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LIÇÕES DO CASO COVAS
O show tem que parar

Conceição Lemes

1985. Morre o presidente Tancredo Neves, vítima de complicações de suposta diverticulite curável mas também do segredo imposto à doença. A obstinada tentativa de esconder da opinião pública qualquer fragilidade levou-o a protelar o tratamento inadiável. E o que talvez se resolvesse com cirurgia, complicou-se. No embrulho, as informações: omissões, mentiras, até fotografia montada, como se tudo estivesse bem. Já com infecção generalizada, posou para foto oficial num sofá com a equipe médica, tendo tubos e cateteres ardilosamente ocultados.

2001. Morre o governador de São Paulo, Mário Covas, que sempre compartilhou com a sociedade seus problemas de saúde, inclusive o câncer de bexiga, que o vitimou. Ao lutar em praça pública contra a doença e exigir que a população fosse informada com transparência de toda a evolução, Covas deu – e deixou – três inestimáveis contribuições:

1ª) Aos políticos, mostrando que, como homens públicos, são pacientes com direitos diferentes dos cidadãos em geral: não podem manter sob sigilo seus diagnósticos e tratamentos. Seus problemas de saúde dizem respeito também aos eleitores na medida em que poderão afetar-lhes a vida.

2ª) À população, alertando sobre os riscos do cigarro sobre a saúde. Também trazendo o câncer para o debate nacional, estimulando a prevenção e o diagnóstico precoce. Paradoxalmente, apesar de ter vitimado Covas, o câncer não é mais sinônimo de morte como há 20 anos ou 30 anos: cerca de 60% dos tumores malignos em geral são curáveis. Detectados no começo, os índices de cura dos de mama e de próstata, por exemplo, beiram os 90%.

3ª) Aos profissionais de saúde, dando uma aula prática de bioética: a vontade do paciente é soberana, deve prevalecer. Pressentindo o desenlace na última internação, optou pela dignidade até o fim: em vez da solitária UTI, que já não mais lhe acrescentaria vida, preferiu qualidade de vida no leito do quarto, com o carinho dos que amava.

Inegavelmente, um paradigma, tendo no próprio Covas o artífice, com sua determinação pela verdade. A equipe médica e a mídia, os meios. Resultado: informações confiáveis sobre a saúde do político Mário Covas substituiram a falta de credibilidade do caso do doutor Tancredo.

O lado ruim: a dose errada. Municiada por membros da equipe médica, a imprensa, em certos momentos, invadiu o bom senso e a intimidade do cidadão-paciente. O glorioso Incor de São Paulo por vezes virou um palco; e as entrevistas individuais ou coletivas, quase diárias, um show. Certos médicos, que deveriam atuar mais na coxia como contra-regras, tomaram a cena e se transformaram em showmen. Afinal, como espetáculo, precisavam-se continuamente de novas "atrações" para garantir espaços nobres na mídia, mesmo que à custa de brincadeiras de gosto duvidoso, indiscrições e violações éticas.

Nem segredo profissional resiste

Seguramente o deslize mais imperdoável foi a quebra do sigilo médico.

Exemplo público: Covas descobriu a sua metástase na meninge pela imprensa e não pelos seus médicos. Os exames foram feitos no Incor numa sexta-feira, 12 de janeiro de 2001. No dia 13, a coluna de Ricardo Boechat já trazia o diagnóstico na nota "O quadro Covas" [veja Aspas, abaixo]. Os resultados, com detalhamento que incluía próximas etapas do tratamento, foram repassados para O Globo no mesmo dia 12, provavelmente por alguém da equipe médica. Ainda que o jornalista tivesse se comprometido a não publicar, o diagnóstico nunca poderia ser revelado sem Covas saber primeiro.

Exemplo subterrâneo: informações confidenciais sobre o quadro e prognóstico do paciente passadas sistematicamente a certos veículos que não as divulgaram. Uma das derradeiras confidências a um desses veículos: "Ele não dura mais três semanas".

Inegavelmente, uma "inovação" que nenhum Código de Ética Médica contempla, mas que a sedução pela mídia e pelo poder conseguiu: a quebra de sigilo médico em off, uma moeda de troca futura por mais fama.

Ordem de Covas não é cumprida

"A mídia foi extremamente inconveniente", desanca o oncologista Ricardo Brentani. "Sobre o comportamento dos médicos no caso, não falo." O cirurgião-gastroenterologista Raul Cutait observa: "O homem público tem que compartilhar seus problemas de saúde, mas não o passo-a-passo, a intimidade, que, além de não acrescentarem nada, podem ser ruins para o paciente. Esse limite tem que ser definido pelo doente com o seu médico".

Os doutores Brentani e Cutait integraram a equipe que assistia Covas e foram ouvidos pelo Observatório, no início de fevereiro. Época em que o OI tentou também entrevistar os demais médicos sobre a atuação da mídia e dos médicos no caso Covas. A saber:

** Dr. David Uip – infectologista, escolhido pela família Covas e pelo Incor-SP como porta-voz da equipe;

** Dr. José Antonio Ramires – diretor-geral do Incor-SP, onde Covas fez os exames cujos resultados foram passados primeiro para a imprensa;

** Dr. Sami Arap – urologista, fez a cirurgia para extirpar o câncer de bexiga.

Porém, quase um mês e meio depois de muitas tentativas, com trégua de 25 de fevereiro a 11 de março, nenhum deles respondeu. Provavelmente uma postura que Covas reprovaria, até porque a sua exemplar determinação era: falar de forma transparente sobre o caso.

Ccompromisso com o paciente

Está escrito no artigo 102 do Código de Ética Médica, do Conselho Federal de Medicina:

É vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por justa causa, dever legal ou autorização expressa do paciente.

Covas autorizou. Mas certamente não abriu mão do seu direito de, como paciente, ser o primeiro a ser informado, muito menos que informações reservadas virassem moeda de troca com alguns veículos da imprensa. Condutas que, se quisermos aprender com o caso Covas, dão lições sobre como lidar de forma mais equilibrada com situações semelhantes no futuro. A nós, jornalistas, as seguintes:

** Intimidades do doente, não. O que acrescenta publicarmos sobre o xixi, o cocô e outras coisas privadas? Será que faríamos isso com um parente famoso ou o dono do jornal? Respeito e dignidade não fazem mal a ninguém.

** Os médicos que quebraram o sigilo profissional em off não são dignos de confiança. Nas redações, circulam os nomes dos suspeitos. Mas não nos cabe aqui divulgar, pois há o risco de alguma injustiça. O importante é que os jornalistas que fizeram a cobertura do caso Covas – e provavelmente farão outras – sabem quem são. Mas precisam saber também que os autores do off, mesmo que sejam seus amigos, traíram a confiança de Covas e violaram o sagrado dever do segredo profissional. Médico bom não é só técnico competente; tem que ser eticamente humano.

Por isso, o caso Covas também dá lições futuras aos médicos, que nessas horas, sob a pressão da mídia, caminham sobre o fio da navalha. As principais:

** Entrevistas coletivas, só as indispensáveis. A freqüência exagerada banaliza esse instrumento de divulgação e predispõe os médicos a escorregões. Boletins diários, com eventuais esclarecimentos do diretor clínico da instituição, cumprem plenamente o papel de garantir a informação à sociedade.

** Desde que autorizados, divulgar só o que o bom senso determina. Na dúvida, este exercício ajuda: substituir o paciente famoso por um parente querido, tentando pensar o quanto sofreria se descobrisse pela imprensa algo terrível que desconhecia sobre a sua saúde.

** Comissões de ética dos hospitais precisam refletir sobre o assunto, buscando definir estratégias futuras. Isso vale para todos, principalmente para os hospitais universitários, que, afinal, têm o papel de formar os médicos do futuro.

Em outras palavras: o nosso compromisso de jornalistas é com a informação ética. O do médico é única e exclusivamente com o seu paciente, famoso ou anônimo. Hospital não é palco, doença não é espetáculo midiático nem paciente, escada. O show tem que parar.

(*) Jornalista especializada em saúde, ganhadora dos prêmios Esso de Informação Científica, José Reis de Jornalismo, Sheila Cortopassi de Direitos Humanos na área de Comunicação, o FOS, Abril, entre outros.



ASPAS
Ricardo Boechat

"O quadro Covas", copyright O Globo, 13/1/2001

"A luta contra o câncer que Mário Covas enfrenta há dois anos tornou-se desigual. Mesmo admitindo a piora de seu estado de saúde, as informações médicas de ontem mantiveram-se no limite da cautela com que o assunto deve ser abordado em público, diante do drama vivido pelo paciente e por sua família.

Entre os clínicos que assistem o governador, entretanto, os últimos exames confirmaram graves suspeitas.

Covas está com células de câncer no cérebro e também no abdômen.

A análise de seu liquor encefálico identificou células cancerosas, ao mesmo tempo em que uma tomografia mapeou alterações cerebrais compatíveis com o tumor que ele desenvolvera na bexiga há dois anos.

A pressão resultante desse fenômeno é a origem da dor de cabeça que Covas sentiu esta semana e da confusão mental que o acometeu na quarta-feira. Para tentar interromper tal processo, Covas poderá vir a ser medicado com radioterapia e quimioterapia no sistema nervoso central.

Em sua primeira cirurgia para extirpar um tumor, realizada em fins de 1998, Covas deveria ter feito seis ciclos de quimioterapia, mas o tratamento foi interrompido na terceira, pois ele apresentou forte arritmia cardíaca.

Se a nova série quimioterápica vier a acontecer, sua duração mínima será de 15 dias, tempo em que o governador terá que permanecer afastado de suas funções, sob internação hospitalar."



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