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JORNAL DE DEBATES
A TRIBUNA Diogo Cavalcanti (*) Açougues também existem em celulose. Vendem carne fresca, com sangue ou não, ao gosto. Qualidade não é a preocupação, pois o que importa é o preço, e a peça já é sua. Quanto ao tipo de carne, pouca variação. Para se falar a verdade, existe apenas um, o presunto. Por ser em papel, não se encontra em qualquer lugar. No Paraná, um conhecido é a Tribuna. Sensacionalismo não é novidade. Já existia no século 19 com o New York Sun, fundado em setembro de 1833 por Benjamin Day, que ostentava o lema "Brilha para todos". Noticiava fatos locais, com descrições chocantes de ocorrências policiais transformadas em crônicas fabricadas por um jornalista contratado o qual acrescentava um tom humorístico às histórias. Pelo preço de um tostão, quase todos tinham acesso ao jornal. Day apelava para um público ainda não atingido pelos jornais da época – as classes recém-alfabetizadas. Para tanto, redefiniu a notícia de acordo com gostos, interesses e capacidade de leitura de seus leitores. Na Tribuna do Paraná reúnem-se todos os característicos de um veículo essencialmente sensacionalista. Começando pelo preço, cinqüenta centavos, que o populariza entre as camadas pobres da sociedade e o torna acessível aos curiosos pegos de improviso diante de uma banca com menos de um real na carteira. Gírias imperam no padrão lingüístico do jornal. Em 2 de setembro, por exemplo, o assassino da esposa é o "Maluco" do título, e a chamada justifica, "Capeta manda, desemprego faz". Os verbos cativam a atenção. Entre eles a conjugação preferida é a dos seletos fuzilar, espancar, executar, atirar, crivar, estrangular e trucidar. Fotos e títulos são a atração principal da Tribuna. Nos títulos não faltam as exclamações para entreter o público, como em 22 de agosto, no esportivo "Urubu bica mas não leva – Coxa vira e faz a festa!", e no menos alegre, "Taxista executado!". Para quem tem fome O morto tem a primazia nas imagens. A "trucidada" de 2 de setembro aparece de relance numa maca, com sangue seco no rosto. No dia 11 do mesmo mês, o destaque é para o "corpo crivado de balas" figurando em um solo qualquer. Na capa de 27 de setembro, o "espancado, estrangulado e queimado" choca a sensibilidade dos brutos, atestando a veracidade da chamada, "Assassino não quis perder viagem". O preço, o vocabulário mínimo do veículo e os corpos horripilantes das capas servem ao aparentemente único objetivo do jornal – ser vendido. A relevância informativa é praticamente nula, senão quando detalha as partidas dos principais times do estado, ou quando descreve o andamento de escândalos judiciais – algo que por si só também não constitui informação de significativa utilidade. Alimentando o terrorismo psicológico do público-alvo e apimentando os desafios e resultados das últimas partidas de futebol, o jornal vale-se da paixão pelo esporte, da curiosidade e do medo. Trabalha-se com os pontos fracos dos leitores, pois o que importa é que eles comprem e leiam os anúncios. Não se enxerga um vínculo com a informação ou com a sociedade, apenas a sobrevivência do veículo. E o quadro mais trágico permanece oculto a quase todos. Quem aparece nos títulos chulos, nas imagens sangrentas das capas é o mesmo que toma em suas mãos o jornal, alguém das classes baixas. Ele é o próprio "estrangulado", ou o "trucidado" da história. É ele quem aparece manchado de vermelho nas capas. É ele quem compra o jornal. A opressão social, fabricante de pobreza e violência, escapa incólume da opinião pública. Em vez de reivindicar seus direitos, o trabalhador, mesmo desempregado, defende o sistema, embora lamente sua situação. Não busca mudanças. O "faminto" alcança os cinqüenta centavos e os entrega ao dono da banca. Este lhe entrega o jornal que é apanhado e lido com avidez. Canibalismo puro. (*) Aluno do 2.º ano de Jornalismo do Unasp | ||