pela matéria "Embratrem da alegria".
A nova Lei de Imprensa certamente vai modificar os limites das indenizações. Além disso, devem acabar as penas de prisão por abusos de imprensa. Elas devem ser substituídas pela prestação de serviços à sociedade, por multas e pela suspensão temporária (ou definitiva) do exercício profissional.
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